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Tempo


Cronologicamente os acontecimentos desse conto ocorrem durante a Crônica Resgate. Você não precisa ler os posts da Crônica para conseguir entender o conto, mas caso se interesse pela estória ela começa aqui. Boa leitura!

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"Doze minutos"

Pensou, sem parar de raspar o pedaço metálico na algema. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto. Agoniado por não poder limpá-la, respirou fundo e abriu os olhos. Privaram-no de muitas coisas nesse calabouço, mas a visão era a que mais lhe fazia falta. Três semanas, quatro dias e um pouco mais de oito horas observando basicamente esse maldito tecido roxo. Ele movimentou os pulsos presos e sorriu, ignorando dos cortes se abrindo. Faltava pouco para se livrar das amarras.

O barulho da chuva se intensificou, inspirando-o a continuar a cravar as insígnias na algema. Queria sair e sentir as gotas despertando seu corpo atrofiado pelo confinamento.

"Talvez em dez minutos..."

Disse para si mesmo, concentrando-se em raspar o traço final da última letra no invólucro de ferro. Fazia às cegas, apenas seguindo os arranhões da palavra que escrevera inicialmente na superfície escura. Confiava em sua percepção espacial, e principalmente em sua noção de tempo.

Oito minutos era o que faltava para um de seus carrascos entrar no recinto para lhe alimentar e reforçar suas amarras. Trinta minutos foi o que ele demorou para finalizar cada símbolo necessário para sua soltura. E em menos de um minuto finalizaria a base do "E". Como esse reles humano de aparência abatida e cheiro duvidoso tinha tanta certeza desses dados temporais? Bem, pode-se afirmar que ele tem uma preciosa "habilidade", facilmente diagnosticada como um transtorno obssessivo pela contagem dos segundos. Porém, ao contrário dos mundanos que enlouqueceriam com essa capacidade, o prisioneiro convive e tira proveito dela como se fosse o pulsar de seu coração. Hans Ackart está longe de ser um humano qualquer.

Sentia seus dedos enfraquecidos pelas últimas duas horas totalmente dedicadas a esculpir na algema, mas as pontadas de cãimbra não o intimidavam. Mordeu o tecido que lhe tampava a boca, excitado pelo desafio de escapar a tempo.

Largou a lasca metálica e tocou como conseguia na algema. Os dedos tremulavam sobre a superfície fria e ele murmurou pausadamente. As palavras alemãs foram abafadas pela mordaça, mas ele mordeu o tecido e falou entre dentes:

- Zeit, Zeit. Die 'neue' wird zur 'alten'. Zeit, Zeit. Eisen zu Rost *

O movimento dos dedos tornou-se vagaroso a medida que uma textura enrugada começava a preencher as lacunas das insígnias mágicas. Em alguns minutos, a ferrugem tomou conta do objeto e o mago ouviu um "click". A algema rachou, afrouxandos os pulsos.

Ele colocou o objeto no chão e rapidamente retirou as fitas que prendiam seus ombros ao peitoral. Levou a mão ao rosto, tateando a barba por fazer e puxou sua mordaça, molhando os lábios rachados. A fraca iluminação irritou sua vista quando tirou o véu, porém, sem hesitar e sem perder o sorriso, continuou a puxar as fitas roxas que o imobilizavam em pontos estratégicos.

Encontrando equilíbrio na parede enrugada, levantou-se vagaroso. Ignorando a dor nos músculos, forçou-se a caminhar até a porta, o ouvido atento a qualquer barulho diferente das gotas de chuva. A ansiedade poderia lhe fazer errar a contagem, talvez estivesse adiantado ou atrasado. Não importa, o que interessa é que conseguiu se livrar antes do carrasco chegar:

- Faltam no máximo dois minutos – afirmou em um sussurro.

O General fora esperto em lhe privar da fala e da visão, mas o jeito mais eficiente de lhe prender seria com algum encantamento. Ela, como uma Cruentus Umbra, uma devoradora de sangue mágico, deveria saber muito bem disso. Debilitar os movimentos de um novato seria o suficiente, mas de um experiente como Hans era no mínimo irresponsável.

Passou os olhos pelo minúsculo cômodo sem janela e se segurou para não rir. Mesmo sem enxergar os detalhes pela falta de seu óculos, concluiu que o constraste das fitas roxas com as paredes ásperas lembravam muito um quarto masoquista.

