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Meses sabáticos


Olá pessoal! 

Informamos que retiramos as Crônicas Resgate e Malleus Malleficarum do blog pois elas já estavam incoerentes com várias ideias do universo do Manuscritos das Sombras. Ekaterina e Sasha ainda existem, mas mereciam há muito uma revisão apurada de suas histórias iniciais. E sim, nosso sumiço nos últimos meses foi devido a isso, engavetamos a última parte do Cruz sobre Berlim e os contos novos para focar totalmente no novo formato que as histórias terão. Estamos preparando algumas surpresas para vocês! Aguardem!


Agradecemos a todos que participaram da evolução das nossas narrativas criticando a cada postagem.

Não deixem de comentar nos contos disponibilizados. Queremos sempre saber sua opinião! Ajude-nos a melhorar.


Até mais

A Morte e a Donzela



Conto bem bobo para comemorar o Dia dos Namorados e matar a curiosidade de quem leu o conto Máscaras. Não se esqueçam de comentar!



O homem tombou sobre o suntuoso carpete púrpura. Parecia um fantoche sem mestre, a cabeça apoiada de qualquer maneira sobre seus braços moles e as pernas estendidas em uma posição nem um pouco confortável. Os olhos por trás da máscara observavam cada detalhe daquela cena, apreciando os furos no pescoço, ainda pulsante, do moreno. A vampira lambeu os próprios lábios rubros degustando as últimas gotas de sangue e se levantou.

A máscara dourada cobria os detalhes da metade superior de seu rosto e delineava seus olhos de tal maneira que a íris cor azul parecia ser a única coisa viva sobre a face redonda e pálida. Se sua vítima parecia uma criatura de tecido, ela parecia uma boneca de porcelana, tamanha delicadeza (e inexpressividade) do rosto sob a máscara. Cobriu sua nudez com um roupão de seda da mesma cor que o chão e só então se voltou para o sujeito que dormia profundamente aos seus pés. Ele não era tão agradável quanto muitos outros que já compartilharam de sua companhia, mas seu sangue tinha um sabor que a inspirava a pensar em novas criações.

Observou a máscara branca que cobria o rosto dele, lembrando-se dos versos recitados com tanta paixão há alguns minutos. Como ele fora romântico, insistira em criar um poema especialmente para hoje, dia que aparentemente significava muito para os mortais. O quanto aquelas palavras valeriam para uma humana? Alguns versos firulescos e uma ninfeta de respeito da burguesia o convidaria para entrar em sua casa para uma conversa íntima? Provavelmente sim, quantas não sonhavam com uma desculpa para permitir algum avanço dos homens que as cortejavam? Se ajoelhou retirando a máscara do amante:

- Não era isso que você esperava hoje, era, meu amor? E eu achava que você seria o menos enfadonho dos meus homens hoje, tsc. - Sorriu, divertindo-se ao pensar no que ele faria ao acordar e notar as feridas no pescoço e a fraqueza no corpo. Provavalmente sumiria, envergonhado pela tentativa falha de sedução e, claro, medo.

Despreocupada, limpou algumas gotas de sangue que respingaram sobre a superfície lisa da máscara e então se dirigiu a uma parede do cômodo. Centenas de máscaras cobriam todos os cantos do lugar, ali não havia janela alguma, móvel algum, apenas um lustre dourado iluminava aquelas criações de infinitas cores e texturas. Maeve cruzou os braços, concentrada em decidir qual máscara não mais merecia pertencer a sua amada coleção. Apontou uma azulada, cujas plumas e cor lhe pareceram velhas demais.

- Morta demais. - murmurou, batendo o dedo indicador nos lábios.

A retirou da parede, colocando-a sobre o rosto do desfalecido. Ajeitou-o no chão da maneira que acreditava ser a mais confortável para um humano dormir e deu-lhe um beijo rápido nos lábios cobertos de porcelana.

Saiu do cômodo cantarolando uma música de Schubert que ocasionalmente vinha-lhe a mente quando sentia saudades de seu mentor e que seria a que ouviria por toda a noite, mais uma das que passaria ocupada até o amanhecer com o que mais amava.

Marolas do Aqueronte - Parte VI (Final)


Bom, mais uma crônica finalizada! Peço desculpas pelo atraso nas postagens, e espero que tenham gostado de lê-la tanto quanto eu gostei de escrevê-la para vocês! Um grande abraço a todos, e obrigado pela companhia! ;)

Sem mais delongas, segue o desfecho da aventura:

Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte V

Os dedos em garras de Hector ainda se fechavam em torno de retalhos rasgados e negros, como pedaços da escuridão que até então os rodeava. E eram exatamente isso, mas de alguma forma quando cravou as unhas no denso negrume, abrindo uma brecha, sentiu os dedos afundarem em algo macio e quente, e as mãos ficaram molhadas não apenas de suor, mas de sangue. A compreensão de que Aurel era tudo aquilo o acertou como uma bofetada, e a despeito do desespero que sentia para salvar Remmy, precisou de um ou dois segundos para si, para que não se curvasse para frente e vomitasse. Lágrimas escorreram de seus olhos, a garganta seca queimava e sentia imensa dificuldade em respirar. Estava salvo. Estavam salvos.

Quando levou o dorso da mão aos olhos, para enxugar as lágrimas de choque, vislumbrou um Remmy bastante ferido de pé na frente de Aurel. O necromante sangrava em profusão, o líquido rubro empoçava embaixo de seu corpo e era absorvido pelo tecido negro de suas vestes. O lobisomem observou também que Sasha e Dorian também estavam ali, também estavam cobertos de sangue, e também traziam nas mãos retalhos da tão aterradora escuridão que tentara afogá-los. O rapaz ergueu a mão até a altura dos olhos, e percebeu que o que trazia na mão era um pedaço da camisa do necromante, um retalho da parte que compreendia a altura do peito. Talvez fora dele o golpe que dissipara o breu. Talvez fora ele, de fato, quem salvara Remmy. Sorriu com a ideia.

Remmy ainda segurava o pingente de prata, e tinha um aspecto um pouco melhor do que há pouco tempo. Ele estava absorvendo a energia que Siegfried armazenara nas pedras, pensou. Deu um passo vacilante, e os olhos verdes do garoto encontraram os dele. Remmy piscou devagar, respirou bem fundo e por fim sorriu. Um sorriso enorme, cheio de gratidão e ternura. – Obrigado, Hec! – Disse, e Hector percebeu que estivera prendendo a respiração. Suspirou, aliviado, e seu rosto se contorceu. Não era um sorriso, ele estava chorando mais uma vez.

- Se você tivesse... – Começou, com a voz embargada, mas parou no segundo seguinte. Percebeu que Sasha e Dorian também os assistiam. Pela visão periférica, viu que a assassina franziu o cenho, e o amigo esboçou um sorriso debochado. Abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas não conseguiu formular mais nada. Apenas um ruído rouco e embaraçado. Remmy continuava sorrindo, como se não tivesse percebido o que estava acontecendo ali. Como se não percebesse como o lobisomem se sentia.

- Estou vivo, Hector, graças a você. A vocês. – Os dedos do rapaz ainda envolviam o pingente, e ele ainda sorria. Fora um gemido estrangulado do mago que os trouxera de volta à realidade, e que fizera o rosto do rapaz endurecer rapidamente. Remmy, súbito, parecia muito mais velho do que realmente era. A expressão fria, distante e austera que permeava seu rosto o fazia idêntico ao próprio pai, coisa que Aurel percebera tão logo o garoto o agarrou pelos cabelos e o fez se levantar.

- Siegfried!

- Agora você tem medo de mim? – Perguntou, e a frieza com que as palavras eram proferidas parecia com a de uma lâmina afiada roçando a pele. Arrepiava. – Agora percebe o quão estúpido foi?

Não tivera tempo de responder, pois o soco que Remmy lhe aplicara quebrara a sua mandíbula. A expressão fria do rosto do garoto não se alterou, o que atribuía à cena uma intensa surrealidade, como se aquele corpo que socava não pertencesse ao rosto que assistia à cena com incrível indiferença. Os socos continuaram, ininterruptamente, e a cada investida podia-se ouvir o estalar de um osso fraturado. O rosto de Aurel logo se converteu em uma massa sanguinolenta e amorfa. Remmy ainda segurava os seus cabelos e fazia perguntas pelas quais não esperava resposta. Porque você usou a imagem dela? Como você conseguiu encontrá-la? Tudo isso por uma porra de posição na minha organização? Porque você não responde? Hein? Você não controla os mortos? HEIN?

Quando o último gorgolejo de sangue escapou da garganta de Aurel e ele parou de espasmar nas mãos do rapaz, Remmy simplesmente cessou. Afrouxou os dedos dos cabelos do cadáver e deixou-o cair aos seus pés. Observou o corpo de Aurel ali, jogado, e percebeu que não teria o que ele fora buscar. De alguma forma, sabia que ela já tinha continuado a sua jornada. O Dracma não seria o suficiente para invocá-la, e mesmo que fosse, ele não queria que ela vivesse num mundo onde o filho se tornara justamente o que ela morrera tentando evitar. Ele, finalmente, percebera o quão parecido era com o pai, não apenas fisicamente.

E com a constatação de que jamais tornaria a ver a mãe, engoliu em seco e apertou os olhos para sufocar as lágrimas. Abaixou-se ao lado do corpo do mago e pegou o espadim dourado. O toque frio do metal em contraste com a pele ensanguentada e quente lhe trouxe algum alívio. Pondo-se de pé, caminhou até a assassina e estendeu-lhe a arma, com o rosto inexpressivo. Sasha hesitou por um segundo, mas logo ergueu a mão e a pegou. Sorriu e agradeceu, mas o garoto conservou a gelidez na face.

Até então, Dorian, Sasha e Hector simplesmente assistiram ao desfecho do embate, escandalizados com tamanha mostra de violência por parte de Remmy. Todos eles lutaram outras batalhas àquela noite, e foram essenciais para a derrocada do necromante, direta e indiretamente, mas agora eram completamente inúteis. Nenhum deles conseguira mover um músculo sequer para confortá-lo. Enquanto Remmy se dirigia para a porta de entrada da mansão.

O garoto mancava e ainda sangrava em profusão. Pousou a mão no arco da porta, deixando ali uma impressão rubra de sua palma.

- Remmy, espera! – Pediu Sasha, finalmente reunindo a coragem necessária para dar o primeiro passo. Avançou com rapidez, os dedos trêmulos tateando o cinto de couro e arrematando de lá um dos frascos de poções que levara consigo. Estendeu para ele, como se fizesse a sua parte na barganha pelo stiletto. – Bebe isso, vai te ajudar com as mordidas dos zumbis.

- Ele não vai virar um, vai? – Perguntou Dorian, tentando buscar no âmago um pouco do humor canastrão que antes lhe parecia inesgotável, e agora tão parco. – Seria bastante irônico, se virasse.

- Não, Zumbis não infectam pessoas assim, isso só acontece na televisão. Eles precisam ser invocados por um necromante... Mas isso não significa que a boca deles seja diferente da de qualquer outro cadáver...

