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Especial Dia das Bruxas: Prólogo do Livro I Tramas do General

Bem, nesse Dia das Bruxas, eu e o Lu resolvemos presentear vocês com o Prólogo do nosso 1o Livro, é, aquele que sempre alguma coisa para revisar e nunca sai, o Tramas do General.  O capítulo ficará completo aqui até dia 02 de novembro, dependendo dos comentários, podemos deixar por mais tempo ou alguma parte aqui. Aproveitem a leitura!


*atualizado: deixamos 1/5 do prólogo permanente aqui =) 

 Toda vizinhança tem um boato peculiar. O vizinho de cima trai a esposa nas escadas com a adolescente do 3º andar. A senhorinha do 807 é viúva não apenas de um marido, mas de cinco e sabe-se lá quais foram as causas de morte de cada um deles, se é que você me entende... O bebê do 11º chora muito, todo dia, o tempo inteiro, não é estranho? Você já ouviu a mãe gritar durante a noite para ele calar a boca? Ora, já a ouvi gritar que não queria que ele nascesse!
Quando se é uma criança, esses boatos ganham uma outra dimensão. Sabe a senhorinha do 807? Ela interfonou reclamando que nosso cão fazia muito barulho e uma semana depois ele morreu. Bruxa. Acho que ela é uma bruxa!
Ainda me lembro do temor que sentia daqueles velhos carrancudos do edifício ou dos barulhos esquisitos que ouvia no corredor quando ia colocar o saco de lixo na lixeira do andar. Algum dos moleques jurou ter visto um fantasma pelo olho mágico e todos rimos, zoamos com a cara dele o chamando de mentiroso, mas nem preciso falar que depois disso o caminho da lixeira para a porta do apartamento passou a ser percorrido mais rápido. E sem olhar para atrás. Durante o dia relembrando o que eu ouvira, eu acreditava mesmo que não era nada, talvez fosse o elevador ou alguém brincando nas escadas, porém, à noite, bastava ouvir aqueles sons que eu me arrepiava, e eu corria, o coração batendo rápido até fechar a porta atrás de mim. Pareciam passos, é, pareciam passadas felinas, mas nunca avistei gato algum por ali. Não conhecia direito os vizinhos do meu andar na época para saber se eles tinham algum bicho sorrateiro que poderia passear por ali , não havia crianças naquele andar para trocar alguma ideia. Se de dia eu encontrava as justificativas lógicas, à noite, no escuro do quarto, nada conseguia me confortar e eu rolava na cama, o pensamento era dominado pelas possíveis criaturas que passeavam pelo meu corredor às minhas costas.
Naturalmente me tornei insone. Não interessava o quanto eu estudava ou brincava durante o dia, o cansaço não abatia a sensação de que algo muito esquisito estava assombrando meu andar. Quando entrei de férias, busquei ignorar essa sensação jogando videogame na madrugada, o objetivo de zerar o jogo aquietava minha mente imaginativa e eu conseguia capotar na cama sem temer a escuridão. Até que... Era mais uma dessas noites jogando na sala, desesperado para completar uma fase antes que minha mãe acordasse para ir para o trabalho. Eu não conseguiria dormir sem terminar aquele maldito jogo! Eu havia passado a semana inteira tentando zerá-lo e sempre cometia algum erro estúpido que me atrasava. Já dava para ouvir o som dos ônibus voltando a circular nas ruas, podia perceber que a temperatura da sala não estava mais tão fria e muito menos tão escura. Faltava pouco para eu ser pego no flagra então desliguei o videogame e me preparava para pegar uma água na cozinha quando ouvi uma pancada forte na parede. O som foi alto o suficiente para parecer que o armário do vizinho havia despencado. Bum, bum. De novo, dessa vez mais fraco, contudo, veio acompanhado de um gemido, aquele som dolorido me assustou muito mais do que o baque. Coloquei o ouvido na parede. No silêncio da madruga, era possível ouvir as vozes abafadas dos vizinhos, mas sempre eram conversas, eram risadas, nada se comparava com a voz áspera que eu ouvia, muito menos com os gemidos de dor.
Corri até a porta e fui ao corredor. As lâmpadas do corredor piscavam violentamente, deixando-me mais na penumbra do que na luz durante o curto percurso até o apartamento ao lado. É, eu não pensei, porra, uma criança de 8 anos não pensa. Não faço ideia do que eu achava que estava acontecendo, só sei que eu fui vagarosamente até a porta do vizinho. Estava entreaberta e alguém lá dentro murmurava alguma coisa, algumas palavras que eu nunca entendi. E os gemidos... Outra pessoa respondia àquelas palavras com terríveis sons de dor. Ele repetiu aquela sequência esquisita com uma voz severa mais de uma vez antes que eu tivesse coragem de me aproximar e tentar enxergar pela fresta iluminada o que estava acontecendo, foi quando o homem silenciou e eu ouvi outro baque. E passos duros contra o chão, alguém começara a correr e meu medo me fez recuar ao ouvir as passadas se aproximando.