O barulho próximo a porta arrancou a expressão cínica do mago. A maçaneta girou e a porta do cômodo rangeu. Hans esperou os primeiros passos de seu carrasco para, então, colocar rapidamente todo seu próprio peso contra a madeira. O corpo do vassalo bateu com força no arco, derrubando a pequena bandeja que trazia. Ele quase tombou para fora da cela, mas o mago não deixou, puxou-o pela gola e o levou até uma das paredes do ambiente estreito:

- Shiuuu – seus lábios emitiram em um sopro. O pedido suave contrastava com a frieza violenta com que imobilizava o outro.

Pressionava a traquéia com o antebraço, aumentando a pressão com a outra mão, sua face animada encarava confiante a do humano assustado. Esse tentou se desvencilhar do prisioneiro, empurrando-o inutilmente; logo seus olhos fecharam e ele desmaiou. Hans o arrastou e retirou sapatos e meias, calçando-os em seguida. O acessório ficou largo em seu pé, entretanto era melhor que continuar descalço no chão gélido. Debochado, olhou-se arqueando as sobrancelhas. Pensou por alguns segundos como estava ridículo vestindo sua roupa social, imunda e surrada, e calçando sapatos de brilho impecável.

Há quanto tempo ele não tomava banho? Isso também pululava por trás da expressão jovial, mas segurou a contagem de tempo que iniciara em sua mente quando viu o copo caído no chão. Se pudesse ter algum luxo cotidiano agora, seria o de beber água, concluiu.

Molhou os lábios e espiou pela fresta da porta entreaberta: o suntuoso forro floral cobrindo as paredes disfarçava bem o que acontecia por trás daquelas portas. Somou-as, eram cinco no pequeno ângulo de visão que observava, seria pelo menos o dobro no restante do túnel. Impossível achar tempo hábil para entrar de cômodo e cômodo para procurar pelo menos seus documentos.

“E se a caixa da Ain Soph estiver aqui?” se perguntou, os olhos avelã estreitando de curiosidade. Respirou frustrado, se convencendo de vez a esquecer de procurar qualquer pertence, especialmente o objeto que o metera nessa enrascada. Abriu a porta de sopetão, e invadiu o corredor a passos acelerados.

O ar rarefeito confirmou que o General o prendera em um andar subterrâneo de alguma mansão colonial. Provavelmente, sua própria morada. As portas passaram de pequenas a grandes e duplas, e Hans forçou a visão no fim do corredor, desconfiado de que não houvesse uma escadaria naquele lugar. Surpreendeu-se ao reparar a mudança de luminosidade naquela parede inerte, parecia agora enxergar seus detalhes de pedra e ao centro uma grande rosácea. Piscou, reconhecendo a visão e, no segundo piscar, observou que toda a parede de forro roxo se transformara naquele túnel de pedras escuras.

Ao invés de diminuir os passos perante a estranha mudança de ambiente, ele aumentou a velocidade em direção ao vitral, queria verificar se sua visão não lhe pregava uma peça, se era exatamente o que ele estava pensando. Então ouviu passos próximos e uma voz grave sussurrou docemente:

- Dr. Ackart, aprontando de novo ...

Hans virou-se assustado para a figura feminina que se emparelhou ao seu lado. Reconhecendo-a, parou de repente e ela se dissolveu em sombras, assim como o túnel de pedras. Era uma ilusão. Sentiu alguém o puxando contra o chão e caiu com um estrondo, gemendo quando sua nuca bateu forte na maçaneta de uma porta. Desmaiou.

Uma tremenda dor latejava em sua cabeça. Encarou o teto de madeira fazendo um muchocho, não sabia quanto tempo perdera. Sentou com dificuldade, agora a adrenalina não o deixava ignorar as dores do corpo atrofiado. Formando rugas na testa, encarou o imortal parado em uma das paredes escuras:

– Seu filho da puta, você usou uma lembrança.

- Sou um filho da puta e você, Hans, é um tremendo idiota. – disse o jovem vampiro, cruzou os braços e balançou a cabeça em negação - Sabe o que Nicole fará com você se descobrir isso?

Indiferente, o mago observou os novos grilhões envolvendo seus pulsos e brincou com o som da corrente forçando-a repetidas vezes. Torceu para que fosse embora, ouvir uma ladainha vampírica agora seria indigesto. Reviver por alguns segundos aquela lembrança deixou-o mais frustrado do que não conseguir escapar, seu humor azedara completamente. Colocou os fios castanhos atrás das orelhas e focou nas rachaduras do chão, tentando em vão não pensar na criatura soturna que se materializou por alguns segundos.