- Não é frequente vê-los escovando os dentes. – Completou Dorian, com um meio sorriso incerto.

Remmy ignorou a conversa, limitando-se a desarolhar o frasco e beber a poção em um único e longo gole. Entregou o frasco para Sasha, e voltou a olhar para fora. Sentia os ferimentos queimando, e o fluxo sanguíneo aumentando pouco a pouco. As mordidas começaram a pinicar, e ele sabia que não deveria ceder à tentação de coçá-las, por isso apertou as mãos em punho e esperou até que parasse.

- Ele está querendo ir embora sem o dracma, não está? - Perguntou Dorian, um quê de indignação na voz. - Tudo isso foi para nada então? - O que ele não percebia, ou não parecia perceber, era que de todo mundo, Remmy fora o que mais sofrera aquela noite. Fisicamente ou não. - Ah, fala sério! Não vou sair de mãos abanando...

Quando os olhos se acostumaram com a baixa luminosidade, o garoto percebeu uma sombra que avolumava-se no meio do gramado. Por um momento, suas costas retesaram-se e ele permaneceu tenso, observando a pessoa se aproximando-se pelo terreno destruido e repleto de cadáveres apodrecidos. A primeira coisa que percebeu, quando o homem adentrou na luz proveniente da mansão, foi o sorriso. Um enorme e empático sorriso que se estendia por todo o rosto, inclusive pelos olhos e pela grande testa vincada pela idade. Ele parecia tão estranho, ali, parado no meio de tamanho caos, com as mãos enfiadas nos bolsos e com um sorriso parafusado nos lábios. E era terrivelmente familiar.

- Bon soir, petit Remmy!

O garoto olhou ao redor, desconcertado por um momento, e percebeu que Hector e Dorian não estavam mais na sala de estar. Sasha aproximou-se um pouco, pondo-se ao lado do menino e pousando a mão em seu ombro. Aí estava o apoio que ele precisava. O menino engoliu em seco, como se aquele ato de solidariedade fosse o suficiente para faze-lo desmoronar, e percebeu quase que imediatamente que era exatamente o oposto: eles estavam ali para ampará-lo, caso tudo desse errado, certo? Queria acreditar que sim.

Remmy olhou para o homem à sua frente por alguns segundos, analisando seu rosto e os seus olhos negros e sem brilho. Percebeu agora que embora os olhos sorrisem junto com o rosto, estes lhe pareceram consideravelmente menos amistosos do que todo o resto.

- Eu te conheço? - Perguntou, por fim.

- Não me conhece? - Perguntou o homem. Sua voz era grave, profunda, como ecos em uma tumba abandonada, pensou Remmy. - Digo, reconhece? - Remmy ergueu as sobrancelhas, ainda confuso, encarando-o sem piscar. Percebeu que o outro também quase não piscava, o que o perturbou um pouco, especialmente porque ele tinha acabado de sair da escuridão para a luz. O rapaz não respondeu, esperou que ele dissesse de onde os conhecia, mas o outro não o fez. Fora Sasha que quebrou o silencio, murmurando:

- Acho que eu sei quem é ele, Remmy. Ele é...

- Não estrague a brincadeira, minha querida. Ele está quase se lembrando... - Disse o homem, olhando para ela pela primeira vez. Por uma fração de segundo, os olhos abriram-se levemente. Faíscaram, ao ver o que ela trazia na mão. O sorriso pareceu aumentar um pouco mais, mas foi só impressão, pois o rosto permanecia inalterado. Quando percebeu que o rapaz realmente não iria se lembrar de onde o conhecia, ele deu mais um passo adiante. Pela primeira vez, Remmy percebeu que usava um rosário de prata em torno do pescoço. - Eu sou um velho amigo da família. - Dera ênfase à “família”, e imediatamente ele percebeu que o estranho se referia à Ain Soph. - E foi nessa hora que se lembrou quem ele era.

Remmy apertou os lábios, os olhos ardendo e sendo derrotados pelas lágrimas que se acumulavam e rolavam em profusão. Não estava mais ali a expressão que o remetia tão fielmente à Siegfried, embora definitivamente não fosse mais um choro de criança, que toma toda a face, a lhe escorrer pelos olhos. Apenas vertia dois filetes de lágrimas, as narinas dilatadas e os lábios crispados. Era um choro de adulto, por fim. Daqueles que não se pode ouvir, apenas ver.

- Não precisa ficar assim. Sei que você não pôde se despedir dela, na ocasião.

Lampejos de memória ofuscavam os olhos de Remmy, como se as lágrimas que rolavam ampliassem ainda mais a luminosidade do lugar e o fizesse apertar as palpebras. Viu, não com os seus olhos, ele percebera imediatamente, o homem de pé na frente de sua mãe praticamente morta. Ele lhe dava a extrema unção, percebeu. Ele fechava as suas palpebras, e limpava as lágrimas de seu rosto, lágrimas que já estavam quase secas. O rosto dela não parecia sereno, como as pessoas dizem que os mortos parecem. Estava pálido, magro, doentio. Os lábios estavam descarnados, as bochechas não existiam, os globos oculares pareciam boiar em poças negras de esquecimento, decepção e dor. Viu o padre se inclinar e ajeitar os cabelos da mulher atrás de suas orelhas e, por fim, o viu retirar uma moeda do bolso.

- Leon... - Murmurou Remmy, limpando os olhos com o dorso da mão. O rosto dele pareceu reassumir alguma frieza com as lembranças, como se elas lhe revigorassem. Como se percebesse que a morte de sua mãe não fosse grande coisa. Acessando aquele tipo de lembrança, ele percebia que acabava, invariavelmente, aproximando-se mais e mais de seu pai. Cada vez mais parecido. Um véu de mentiras bem diante de seus olhos.

Leon sorriu de novo, um sorriso bondoso e fraternal. Estendeu a mão para Remmy, apoiando-a sobre seu ombro. Quando os dedos roçaram os de Sasha, a mulher recolheu a mão como se tivesse sido queimada. Uma expressão de horror perspassou seus olhos, ao constatar que ele era realmente quem ela imaginava. - Você não precisava ter feito tudo isso para vê-la novamente...

O tilintar de metal encheu o local, e imediatamente Remmy soube onde Dorian e Hector estavam de volta. O olhar que Leon lançou por cima de seu ombro foi voraz, cintilante, e o sorriso se abriu um pouco mais. - Coloquem os artefatos no chão, garotos, e vamos conversar um pouco...

Cruz Sobre Berlim III



Continuação de: Cruz Sobre Berlim - II parte 2

As portas de vidro abriam e fechavam violentamente com o forte vendaval que assolara a madrugada. A cada abertura, as folhas secas do jardim mal cuidado invadiam o recinto e foi em um desses momentos que a figura animalesca se aproveitou para entrar na sala. Seus passos, fracos e cambaleantes, deixavam rastros negros pela assoalho de madeira a medida que se aproximava do tapete imundo que algum dia servira de enfeite para o cômodo. Jack mal colocara as patas dianteiras no tecido quando tombou, fraca com os ferimentos abertos por todo o corpo escamoso. O cansaço perante a tanta dor a dominou e fechou os olhos tentando ignorar a recuperação inquietante de seu corpo ferido. Os músculos ao redor da mandíbula exposta pulsavam conforme cresciam vagarosamente, o ombro deslocado contorcia-se e estralava à medida que a clavícula destruída se regenerava, ah, e o ardor... como era insuportável a abertura dos antigos ferimentos de séculos de batalhas contra os Templários.

Sim, ela fora estúpida. Não olhou ao atravessar a rua e não, não prestara atenção alguma ao som do trambolho a poucos metros de distância. O ódio pelas fisgadas que lhe percorriam os membros naquele momento era maior do que qualquer cautela que poderia tomar, era tão difícil Balder entender isso? Como ele conseguia manter os pensamentos em ordem com a proximidade do inimigo secular? Os sentidos se perdiam na vontade irresistível de dilacerá-los, de colocá-los em seu devido lugar, como reles humanos que eram. Ah, mas seu garoto nunca se deixara levar pela raiva, dor ou pelo temor a esse ponto. A não ser, é claro, quando alguém cometia uma burrada como a de atravessar a rua ignorando o enorme caminhão de carga se aproximando. Jack imaginou o quanto ele a xingara enquanto estava desacordada, os gritos de repreensão ainda soavam em seus ouvidos. Não respeitara sua dor pelos ferimentos, não se importava realmente com o seu estado, queria mesmo era que ela saísse do local antes que os policiais chegassem. Com certeza a essa altura já se livrara do corpo de Andrew e estava dando um jeito nas câmeras de segurança da quadra inteira.

Certinho insuportável, não parou o sermão nem quando me alimentou. Pensou e riu, ou melhor, tentou rir, contudo apenas um som gutural saiu entre seus dentes animalescos lembrando-a que nessa forma não conseguia rir, assim como não conseguia apalpar ou ver o estado das cicatrizes reabertas. Agoniada, ergueu-se postando as quatro patas no chão e emitiu um novo rugido. A medida que as escamas negras de seu corpo escorriam sendo absorvidas por uma camada vermelho escuro, os ganidos viraram tosse e posteriormente um gemido de dor. Nunca se acostumara com a transformação brusca de volume e forma, o mal-estar era muito, muito, pior do que o de dar a luz. Ossos estalaram a medida que perdiam dimensão, a crosta escura diluíra-se, parte virara seu sangue, parte manchara mais o tapete. Agora seu corpo pesara metade do que há alguns minutos, os contornos bestiais viravam membros delicados. A respiração diminuía voltando a inércia da morte, o olfato perdeu a prioridade para a audição e a visão. Girou o corpo raquítico postando as costas na trama umedecida e tomando consciência dos limites de sua nova forma, até que conseguiu movimentar os dedos e levá-los ao ombro deteriorado:

- Precisa de sangue?

Jack observou o imortal à poucos metros de distância. Os olhos azuis encaravam-na serenamente, os fios loiros e longos brilhavam com a fraquíssima iluminação do cômodo. A luz da cidade parecia que invadia o lugar somente para isso, para iluminar aquele belíssimo rosto alvo. Sentado no sofá encardido, parecia pairar no ar tamanho o contraste de suas roupas claras com a imundice ao redor. Era como um anjo, cuja reles presença era suficiente para zombar de sua vida mundana. O nome lhe caía bem. Oh, o tão perfeito, límpido e superior Uriel:

- Sangue... Ah, chefe, seu precioso sangue ainda envenena minhas veias. - a ruiva murmurou com dificuldade. Os músculos do maxilar não se recuperaram totalmente, mas, por mais estranho que soasse suas palavras, precisava zombá-lo – Se eu tomar outra dose, conseguirei te ouvir em minha cabeça quando precisar de mim? Ou baterá palmas e eu aparecerei ao seu lado quando você bem entender?

