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Orgulho Real - pt. I

Continua em: Orgulho Real - pt. II

Estocolmo - 19:57

Corria a ponta do indicador pela borda da taça, cujo líquido rubro repousado no bojo permanecia intocado, esperando, de alguma forma, produzir um daqueles sons que já presenciara tantas vezes os humanos extraírem do cristal. Inútil. Tentou outra vez e nada, de forma que logo se limitou apenas a contornar o buquê do cálice distraidamente, o rosto pensativo apoiado na outra mão espalmada, os dedos tamborilando nas bochechas pálidas. Não estivesse na presença de um General vampírico tão poderosa e influente naquelas bandas, com certeza permaneceria incógnito no meio do restaurante, tamanha a sua habilidade de se camuflar entre os medíocres e insignificantes - embora ele não compartilhasse destas características.

- Eu sinceramente não entendo por que você marcou um encontro aqui. Nem comer podemos. – Apontou a mulher loira, erguendo as sobrancelhas e encarando o outro com os olhos azuis penetrantes. – Você quer pedir alguma coisa para disfarçar, ou vai dizer ao garçom que somos vampiros?

- O dono daqui é meu amigo, ele sabe o que eu sou. – Respondeu ele simplesmente, após um longo suspiro que mesclava tédio e pesar.

- Amigo?

- Conhecido, na verdade. É um tarado qualquer, freqüentador assíduo da boate do Alexis, você sabe... – Contraindo o rosto em uma careta de descaso, o imortal abanou a mão displicentemente como se aquele gesto tolo fosse fazê-la entender o que ele queria dizer. Surpreendentemente, a imortal balançara a cabeça e concordara, pegando o menu sobre a mesa, abrindo-o e começando a examiná-lo com um ar pretensamente interessado.

- Sei. Fornicaraz. – Disse ela.

- É! – E outro suspiro. Aprumou a coluna por fim, adotando finalmente uma postura mais séria e austera, fazendo-a erguer os olhos por cima do cardápio e fitá-lo com desinteresse. Charlotte sabia o motivo dele ter aparecido em Estocolmo, mas desconhecia o porquê de ter exigido encontrá-la em um local tão... mundano, exposto e definitivamente nada adequado para dois vampiros confabularem. Uriel sorriu, tomando gentilmente o menu das mãos de Charlotte antes mesmo que ela pudesse detê-lo, prendendo-o sob a mão espalmada sobre a mesa e cravando os olhos nela. – Eu marquei o encontro aqui por que, no meio de tanta gente, uma briga seria extremamente inconveniente...

- Para você? – Desdenhou ela astuciosamente.

- Definitivamente. Eu não gosto de perder a calma. – A voz de Uriel baixou até se tornar apenas um sussurro, e inclinando-se para frente, como um amante a se aproximar da cúmplice, sibilou: - Para mim, com certeza seria inconveniente. Para você, por outro lado, seria apenas vergonhoso. Agora, simplesmente me dê o que eu vim buscar, Charlotte.

A mulher empertigou-se, momentaneamente desconcertada com a franqueza do homem. Piscou uma ou duas vezes, antes de afixar novamente o olhar sobre a face de mármore esculpido de Uriel e perguntar com o ar mais dissimulado e sonso que conseguiu exprimir: - E o quê você veio buscar, meu querido?

- As minhas mãos. – Mais alguns centímetros vencidos, de forma que a mulher inconscientemente arqueou a coluna alguns graus para trás, distanciando-se um pouco. – Eu quero as minhas mãos, General, e se você não me entregá-las, eu mesmo hei de arrancar a sua cabeça e levá-la comigo de volta a Berlim.

- Você já tem mãos novas agora, Uriel, querido! – Um sorriso cáustico aos poucos tomava o lugar das linhas sem nitidez em sua face, preenchendo o seu rosto de adolescente com a expressão essencialmente malévola que lhe era tão característica; como se tivesse nascido com ela, tamanha a perfeição com que ela se encaixava sobre sua tez. – Mãos muito mais bonitas por sinal. De pianista. São meio femininas, não são? São da Sasha?

