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Dragões de Gelo - pt. II


Continução de Dragões de Gelo: pt I
- Boa noite, Egor.
Os olhos extremamente azuis ergueram-se do instrumento de cordas de origem desconhecida, fixando-se nos dois visitantes. Os cabelos desgrenhados do vampiro eram muito longos e de um loiro sujo. Seu maxilar barbado, a priori inflexível, logo se mostrou maleável o suficiente para acomodar um sorriso singelo, que tão logo brotara se espalhou por todo o rosto. Os dedos pararam de dedilhar o instrumento, e então o homem de óbvia ascendência nórdica finalmente respondeu:
- Boa noite, Svar, filho de Forseti.
Involuntariamente as sobrancelhas do mago ergueram-se, arqueadas e evidenciando uma expressão de surpresa. Os olhos de Logan cravaram-se no perfil de Uriel, que também sorrindo, virou-se para ele e murmurou em tom explicativo:
- Forseti é...
- Eu sei quem Forseti é! – Respondeu o mago, subitamente ríspido por ter a sua inteligência colocada a prova. A indagação no seu rosto não significa o quê, e sim por quê. O vampiro, ao perceber isto, pôs-se imediatamente a remediar a situação:
- Ah, sim, desculpe, Logan. Meu nome de batismo é Svar, e... bem, a minha família mortal sempre prestou culto a Forseti. – O semblante de Uriel era calmo, tal qual o timbre de sua voz. Logan descolou os lábios para falar, todavia, a palavra lhe fora roubada do terceiro elemento na sala, que murmurou exatamente o que o mago falaria:
- Bem apropriado para um pacificador, hein? – O vampiro tinha se recostado na poltrona, pousando os pés sobre a mesma superfície que agora amparava o instrumento de cordas e um empilhado de folhas de papel e partituras rabiscadas. Sorria. – Aliás, este cargo ainda existe?
- Existe, Egor.
- E os outros dois ainda são a Marion e o Basil? – Perguntou, evidenciando o quão alienado estava da atual situação dos vampiros no mundo. Logan virou-se para ele, encarando-o com certo azedume; talvez pelo fato de ter sido ignorado até então.
- Sim.
- Me admira que eles não tenham arrancado a cabeça um do outro, em uma daquelas brigas... Riu, e com um gesto de descaso deu de ombros, dizendo: - Mas isso não me interessa muito. O que me interessa é saber, por exemplo, por que você trouxe um mago a tiracolo para a minha casa; os tempos mudaram tanto assim, Svar?
- Não, mas eu e ele temos um contrato de sangue, e... – Uriel olhou rapidamente para Logan, que não devolveu o olhar, antes de finalizar: - ...ele é um amigo. Veio para me auxiliar no que pretendo fazer.
- E o que você pretende fazer? – Perguntou Egor, zombeteiro, embora pelo seu olhar misterioso as intenções de Uriel naquele lugar fossem demasiado óbvias. Ele só voltaria à Islândia por um motivo, e este não era um reencontro familiar.
- Este é Logan. – Continuou Uriel, ciente de que o mago merecia uma introdução apropriada, visto que Egor não parecia fazer muita questão de saber quem era ele, apenas o motivo de seu filho tê-lo trazido consigo. O outro vampiro pela primeira vez pareceu realmente notar a presença do moreno, encarando-o com uma súbita curiosidade juvenil. Inclinando levemente a cabeça para o lado, como que para analisar as feições de Logan sob a luz da lareira, Egor finalmente alargou o sorriso e estendeu a mão.
- Se é amigo, é bem-vindo! – Murmurou, os olhos azuis faiscando zombeteiramente, esperando que Logan apertasse a sua mão. O mago hesitou por alguns segundos, antes de retribuir o gesto com o cenho franzido. – Sendo um mago, é mais bem-vindo ainda! Não é sempre que eu tenho a oportunidade de conversar com um... você é de que Ordem?
- Eu sirvo à Inquisição. – Fora a resposta do moreno.
- Oh! - O vampiro migrou a atenção momentaneamente de Logan para Uriel, encarando-o com olhos risonhos. – É mesmo? – Egor então indicou uma das poltronas para que o mago sentasse. Uriel -assumindo uma postura polidamente subserviente que até então Logan desconhecia- retirou rapidamente um amontoado de objetos do assento, oferecendo-a finalmente ao visitante. Permaneceu de pé, ao lado de um Logan confortavelmente acomodado, e não pareceu se importar.
- Um mago Inquisidor? – Egor tinha apoiado os cotovelos sobre as pernas, cruzando os dedos de ambas as mãos e encarando Logan com ávida curiosidade. –Isso não é meio paradoxal? A Inquisição não queima feiticeiros?
