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Justiça Carmim


Quando o assassino ergueu a adaga na altura dos olhos, seu reflexo estava manchado do sangue da vítima que acabara de abater. O líquido escarlate ainda quente gotejava devagar, indo encontrar abrigo no tapete caro de pele branca que, aos poucos, tingia-se de rubro. O local todo estava silencioso, nem mesmo os passos daquela criatura produziam sequer um ruído. Nada.

Caminhou até a janela e afastou as cortinas com os dedos enluvados, deixando a luminosidade doentia da cidade adentrar o recinto. O facho de luz fria de um helicóptero que sobrevoava a metrópole resvalou sobre ele, mas não se deteve por mais de um instante. Respirou fundo, deixando o odor do sangue adentrar suas narinas e inebriar os seus sentidos. Era um assassino, sim, mas não encontrava prazer algum em tirar a vida de alguém. O prazer vinha depois, quando era recompensado pelos serviços. Mas na hora... na hora ele não sentia nada. Nem mesmo culpa. Apenas um imenso e intangível vazio.

Mas, não havia como negar, gostava do cheiro do sangue. Não só do cheiro, como da cor, do gosto, da textura... O que, nem de longe, era o que fazia dele o que ele era. Não. O que o tornava um algoz era o simples fato de que, nos dias de hoje, assassinato é um ramo bastante lucrativo.

- Sim? – Sussurrou ele ao telefone, que nem bem havia vibrado e já estava aberto em sua mão. Era a ligação que ele estava esperando desde que concluíra o serviço. – Sim! Ele está morto. Não, sem dor. Definitivamente.

Respondia de maneira fria, enquanto caminhava pelo apartamento luxuoso. Com um passo mais largo, passou por cima do cadáver recém-abatido, que agora já parecia completamente sem sangue, ao contrário do tapete, outrora branco, agora carmesim.

- Hmm... Isto não estava no acordo. Não, não irei fazer. – Com a mão livre, o homem retirou os óculos escuros que usava, revelando olhos estreitos, verdes, com pupilas levemente verticais. Os lábios então se arquearam em um sorriso frio, e ele se abaixou ao lado da vítima. Com o dedo indicador da mão que ainda segurava os óculos, afastou uma mecha dos cabelos empapados de sangue, deixando o rosto pálido do corpo completamente à mostra. Era praticamente idêntico ao dele. – Não preciso usar habilidade alguma para descobrir esse tipo de coisa, ou você esqueceu quem ele era? – Silêncio. – Não, é muito pouco. Eu quero pelo menos o quíntuplo.

Silêncio. Sorriso. Desdém.

- Então está certo. Azar o seu. Da próxima vez, faça o favor de se certificar que me informou tudo o que devo fazer antes. Odeio barganhas, você sabe. Passar bem.

O clique do telefone se fechando ecoou pelo aposento. O rapaz recolocou os óculos na face branca e inclinou levemente a cabeça para o lado, deixando os cabelos avermelhados escorrerem pelos ombros e costas, revelando orelhas sensivelmente pontiagudas.

- E não é que fui eu que acabei matando você? Quem diria, hein? Tsc... Demasiado patético. Fraco! Apesar disso, saiba que nunca desejei o seu mal. Mas é isso o que acontece quando se irrita gente poderosa, entende? Eu recusei a princípio, quando soube que era você. Mas...

O telefone recomeçou a vibrar na sua mão. Não precisou olhar o display luminoso para saber quem era. Ao invés disso, apenas levou o aparelho até o ouvido e, parecendo desconhecer que havia outra pessoa do outro lado da linha, continuou o seu monólogo: - ..ela dobrou a proposta e eu acabei ficando sem argumentos. Alô? Sim. Certo, você a terá em alguns minutos. – Clique. Sorriso. Tapinha amistoso no ombro do cadáver. – Viu? Eu até tento resistir, mas você sabe como é difícil...

Um comentário:

Anônimo disse...

PQP. Odeio achar no que me viciar. Ficou foda MESMO.

MESMO¹²²²¹

E ainda tem uma temática assim, como essa. Me ferrei.