- Talvez sua língua se torça ou seus lábios crispem toda vez que você tentar fazer piadas. Isso seria interessante de ver e nunca mais ouvir. - ele respondeu suavemente, o rosto não demonstrando nada além de indiferença.

Jack impulsionou o corpo sentando despojada. Estava nua, ferida e imunda, mas os olhos misteriosos do pacificador não a intimidavam. Encarava-o entre as longas mechas ruivas e desgrenhadas que cobriam seu rosto juvenil:

- Há quanto tempo você está aqui?

- Tempo suficiente para lembrar porque marcamos de você sempre me encontrar e não o contrário. Sabia que tem ratos no andar de cima comendo seu dinheiro?

A vampira revirou os olhos, odiava alguém remexendo suas coisas. Forçou um sorriso:

- E porque veio, Uriel? - colocou-se de pé aguardando a resposta do Vox. Jack estranhou o silêncio e a rara expressão que ele exibiu por alguns segundos. Seria tristeza?

- Você até parece que foi atingida por um trem.. - desconversou, taciturno.

- Por um caminhão para ser mais precisa. - confessou zombeteira. Fitou-o ainda tentando interpretar aquela expressão quando ele baixou os olhos e passou a observar atentamente seu corpo esguio. Não era uma observação maliciosa, o fato dela estar nua não significava nada para o imortal. Ela sabia que Uriel não admirava seus pequenos seios ou seu ventre magro, o que lhe chamava a atenção em sua pele eram as cicatrizes inchadas e avermelhadas por todo o corpo, em particular o corte profundo abaixo da costela. A marca pelo estilleto de algumas noites atrás ardia e pulsava novamente. Os ferimentos provocados pelo caminhão distinguiam-se daqueles cortes que tinham volume como se foram marcados a brasa. Eram cicatrizes de atritos anteriores com os Templários, normalmente arranhões sobre a pele, mas que após o contato com o poder de um dos 13 reabriam e mutilavam por um bom tempo. Pelo visto, Uriel entendia o que isso significava:

– Um do grupo é um aprendiz e bem poderoso. Fez um puta estrago em mim e no Balder agora.- Jack murmurou apertando o machucado mais recente - Você tinha razão, acho que eles estão completos dessa vez, para ousar vir aqui treiná-lo...

- E fugir – o loiro completou tranquilamente e voltou a fitá-la.

- Se não fosse pelo caminhão, nós o teríamos capturado. - mentiu. Balder não prolongaria uma perseguição deixando para trás um terreno cheio de evidências, era fiel demais aos desejos de discrição do General para ousar assim. A verdade é que ela sozinha e cambaleante após o golpe do pirralho nunca conseguiria alcançá-los naquele distrito cheio de ruas, becos e civis. Não sem causar um estardalhaço. - Balder não fazia ideia do que aconteceu naquela noite, pensei que você falaria para o Fahd que eles estavam te vigiando.

- Ora, ele é o General – Uriel deu de ombros, desinteressado, e observou as portas que davam acesso ao jardim, elas continuavam a abrir e fechar conforme o vento úmido arejava o lugar – Ele já sabe e com certeza sabe sobre a mulher também. Fahd só gosta de fingir que não nos espiona através das sombras, mas porque não o faria? - sorriu misterioso.

A garota perpassou os olhos pela pequena sala e subitamente se sentiu desconfortável com a escuridão que a envolvia de vértice a vértice. Contorceu o rosto de nojo pela suposição. Certamente você o faria, não é, seu idiota?

- Não quero que os investigue mais, Jaqueline. Deixe-o lidar com isso. - A Labyrs abriu os lábios prestes a protestar, porém Uriel a interrompeu incisivo - Berlim vai ser a menor das nossas preocupações agora.

- Pff, sim senhor. – resmungou dando as costas e se afastando do Vox, ignorou que obviamente ele falaria mais alguma coisa. Estava furiosa pela constatação que não poderia se vingar daqueles dois. O cansaço, as dores e o cheiro que seu próprio corpo exalava pareciam insuportáveis agora e ela realmente estava de saco cheio de aguentar aquele hipócrita em sua casa – Agora que me dispensou do trabalho, você pode tirar seu corpinho lindo daqui e ir embora, né? Eu realmente preciso de um banho.

- Mikhail está morto. - a menção daquele nome a fez parar – Basil me ligou há algumas horas. O Kremlin caiu em chamas matando metade da nossa população de Moscou.

E um monte de humanos pervertidos também, Jack quis completar, mas apenas virou-se e o observou. Uriel não a encarava, levantara do sofá e estava concentrado em tirar a camada de poeira de suas roupas:

- O nosso Kremlin obviamente, não o Kremlin russo.

- Uouuuu – marota, a garota sorriu expondo os caninos e se encostando no batente do corredor. Isso sim era uma excelente notícia e impossível de não ser tratada como tal. – Finalmente ele se queimou com aquele cetro maldito? Demorou para uma merda acontecer com aquela arrogância purificadora, hahaha – zombou analisando a face calma de Uriel. Era isso que os olhos dele transmitiam? Luto pelo irmão repugnante? - Meus pêsames, chefe. Pode deixar que amanhã cedo eu aparecerei para ajudar nos preparativos na reuniãozinha dos pacificadores. Será aqui ou em Moscou?

Uriel fitou-a intensamente, os olhos azuis cravados nos seus. Molhou os lábios:

- Jaqueline, por que você não me falou que Ekaterina veio a Berlim há algumas semanas?

O tom austero fez a ruiva esticar a coluna e se afastar do batente:

- Quê? O que isso tem a ver com Mikhail? - irritada, colocou as mãos no quadril como uma pequena adolescente respondendo a questionamentos do pai - Eu não disse porque ela não deixou recado algum para você, chefe. Agora quer que eu fique fofocando quando encontro sua esposinha? - ah, isso teria desconsertado Ekaterina, mas nunca funcionava com Uriel. Precisava achar uma maneira de evitar que ele fizesse uma pergunta direta. - Não é da minha conta a briga de casal, ok?

- Jaqueline, vamos lá. Sua língua ferina sempre fez questão de contar como a vida de Kath ficou enfadonha após o Indulto. Toda vez que a encontra eu escuto no mínimo uma piadinha sobre a conversa que tiveram. Sei que ela esteve aqui mês passado e você acaba de confessar que conversaram.

- E daí?! Puta que pariu, o que isso tem haver com seu irmão? - a ruiva protestou, mas já sabendo qual seria a resposta. Ah, o padrão de comportamento dos bons e velhos tempos:

- Um incêndio repentino, ausência de tentativa de fuga, os únicos resquícios de luta estão nas acomodações do General... E preciso destacar que ele era um Vox prometido de morte por você e Balder? Acha mesmo que é possível ignorar como vocês eliminavam a corte inteira de uma cidade no Indulto de Sangue? Nem você e nem ele conseguem sair daqui sem autorização, só resta ela para desconfiar. Responda-me agora, na última vez que você a viu, Ekaterina te falou alguma coisa sobre Mikhail? O que ela disse?

A Labyrs crispou os lábios prontos para ceder ao poder que o sangue do Vox exercia sobre o seu. Sentiu as palavras se formando, a língua mexendo involutariamente querendo lhe responder. A Ingenium não era exatamente uma amiga, na verdade, eram mais cúmplices do que qualquer outra coisa, contudo isso não significava que poderia traí-la. Se realmente conseguira este feito, Jack lhe ofereceria todos os pescoços da Europa para que se saciasse. Percebeu a própria cabeça vagarosamente se movimentando para baixo e para cima, não havia força de vontade que resistisse a uma dominação de sangue. Um sim arrastado escapou de seus lábios:

- Ela perguntou porque eu o traí e me pediu detalhes de como poderia entrar em Moscou sem que Mikhail soubesse. “Silenciosa surpresa”. - murmurou, sua face ganhando a serenidade misteriosa que a Ingenium comumente expressava. Repentinamente o rosto se contorceu em ódio, os olhos verdes fuzilando o loiro. Gritou - Kath não seria estúpida de fazer exatamente o que fazíamos, Uriel! E ela nem tem mais voz para hipnotizar assim, ela não canta mais!

Ele sorriu, curioso com a afirmação:

- Você realmente acredita que a Voz dos Ingenium “morreu”? Infelizmente, eu sei que Basil não acredita. Quando me ligou, foi percetível que... Ele sabe de mais alguma coisa. - crispou os lábios, cauteloso. Era hilário como os três vampiros responsáveis por manter o clima amigável entre as Famílias não conseguiam algo tão simples como confiar um no outro. Por alguns segundos, observando a face inegavelmente preocupada de Uriel, a ruiva se sentiu aliviada por ser ele o carrasco de sua sentença. Provavelmente já estaria morta se fosse submetida a rígida disciplina de Basil. - Quando nossos inimigos souberem que Moscou está sem um General, a cidade vai entrar em guerra, não dá para ignorar o responsável por isso. Basil já a está caçando, eu sei, e é por isso que você deverá encontrará-la primeiro, Jaqueline. Encontre-a e a traga viva até mim.

Continua em: Cruz Sobre Berlim IV - Final

Marolas do Aqueronte - Parte V


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte IV

Os olhos dourados do magista encontraram os de Remmy, que os sustentou bravamente. O jovem mago sorria com deboche, e deu um passo adiante. Nos dedos, as baquetas de bateria rodopiavam habilmente, como se tudo aquilo fosse apenas a preparação para um novo conserto de rock, e o rapaz quisesse desestabilizar emocionalmente o adversário.

- Patético é você, cuja insignificância é tamanha que nunca despertou o interesse de meu pai. – O rosto de Aurel endureceu por um segundo, revelando linhas estatuescas e repletas de raiva. O desenho do sorriso que se fez em seguida não passava de um esboço mal feito. Remmy continuou, percebendo que tinha tocado num ponto sensível: - Você imagina como fiquei sabendo dos artefatos que você mantém em seu poder, não é? – Murmurou, malicioso. O dedo polegar deslizou lentamente pelo lábio inferior, como se o curvasse para um sorriso genuinamente maldoso. – Muito ingênuo de sua parte mandar aquela carta para o meu pai. Acho que você ficará desapontado em saber que... ele nem a abriu, ao ver o remetente... Heh. – Obviamente tratava-se de uma mentira, mas o garoto continuou com a farsa mesmo assim: - Coube a mim ler o seu humilhante pedido de ingresso na Ain Soph, e também a relação dos... como foram mesmo as palavras que você usou? Ah, sim, “espólios que, por ventura, venham a interessá-lo pela sua natureza funesta e pela inestimável fonte de poder que contém e que seriam muito convenientes à organização, dado o teor primordial dos seus estudos.” Hah... hah... – O garoto bateu palmas, como se estivesse ovacionando um poeta particularmente talentoso, ou um bufão especialmente idiota.

Os olhos ambáricos de Aurel estreitaram-se perigosamente. Seu rosto nada mais era do que uma carranca indecifrável. Os lábios, apenas uma fina linha avermelhada, e a pele, se é que era possível, estava ainda mais macilento e doentio. Os dedos descarnados apertaram-se mais em volta do espadim, e quando abriu a boca para revidar, as palavras saíram com uma força e determinação pouco esperada de alguém cujo orgulho fora ferido de maneira tão íntima.

