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Além das Sombras




Olá, leitores! Gostaria primeiramente de dar boas-vindas aos novos seguidores e agradecer a participação em nosso twitter. Bem, esse é mais um conto com personagens conhecidos da Crônica Resgate e cronologicamente acontece após o conto Rachaduras.

Mesmo que você não tenha lida alguma das duas referências, dá para ler o conto e aproveitar. Comentem erros ou elogios.
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Batatas dos mais variados tipos, salgadinhos de diversos sabores e biscoitos de chocolate. As guloseimas da bandeja atiçavam-lhe os olhos, mas seu estômago ainda não estava disposto a comer. Ela beliscara muito mal alguns dos salgados industrializados e já se sentia satisfeita. Suspirou frustrada com a falta de apetite. Quando em seu cotidiano teria a sorte de poder comer tanta besteira junta sem levar uma bronca da mãe? Despejou os farelos do biscoito sobre o pires passando os olhos castanhos pelas rachaduras da parede do quarto. Apesar do estado decadente da pintura envelhecida, achou o cômodo belíssimo, as casas antigas que morou na Irlanda eram muito diferentes, especialmente pelos motivos florais dos cantos das paredes. Curiosa, afastou a bandeja e ficou na beirada da cama robusta, olhando os detalhes da janela e dos móveis.

A criança colocou os chinelos felpudos (muito maiores do que seu pé) e se aproximou dos livros empoeirados da estante lotada, o silírico dourado nas lombadas formavam desenhos que a encantava, mas queria saber os significados dos títulos. Inclinou a cabeça, espiando o cômodo anexado ao seu por uma grande porta dupla, receiosa em tirar sua dúvida. O outro quarto era como uma extensão do que ela estava, porém com acesso a um pequeno parapeito. Lilian colocou o dedo na boca, quase roendo a unha, observando a figura silenciosa sentada na poltrona de couro. Estava de frente para a porta de acesso a uma sacada, abraçava as pernas encostando o queixo pontiagudo nos joelhos. As madeixas negras se perdiam nos pêlos do casaco cinza, criando uma tonalidade que, na fraca luminosidade do quarto, parecia natural da penugem da roupa. A criança não percebeu, mas mordeu a própria unha quando pensou como a criatura lhe lembrava um lobo:

- Precisa de alguma coisa? - a adulta lhe perguntou, sem mudar de posição.

Lilian voltou o rosto para a ocultabilidade da estante, envergonhada por ser pêga espionando. Precisar ela precisava de muita coisa, mas aquela mulher já a ajudara o suficiente ao salvá-la daquela catapulta e prometendo que a levaria ao seu pai, não queria lhe dar mais trabalho:

- Ahm, não, desculpe - escorou-se no batente do acesso ao outro cômodo – Eu não comi muito. Acho que é de tanto dormir – disse, esfregando os olhos inchados e entrando na escuridão do outro cômodo a passos desengonçados.

- É bom que durma – a outra atestou, ainda olhando o horizonte, sem demonstrar nenhum incômodo pela criança se aproximando - Não aconselho que você saia por aí enquanto eu estiver dormindo, entendeu?

A criança fez sinal afirmativo com a cabeça, ignorando que na verdade fora obrigada a ficar no quarto, dormindo ou não, já que mais cedo ela tentou abrir as portas do outro cômodo e não conseguiu. Notou que a vampira abriu um sorriso sutil antes de beber o chá novamente. Lilian não conseguia deixar de encará-la, a recuperação de seu corpo era incrível. Há dois dias quando passaram a noite em Moscou ela estava desfigurada, ontem uma pele extremamente vermelha e enrugada substituira as áreas carbonizadas. Agora podia ver, mesmo de perfil, que seu rosto atingira uma coloroção homogênea, traçando sua beleza angulosa. Estava frente a frente com uma vampira e, pelo visto, o que falavam sobre a rápida recuperação era verdade:

- Você está melhor - falou

- É... - a outra murmurou, os olhos perdidos na noite emoldurada pelo batente da sacada a sua frente.

