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Dragões de Gelo - pt. I


Olá, pessoal! A pedidos, inicio aqui um pequeno arco contando um pouco mais sobre o Uriel e o Logan. Não será tão extenso quanto o da Sasha, fiquem tranquilos :P e sintam-se a vontade para crificar ou opinar no que acharem necessário. Um grande abraços a todos, e apreciem a leitura!

Ps: A música utilizada no post chama-se Ring of Gold, da banda sueca Bathory. Para ouví-la, clique aqui.

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Silver, the moon high over pond of water calm and dark
Woe, mist, the breath of the dragon, sweeping down mountain side

O lugar estava exatamente como se lembrava dele: branco, imaculado e silencioso. Nem mesmo as correntes de ar glacial –que fustigavam exaustivamente as duas silentes figuras- pareciam produzir ruído naquela imensidão de gelo secular. A figura mais alta e esguia caminhava um pouco mais atrás, apertando contra si o espesso casaco de peles, quase convulsionando de frio, embora de suas mãos e do seu hálito fluísse uma tênue e quase imperceptível luminosidade âmbar. Era como se estivesse envolto por um véu etéreo que, parcamente, isolava seu corpo do ambiente externo, e apenas por esse motivo ele não tinha congelado.

- Eu reconheceria este cheiro mesmo em mil anos.

- ...Há quanto tempo você não vem a este lugar?

O outro homem, ao contrário do que trajava negro e se assemelhava a um enorme corvo, era alguns centímetros mais baixo e possuía uma musculatura visivelmente mais avantajada. Seus cabelos loiros, na altura dos ombros, dançavam ao sabor da tempestade e ele caminhava com tamanha austeridade que não parecia sentir os ossos, os músculos e as veias prestes a congelarem. Seus olhos azuis miravam sempre o horizonte alvo, suas pálpebras semicerradas e os lábios crispados indicavam o quão nostálgica aquela vista era. O quão bom era estar em casa.

All still, the day asleep, the sun rests in nest of the Gods
Afar high adventures await me, I hear my brothers calling

- Parece que foi há uma eternidade.

Subitamente, tão familiar como as carícias do vento sobre sua pele marmórea, uma voz se fez presente. Talvez o mago ao seu lado não conseguisse ouvir, não tinha a audição apurada como ele, tampouco compartilhava do elo fraternal do qual ele e o dono daquela voz podiam se valer. Era o seu mestre, seu irmão, seu amigo, muito embora não fosse o seu criador, aquele homem fora o responsável pelo que o imortal era hoje.

Spring is here and the ice breaks free
The endless sky and open sea
I will sail where the Raven will lead me
Fly on black wings, high and free

- Você está ouvindo? – Perguntou inutilmente, virando o rosto e encarando o humano por cima do ombro. Este, entre um espasmo e outro, apenas meneou a cabeça e o encarou com olhos ferozes; o nariz adunco e a vasta cabeleira negra esvoaçante apenas corroboraram para enraizar na memória do vampiro a imagem de um enorme corvo mal encarado.

- Falta muito? - Foi o que ele respondeu. E então o loiro sorriu, insuflando no mago uma nova onda de revolta –que não fora expressa, por medo de perder a concentração no encantamento protetor.

- Não, é logo ali. Não se preocupe, não deixarei você morrer congelado, se esta é a sua preocupação. Eu tinha esquecido como o inverno por aqui pode ser rigoroso.

- Não, você não tinha.

O loiro deu de ombros, continuando a caminhar.

De fato, não tinha, apenas gostaria de apreciar o percurso que fizera milhares de vezes, por milhares de noites passadas. A neve se encarregava de deixar tudo exatamente como era, cobrindo as evidências de que o tempo também imperava sobre sua terra natal, que muito se assemelhava a uma pequena parcela do Hel à deriva sobre o Atlântico. Nada mudara. Nunca mudaria, o que tornava a Islândia a perfeita morada para um vampiro, que também sempre continuaria o mesmo.

I shall return with the wind the day
From high adventures, swelling sail
Autumn red comes to Asa bay

E esse vampiro poderia viver na ilusão de que sua realidade nunca se alteraria, não teria que lidar com a estupidez humana, nem precisaria fingir que não notara que, embora sua face permanecesse a mesma, os olhos revelavam cada vez mais o brilho de uma erudição indesejavelmente cansativa. Não que a pessoa a qual ele desejava encontrar buscasse isso, era óbvio que ele estava ali simplesmente por que gostava da calmaria, e apenas por isto.

- É ali. Vê a casa de pedras? – Perguntou o imortal, apontando para o local indicado. Algumas árvores sem folhas balançavam ameaçadoramente ao redor da construção, como que prestes a serem arrancadas do gelo pela nevasca que piorava a cada instante. – Estamos prestes a adentrar a morada de um dos mais antigos e poderosos da minha raça, Logan... Ele não faz distinção entre vampiros, magos ou humanos, mas eu realmente apreciaria se você não fosse desrespeitoso. Ele é como... – Ponderou por um segundo, antes de completar: - Um pai para mim.