Logan permaneceu em silêncio por um ou dois segundos, antes de responder: - O Tribunal da Inquisição, da Idade Média, o fazia. Porém, atualmente, ela é um Órgão à parte da Igreja que tenta controlar a influencia de criaturas...
- Eu pensei que qualquer tipo de magia fosse condenável diante dos olhos do seu Deus. – Interrompeu o vampiro, arqueando as sobrancelhas. A expressão atordoada de Logan durou apenas um átimo de segundo, e logo seu rosto já demonstrava a mesma carranca de costume. – O seu dever não é para com Ele?
- O meu dever é para com a humanidade. – Retrucou, seco. – Como eu poderia condenar algo que é inerente da minha natureza e da minha crença, embora seja tratada sob outro viés? É a mesma coisa.
- Entendo. Mas... – Egor gesticulou, o sorriso ainda presente em seus lábios. Uriel, momentaneamente excluído da conversa, caminhava pela sala, lendo algumas folhas de papel que encontrava jogadas pelo chão. - ...a tolerância humana já atingiu este ponto entre todos os membros da Inquisição? Eles sabem que você é mago?
- Este tipo de coisa não é importante. Temos os mesmos objetivos, a forma que eu encaro determinadas coisas é irrelevante. – Neste momento, Egor ergueu os olhos para Uriel, que retribuiu o olhar e deu de ombros, segurando um punhado de folhas amassadas.
- Cuidado com estas ai! – Advertiu, apotando o indicador para as partituras que Uriel apanhava no chão, antes de voltar novamente a atenção para o Inquisidor: - Mas que humano interessante você me trouxe, hein, Svar? E o que você faz na Inquisição, Logan? Você é juiz ou algo assim?
- Eu purgo os demônios, ou entidades que influenciam negativamente um indivíduo ou um grupo. - Disse, e sob o olhar surpreso de Egor, apressou-se em explicar, utilizando-se da alcunha vulgar do ofício: - Eu sou um exorcista.
- Eu tinha entendido! - A expressão de Egor tornou-se subitamente gentil demais, um sorriso quase piedoso surgiu em seus lábios, e o tom de sua voz fora o mesmo que utilizaria para tratar de um assunto qualquer com uma pessoa de intelecto inferior. Logan, arqueando uma das sobrancelhas, olhou demoradamente para o vampiro ancião, sem dizer palavra, esperando pela próxima pergunta. Pergunta esta que nunca veio. - Mas, me diga, em que posso ser útil, caro Svar? – Chamou Egor, mudando repentinamente o foco da conversa a fim de desviar a atenção do seu pupilo do grande armário para o qual ele se direcionava. Uriel, percebendo a investida de Egor, continuou caminhando ao responder:
- Eu preciso de um pouco do seu sangue para quebrar o selo que prende os meus irmãos. – Sem cerimônias, o loiro abriu as portas do móvel. Uma enxurrada de papeis desabou aos seus pés, cascateando por alguns segundos até que a última folha pairasse, suavemente, até o chão. Uriel voltou-se para o outro, momentaneamente, encarando-o. Sorrindo divertido, garantiu: - Eu arrumo depois.
- Você não vai arrumar nada! – Sibilou, apertando os olhos. – Deixe como está, e venha se sentar aqui, antes que você quebre alguma coisa de valor.
O loiro, ignorando a recomendação de seu mestre, abaixou-se e apanhou uma velha fotografia do meio do amontoado de papéis velhos. A mulher de cabelos negros e olhar incisivo o encarava com a mesma expressão indomável que ele conhecia e amava tanto. Sorriu. Virando-se para o seu mestre, Uriel abanou a mão na altura do rosto, conservando o retrato preso entre os dedos indicador e médio, dizendo: - Ficarei com esta; ela está criando mofo aqui, mesmo. - Com o consentimento silencioso de Egor, Uriel enfiou a fotografia em um dos bolsos da calça, antes de soltar a pequena quantidade de papeis que trazia nas mãos sobre a pilha do chão.
Caminhou lentamente até o divã mais próximo à lareira, sentando-se de forma à luminosidade das chamas incidirem sobre apenas um lado de seu rosto. Os olhos de Uriel exibiam um brilho melancólico, nunca antes observado por Logan, quando ele falou: - Creio que chegou a hora, Egor, de eu libertá-los. Ambos sabíamos que este momento ia chegar, e... - Um fino sorriso desenhou-se em seus lábios, transformando completamente a expressão do loiro. Talvez não fosse melancolia o que o mago notara. - ...acredito também que o seu irmão não se importará por eu ter vindo reclamar o que é meu, certo?
Egor nada disse, apenas continuou encarando o seu pupilo com um meio-sorriso nos lábios. Tinha recostado-se novamente na poltrona, de forma a ficar também parcialmente envolto em sombras. Logan, de cenho franzido e completamente banhado pela luz âmbar do fogo, era o elemento estranho na cena, e à medida que os vampiros enveredavam por um tortuoso caminho que lhe era desconhecido, sentia-se mais e mais exposto. A ignorância incomodava-o, e isto era evidente diante da careta de desagrado que vincava sua face.