– Se o General descobrir essa sua pequena rebeldia, sua cabeça vai rolar, independente do que foi combinado com a sua “amiga” – ameaçou, formando aspas no ar – Ela ainda tem duas semanas para cumprir o pedido, antes disso, se você tentar sair, ou sair... – balançou novamente a cabeça em negação, os fios negros caindo sobre os olhos - Você será caçado pelo resto da sua vida.

- Sorte que minha vida não é longa como a de vocês - o prisioneiro resmungou, sorrindo taciturno, cerrando as pálpebras e apoiando a cabeça dolorida na parede. Vampiros não se cansam de fazer essas ameaças, apenas uma imortal pareceu entender que ter a vida ameaçada é o que fazia Hans valorizá-la tanto. Não via graça em viver paralisado pelo medo de alguma coação e sinceramente achava um convite à rebeldia esse tipo de declaração - Quer que eu agradeça por você me impedir?

O vampiro riu, cínico:

- Impressionante como você fica estressadinnho quando lembra dessa Ingenium. Justamente a protagonista das suas memórias! A primeira que aparece na sua mente quando procuro algo para brincar com você. Não entendo esse mau-humor, Dr. Ackart - sussurrou, dando uma piscadela.

Quinze anos, oito meses, três semanas e dois dias de idade tinha aquela lembrança. Mais uma que ao longo dos anos, como todas envolvendo aquela vampira, se tornara uma nostalgia amarga. Forçou novamente a corrente da algema e abriu os olhos, disposto a mandar Adrian pro inferno. Porém, não o achou.

Hans observou as paredes do lugar, procurando por onde o vampiro saiu. O cômodo não tinha portas. O rosto do mago pareceu rejuvenescer quando seus traços cansados formaram uma expressão jovial e ele riu. Sentia o ânimo voltar ao corpo. Malicioso, apertou as pálpebras murmurando:

- Será bem divertido tentar sair daqui...

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*Tradução do alemão p/ português:
Tempo, tempo. Antes e depois. Tempo.Tempo. Metal em ferrugem.


Agradecimento especial ao alemão Mário Schenk e ao José Delfino do Carmo que me ajudaram na tradução do trecho do português para o alemão. Para conhecer o trabalho do Delfino com turismo receptivo clique aqui


5 comentários:

Cátia Ana disse...

"Hans Ackart está longe de ser um humano qualquer." ... sem mais comentários, Meritíssimo. rsrsrs....ameiiii.....

Thiago disse...

Esse conto ficou bem diferente de tudo que vocês têm feito aqui. Aliás, os contos estão realmente me surpreendendo! Apesar de serem estórias paralelas, elas dão tanta vontade de ler quanto a original! De continuar lendo. Esse conto não é exceção. Uma mudança muito bem bolada de ares e de desenrolar certamente me pregou mais atenção ainda. Sem contar que personagens interessantes estão sendo apresentados. Adorei a tentativa de fuga se tornar em ilusão do passado e depois frustação... e no fim, empolgação de superar o novo obstáculo. Confesso que me empolgou demais esse conto e suas personagens.

Lucas T. Costa disse...

FINALMENTE O HANS! \o/ Confesso que era o seu personagem que eu mais tinha vontade de ver, e ele ficou exatamente como eu imaginava hauah inclusive com a "molecagem" que você disse, eu já o imaginava com ela!

Muito legal, ele é um personagem com umas peculiaridades fodas! :O quero mais!!!

Adrian sempre tão fdpzinho ç.ç'

Luiz dreamhope disse...

Não entendi muito da história, pois não acompanho o original, mas o jeito como toda cena foi descrita, muito bom. Os minimos detalhes não passaram despercebido, que em conjunto, foram respomsaveis por toda a sensação de uma boa leituta. Gostei bastante do estilo.

Heluiza, quanto ao seu comentário lá no cap do Mundo Sombrio, tenho logo que avisar que a versão que está lá, não é mais usado. Infelizmente e felizmente eu dei "reboot" na série, e começarei a história de um tempo anterior a versão que está lá no site. Sendo assim, sugiro que não avance a leitura.
Porém, a trama de Ventura(uma história juvenil e de linguagem mais simples) está disponível lá também se interessar. ^^
Até mais.

[јuṡτ] яuαṉ disse...

Gostei muito, sou suspeito a falar hehehe, sou um fã de histórias com vampiro devido ao RPG: Vampiro - A Máscara, e adoro magos, principalmente graças ao RPG do SDA, a história está muito boa, com muitos detalhes, fui capaz de imaginar cada cena, cada movimento. Uma bela atuação arrogante do vampiro, e é claro que o mago não fica por menos com toda sua ousadia. Gostaria de mais tempo para ler todas histórias, vou fazendo isso conforme for possível =)