A porta se abriu em um supetão e o Sol que iluminava o apartamento substituiu a penumbra do corredor. Eu tentei me afastar mais, porém tropecei em meus próprios pés e não consegui fazer mais nada além de observar a criatura que saiu do apartamento do vizinho. Ela era uma massa de sangue, pele escurecida e fios negros. Inegável que o odor de carne queimada vinha das enormes feridas que cobriam todo seu corpo. Não é um demônio, não é um espírito, pensei, é simplesmente alguém muito, muito, ferido. Uma mulher. A fina camisola azul denunciava seus contornos femininos e que provavelmente foi pega de surpresa em seu sono.
O modo como ela se mexia me fez cagar de medo mais do que sua carne dilacerada. As pernas se moviam como se estivesse acorrentada, cada passada vagarosa parecia exigir um esforço tremendo de seus músculos. Uma de suas mãos ainda se apoiava no arco da porta quando ela ergueu o rosto em minha direção. Entre as longas mechas que cobriam seu rosto ferido seus olhos acinzentados me encararam e eu subitamente senti minha respiração falhar. Uma ardência percorreu minhas narinas, minha garganta e alcançou os pulmões alastrando-se por todo meu peito. Percebi que eu inspirava, porém o ar não me alimentava, a cada movimento de meu diafragma podia sentir que eu sufocava mais e mais. Ela emitiu um som gutural, abrindo a boca não para falar, mas para deixar o oxigênio entrar desesperadamente em seus próprios pulmões. Naquele momento percebi que era ela quem roubava meu ar. Eu podia ler em seus olhos perversos que ela roubaria minha vida, mesmo a quase um metro de distância ela conseguiria sugar todo o ar que precisasse. Repentinamente, senti suas unhas rasgando o meu pé, não vi quando, como, ela se aproximou tão rápido e agarrou minhas pernas. Observei sua expressão feroz enquanto se inclinava vagarosamente sobre meu calcanhar murmurando algo. Sinto muito? Foi isso o que ela disse? Meu pavor foi substituído por ódio. Eu a odiei e odiava minha própria estupidez por ter acreditado que ela era uma mulher frágil precisando de ajuda. Quem a atacara deveria saber muito bem que tipo de coisa monstruosa ela era e que deveria morrer.
Estremeci com a proximidade de seus lábios gélidos em meu calcanhar esquerdo. Não havia calor algum em seu hálito ou em seu toque. Inesperadamente suas mãos se afrouxaram e seu corpo tombou sobre o piso do corredor sendo puxado brutalmente para o interior do apartamento rapidamente com alguma força invisível.
Respirei. Nem por dois minutos ela me manteve naquele feitiço sufocante, porém já fora o suficiente para que eu não conseguisse levantar do chão, tamanha fraqueza envolvendo meu torso. Enquanto a vertigem tomava conta do meu corpo, pude ouvir novamente aquela voz masculina do apartamento. Fora ele que a puxara de volta. Não vi mãos, não vi luta, mas sabia que, assim como ela havia me dominado a distância, ele também o fizera com aquelas palavras indecifráveis.
Ouvi o barulho do elevador e as lâmpadas voltaram a sua constância habitual. Quem chegara no pavimento percorreu o corredor hesitante até que pude vê-lo e o reconheci quando se ajoelhou ao meu lado. Era o vizinho, o gringo, o que sempre dizia Bom dia com um sotaque esquisito quando esbarrávamos com ele. Minha mãe o detestava, bem, detestava seu riso pelo menos. Era comum ela xingá-lo durante a novela quando ocasionalmente sua risada calorosa invadia nossa sala e emudecia as falas do drama televisivo. Eu gostava dele, gostava daquele olhar acalentador cada vez que nos cumprimentava. A expressão sombria que ele exibiu ao me observar no chão foi bem distante da que eu costumava ver. Murmurando algo como O que aconteceu? Você está bem? Consegue andar? enquanto colocava a mão nos meus pés feridos. Sabia o que seus olhos procuravam em minhas pernas: uma mordida. O gringo tocou o meu peito. O coração batia forte e minha respiração ainda era ofegante, mas era óbvio que eu ficaria bem. Acho que era óbvio para ele pelo menos, pois rapidamente me abandonou e foi até o apartamento.