- Confesso que era do meu interesse ingressar na organização, mas isso não implica em qualquer tipo de admiração de minha parte em relação ao seu pai. Reitero então as minhas palavras: Siegfried é patético, por julgar-se imortal valendo-se de artifícios tão prolixos e anódinos. Tudo tem o seu preço, e você e o seu pai são tolos ao pensar que o custo da imortalidade seria tão parco. – Os dedos da mão livre ergueram-se à altura dos olhos. Sorriu. Os quatro invasores, por um segundo, tiveram a nítida impressão de que vislumbravam o braço de um esqueleto, e não o de um humano normal. Não havia carne, sangue ou veias, tudo se tornou momentaneamente translúcido e luminoso. Queixos caíram, embasbacados, e à medida que o corpo de Aurel tornava-se mais claro, o ambiente escurecia, como se o bruxo sugasse toda a luz ao redor, e deixasse com que as trevas engolfassem todo o resto.

- Em todas as culturas do mundo é sabido que qualquer ação mágica acarreta reações potencializadas. Você mesmo está, neste exato momento, tentando se restabelecer da notável demonstração de poder que acaba de dar às minhas Lâmias. – Sorriu novamente, a língua negra e viscosa deslizando pelos dentes brancos e pela boca descarnada. Os olhos, por um átimo, tornaram-se ocas órbitas escuras, antes de brilharem mais uma vez com a luminosidade dourada que lhe fazia parecer tanto com uma pantera negra. Os movimentos eram fluídos, lentos e hipnotizantes, e os dedos ainda conservavam a pequena espada cativa, faiscante em meio à luz vertida pelos seus ossos. – Se você é imortal, precisa se alimentar de outras vidas. Precisa matar. A sua vida flui diretamente das veias de outros seres vivos e, acredite em mim quando falo que... a morte nunca é bonita. Assim como quem se vale dela para continuar vivo. É uma casca, um invólucro demasiado frágil e quebradiço, que separa isto... – Os dedos deslizaram na frente do rosto amorfo, que parecia descarnado, apodrecido e incrivelmente belo e vivaz ao mesmo tempo. - ...do que você é agora.

- Não entendi nada do que você falou, amigo... – Disse Remmy, dando de ombros. Mentia mais uma vez, era óbvio, pois em sua face estava impresso o quão marcantes foram aquelas palavras para ele. Punha em xeque muita coisa. A imagem de Fais, seus olhos purpúreos, cabelos arroxeados e pele extremamente pálida brotou em sua mente. Magia podia ter consequências bem ruins, ele sabia muito bem disso, especialmente quando se trata de necromancia. Depois, pensou em Teresa e em como ela costumava ser antes de tudo... e em como ela estava agora, com seus olhos febris e comportamento paranoico. E por fim, pensou no próprio pai, sempre tão austero, imaculado e distante. Aurel riu.

- Vampiros podem parecer a epítome da beleza para olhos mortais, assim como uma serpente pode ser absolutamente hipnotizante ao ser vislumbrada pelos olhos de um lagarto indefeso. – Mais uma vez a língua escura e viscosa deslizou, madeixas negras ocultaram momentaneamente os seus olhos e, quando o mago arqueou lentamente o corpo para trás, erguendo os braços. Ao redor de seus dedos, a escuridão avolumou-se, condensando-se. Tudo ao redor era negro, todos ali estavam suspensos no que parecia ser uma nova dimensão paralela, absolutamente diferente da outrora criada por Remmy. Ninguém se mexia ou falava, como se também aquilo fosse controlado pelo mago. Sentiam uma pressão intensa sobre seus ombros, praticamente impossibilitando que ficassem de pé ou respirassem. Gotículas de suor brotaram de seus poros, umedecendo a pele, tornando-a gélida como a dos cadáveres que acabaram de enfrentar. Sentiam, pouco a pouco, a energia de seus corpos se esvaindo como água escapando por entre os dedos, como o ar que lhes rareava nos pulmões. – Todavia, se souber para onde olhar, o que verá é a faceta real da criatura que se põe diante de você. São monstros. Somos... Monstros. Todos nós que, de uma forma ou outra, vivemos através da dor, energia e esperança dos outros...

Rapidamente, todos ali se viram sozinhos na escuridão. Por mais que olhassem ao redor, ou para si próprios, tudo o que viam era um intenso véu negro posto diante de seus olhos. A escuridão era tão densa e esmagadora, que era possível senti-la tocando a pele gelada, como um milhão de línguas lambendo-lhes voluptuosamente. Um arrepio correu pela espinha de Remmy, quando a Aurel se fez ouvir mais uma vez, como se sussurrasse diante do rapaz. O garoto sentiu a face sendo envolvida por duas mãos, direcionando seu olhar para cima, mas não viu nada ali. Engoliu em seco.

- Mas algumas pessoas pensam o contrário. São inocentes e se permitem sonhar... Sweet dreams are made of this... – Sussurrou, começando a cantar uma famosa música, em um tom cadenciado e letárgico, quase como uma canção de ninar. – ...who am I to disagree? I travel the world and the seven seas... Everybody’s looking for something.

- Porra. – Esbravejou Remmy, movimentando-se convulsivamente para os lados. O rapaz se deu conta de que estava de joelhos no chão, não conseguia se levantar, e as mãos dançavam aleatoriamente à frente do corpo, na vã tentativa de acertar o mago que lhe prendera naquela armadilha. Embora sentisse as mãos de Aurel segurando seu rosto, Remmy não conseguia acertá-lo, não conseguia vê-lo, apenas ouvi-lo sussurrando. Os silvos ecoavam dolorosamente em seus ouvidos, como unhas arranhando um quadro negro. A melodia e a voz que a cantava eram doces e serenas, mas a dor que lhe causava, a intensa agonia de não poder se livrar daquela influência era quase insuportável.

- Some of them want to use you... – Sussurrou a voz de Sasha, à distância. Pôde sentir a malícia gotejando de seus lábios, como mel.

- Some of them want to get used by you… - Remmy reconheceu a voz grave de Hector acariciando-lhe gentilmente, e sentiu como se pequenas agulhas adentrassem seus ouvidos. Uma dor aguda, excruciante.

- Some of them want to abuse you... – Era a vez de Dorian. A voz soou poucos metros adiante. Tudo parecia tão surreal que ele teve certeza de que na verdade tudo aquilo era a sua imaginação. Seus tímpanos explodiram em dor, sentiu o líquido quente e –imaginou- vermelho escorrer pela cartilagem e empapar a camiseta. Levou as mãos até os ouvidos, tampando-os, os dentes travados e o rosto retesado em dor. Todavia, a voz continuou a soar. Desta vez, uma que ele não ouvia há algum tempo.

- Some of them want to be abused... – A voz feminina fez com que ele arregalasse os olhos e perscrutasse o ambiente. Tudo o que viu foi nada. Escuridão. A voz continuava a cantar, desta vez apenas a dela. Lágrimas encheram os olhos do garoto, que continuava a olhar ao redor, girando em torno do próprio eixo com uma expressão desolada.

Já não sentia as mãos de Aurel no seu rosto, ao invés disso, sentiu os dedos dela fechando-se em torno do seu pulso. O calor do seu toque fez a sua pele arder e queimar, mas o menino não reclamou. Ela passou a mão pelos seus cabelos, ajeitando-os para trás, como se tentasse ver melhor os seus olhos. Os seus olhos.

- Mãe? – Murmurou ele fracamente.

- Hold your head up... – Pediu ela, ainda cantando com doçura. A mão deslizou até a nuca dele, e ele percebeu que mais uma vez estava de joelhos no chão. Sentiu o toque de sua mão sobre o peito, como se ela tentasse sentir as batidas de seu coração, e os dedos dela adquirindo alguma firmeza sobre a sua nuca, em torno dos seus cabelos. As unhas roçaram o tecido da camiseta; conservava o punho fechado sobre o coração de Remmy.

- Mãe... Escuta... E-eu...

- Keep-- your-- head-- UP!!! – Bradou a voz de Aurel, puxando o cabelo do garoto com violência, fazendo sua cabeça pender para trás e o pescoço estalar dolorosamente. De repente, teve ciência de toda a agonia e exaustão que sentia. Não respirava direito, os tímpanos pareciam perfurados e sangrava em profusão, juntamente com os três cortes em sua bochecha. A gargalhada do necromante ecoou ao redor, um som estranho aos ouvidos de Remmy. Amalgamava frieza e loucura. O rapaz apertou as pálpebras, tentando se livrar do véu aquoso que se instalara diante de seus olhos, e quando as últimas lágrimas desceram, ele se pôs de pé. Trôpego, andou alguns passos para frente, e encarou a escuridão.

- Filho da puta! - Esbravejou o garoto, para o nada, antes de ser atingido na nuca e tombar para frente. Tão logo tocou o chão, uma dezena de mãos ávidas o agarrou com firmeza, e as bocas sibilantes e famintas se aproximaram perigosamente de sua pele. Remmy sentiu o cheiro podre de carne humana, e ouviu os gemidos de sofrimento dos mortos-vivos que tentavam devorá-lo. Debateu-se, chutou, berrou e demasiadamente próximo ao seu ouvido, captou a risada desdenhosa do mago responsável por tudo aquilo...

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Neste momento, nada me dá mais prazer do que o medo do filho do homem que me repudiou de maneira tão atroz. Sorri, em regozijo, ao perceber o desespero que se apodera de todas as fibras do corpo do adolescente, e o prazer é tamanho que simplesmente não consigo me conter e acabo exteriorizando a minha felicidade. É óbvio que ele me ouvirá como se eu estivesse ao seu lado, veja só como ele vira a cabeça e tenta me acertar... mas o fato é que eu sou... tudo.

Eu sou a escuridão que o envolve, que o engolfa e afoga. Sou o ar que entra em seus pulmões, rascante, como lâminas de gelo. Sou as mãos que o rasgam, os dentes que dilaceram sua carne. Tenho certeza que neste momento, Remmy consegue sentir o toque pegajoso das minhas línguas fazendo desenhos e padrões em sua pele, enquanto meus dentes afundam-se na tenra carne de suas coxas, braços e abdômen. E, ah, quão delicioso é o sabor! O medo, o choque, o desespero por continuar vivo. O sôfrego ímpeto que inflama as suas veias, instigando-o a continuar a se debater.

E a certeza de que não importa o que ele faça, não importa o quão forte seja fisicamente, ele nunca se livrará do abraço das minhas criaturas. Rio novamente, e o meu riso se mistura aos bramidos de agonia e pânico emitidos pelo adolescente. Vejam só, agora ele é apenas um pobre, inútil e indefeso adolescente. Vejam como ele chora. Vejam como rapidamente os seus cabelos se tornam vermelhos, e o quão belo é o contraste do rubro com a sua pele clara.