- Você deveria ter vindo há quinze anos, Svar. - Disse Egor, e o sorriso de Uriel se alargou ainda mais.
- Até então eles não tinham muita utilidade para mim. Agora, entretanto... - O vampiro ergueu as mãos, deixando a luz da lareira banhá-las. Não eram as suas, embora Logan tivesse feito um bom trabalho, e Egor já tinha percebido isto. O gesto fora desnecessário, talvez um pouco teatral, mas excluíra quase que completamente a necessidade de justificativas. - Os tempos mudaram, meu amigo. Um pacificador às vezes precisa assumir uma postura agressiva para defender a sua dignidade, pois existem vampiros degenerados que não mais respeitam a ordem das coisas. - Apesar das palavras ressentidas, a expressão de Uriel não conversava com tal sentimento: ele sorria, os caninos pontiagudos bem à mostra, e os olhos cintilando em malícia. Aquela era uma coisa que não se via com frequencia também, Logan pensou. - Alguém na minha posição não poderia declarar guerra contra um general, eu ainda tenho coisas a fazer enquanto pacificador, mas o mesmo não se aplicam a eles... afinal, eles não são iguais a nós, não se inserem nas estruturas da nossa sociedade. - Parou por um segundo, antes de continuar em tom misterioso: - Eu não poderia ser responsabilizado, caso um deles viesse a arrancar a cabeça de um desses vampiros que não sabem o seu lugar. Mas não se preocupe, meu amigo, eu os quero apenas para garantir a minha segurança, você sabe que eu não sou de sujar as mãos com esse tipo de trabalho.
- Eu não estou preocupado. - Disse o outro, em meio a um suspiro entediado. Agitando a mão de maneira quase letargica, estendeu-a para Uriel com a palma virada para cima, perguntando: - Quanto de sangue você precisa? Você trouxe o recipiente, certo?
A expressão perniciosa já tinha deixado o rosto de Uriel quando ele aprumou-se novamente no divã e olhou para Logan. O mago, ainda de cenho franzido e expressão desgostosa, virou o rosto lentamente na direção do seu companheiro, perguntando-se o que ele faria a seguir - porém com um estranho mal-pressentimento. E então, as próximas palavras do vampiro pacificador o fizeram estremecer por dentro, trazendo à tona a afirmação que fizera minutos antes:
- Eu não vim de mãos abanando, Egor. Sua gentileza será recompensada. - Sorrindo, placidamente desta vez, o vampiro inclinou-se para o mago, apoiando o braço sobre a parte mais elevada do movel ao qual se acomodara. As linhas do rosto de Uriel pareciam, mesmo à penumbra fantasmagorica gerada pelas chamas da lareira, mais suaves e etéreas. Vestia, novamente, a faceta do vampiro de calma e polidez inabaláveis que costumava exibir para o mundo. - Logan, se bem me recordo você disse que faria qualquer coisa para sairmos daqui esta noite, e eu tenho certeza que você conhece bem os hábitos alimentares de um vampiro da família dos Scelero Ingenium...
Nada mais precisava ser dito. Um arrepio percorreu a espinha do mago enquanto seus lábios se crispavam fortemente. A partir daquela noite -depois de conhecer a criança obediente ao pai e o jovem maquiavélico e vingativo - seria bem difícil ver Uriel com os mesmos olhos de outrora. A vontade que o inquisidor tinha era de pular daquela poltrona e incendiar todo o lugar, tamanho desconforto e revolta que sentia. Porém, lembrou-se com pesar, Uriel era praticamente imune ao fogo.
- Certo. - Suspirou, resignado. - Você tem um cálice por aqui? - E lançando um olhar para Uriel, completou, antes de puxar uma pequena adaga de prata de um dos bolsos: - Espero que não se importe, Egor, mas eu não permitirei que beba diretamente de mim.
- Ele não se importa. - Uriel sorria, estendendo uma pequena taça dourada para ele. - Encha até a borda, não seja mesquinho.
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- Não, você está fazendo errado, Logan! - Protestou o vampiro, que segurava uma espécie de tubo de ensaio cheio de sangue. Logan, de pé na frente do portão do cemitério abandonado, encarava as grades de ferro e mastigava a própria língua, obviamente reunindo forças para não matar Uriel ali mesmo. - Você tem que por a língua nos dentes para falar o Opna. E não é Ópna, perceba... Opna í nafni Viasheslav!¹