Não esperei para ver o que aconteceria, com toda a força que me restava, virei de bruços e apoiei os cotovelos no chão frio. Levei meu corpo até minha casa como dava, arrastando as pernas, engatinhando, me apoiando na parede. Não escutava mais as palavras esquisitas e os gemidos do apartamento do gringo, apenas uma discussão entre vozes masculinas ecoava no corredor. Quando cheguei no batente da minha porta, ouvi uma batida e as vozes foram abafadas. Tive coragem de olhar novamente o corredor antes de fechar minha própria porta, as lâmpadas não mais piscavam, o odor do mofo já voltava a ser mais forte do que o cheiro de churrasco, mas as manchas escuras de sangue ainda continuavam lá, demarcando as pegadas da mulher.
Ouvi minha mãe me chamando. Não lembro nada do que ela gritou furiosa por me encontrar acordado. Tudo o que eu conseguia pensar era no que estava acontecendo na parede ao lado. Ou melhor, no que tinha acontecido. O QUE aquela mulher realmente era?”
Jonas levou a cerveja a sua boca seca. O gosto amargo o fez voltar ao seu presente. Ele não tinha mais aquele andar desajeitado, o corpo mirrado ou o olhar constantemente assustado. Apesar de não haver nenhuma penugem de barba em seu rosto, ele já não era mais uma criança, ou melhor, segundo a legislação brasileira, ele nem se quer era mais um adolescente. As mudanças hormonais que passara nos últimos anos transformaram seu cabelo, antes liso, em ondulado; as bochechas brancas ganharam algumas marcas disformes, resquícios de cada espinha que brotara em seu rosto; sua voz esganiçada virara a voz de um homem, grave e áspera. Orgulhava-se que era a mais grave do seu grupo de amigos, e adorava exibi-la contando como cantara alguma garota, ou dando uma boa e alta risada ao ouvir um dos companheiros no bar. Porém nos últimos minutos, nada do que ouvira o fizera rir. E não, muito menos ele falara algo da estranha experiência que vivenciara e ainda nitidamente aparecia em sua mente.
Respirou fundo. O boteco cheirava a gordura, cigarro e maresia. O vento bagunçava seu cabelo oleoso, mas ele não se deu ao trabalho de tirar as mechas castanhas dos olhos. Não queria disfarçar o quanto estava insatisfeito pelo tema da conversa que acontecia na sua roda de amigos. Começou com histórias nostálgicas da infância, depois alguém comentou que viu alguma luz esquisita no céu em uma noite de muita chuva e aí... Há pelo menos meia hora todos se dispuseram a contar uma história esquisita que alguém contou para o amigo do amigo do primo. Todos, exceto ele e Cássio.
O amigo exibia um sorriso curioso a cada suposição que surgia para explicar os fenômenos malucos narrados pelo grupo de amigos. Jonas conhecia aquela expressão calma, não interessava o quão receptivo seu rosto estava, quando Cássio ajeitava o óculos no topo do nariz seus olhos de desdém o traíam. Ele estava odiando cada segundo daquela conversa de bêbado, não porque tinha medo, não porque desdenhava de quem acreditava no sobrenatural, mas porque sentia que o assunto era sério demais para ser discutido assim entre risadas nervosas e gritos de zombaria. Qual mesmo era a religião que ele seguia? Rosa Cruz? Espiritismo? Candomblé? Jonas não lembrava mais, a única vez que perguntou sobre qual religião o fazia ir toda a semana a uma reunião de horas, ouviu uma resposta tão longa (e ríspida) que mal compreendera no que Cássio realmente acreditava. Fora um sermão sobre a diferença entre fé, religião e doutrina que caiu no esquecimento logo que o amigo se calou.
Os enormes olhos azuis de Cássio observaram-no. Era uma pergunta silenciosa se Jonas contaria sua própria história essa noite. A história que ele narrou para Cássio quando eles eram adolescentes. Ao contrário do que esperava, seu amigo não o zombou como as outras crianças do prédio o fizeram quando ele contou. Ficou calado por alguns minutos até que pediu para que o levasse ao corredor e manteve seu silêncio por um bom tempo enquanto analisava o piso que por muitos dias exibira um estranho tom rosado, resquício das manchas de sangue daquela mulher. Ele não viu nenhuma marca no lugar, mas quando levantou o rosto simplesmente disse “Eu acredito em você”.
