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Rachaduras


Olá, silenciosos leitores! Esse é o primeiro dos manuscritos avulsos que postaremos no blog. Eles não necessitam de nenhuma leitura prévia para compreenssão do texto, apesar de envolverem, algumas vezes, personagens das Crônicas. Serão postados, sem compromisso, às quartas-feiras. Comente mesmo se não gostou! Ajude-nos a melhorar!


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Os tons escuros se espalhavam pelo céu, contrastando com o fio alaranjado no horizonte. Aquela visão normalmente a acalentava, mas agora se sentia sufocar e não era apenas pelo diafragma dolorido de frio. Tentar voltar a sua casa anoitecendo não foi nada esperto, sabia que era uma longa caminhada, a qual não conseguiria completar em menos de meia hora.

Engoliu em seco, obrigando os pés calejados a continuarem enfrentando o terreno nevado. Reparou que estava andando mais hesitante graças ao aumento da penumbra, começara a ter dificuldade em distinguir as formas variadas sobre a neve. Fez questão de murmurar que poderia ser pior, podia ainda estar nevando. Começou a tatear os pinheiros no caminho, diminuindo drasticamente sua velocidade. Notou sua boca tremendo a cada respirar dolorido; os formigamentos sob seu grosso casaco de pele aumentaram e as pontas dos dedos enluvados perderam a sensibilidade. Estava cedendo ao frio e a vontade de chorar não colaborava em nada para evitar seu mal estar. Como pôde ser tão inconseqüente em arriscar ficar até essa hora caçando?

A jovem ouviu uivados distantes como se atestassem o que pensara e intuitivamente apertou o braço da pesada espingarda. Um uivar próximo fez seu corpo eriçar. Parou e segurou a arma em posição de tiro, virando-se para todos os lados. Não enxergava nada na penumbra, mas um grunhido ameaçador confirmou que havia um lobo a sua direita. Perguntou-se como acertaria se não conseguia ver um mero vulto. Hesitante nem ao menos tentou atirar quando sentiu sua perna ser mordida.

O animal lhe puxava, agarrando a perna esquerda com uma força que a surpreendeu e ela não resistiu às investidas tombando desengonçada sobre a bolsa que carregava nas costas. Seu longo cabelo se encharcou do sangue vazando da sacola graças a pressão de seu peso. Gemendo pela dor dos dentes afiados roçando na ferida, a morena conseguiu juntar forças e passou a acertá-lo com o cano da arma. Não tinha coragem de atirar a esmo, entretanto, as coronhadas na face irritaram-no o suficiente e ele se afastou grunhindo.

Estranhando a desistência, a ninfeta sentou, preparando-se para um novo ataque, mas não dele e sim do líder da alcatéia. Presumiu que estava cercada com tantos sons selvagens que ouvia agora. Provavelmente foram atraídos pelo cheiro de sangue do saco ensangüentado. Seu corpo tremia de medo e frio, sabia que a chance de sobreviver agora era mínima, ainda assim mantinha a arma em punhos para golpear qualquer animal que a atacasse. Mesmo esperando o ataque, surpreendeu-se com o puxão em suas mechas negras.

Automaticamente, largou a arma e levou as mãos ao pescoço, tentando evitar que a alça da bolsa o pressionasse. Um dos animais atacava com selvageria a sacola envolta pelos longos cabelos, puxando-a e grunhindo. Cortes finos faziam seu pescoço arder, a adolescente mantinha as mãos trêmulas na alça, não conseguia se desvencilhar do couro tamanha a força contrária do animal. Tentava não tossir com a pressão, segurando o tecido com uma mão enquanto a outra alcançara a arma de fogo e preparava um golpe. Antes que pudesse desferi-lo o animal afrouxou a mordida. Os lupinos uivavam ameaçadoramente e a jovem percebeu, desconfiada, que conseguia distinguir os galhos e folhagens secas dos pinheiros ao redor. O lugar se iluminara.

A fonte de luz amarelada era uma pequena lamparina. Seu dono envolto em sombras a colocou no chão tranquilamente, voltando-se em seguida para os lobos que o cercavam. Sem tirar os longos fios do rosto, ele sacou os dois sabres levados na cintura, se curvando como se desafiasse os lupinos, cujos grunhidos selvagens aumentaram. A silhueta que puxava a sacola da menina a largara de vez, correndo para atacar o sujeito. Ágil, a figura masculina provocou um som fino de sofrimento no lobo ao deferir-lhe certeiros cortes. Alguns da alcatéia tentaram atacar, mas falharam também caindo lamentosos na neve. O restante dos animais fugiu enquanto a criatura de cabelos desgrenhados guardava seu sabres:

- Egor? – a garota perguntou, porém ela já sabia quem era o ser tão selvagem quanto os lobos.

Tranquilamente ele pegou a lamparina e se aproximou, revelando o tórax cor de mármore mal coberto pela camisa desabotoada. Colocou as mechas claras para atrás da orelha e encarou de relance os ferimentos na perna da adolescente, desviando o olhar para sua face. Parecia perdido em seus próprios pensamentos, arqueando de leve as sobrancelhas:

- Foi só a perna? – sibilou sua voz rouca, os olhos examinavam seu pescoço; inclinou-se tirando a alça sobre os ombros dela.

- Sim... – ela respondeu passando os dedos trêmulos na região da traquéia - Isso não foi nada - adicionou vendo-o molhar os lábios grossos, tampando o nariz. Seu comentário fora um erro "Para ele é o suficiente..."