- Por que diabos você mesmo não fala isso? - Explodiu Logan, por fim, segurando as barras do portão e sacudindo-o com impaciência. - Não dá simplesmente para arrombar? In nome della santa luce! In nome del potere di Dio! In nome di tutti gli angeli ei santi...².
- Eu não falo por que tem que ser um mago, entende? - Interrompeu Uriel, sentando-se em uma das enormes pedras congeladas próximas ao muro. - Se não, por que eu teria te trazido?
- Para acabar com a minha paciência! - Esbravejou Logan. O vampiro limitou-se a encará-lo com complacência, por algum tempo, enquanto o mago repetia, em vão, o mesmo feitiço para desintegrar as barras de ferro.
- Hahaha... É realmente bem estranho que você, dentre todos os magos que eu conheço, invoque divindades para ajudar em uma tarefa mágica, Logan. Além do mais, ele só vai abrir se você mandar, na língua nativa, e em nome do vampiro que o selou. Vamos lá, não temos a noite toda. Preste atenção: Opna í...

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¹ - Tradução feita por um tradutor online, já que eu não conheço ninguém que fale Islandês hehe sintam-se a vontade para me corrigir, caso saibam a maneira correta. Significa simplesmente: "Abra em nome de Viasheslav".
² - Mesmo esquema da observação anterior. Esta significa, a partir do Italiano: "Em nome da luz divina! Em nome do poder de Deus! Em nome de todos os anjos e santos..."



Continua em: Dragões de Gelo - pt.III

5 comentários:

Heluiza Bragança disse...

Egor ficou perfeito! O jeito como ele indaga, pergunta, e ignora ficou bem dentro do que eu imagino para o personagem. Adorei, Lucas. Ele formou uma combinação irresistível com Uriel e Logan. Os diálogos desse arco me interessaram mais que os das suas postagens anteriores. Amei. Agora só daqui a 15 dias para ler mais =(

Lucas T. Costa disse...

hauaha Egor ♥ gostei bastante de postar com ele, viu! E ele só ficou tão verossímil por que você soube me explicar bem a personalidade *_* o crédito é todo seu!

E esse capitulo foi inteiro com dialogos né, deu pra expor muito mais da personalidade do Uriel e do Logan do que tive oportunidade até agora. Que bom que você gostou! *O*

Thiago disse...

O diálogo realmente empolgou muito. Achei muito interessante ter passado de uma narração bem descritiva para diálogos. Parece que nesse caso funcionou perfeitamente, e isso só demonstra a capacidade de escrita do autor. Gostei muito do "spin-off" com outro personagem que apareceu aí, demonstrando os verdadeiros sentimentos do vampiro por ela. Me resta esperar para saber o que vai acontecer agora.... Ótimo gancho, por sinal.

Heluiza Bragança disse...

Bendita faculdade que não te deixa finalizar o arco, hein... maldito word que apagou o post quase completo. Quero ler o resto logo =(

[јuṡτ] яuαṉ disse...

Agora que li os dois primeiros fiquei curioso para saber o final hehehe, gostei dos personagens, ficaram bem interpretados hehe, são ótimos atores, parabéns =p