Lilian notou como a fraca iluminação do quarto era suficiente para que visse a casa com outros olhos, especialmente com o silêncio que pairou entre elas, ouvia-se apenas o som do vento movimentando portas e cortinas. A casa secular parecia murmurar uma estória melancólica e a criança mordeu os lábios ansiosa para algum assunto surgir em sua mente. Poucas vezes nesses dois dias ficara junto da vampira e raras foram as palavras trocadas. Ao contrário de muitos adultos que conhecia, a imortal não fazia a mínima questão de agradá-la ou fingir que se interessava por algum de seus assuntos infantis. Não perguntara sobre seu ano na escola, se tinha muitos "coleguinhas", se seu adorável sotaque era do sul da Irlanda, se seus olhos avelã eram de Hans, e, o que mais desagradaria Lilian, se escovara os dentes a noite. Sem esforço, a amiga de seu pai a conquistara, pena que não era recíproco. Se fosse, a criança indagou em pensamentos, ela não teria se apresentado com um nome falso.

"Agatha" lembrou. O hesitar na voz quando se apresentou a fez ter certeza que este não era o seu nome. Talvez não confiasse em magos, como muitos de seus conhecidos não confiavam nos vampiros. Pouco Lilian sabia sobre eles, mas já ouvira mais de uma vez Cathir apelidando-os de cadáveres. Não entendia muito bem a referência, se eram cadáveres, os machucados não se recuperariam, sua pele apodreceria, federiam! Respirou fundo a fragância do chá de eucalipto e encarou a silhueta concentrada no horizonte:

- Aquelas marcas, queimaduras, não eram por causa do fogo, eram? - perguntou, colocando a mão no queixo.

- Não se lembra mesmo do que aconteceu antes do incêndio? - a vampira tocou uma cicatriz em sua palma - Não se lembra de Mikhail? - perguntou esticando as pernas e cruzando-as em seguida.

A menina engoliu em seco ao ouvir o nome do vampiro, a náusea que sentia na presença dele voltara como se estivesse ao seu lado. Esse enjôo ela se lembrava muito bem, mas não havia nenhuma lembrança viva dele que pudesse relacionar às queimaduras de Agatha. O pouco que conseguia lembrar de Mikhail envolviam seu detestável raptor e não a criatura misteriosa a sua frente. Ou talvez não quisesse lembrar. Por menos de um segundo, formou-se em sua mente a imagem de uma luz intensa envolvendo um salão lúgubre. Lilian tocou nos dedos da mão esquerda, notando a pele arranhada nas pontas, eram sutis cicatrizes. Sentiu um arrepio ao se lembrar de uma fome incontrolável invandindo-a:

- Ele me mordeu, não foi?

- Não - a outra sussurrou, encarando a criança pela primeira vez na noite - mas ele bebeu seu sangue - completou, observando a mão esquerda da menina, cujos olhos se arregalaram.

Lilian colocou os lábios para dentro como se tentasse apagar aquele desejo por sangue que sentira no vampiro. Olhava pro chão, determinada a não lembrar mais nada do seu sequestro:

- Ei, criança, olhe para mim - Agatha desencostara da poltrona e se inclinara para a menina - Quando ele bebeu seu sangue, algo o enfraqueceu e eu pude derrotá-lo, então não pense no quão desagradável foi - seus dentes pontiagudos se destacaram entre as falas - Pense que talvez não estaríamos aqui se não fosse pelas suas gotas de sangue - os olhos cinza da vampira demoraram a piscar, concentrados na face assustada a sua frente.