- Da marionete que ela usou. – Respondeu ele francamente, agora voltando à posição inicial na cadeira. O garçom se aproximava e perguntou se eles queriam fazer o pedido. Charlotte simplesmente negara com a cabeça, mas Uriel pediu alguma bebida quente, talvez uma caneca de café ou chá. O humano olhou para ele desconfiado, pois em um estabelecimento luxuoso como aquele não era lá muito comum que os clientes –em especial tão elegantes e aparentemente ricos- pedissem apenas café ou chá. Mas o homem loiro apenas fez um gesto com a mão, dispensando-o, e voltou a atenção novamente para a vampira à sua frente: - Ela é bastante talentosa, faz jus à fama.

- Ela é uma oficial da Inquisição, Uriel, você queria o quê?

- Alguém não tão atraente, com certeza. – Confessou, o fantasma de um sorriso se espalhando pelos seus lábios, exibindo os caninos afiados por um átimo de segundo. – Bonita, talentosa e destemida. Um achado, realmente. Ela entrou no meu ninho fazendo o maior barulho, quebrando coisas...

- Ela me disse. – Riu a fêmea.

A gargalhada não fora acompanhada por Uriel, embora ele ainda sorrisse. Encarou Charlotte fixamente por alguns segundos, não se detendo nem mesmo quando o garçom aparecera ao seu lado e depositara sobre a mesa uma caneca de chá fumegante. A nuvem de fumaça que se erguia, espiralando entre os dois vampiros, e era a única coisa que se movia na linha onde os seus olhos se cruzavam. Encaravam-se tão cálida e ao mesmo tempo tão intensamente como duas víboras prestes a dar o bote. A vontade de ambos naquele momento era, sem dúvida, agarrar e estraçalhar o pescoço do outro com os dedos, e refestelar-se em seu sangue. Eles se odiavam, e sempre fora assim, embora naquela ocasião o sentimento que geralmente se encontrava latente, estivesse à flor da pele.

- Você continua bonito. – Ela disse por fim, desviando os olhos dos dele em um sinal claro de inferioridade, correndo a ponta do dedo pela xícara de porcelana branca e quente. Um leve tremor, um novo sorriso de regozijo.

- Vampiros não mudam, minha cara, você deveria saber disso melhor do que ninguém.

- Você é mais velho. É mais sábio e experiente.

- Você é mulher. – Disse em tom de fim de conversa, puxando a xícara para si e entrelaçando os dedos ao redor dela, a fim de sentir o calor sobre a pele, aquecendo a carne morta das mãos que não eram suas. – Eu não tenho toda a paciência do mundo, Charlotte. Eu quero as minhas mãos.

- Por que você insiste tanto nesta tolice, Uriel? Parece um menino mimado, chorando por um brinquedo que perdeu!

- Talvez eu seja isso mesmo. – Concordou ele, sorrindo genuinamente mais uma vez. Embora a tensão no ar fosse quase palpável, o vampiro simplesmente não conseguia evitar. Era o seu jeito, aquele jeito que geralmente irritava pessoas como Charlotte e a sua cria, Alexis, ou que apenas lhe garantia a indiferença deste seleto grupo de imortais que não apreciavam sua companhia.
– Mas elas são minhas, e por isso as estou reclamando de volta. Eu as teria dado de bom grado se me pedisse, mesmo não nutrindo nenhum sentimento virtuoso por você. Não me custaria nada.

- Me dê então.

- Não.

A mulher bateu com as duas palmas sobre a mesa, fazendo o arranjo floral do centro, bem como a porcelana e os pequeninos talheres de prata tilintarem ruidosamente. Os lábios crispados e os olhos azuis fumegando sobre a figura austera de Uriel, que ainda sorria. Fora a vez dela se inclinar para frente, os cabelos loiros cascateando pelos ombros e pendendo no vazio, enquanto o rosto de menina aproximava-se cada vez mais do dele. Ela, possessa, e Uriel, quase indiferente ao seu estado.