Meet me by the well where the water, crystal clear, flows free
From deep within the great mountain towering to the sky

- Pensei que o seu criador fosse Azrael. – Apontou o mago, com certa amargura escapando de seus lábios junto com o ar condensado. – E pode ficar tranquilo, a única coisa que eu quero agora é sair daqui. Uma discussão com seu... pai apenas retardaria o nosso regresso. – Crispando os lábios, Logan apertou os dedos em torno do objeto que trazia consigo e estendeu-o ao vampiro, encarando-o por trás das lentes dos óculos levemente embaçados pelo frio. – Vou apenas quebrar esta porcaria de encanto e ir embora deste lugar. Tome, o metal da bainha está incomodando os meus dedos.

- Hm. Obrigado, Logan. – Respondeu o outro, levemente distraído pela voz melodiosa de seu amigo, que ainda ecoava pela planície de gelo. Desta vez, ele percebeu pela sua expressão, o mago também conseguia ouvir os versos maravilhosamente entoados pela criatura sobrenatural encerrada entre aquelas paredes de pedra. Sorriu. – Agora, uma pergunta: o quê disposto você está a fazer para que saiamos daqui ainda esta noite?

I will be awaiting you coming down treading the trails of clues
Bare feet, let your hair down like the mist across the pond

O mago apertou os dedos incandescentes em torno do cachecol azul-escuro, e engolindo em seco, disse: - Desde que não comprometa a minha integridade física, nem crie um elo inquebrantável com este... ser, qualquer coisa.

Uriel sorriu novamente, um pouco mais largo, evidenciando desta vez os pequenos e pontiagudos caninos de vampiro. Os olhos azuis do imortal pareceram, subitamente, emitir um brilho mais caloroso do que o feitiço do mago, que agora começava a perder força.

– Que bom. Vamos entrar então, Egor tem uma lareira lá dentro que o ajudará a se aquecer.

Uriel adentrou a casa sem cerimônia alguma, apenas retirando um molho de chaves do bolso e enfiando uma delas na fechadura. Um segundo depois a porta fora escancarada por uma rajada de vento, jogando grande quantidade de flocos de neve e gelo sobre o carpete antigo. Uma onda bem-vinda de calor emanou do interior, e os olhos sempre tão inquiridores e críticos de Logan logo se converteram em dois orbes iluminados e esperançosos. Uriel, com um sinal cortês, convidou-o a entrar, o que o mago fizera antes mesmo que o vampiro pudesse completar o gesto.

In dawn of time, before gods and man
When earth and shy was first divided

- Fique à vontade, apenas não toque em nada. Ele não aceita que mexam em suas coisas, já tentei convencê-lo a contratar uma governanta, mas é inútil. – Informou o outro, adentrando também o recinto e fechando a porta atrás de si. Uriel despiu o cachecol vermelho e o casaco, ficando apenas com uma fina camisa social branca; ao contrário de Logan, que continuava tão agasalhado quanto antes. – Você não vai tirar o casaco? – Perguntou o imortal, erguendo as sobrancelhas.

- Tenho certeza que o seu amigo compreenderá que, se eu o fizer, congelarei tão logo. – Disse o mago entre dentes. O loiro sorriu, complacente. – Vamos logo, Uriel! O sol nascerá em menos de quatro horas, e se demorarmos demais eu não terei energia para me manter aquecido, quebrar o tal selo, e nos teleportar de volta.

A star did fall into river deep
A star of gold into silvery water

- Hm. Desculpe, caro amigo. – Desta vez, Logan não ousou questionar a alcunha. – Vamos, é por aqui.

While I sail, by this you shall remember me
Wear it, yours forever to deep

A cada passo dado, a voz da criatura que se embrenhava nas sombras tornava-se cada vez mais audível; Logan pensou que, se aquele homem ensinara ser Uriel a ser quem era hoje, e se possuía uma voz tão bela, não poderia ser tão mal assim. Embora não gostasse de vampiros, tinha que dar o braço a torcer: alguns possuíam características verdadeiramente louváveis.

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To bind us beyond end of time, to thee I give a ring of gold

- Boa noite, Egor.
- Boa noite, Svar, filho de Forseti.




Continua em: Dragões de Gelo: pt II

5 comentários:

Cátia Ana disse...

Own... finalmente Uriel... \o/! amei...

Aline disse...

ownnnn!!!! Fofoso power o capítulo. A narrativa juntamente com a letra da música e esta em si ficou uma combinação foda!
\o/ *joga purpurina em Logan e Uriel depois de afofá-los* (oi?)

E o Ash quando aparece na história novamente? u.u

Heluiza Bragança disse...

Uriel e Logan são uma dupla muitoooo legal de explorar. Já te disse, Lucas, a narrativa ficou ótima, o ambiente envolveu pacas.

E... essa música casou demais, com o tema. Loved!

Heluiza Bragança disse...

Nossa, Logan pokemon do uriel, HAHAHAHAHAHA, eu ri muito com esse comentário hahahaha. Pobre, Logan...

Lucas T. Costa disse...

Tudo intriga da oposição u.u ele não é nem pokemon, nem apaixonado pelo Uriel! ò.ó