O jovem tirou a camisa, expondo o tórax magro, branco como a neve, e jogou sobre a garota:

- Cubra-o – pediu, cerrando os lábios enquanto ela cobria o pescoço como se usasse um chachecol. Ele lhe entregou a lamparina e enlaçou cuidadoso suas pernas e ombros

- Espere. – pediu quando Egor a ergueu como se fosse uma pluma, olhava suplicante para a bolsa de couro próxima a um tronco – Eu preciso levá-la.

- Temos comida suficiente, Kath, – ele bronqueou, ajeitando o corpo trêmulo ao seu tórax antes de começar a andar – você sabe que não precisava mais.

A ninfeta desviou dos olhos reprovadores e encarou as chamas flamejantes da lamparina sobre sua barriga, esperando que a visão quente pudesse lhe passar o calor que o corpo morno de Egor não transmitia.

- É a segunda vez que você se fere em menos de uma semana – o sussurrar provocava um leve movimento no peito nu – Aquilo é uma raposa – afirmou apontando com a cabeça para a bolsa de couro – Ele te desafiou, não foi?

O silêncio provocou um estalar de língua dele. Formou um sorriso astuto:

- Você já não é mais uma criança – ele censurou olhando-a de relance, andando a passadas largas pelos arbúrios e pinheiros.

A adolescente respirou fundo e encostou, tímida, a cabeça no peito gélido. A falta de som do tórax não a assustava mais, porém, arregalou os olhos cinza. Relembrou alguns dos infortúnios que sofrera nas últimas semanas e quem os provocara. Como poderia ter ignorado por tanto tempo que os comentários ferinos não eram por uma simples implicância? Molhou os lábios:

- Egor... – sussurrou com a voz embargada - Ele quer me matar, não é?

- Faça um favor a nós dois, Ekaterina. – seus olhos azuis cravaram nos seus - Não confie em seu pai.

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O vento noturno invadiu o quarto, balançando quadros e levantando poeira quando a vampira abriu a janela ruidosa. Acendeu o abajur próximo a cama e sentou, notando as profundas rachaduras na velha pintura da parede. Diversas noites ela passara naquele recinto lendo as poesias e composições musicais dadas por Egor. Nunca tivera uma acústica perfeita, mas suas paredes foram as primeiras ouvintes de diversas canções que fluíam após um dia exaustivo. Enquanto não finalizasse um verso, não conseguia relaxar, temerosa que a inspiração se esvaisse. Sentiu-se vazia ao lembrar de sua euforia juvenil, era algo tão distante de sua atual realidade que a jovem pupila de Egor lhe parecia outra pessoa agora. Há quantos anos ele a salvara na floresta?

- Séculos... - murmurou, raspando os dedos na poeira do criado mudo.

O cômodo secular era um representante mais fiel de sua verdadeira idade do que o próprio corpo, conservado desde que o vampiro a transformara. Virou o rosto para a menina adormecida no colchão, sentindo uma estranha tranquilidade ao notar o tórax se movimentando. Agora era Ekaterina a criatura cujo peito não precisava mais de ar; e não, ela não se importava nem um pouco com isso. Segurou o cabelo revolto pelo vento, evitando que as longas mechas batessem no rosto da garota:

- Aqui, o jornal – disse um homem raquítico entrando cauteloso no recinto.

- Pode deixar em qualquer lugar, Ivar – pediu, ocupando-se em retirar os sapatos elameadas da menina.

- Desde quando você pega crianças para se inspirar? - questionou o loiro, parando próximo a cama - Conto infantil?

Ekaterina cobriu a garota como se a protegesse do olhar lascivo do humano:

- Ah, claro! - murmurou, impaciente - Ele se chamará Alice no pais das sombras - levantou-se despindo o casaco de pele, esperando que ele se retirasse – Você poder ir agora – sussurrou, claramente irritada pela sua observação insistente no rosto de Lilian – Ivar – aumentou o tom de voz - Você não ficará perto dela, entendeu?

Finalmente o humano a encarou, um pouco surpreso pela expressão furiosa da vampira, cuja mão coberta de bolhas apontava para a porta. Os olhos cinza seguiram-no até sua saída do cômodo. Desfazendo as sobrancelhas arqueadas, Ekaterina colocou as mechas negras atrás das orelhas e se aproximou da penteadeira empoeirada. Não precisava de mais luz para conseguir ler o sílirico de uma das chamadas da capa de jornal "Incêndio no museu moscovita pode ser criminoso".

Passou os dedos pelos escritos, pensando nas consequências de seus atos na noite passada. E se a descobrissem? O alívio por libertar Hans começara a ser substituído por uma excitação formigando em seu peito. Evitou por tanto tempo se meter em uma nova confusão que não percebera como sua inspiração dependia de um desafio.

Abriu um sorriso sombrio, sentia vontade de cantar.




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Interessou-se pelos personagens? Dê uma olhada na Crônica Resgate que começa em: Capítulo 1: O pedido


Cronologicamente, o próximo conto relacionado a Ekaterina e Lilian é o Além das Sombras

2 comentários:

Lucas T. Costa disse...

ahuah excelente fazer um trechinho da Eka humana <3 mostrando que ela não é o monstro que aparenta ser (OI?)! Own, apanhando dos lobos, tão coitadinha *_* amei, curti demais a narração, a parte da ação ficou mto bem escrita!

Egor... '-' poste mais coisas dele, gogogo!

Cátia Ana disse...

Ah, sensacional. Cada vez gostando mais da Eka...hum...personagem interessante esse Egor...poste mais, poste mais