Ah, e o prazer é ainda maior ao me lembrar de que o garoto é extremamente parecido com o pai. Posso ver, finalmente, o rosto de Siegfried contorcido de dor, implorando... cedendo pouco à pouco ao frio e inevitável abraço da morte. Quão arrogante ele foi, ao pensar que era, de fato, imortal. Tsc. E agora, extinguindo a sua linhagem, creio que seja o ponto final na sua patética brincadeira, não é?

Oh, não resista, Remmy. Sinta meus dedos envolver a sua pele. Veja o quão refrescante é o meu hálito gélido a soprar em seu rosto. Perceba que, além do toque dos mortos, dos dentes e das unhas putrefatas, há muito mais para sentir neste momento. Muito mais para aproveitar. Deite a sua cabeça para trás e simplesmente se entregue, prometo não demorar muito...

Isso, deixe-se levar. Percebe agora? Consegue sentir?

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Ele simplesmente parou de se debater. Parou de lutar. A dor era tamanha, a força que o envolvia era tão avassaladora que percebeu ser inútil ir contra. Talvez se ele fechasse os olhos e começasse a contar, tudo acabaria antes dele chegar até o dez. Certo?

Então era assim que acabava. Quão arrogante ele foi ao pensar que poderia sair ileso de uma empreitada daquelas. Sentia o corpo todo em chamas, e o coração batendo desesperadamente, como uma mariposa presa em uma caixinha de papel, tentando sair.

Fechou os olhos então e começou a contar. E, antes que chegasse a dez, realmente, tudo parou. Sentiu uma dor diferente desta vez. Uma dor lancinante penetrando as suas pálpebras e queimando suas retinas. Não abriu os olhos, mas sabia que, de alguma forma, estava em um lugar iluminado. Pode ver vultos movendo-se ao redor, e uma cacofonia de sons confusos que ele não conseguia identificar. Sentiu o corpo ser tocado, içado e balançado violentamente. Sentiu-se inundado de energia. O peito arfava, queimava com uma nova onda de vitalidade que fluía diretamente para dentro de si. Percebeu, só agora, que a mão direita fechava-se em torno do pequeno colar de prata que sempre trazia consigo; os dedos ensanguentados envolviam o pequeno pingente com o brasão da família. Era dali que vinha a energia, das pedras preciosas incrustadas no metal, fluindo a partir deles para dentro do seu corpo debilitado.

Rapidamente tomou consciência de uma presença familiar próxima a si. Alguém que ele não via há semanas, ajudando-o com o amuleto, alimentando-o com a própria energia, inundando-o de poder. Um poder quente, pungente, extremamente concentrado. Sentia-o nas veias, fluindo com certa dificuldade, como se o próprio sangue estivesse mais denso, carregado.

E foi aí que Remmy abriu os olhos. A luminosidade não o feriu, pelo menos não como deveria, depois de tanto tempo no escuro. Olhou ao redor, tomando nota de tudo o que o rodeava, e em seguida para frente, observando a figura negra prostrada diante de si, o rosto lívido contorcido em uma careta de dor.

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A música é Sweet Dreams, preferencialmente a versão cantada pela Emily Browning, que tem um ritmo mais lento e parecido com uma canção de ninar, como descrito no texto. Para ouvir a música, basta clicar aqui.
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Cruz Sobre Berlim II - parte 2


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - II parte 1

Filho de uma puta, desgraçado... escroto!! Infindáveis xingamentos popularam a mente de Balder conforme o corpo deteriorava-se a sua frente. Óbvio que um assassinato tão banal, tão descarado, daria merda. Esse era o problema dos novatos, eles acreditavam piamente que a única coisa a se temer na noite eram os outros vampiros. Observou os dois vultos ganhando contornos cada vez mais nítidos conforme se aproximavam; as precisas passadas metálicas, inaudíveis a um humano comum, confirmaram sua desconfiança ao ver a lança. Conhecia esse golpe fatal:

- Templários...- murmurou, soturno.  

Apesar do furor avermelhado dominar sua face, Balder manteve-se imóvel. Questionava-se por que eles não correram em sua direção no imediato momento que Andrew fora atingido. O chão elameado e a escuridão da maior parte do terreno não justificavam aquela cautela, ele poderia muito bem ter fugido dali se quisesse, outro vampiro qualquer fugiria. Postou os olhos nas câmeras de segurança do pequeno prédio, atento as nuances do lugar. Já passava da meia-noite, não havia som de teclas ou de passos em nenhum dos três andares, porém era perceptível o barulho da TV, abafado pelas paredes das diversas salas do primeiro pavimento. O vigilante deveria estar bem entretido e ignorava o que acontecia no estacionamento mal cuidado da empresa. O ruivo não percebeu qualquer outra nuance e concluiu que não havia mais Templários naquele local, a situação era atípica demais. Eles nunca foram estúpidos ao ponto de lhe deixar pensar antes de um confronto “No mínimo 10 segundos eles perderam nessa andadinha vagarosa … Ah, entendi”. Balder desmanchou as sobrancelhas arqueadas e sorriu, lépido:

- Sabe, assim como uma boa música, armaduras não fazem mais o estilo de sua espécie. - apontou para o jovem raquítico que andava desengonçado com o peso das tramas metálicas e as botas prateadas. Foi preciso que eles estivessem mais próximos para o vampiro perceber o quão diferente era o andar dos dois inimigos, assim como as expressões em suas faces. O garoto seria um aprendiz inseguro, claramente despreparado para correr (e lutar?) com aquele peso extra – Se você estivesse com a armadura completa, provavelmente estaria “empacado” lá atrás, não é mesmo, moleque?

Riu encarando os olhos castanhos do adolescente. Não teria mais que 16 anos e, como é de se esperar de um garoto, não conseguia disfarçar o temor que sentia. Observou o outro homem, a espada longa  em posição de batalha, as placas metálicas do peitoral reluzindo a cada passo. Andava imponente, o rosto quadrado exibia um orgulho que Balder não conseguiu distinguir se era pelo seu lançamento perfeito da arma ou se era pelo acerto do discípulo.

Será que desconfiavam que ele era um Labyrs? Apostaria com Jack que não, se o soubessem, não ousariam lutar sem o elmo. Templários eram incrivelmente fortes, mas eram sensíveis como qualquer humano ao sangue venenoso de sua Família. Imaginou quanto tempo ganharia no primeiro ferimento que lhe atingisse, poderia matar os dois no momento da surpresa, bastaria arrancar-lhes a cabeça. Garantir que não o atingissem em algum ponto vital seria o maior problema, claro. Balder aquietou os pensamentos quando ambos começaram a correr, em alguns segundos estariam sobre ele e tudo o que tinha era um plano que envolvia ser ferido. Ridículo, era suicídio enfrentar um Templário assim, nessa forma tão fraca, e sem nem se quer ter uma arma em mãos.

Fitou o reflexo cintilante nas armaduras perfeitamente polidas e mais uma ideia estúpida lhe veio a mente. Estúpida e dolorosa. A lança ainda exibia os malditos tentáculos de luz, mas qual outra escolha ele tinha? Largou o celular e, sem pestanejar, foi de encontro ao corpo moribundo agarrando a base da lança e a erguendo do chão. Gritou. Como esperava, a energia templária não se dissipara totalmente do objeto, ela queimava suas mãos e percorria seus membros como um choque elétrico. Determinado a completar seu plano, ignorou a dor e movimentou a lança jogando a carcaça de Andrew na direção do cavaleiro mais jovem. O alvo tombou na lama lutando contra o peso do moribundo, e o ruivo, rindo alto em meio a dor, correu para desferir a lança contra o outro humano.

O velhote prontamente defendeu seu pescoço com a espada longa, surpreendendo o vampiro por conseguir manter sua postura imbatível independentemente da força que depositava contra a lâmina. O estranho tilintar do choque das duas armas manteve-se conforme o Labyrs pressionava a lança. Mordeu o lábio inferior contendo o gemido pelo aumento da queimadura nas mãos e se sentiu um idiota ao notar a face inabalável do humano. Os olhos negros eram desafiadores. Não demonstravam raiva ou excitação pela luta e sim uma concentração absurda para manter a posição dos braços. Toda sua energia estava depositada na arma, ela virara uma extensão de seu corpo e agora agia como um escudo perfeito, indiferente a força superior do vampiro. Balder notou o início de movimento nos lábios do oponente e se lembrou do quanto odiava lutar contra os “encantados”:

- Há, não... nada disso – disse furioso, tirou repentinamente a lança do atrito da espada, atrapalhando as falas mágicas, e expôs os dentes enormes tentando abocanhar o rosto tão próximo do Templário. Imediatamente este pulou para trás, a face morena empalidecendo e o corpo aparentando ganhar mais volume tamanha a rigidez de seus ombros e braços. Era óbvio que se assustara com a tentativa selvagem.

Querendo se aproveitar do temor do humano, o ruivo imediatamente intensificou seu ataque. Tentou golpear diversas partes do corpo do velho com a lança e ele se defendeu muito bem com a sua espada, mas se esquecera da maldita reza e era esse o principal intuito de Balder. Se dependesse do vampiro, o Templário não teria concentração para fazer mais nenhuma mandinga essa noite.

Escutou a queda do garoto metros dali e sorriu, satisfeito por o chão escorregadio manter um dos adversários longe. Sentia que o material prateado não o feria mais, a energia que executara Andrew finalmente se dissipara e não retardava mais seus braços. Girou a lança contra as pernas do velho, obrigando-o a usar a lâmina da espada para defender seus joelhos e deixando a cabeça exposta. Fora apenas um piscar de olhos, contudo era tempo suficiente para Balder se aproveitar e ele o fez. Extremamente rápido, manteve apenas uma das mãos segurando a lança e levou a outra contra o Templário. As unhas cheias de lama do vampiro rasgaram as partes proeminentes do rosto bronzeado e o delicioso cheiro de sangue envolveu o ar.

Os cortes não foram tão profundos quando gostaria, mas Balder se deleitou com a expressão dolorosa que o humano tentava disfarçar. Incrível vê-lo manter a postura inabalável mesmo que os lábios trêmulos e as lágrimas traíssem sua indiferença perante a dor da pele dilacerada. Quais são as chances desse desgraçado conseguir rezar agora? Pensou continuando a golpeá-lo. Queria cansar o Templário e provavelmente o teria executado em breve se um estranho ruído não o tivesse distraído. Percebeu que o humano também ouvira, pois seus olhos procuraram a origem daqueles baques contra o chão úmido.

“Puta que pariu, Jack!” pensou ao reconhecer a criatura monstruosa invadindo o terreno. Sabia que era ela não apenas por ser a única outra Labyrs de Berlim, mas pelo cheiro familiar. O mesmo resquício humano, o mesmo sangue vampírico que o seu. O ruivo perdeu um segundo precioso a observando se aproximar, os dentes afiadíssimos expostos e determinados a abocanhar o aprendiz ajoelhado. Porém, no momento em que Jack pulou em seu peito, fios translúcidos surgiram no local de atrito. A forma etérea ganhou volume transformando-se em uma esfera e explodindo, jogando a vampira longe e derrubando Balder no chão:

- Argh...- as dores musculares dos choques anteriores da lança eram nada comparadas com o que sentia agora. Parecia que a energia criada pelo moleque o queimara por dentro, sua pele estava intacta, mas seus membros tremiam, cada um com espasmos totalmente diferentes.