Lilian movimentou a cabeça afirmativamente, puxando a saia para conseguir se afastar de Agatha. Não queria mostrar as lágrimas prestes a molhar as bochechas. Foi até a sacada que emoldurava a vista noturna que a adulta adimirava, ficando de costas para ela. O problema não era o sangue e sim essa quantidade de estranhas emoções que mesclavam-se as suas, mas não queria explicar isso a vampira, como ela entenderia seu poder? Preferiu esconder a expressão chorosa, olhando os pinheiros escuros no horizonte. Estava farta dos novos sentimentos que experimentara essa semana, definitivamente, precisava voltar para casa antes que começasse a odiar sua habilidade. Apreciou o vento resfriando suas bochechas úmidas e fechou os olhos pensando no que seu pai falaria:

- Achava que vampiros gostassem de sangue mago - disse baixinho, enlaçando os dedos nas ferrugens da grade.

- Depende do vampiro - escutou a outra responder.

- E você? - Lilian se virou, aguardando a resposta timidamente apoiada nas barras de ferro

A criatura a encarava misteriosa. Sorriu, os caninos à mostra reforçavam a comparação selvagem que a criança fizera anteriormente:

- Essa sua face curiosa é idêntica a do seu pai - atestou se acomodando no estofado, cruzou os braços abrindo mais o sorriso - Sim, eu gosto.

Lilian não queria demonstrar temor, mas sabia que suas sobrancelhas a traíram por átimos de segundo, e, talvez por isso, a adulta continuou:

- Mas, veja, eu não bebo sangue mago para me alimentar como Mikhail fez com você. Sangue mago tem um efeito peculiar nos vampiros da minha linhagem. Nós tomamos para conseguirmos ... - pausou, umidecendo os lábios - manter o foco em algum objetivo e faz tempo que não sinto essa necessidade, então, faz anos que não bebo - viu que a garota ia perguntar mais alguma coisa, mas ela não deixou - E não, seu pai não foi o último mago que eu mordi, nunca tomei o sangue de Hans - disse, o rosto assumindo uma expressão sombria - E não vou tomar o seu.

Novamente Lilian tentou falar algo, mas a vampira a interrompeu:

- Então, não precisa se preocupar, pense em mim como uma reles policial te levando para casa - desviou do olhar da criança e se inclinou para pegar a garrafa térmica no chão.

- Eu prefiro pensar em você como você é - Lilian deu de ombros, esperando que ela voltasse a encarar seus olhos.

- Um "cadáver?" - perguntou se servindo de mais chá.

- Uma amiga do meu pai - disse sorrindo tristemente.

Agatha fechou a garrafa, sem falar nada, concentrada na tampa. Confusa com a indifirença da vampira, Lilian sentiu um aperto no peito sem saber se a melancolia que lhe invadia era sua ou da criatura imortal. Pensou no pai e sentiu o coração acelerar como nunca antes, uma mistura de preocupação, saudade e carinho.

Era por isso que ele mudava de assunto rispidamente quando criticavam vampiros. Agatha não era apenas uma amiga.

4 comentários:

Cátia Ana disse...

Gostando cada vez mais da Ekha e da Lílian. Mesmo nos momentos menos frenéticos de luta a narração é ágil e cativante, muito bom.....

Thiago disse...

Esta cada vez melhor. Acredito que esse seja um dos melhores contos que voce já escreveu. Adorei. Desde as falas da Eka, quanto a expressao da Lilian, TUDO esta muito bem colocado. Muito bem explorado! A descricao do local e da situacao tambem esta perfeita. Mas falando o que interessa de verdade, esta muito cativante, confesso.Muito legal mesmo! Quero ver logo elas agindo com o Hans!!!

Lucas T. Costa disse...

Lilian é a sua melhor personagem... SO FAR! Own, tão fofa, pura e inocente *_* me cativou logo no primeiro paragrafo. Ash monstro, usando um anjo desse para seus intentos crueis i.i"

Ekatherina sobe cada dia mais no meu conceito <3

Anônimo disse...

Mas!!!! e agora vai parar? esperamos outras histórias e ocntos que só voce especialmente saber fazer. Parabéns. bjs LE