Nunca mais eles conversaram sobre isso, contudo o fato selou a amizade dos dois e de alguma maneira fez Jonas conseguir ignorar a assombrosa experiência que vivera. Não tentou mais procurar explicações lógicas ou narrar para quem estivesse disposto a ouvir. Já se conformara que nunca entenderia o que ocorreu, nunca acharia alguém que soubesse, portanto não deveria perder tempo pensando no assunto. Era passado... porém, toda vez que escutava alguma história sobrenatural, por mais absurda que fosse, sentia o estômago pesar. A cerveja desceu mais amarga dessa vez e ele se levantou murmurando:
- Não tô muito bem... - Se afastou da mesa e desceu do tablado de madeira vagabunda saindo do bar e caminhando até o matagal próximo. Sabia que os amigos não o seguiriam após essa declaração, nenhum dos 5 se preocupava quando um deles ia vomitar. A intimidade de anos de amizade era suficiente para saber que todos detestavam serem acompanhados quando passavam mal. Seu estômago doía, porém ele não acreditava que realmente vomitaria, só precisava se afastar daquele assunto. A noite já estava insuportável o suficiente para o seu passado vir atormentá-lo em sonhos também mais tarde.
Jogou a latinha de cerveja na caçamba de lixo e respirou fundo fechando os olhos. Inspirava vagarosamente, apreciando cada parte que o ar tocava até preencher por completo seus pulmões. Senti-lo fluindo pelas vias respiratórias apagava aos poucos a sensação de impotência que lhe dominava o corpo toda vez que se lembrava daquele acontecimento de sua infância. O cheiro de cigarro despertou-o do relaxamento e ele ouviu a voz de Cássio ao seu lado:
- Deixe-me adivinhar, seu enjoo passou?
Jonas fez uma careta e soltou o cabelo bagunçado sem encarar o amigo. Arrumou as mechas longas encarando o céu estrelado e, somente quando as prendeu e deixou seu rosto livre de qualquer fio escuro, abaixou o rosto para o amigo:
- Que merda de noite, cara.
Cássio deu uma risada debochada. Ele saíra de São Paulo avisando que dessa vez eles não seguiriam os planos de Eduardo, lembrando o grupo do quão chato fora da outra vez que o visitaram... e aonde eles estavam agora? Exatamente no mesmo lugar que da outra vez, seguindo uma promessa absurda que essa seria a noite mais incrível da viagem. Jantar em um restaurante reconhecido? Bar na beira da praia? Balada universitária? Ah, não, isso tudo era muito normal, muito enfadonho para Eduardo. Começara com umas cervejas na casa dele e depois aos poucos convenceu um por um a passear sem rumo pela cidade.Precisava mostrar que Santos tinha mais do que os turistas almejavam conhecer, contudo, Jonas via todos os motivos pelos quais esses lugares inóspitos eram evitados. Na primeira vez ele relevou todos os aborrecimentos, pois afinal, a companhia dos amigos era sua prioridade. Os cinco eram muito unidos no colégio e quando cada um tomou seu rumo após o vestibular, tentavam se rever pelo menos uma vez por ano. Porém, sempre quando Eduardo assumia o reencontro tudo desandava:
- Sério, é a terceira vez que a gente cai nessa furada? – perguntou observando a ruela escura. Ocupada esporadicamente por alguns bares vagabundos, a rua era o lugar ideal para quem quisesse se drogar ou conseguir uma prostituta. Cássio riu novamente e lhe ofereceu um cigarro. Jonas aceitou levando-o a boca e esperou o amigo acendê-lo para murmurar - Eu tô muito velho para isso!
- Nós dois nunca achamos muito divertido sair por aí sem um objetivo, Jonas... - Cássio ajustou o óculos no nariz e alargou seu sorriso arrogante – Mas eu realmente não tenho mais idade para beber essa cerveja vagabunda.
Os dois riram e Jonas se lembrou do gosto aguado do que bebera no resto da noite, sentiu o estômago revirar novamente e concluiu que não era apenas as histórias de assombração que provocaram seu enjoo. Já passara da hora dele começar a substituir a cerveja pela água:
- Acho que lembro do caminho para voltar para a casa dele... - Cássio jogou o cigarro no chão e passou a olhar o carro de Eduardo estacionado no fim da rua:
- Ele não vai querer voltar agora, cara.
- Quem disse que ele ou os meninos precisam ir?
- Acho que não é uma boa ideia só nós andando a pé por aqui.
Cássio não retrucou, provavelmente nem escutara o que ele dissera, seus olhos azuis ignoravam-no e se concentravam no horizonte logo atrás de Jonas. Estreitou as pálpebras seguindo seu olhar e pôde perceber a movimentação dos mendigos que habitavam o terreno próximo a esquina da rua. Uma cidadã bem vestida passava por eles. Ela ignorou todos os pedidos de esmola, mesmo dos que lhe tocaram e continuou a caminhar calmamente pela rua....

*para ler o resto, aguardem o livro!