Não conseguia sentar e nem virar a cabeça para ver o que estava acontecendo, limitou-se a ouvir o rugido ameaçador de Jack seguido de ruídos metálicos. Eles estavam... fugindo? Sentou a tempo de ver a Labyrs pulando o muro, o ideal seria se libertar desse corpo humanóide e acompanhá-la, mas não aguentaria a transformação brusca. Seu sangue escorria pelo nariz misturando-se à lama que cobria seu rosto e as tremedeiras não cessaram completamente:

- Ele não disse uma palavra. Ele não conjurou merda alguma – resmungou colocando-se de pé. Não queria acreditar no que isso significava, mas era a única explicação. Por que mais o velhote se arriscaria a andar pelo noite assim, sem um batalhão acompanhando-o? Ele não está treinando um Templário qualquer, está treinando um dos 13.

Temendo a segurança da Labyrs, conseguiu correr e ganhou impulso para alcançar o topo do muro. Estava prestes a pular do outro lado, quando ouviu o som de uma freada brusca seguida de uma forte batida. Forçou sua visão para a rua além das árvores que circundavam o terreno. Um enorme caminhão estava tombado na pista, a carreta havia desencaixado e espalhou produtos eletrônicos por toda a rua. A parte fronteira estava quase irreconhecível, a lataria estava esmagada como se uma bola de chumbo houvesse lhe acertado em cheio:

- Ah não, caralho! - Xingou, correndo em direção a criatura negra que jazia inerte no asfalto.


Continua em: Cruz Sobre Berlim - III

Marolas do Aqueronte - Parte IV


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte III

Quando abri os olhos, senti uma lufada de ventos agitando os meus cabelos e percebi que não estava mais no interior da casa do necromante: pequenos flocos de fuligem cinza acumulavam e espiralavam ao redor, compondo uma paisagem inóspita e monocromática. A principio não consegui identificar do que se tratava, vislumbrei pequenos montes, fachos de luz e nuvens negras como as plumas de um corvo. Pouco a pouco o cenário foi ganhando forma, com apenas a minha figura no meio de toda aquela imensidão. Girei e perscrutei o ambiente, os dedos deslizando pelos cabelos quase brancos. A luz ali deixava tudo com um aspecto muito mais... morto.

Me vi então no que parecia ser um antigo campo de batalha ao ar livre. A terra estava revolvida, e hera crescia em torno de ossadas secas. Não havia animais necrófagos ali, pois toda a carne e sangue há muito se fora. Sorri. Era engraçado perceber que todo aquele cenário fora composto pelo meu subconsciente. Quis, involuntariamente, um lugar cujo horizonte estivesse à perder de vista, porque achava inapropriado lutar em espaços apertados e à mercê do tal magista louco. Me abaixei, os dedos roçando um dos ossos secos, sentindo a textura áspera e o cheiro acre. A terra estava seca e cor de chumbo, o vento trazia um leve odor que eu não conseguia identificar completamente, mas sabia que era familiar. Tudo estava perfeitamente crível.

Como que por mágica, pude ouvir um lamento distante. Uma lamúria incessante e muito baixa, como se o sussurro me beijasse os lóbulos das orelhas, acariciasse minha face pálida e me lambesse a pele fria. Senti-me envolvido, cativo, como um marinheiro entregue aos caprichos de uma sirene e do mar. Aqui, cabe-me dizer, também comecei a ouvir um tamborilar suave e intermitente que, entrelaçado com o canto choramingado da entidade invisível, parecia ditar o ritmo daquele deserto envolto em cinzas e podridão. Percebi então que se tratava de uma música. Uma melodia de harmonia um pouco questionável, com arranjos simples e hipnóticos. Primeiro os vocais, depois o rufar cadente dos tambores e, agora, o ressonar intrépido das cordas de um violão.

Lentamente ergui-me, deixando a brisa varrer para longe as minhas preocupações. Meus cabelos loiros eram embalados ao seu sabor gélido, bem como as vestes negras. Línguas de gelo lambiam-me, inebriavam-me e eriçavam todos os pelos do meu corpo. Do bolso de trás da minha calça, puxei as minhas duas baquetas de bateria. Olhei para o lado e percebi que não estava mais desacompanhado, pois uma enorme massa de pelos negros avolumava-se ali; Hector agora era um enorme licantropo, babando e rosnando com os punhos apertados, os olhos ambáricos fulgurando em frenesi alucinado. Do meu outro lado, obviamente, estava Dorian, com toda a sua pompa e classe de mágico de festinhas infantis, com cartola, varinha mágica e tudo o mais. Engraçado a imagem que tenho desses caras – ou como gostaria que eles realmente fossem, porque convenhamos, um lobisomem que não muda de forma não é tão intimidador assim, certo? Sem falar em um mágico que tem um bolso sem fundo, no melhor estilo fanfarrão “nada nesta mão, nada nesta aqui”, haha!

Sasha também estava ali. A mulher trazia nas mãos dois dos chicotes mais estranhos que já vi, pois na ponta inferior das empunhaduras, onde o cabo deveria acabar, havia mais uns vinte centímetros de lâmina curva, negra e extremamente afiada -imaginei que serviriam para estocar inimigos demasiado próximos, em casos urgentes quando não houvesse tempo para brandir o açoite. Ela calçava botas de saltos altíssimos que, suspeito, seriam impossíveis de se equilibrar sobre se estivéssemos no “mundo real”. Os cabelos dela estavam amarrados no topo da cabeça e toda a roupa dela era de vinil preto, exceto a enorme saia cuja fenda ia da cintura ao tornozelo - esta era de um profundo bordô, quase marrom. O tecido eu não consegui identificar, mas tive a impressão de que estava úmido, como que embebido em sangue fresco, embora o chão ao redor de si estivesse livre de qualquer respingo. Uma dominatrix - ainda que tivesse me acabado de dizer que não curtia sexo e esse tipo de coisa, era meio óbvio para mim que Sasha era extremamente controladora.

Girei habilmente as baquetas pelos dedos, e ao meu redor o vento pareceu se intensificar um pouco. Sorri novamente, exibindo os dentes desta vez.

- E aí, todos prontos? - Sem resposta audível. Hector rosnava, Dorian borboleteava ao redor, e Sasha seguia-os com olhos reprovadores. Era como se eu nem estivesse ali, e o mais curioso de tudo é que eu também não podia ouví-los. Deduzia, observando os dentes arreganhados do lobisomem e o sorriso zombeteiro do mágico de araque, o teor da conversa que tinham, mas apenas via lábios se moverem sem produzirem som algum. O véu que nos separava não era tão tênue quanto se fazia parecer, e era preciso muito mais do que dedos fortes para rasgá-lo.

Nesta hora a música atinge o ápice, em sincronia com as criaturas que parecem brotar do chão bem diante dos nossos olhos. Pareciam enormes abutres parcialmente decompostos, mas ao invés de uma cabeça de pássaro, os bichos exibiam crânios humanos. Rufaram as asas ameaçadoramente, erguendo uma nuvem de poeira e fuligem que me queimaram os olhos. Tossi, eles ergueram as cabeças para o alto, abriram as mandíbulas descarnadas e, acredito eu, gritaram em uníssono um desafio. A única coisa que eu ouvia era a voz ronronante da sirene invisível, acariciando-me os ouvidos e incitando-me a continuar. As aves eram horrendas, mas no meu mundo ninguém ofega ou se assusta com esse tipo de coisa, apenas sorri e meneia com a cabeça em concordância. Ter medo perde o sentido quando você se torna Deus; a única coisa que eu sentia ao ver aquele monte de criaturas putrefatas era excitação. Pura e simplesmente, eu queria destroçar todas elas com as minhas próprias mãos. Sentir os ossos estalando a cada golpe.

E foi isso o que fiz. Fui o primeiro a correr na direção deles. Pulei, alcei voo em direção ao firmamento cinza e fuliginoso, e cai estrondosamente no meio das criaturas em decomposição. Sob meus pés a terra tremeu, um abalo sísmico inacreditável e impossível se estivéssemos no “mundo real”. Mais uma vez, um véu de poeira se ergueu, e com um giro em torno do meu eixo, golpeei algumas aves com as baquetas e as derrubei. Pisei no crânio de uma delas, esmagando-o, depois apontei a ponta do instrumento para outra, e a mesma explodiu em chamas.

Cara, não estar presos àquele monte de regras do “mundo real” é um puta alívio. Tem magos que jamais saberão o quão libertador é poder fazer o que der na telha, como eu, pois “lá” não se pode alterar tão bruscamente a realidade. Tem alguns magos que se excedem e... explodem, morrem, ficam loucos, às vezes só por tentar abrir uma porta numa parede lisa, por exemplo. Óbvio que depois eu tenho que arcar com as consequências, mas enquanto posso, faço o possível para aproveitar o barato. Simplesmente deixo-me guiar pela marola, entende o que eu digo?

Enfim, voltando à batalha, pulei novamente, uns dez metros acima de todas elas, e de relance vi os outros lutando também com outras criaturas. Voltei a atenção para baixo, girei as baquetas nos dedos, e um pequeno redemoinho formou-se abaixo de mim. O tilintar das ossadas agitando-se e levantando-se encheu os meus ouvidos, e depois percebi que eu mesmo estava gargalhando loucamente. Meus cabelos encobriam parcialmente a minha visão, mas eu conseguia saber exatamente o que estava acontecendo abaixo de mim. Cai novamente, as baquetas agindo como duas pequenas espadas ao degolar mais dois “abutres”. Mesmo com toda aquela agitação, a única coisa que eu ouvia era, além da minha própria gargalhada, a música que se agitava cada vez mais. Por uma fração de segundo, cheguei a pensar que eu a estava produzindo, pois agora quem parecia ditar o ritmo era o meu próprio corpo: quanto mais rápido eu me movia, mais a sirene ululava, e a cada movimento de mãos, o som da percursão ficava mais e mais forte e retumbante.

As aves se aproximaram mais. Ao longe, explosões silenciosas podiam ser vistas. O horizonte fora, rapidamente, tingindo-se de negro, quando centenas de asas pútridas e crânios risonhos se fechavam em torno de mim. Tsc. Com um único movimento, ergui os dois braços verticalmente e duas colunas de areia, ossos e pó se içou metros acima, levando consigo grande parte dos abutres. Fechei as mãos em punho, e as colunas explodiram em uma chuva cinzenta, impulsionando para trás as criaturas, derrubando-as no solo arenoso.