- Não foi um pedido, Uriel. Eu não vou devolvê-las, elas não pertencem mais a você. – Sibilou ela como uma serpente, o hálito inodoro e frio beijando a pele igualmente gélida do homem. – Elas são minhas!

- Ora, e você dizia que pareço um menino mimado. Somos duas crianças muito malcriadas então, minha cara, por que você agora aparenta ser tão odiosa quanto eu.

- URIEL! – Alteou a voz, atraindo olhares de censura dos humanos que os rodeavam. O burburinho cessou por uns bons segundos, de forma que nem ela e nem o vampiro se pronunciaram naquele meio tempo para não evidenciarem a todos o teor da conversa. Quando, paulatinamente, os outros clientes retomaram as rédeas de suas próprias vidinhas miseráveis, ela repetiu em um sussurro perigoso: - Uriel!

- Charlotte. – Chamou o vampiro, afastando displicentemente uma mecha dos cabelos da vampira que ameaçava cair dentro do chá e colocando-a para além da borda da xícara. E só então a encarou nos olhos uma vez mais, o rosto agora talhado em uma expressão absolutamente ilegível.

- Do que você me chamou?

– Deve ser muito difícil para você, não é, perceber que eu ligo para os seus caprichos? – Suspirou pesadamente, os dedos novamente tecendo uma teia em volta do recipiente quente. – Veja bem, eu não sei se você sabe, mas sou o criador de Alexis...

- Ashtaroth, eu sei. – Interrompeu.

- Alexis. O nome dele é Alexis, Charlotte. Embora ele, de fato, goste que vampiros inferiores e mortais o tratem por este nome desprezível. – Seu rosto fora marcado por uma expressão de desgosto que não durou nem uma fração de segundo para sumir, dando prosseguimento: - Então, eu realmente acho que você deveria engolir esse seu orgulho completamente infundado e ir aprender um pouco sobre como ser chantagista e manipulador com a minha cria. Por que perto dele, General... Tsc...

Charlotte sentou-se novamente, o rosto tremendo de ódio e vergonha. Podia-se até mesmo notar a formação de minúsculas lágrimas em seus olhos, que ela se apressou em limpar com o guardanapo, não ligando muito para as pessoas que a olhavam com desconfiança e censura. Pior seria se começasse a chorar sangue no meio de todo mundo, aí eles olhariam para ela com terror e veriam que por trás daquele rostinho angelical de adolescente se escondia um monstro tão horrendo quanto...

- Pois bem. Esta é a minha palavra final, e o encontro que você marcou foi inútil. Como você está na minha cidade, tem uma hora para sair daqui ou...

- Ou você joga os seus asseclas e suas quimeras em cima de mim. – Concluiu ele, olhando-a se erguer da cadeira e atirar o guardanapo de algodão manchado de sangue sobre a mesa. Uma das pontas eventualmente foi parar dentro da infusão de ervas do vampiro, e o tecido começara a aspirar rapidamente o máximo de líquido que conseguiu.

- Exatamente.

- Tudo bem então. Se eu não estiver longe daqui uma hora, você pode fazer isto. – E sorriu, levantando também e deixando sobre a mesa uma nota que valia pelo menos cem vezes mais o valor do chá.

- Ótimo.

- Apenas esteja avisada, minha cara... – Fez uma reverencia para ela, inclinando rapidamente a cabeça loura em sua direção, como um servo que se prostra obedientemente diante de sua Senhora. Porém, as palavras que saíram de sua boca não condiziam em nada com aquela atitude passiva e nem com a educação esmerada que se empenhava tanto em exibir para todos os convivas, vampíricos ou não: - ...de que mais cedo ou mais tarde eu voltarei para reclamar algo de igual valor, afinal, você me deve... E eu hei de cobrar, nem que para isto eu precise dizimar toda a sua corte e fazer o seu reinado ruir.

Continua em: Orgulho Real - pt. II

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