Ofeguei por um segundo, limpando o suor que se acumulava em minha testa e parei para analisar o meu belo feito. As criaturas moviam-se, se aproximando umas das outras com lamentos silenciosos. Tudo pareceu escurecer, ergui os olhos para o céu e quando dei por mim, a abóboda esfumaçada não era mais cinza, mas de um amalgama de laranja doentio e preto. Franzi o cenho, olhando ao redor. Tudo parecia se corroer lentamente. Que merda.

As criaturas não eram mais aves, mas uniam-se rapidamente, também corroendo-se. Negras como piche, transformavam-se então em dezenas de mulheres nuas sem os membros inferiores – ali, queridos leitores, estava uma enorme e cachoalhante cauda de serpente. Eram Lâmias.

Mas que porra, primeiro uma cabeça bizarra da Malásia, depois abutres com cabeças humanas, agora um vampiro/demônio da Grécia. A seguir, aposto que será o Chupacabra.

Suspirei. Apertei os dedos em torno dos punhos das baquetas, e elas se alongaram consideravelmente, adquirindo o tamanho e a forma de dois pequenos sabres. Legal, hein?

Lancei-me sobre aquelas criaturas desferindo golpes rápidos, tentando degolar o máximo possível antes que me pegassem. Logo percebi uma explosão muito perto de mim, e de relance vi Sasha lutando com um dos chicotes na mão e a saia na outra: a mulher usava o tecido para fintar as Lâmias, cegando-as momentaneamente antes de parti-las ao meio com as lâminas na ponta do chicote. Juro que a vi pisar na garganta de uma delas, com aquele salto agulha, e deixá-la se afogar no próprio sangue negro e podre, mas acho que foi só a minha imaginação.

Dorian e Hector também estavam ali. A julgar pelo caos, Dorian explodia os bichos e Hector... bem, mordia, rasgava e se banhava em sangue, como qualquer lobisomem que se preze?

As rajadas de vento sopraram mais forte, faziam meus cabelos me chicotearem o rosto. Corri, gritei, e finquei os dois sabres nas clavículas de uma das Lâmias. A mesma me bateu, as garras rasgando a minha bochecha e fazendo meu sangue jorrar sobre si. Ela riu, um riso senil e silencioso, e eu também, quando afundei ainda mais as lâminas em sua carne.

- MORRE! – Torci os sabres, rasgando-a lentamente, e ela berrou de agonia. Não sei se no “mundo real” ela também o fez, mas aquilo me regozijou imensamente. Os olhos vermelhos do demônio me fitavam, e quando ela ergueu a mão e agarrou o meu pescoço, eu curvei o corpo para frente e a penetrei mais ainda. Ela cuspiu em meus olhos, e aquilo ardeu feito o inferno, mas eu não parei, exerci pressão para cima até que senti as clavículas se partirem e sua cabeça tombar para trás. Ela já estava morta quando a degolei, mas senti um prazer imenso ao fazer aquilo.

Olhei ao redor, e todas as Lâmias estavam mortas. Não existia ninguém de pé, exceto nós quatro. Sorri.

Todos ofegavam, mas por algum motivo estavam perfeitamente sãos. Nenhum arranhão, nenhum rasgo, sujeira ou cabelo fora do lugar. Só eu, que tinha três vincos profundos na face esquerda. Minha roupa preta lentamente grudava no corpo, devido à mistura de suor e sangue, e as baquetas diminuíram até assumirem a forma original.

Continuava a ventar, e o céu continuava cinza. Um estalo alto se fez ouvir, atraindo a atenção de todos para cima. O firmamento parecia rachar lentamente, derramando fachos de escuridão sobre nós. Um segundo de apreensão e tudo ruiu como um globo de neve se espatifando no chão. Uma torrente de cacos de realidade caiu sobre nós, e a negritude nos engolfou.

Eu estava em um vórtice negro, cujas rajadas queimavam a minha pele. Lágrimas quentes brotaram dos meus olhos, e minha cabeça fora atirada para trás e colidiu contra o que pareceu ser uma parede. Atordoado, olhei ao redor.

Por um segundo, uma ínfima fração de segundo, vi uma pequena espada de luz, que se equilibrava perfeitamente sobre sua ponta, e cuja empunhadura era cravejada de pedras preciosas. Parecia pequena demais, mas extremamente poderosa. Depois, vi a Dracma que tinha ido buscar -aquela que supostamente seria capaz de ressuscitar os mortos-, e vi o rosto esmaecido de uma mulher de olhos verdes e cabelos castanhos e senti sua dor e suas lágrimas banharem as minhas faces. E então, subitamente, eu soube quem era ela. Lembrei de seus dedos roçando minhas bochechas e a melancolia de sua alma tocando o meu coração. Em meio às lágrimas, sorri. No meio do turbilhão de estilhaços, entrevi um homem de cabelos e intenções negras abrindo os braços e ali, sob o peso de seu olhar, me afoguei.

A música findou, a Sirene parou de cantar e tudo era silêncio. Silêncio e dor.

.
.
.

Quando Remmy voltou a abrir os olhos, estava de joelhos no chão da casa do Necromante. Arfava, as mãos espalmadas apoiando o próprio corpo, e pequenas gotas carmesim empoçando lentamente no mosaico abaixo de si. Hector estava ao seu lado, os olhos preocupados encarando-o; o rosto de Remmy sangrava, e seus membros ardiam com o esforço que fizera para realizar todas aquelas coisas. Seus dedos ainda envolviam as baquetas, e os pulmões pediam por um cigarro.

Sabia que não tinha se passado nem um minuto desde que entrara em transe, pois tão logo ergueu o olhar para o companheiro, viu duas sombras avolumarem-se na escuridão atrás de si. Sasha e Dorian acabaram de entrar na mansão, e sentiu o cheiro de carne humana calcinando logo atrás deles. A assassina olhou para o adolescente com um semblante curioso, depois voltou-se para Hector, como se achasse que ele fosse responsável pelo ferimento no rosto de Remmy. Hector abanou a cabeça, negando, e Dorian tocou seu ombro e murmurou alguma coisa, fazendo sua expressão relaxar um pouco. Remmy sorriu.

- Tive um sonho maravilhoso. Você estava lá, bonitinha, e usava chicotes muito mais legais do que esse que você tem aí. Hec, me ajuda aqui... precisamos pegar logo essa espada e sair daqui. Ele está vindo.

- Espada? – Perguntou Sasha, enquanto Hector oferecia o ombro para Remmy. – Você não quer apenas o Dracma?

- Queria, agora quero uma espada também.

- Que espada? – Perguntou ela, ríspida. A assassina obviamente não estava gostando nada daquela história, afinal, o garoto tinha prometido todo o saque para ela, certo? Mas a sua revolta não chegou a ser verbalizada, pois quando a mulher abriu a boca para protestar, ruidos secos e ritmados chamaram a sua atenção para o topo da espada.

- Creio que ele se refira à esta espada. - A voz era sibilante e fazia os pêlos da nuca dos quatro se eriçarem. Hector estremeceu subitamente, um espasmo involuntario e completamente animalesco. Mostrou os dentes, a garganta produzindo aquele mesmo ruido ameaçador de outrora. O homem no topo da escada era tão branco quanto um cadaver, com os cabelos de um negro espectral. Trazia envolvido nos dedos uma pequena espada, de aproximadamente trinta centímetros e inteiramente dourada. O punho, como Remmy vislumbrara, era adornado com pedras preciosas que faíscavam lindamente à luz bruxuleante das velas que - ele não tinha percebido até então - compunham o cenário ao redor.

- Aurel?!

Ele sorriu. O mago movia-se de maneira tão fluída e tinha olhos dourados, ameaçadores e flamejantes, como os de uma pantera à espreita. Estava exatamente na junção das duas escadarias que circundavam o ambiente, na frente da porta que levava à ala superior da mansão. Eles tinham certeza que era para lá que deviam seguir.

- Você é o filho de Siegfried, não é? Percebo a semelhança. Então é verdade o que dizem? - O espadim dançou, um movimento rápido e faiscante, pulando de uma mão para outra. Rodopiou, como se o mago testasse o peso e equilibrio da arma, mas à medida que ela se movia, um rastro esfumaçado era desenhado no ar. - E ele se alega imortal? Quão... - Mostrou os dentes, mas não era um sorriso, acentuando a semelhança com um enorme felino negro de olhos dourados. - ...patético.

Cruz Sobre Berlim II - parte 1


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - I

Os dedos bateram forte nos botões do rádio. Uma, duas, três vezes. O impacto da unha afiada com o painel era similar ao som de algumas das músicas pops das estações, obviamente ele estava inquieto. Nada lhe interessava, o barulho que virou a música nesse início de século o aborrecia profundamente, precisava ouvir qualquer coisa sem rap, sem grito, sem desafino. Apertou com força o volante, as unhas rasgando a capa de couro que o envolvia. Não apenas a música, mas também os meios de transporte o faziam sentir uma saudade imensurável dos séculos que viveu. Em outros tempos não estaria dentro de um veículo obedecendo a leis de trânsito, preocupado com carros ao redor e com as cores de um sinal.

Pisou fundo ao verde do semáforo, seus olhos cor de mel passavam da pista movimentada aos prédios que contornavam a rua. A boate que procurava iluminou os vidros da janela com suas cores pulsantes e ele deu seta virando à direita. Desligou o rádio com um prazer indescritível nos olhos, bem no momento que uma famosa cantora começou a gemer em sua música, cada vez mais repetida naqueles dias. Estacionou sem muito cuidado próximo a uma viela e saiu do veículo. Balder era de uma estatura mediana, mas o físico claramente forte, os músculos torneados aparentes na camiseta esportiva, chamavam a atenção das mulheres que, assim como ele, iam em direção à boate. Estava totalmente vestido de preto, os longuíssimos cabelos ruivos presos para trás davam-lhe um aspecto de um jovem metaleiro, reforçado com as pulseiras de couro com detalhes em prata. Apesar de a pele pálida lhe dar uma aparência de doente, seus exóticos traços felinos se sobressaíam, gerando um encanto natural a qualquer garota (ou garoto) que o vislumbrava.

Não estava com um rosto amigável e nem respondeu ao sorriso das jovens na fila da danceteria que o observavam. Não que ele não fosse bem humorado; o era até mais do que o normal entre os de sua espécie, mas raramente sorria para humanos, seus caninos longos eram evidentes e até com os lábios fechados sentia que desconfiavam de sua peculiar dentição. Viu uma estranha movimentação na fila, todos se afastavam de um indivíduo que tentava abrir espaço na direção oposta da porta da boate. Balder sabia quem era e porque estava correndo. O vampiro apressou os passos até começar a correr, contendo-se para não divulgar sua velocidade sobre-humana coisa que aquele maldito a sua frente já não fazia questão de disfarçar. Desde que conseguiu se livrar da fila, o indivíduo corria a ponto de virar um mero vulto aos olhos humanos. Sorte, pensou, que com a escuridão do lugar isso não causou grande tititi ou filmagens de celular que posteriormente apareceriam na internet. Porém, graças a atitudes assim que aquele idiota era agora convocado para comparecer à maior hierarquia da cidade.

Rapidamente ele alcançara o final da quadra, obrigando o ruivo a correr mais rápido, confiante que a má iluminação das calçadas não revelariam sua velocidade anormal. Mais ágil e experiente a esse tipo de perseguição, Balder, em segundos, já estava a poucos metros do vampiro que fugia. Este tentou pular um muro, porém o ruivo atrapalhou-o puxando um de seus pés. O fugitivo se desequilibrou sobre a barreira de concreto e caiu do outro lado em um grande estrondo. Balder sentou-se no topo da grossa parede e disse com sua voz rouca:

- Assim você nem me fez tentar respirar. - os caninos super pontiagudos se destacavam entre os lábios sorridentes - Péssima fuga para alguém que fez uma bela merda essa semana, Andrew.

O vampiro tirou a lama do rosto e se virou para o outro, a expressão tentava passar desafio:

- Piada ouvir isso de um Labyrs traidor como você – Andrew tocou na mancha avermelhada que se espalhava pela barra de sua calça jeans e por um instante seu rosto demonstrou a dor que sentia naquele lugar - Sempre achei ridículo usarem justamente um traidor para ser o braço direito do General de Berlim...

Balder, sem mudar a expressão animada, pulou cravando os coturnos no chão enlameado. Como aquela lenga-lenga Vox sobre seu passado o entediava:

- Pois eu sempre achei patético alguém que não gosta das regras da cidade insistir em ficar por aqui - rapidamente inclinou-se puxando o pé machucado e derrubando o sujeito que agora tentava se levantar. Cravou as unhas afiadas no local ensanguentado, observando tranquilamente a mancha de sangue aumentando no calcanhar - Estripar um padre, na própria igreja, antes de uma missa... Vamos lá, você era um coroinha e te foderam quando mortal? Ou você é daqueles fanáticos que acham que a igreja é manipuladora e deveria se extinguir? - pisou em sua virilha, satisfeito por ouvir um gemido de dor - É bom você preparar sua justificativa logo, hein, Andrew, você é uma merdinha nessa cidade e só não está morto agora porque o General faz questão de ouvir de sua boca o que aconteceu. Ou quer matá-lo com as próprias mãos, difícil saber o motivo de ele exigir que eu te leve com a cabeça no pescoço.

O ruivo sentiu o celular vibrando em seu bolso. Andrew o xingava de sabe-se lá o que novamente, mas Balder o ignorou, limitando-se a arremessá-lo contra o muro para calá-lo antes de atender a ligação. Era um de seus subordinados encarregados de achar os Vox que frequentemente acompanhavam Andrew:

- Vamos ver se os seus amiguinhos tem mais bom senso que você e saíram de Berlim ontem mesmo, Senhor Revoltadinho... – murmurou, sua face irônica perdeu o sorriso quando ele ouviu apenas um som irritante no telefone, alguém falava, mas tamanha era a interferência no sinal que ele não conseguiu decifrar palavra alguma. Impaciente com a estática, desligou e voltou sua atenção para o loiro que mancava a alguns metros à sua frente, prestes a correr.

A diversão voltou à face do Labyrs, achava engraçado como todos os idiotas realmente acreditavam que conseguiriam escapar dele, poderia muito bem segurá-lo agora, mas deixou-o se afastar mais. Não apenas as músicas e o sistema de transporte mudaram para pior, os vampiros mais novos, concluiu, estavam cada vez mais risíveis . A velocidade com o que o loiro corria era quase equivalente a de um humano agora que um de seus pés estava machucado:

- Caralho, Andrew, como você é ridículo! Você nem estava perto de nascer como humano quando me chamaram de traidor. A única coisa Vox que corre na sua veia é a arrogância, seu idiota! - Gritou enquanto retornava a ligação, os olhos cravados no vampiro que fugia.

Porém, antes que Balder pudesse recomeçar a perseguição, um som fino cortou o ar e ele viu um objeto atravessando o corpo de Andrew. O grito do loiro ecoou no lugar por alguns segundos, tempo que a lança demorou para fincar-se na lama e erguê-lo do chão. Faíscas em formas de tentáculos saiam do lugar onde a arma de prata rasgara-o. A face se contorcia em horror, a boca aparentava continuar a gritar, entretanto o único som audível agora no local era o de seus membros queimando em meio aos espasmos. Ele definhava envolto em luz prateada. Lama e sangue escorriam pelo rosto de Balder, ele não se incomodou em limpar aqueles respingos da ação brutal, nem os notara, assim como demorou a perceber que o barulho irritante voltara ao celular nos últimos segundos interrompendo a ligação. Observou a cena (e continuava) paralisado:

- Realmente, um idiota. - disse uma voz grave, ecoando no outro extremo do terreno.


Continua em: Cruz Sobre Berlim - II parte 2

Marolas do Aqueronte - Parte III


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte II

- Eu achei que elas só atacavam mulheres grávidas! – Protestou Remmy. Por ter uma maga tão pouco convencional como preceptora, o garoto era obrigado a estudar diversas culturas e, consequentemente, as criaturas folclóricas que compunham as crenças daqueles povos. Lembrava-se vagamente da penanggalan, principalmente por seu aspecto tão asquerosamente peculiar. – O que diabos ela está fazendo aqui?

- Ela é serva de um necromante, fará o que lhe for ordenado, bonitinho. Porque você acha que vampiros não se associam com este tipo de magos, se não para conservar o seu livre-arbítrio? – Sasha mostrava-se um pouco exasperada. Obviamente não estava habituada a explicar coisas tão elementares para as pessoas. Apertou a empunhadura do chicote e murmurou uma fórmula mágica. O chicote começou a incandescer, lentamente, a partir dos dedos da mercenária até as pontas prateadas:

- Ok, e como a gente mata? – Perguntou Hector, hesitante. Os dentes e suas unhas continuavam com aparência bestial, e os olhos emitiam um fantasmagórico brilho âmbar. Respirou ruidosamente, como se rosnasse um aviso para a vampira não chegar mais perto. Inútil. A cabeça e as vísceras continuavam a se aproximar lentamente.

- Batendo? – Sugeriu Remmy, com um sorriso amarelo.

- Precisamente. Na verdade, o ideal seria destruirmos o corpo, mas não acho que será assim tão fácil com aquele escudo ao redor dele. E a cabeça vai fazer de tudo para protegê-lo, também... – Resmungou Sasha, visivelmente impaciente. O cenho franzido da mercenária denunciava o quão insatisfeita estava com aquele falatório todo em um momento tão delicado. A mulher não esperou resposta dos garotos, deu três passos adiante, ergueu o punho na altura do rosto e, com um movimento brusco, estalou a arma. O chicote sibilou e rasgou o ar como um raio de fogo. Os cravos enrolaram-se nas vísceras da vampira, que berrou um desafio tão agudo que os três garotos levaram as mãos aos ouvidos, com caretas de dor. O grito da penanggalan pareceu distorcer o ar ao seu redor, como se a criatura regurgitasse uma espécie de tentáculo transparente. Ergueu a cabeça em direção ao firmamento, direcionando o desafio para os céus.

- Isso aqui está ficando cada vez melhor... – Disse Dorian, enfiando a mão no bolso mais uma vez. Hector precipitou-se pela clareira, ganhando terreno rapidamente. Remmy espalmou as mãos na frente do corpo, unindo os polegares e os anelares, recitando rapidamente uma fórmula mágica. O corpo do lobisomem cintilou em azul por um segundo, depois voltou ao normal, mas a velocidade do rapaz aumentou consideravelmente, chegando a deixar um borrão difuso às suas costas ao correr pelo lugar. Os dedos de Remmy mudaram de posição quando o garoto inverteu o sentido de uma das mãos e voltou a murmurar outra fórmula; entre suas mãos, uma luz verde explodiu, lambendo-lhe os dedos como chamas cor de esmeralda.

A assassina continuou a investida, puxando lentamente o chicote e fazendo a penanggalan se aproximar contra a sua vontade. Sasha pisou no açoite, prendendo-o sob o salto, e com a outra mão puxou um dos frascos do cinto. Em um movimento rápido, jogou-o no chão, estilhaçando o recipiente; o líquido se espalhou e foi absorvido pelo solo, e no instante seguinte uma bruma purpúrea começou a brotar onde a poção fora derramada. Dorian, percebendo a dificuldade de Sasha em manter a vampira parada, entendeu imediatamente o que deveria fazer: puxou do bolso algumas bolinhas castanhas e enrugadas, atirando-as ao chão bem abaixo da criatura. Em seguida, cravou os dedos na terra e, jogando a cabeça para trás, murmurou mais uma fórmula mágica.

- Eu cuido para que ela fique parada... - Disse entre dentes, os olhos apertados como se não quisesse ver o que aconteceria a partir dali. - ...vai e mata essa vadia!

A fumaça purpúrea fora aspirada tanto por Sasha quanto por Dorian, e o efeito já começava a ser sentido pelos dois. No instante em que o morto-vivo baixou a cabeça, mais três tentáculos translúcidos haviam brotado do fundo de sua garganta e serpenteavam pelo ambiente. Um deles chicoteou o chão logo abaixo de si, fendendo a terra e erguendo uma nuvem de poeira e plantas no exato instante em que as sementes que Dorian atirara germinavam magicamente. Grandes espinheiros se desenvolveram ao redor do morto-vivo, alguns ainda no solo, outros em pleno ar, e alguns dos ramos enroscaram-se e desenvolveram-se ao redor das vísceras do penanggalan, que berrou ainda mais alto. Os pulmões da vampira inflaram, e a criatura movimentou a cabeça de forma a fazer os três tentáculos varrerem todo o terreno. Hector facilmente desviou, pulando sobre a cabeça e dirigindo-se ao corpo no interior da mansão. O ar ao redor de Remmy, Sasha e Dorian começara a ser distorcido, todavia o mago loiro não fora rápido o suficiente para preparar uma defesa satisfatória: a barreira fora vencida com facilidade e os três foram atingidos; Sasha e Remmy curvaram-se para frente, e Dorian caiu de costas na terra, com sangue escorrendo da lateral dos lábios. A assassina arfou, engolindo grandes quantidades de ar e pondo-se de pé o mais rápido possível - e mais lentamente do que o aceitável, quando se tem um monstro na sua cola. Remmy, de joelhos na terra revolvida, apertou os dentes.

Sasha recolheu o chicote rapidamente. Com um novo movimento, fê-lo enroscar-se a um ramo de espinheiro mais grosso, metros acima da cabeça do penanggalan e puxou uma das adagas de obsidiana. A névoa permitia que a assassina enxergasse mais claramente na penumbra do local, bem como aumentara consideravelmente a sua agilidade – não se equiparava ao sangue élfico. A mulher puxou o chicote, firmando-o, e correu na direção da vampira, descrevendo uma trajetória semicircular ao redor dela. A vampira investiu mais uma vez, os três tentáculos amalgamaram-se em um único, cravando-se aos pés da assassina, erguendo mais uma nuvem de terra e grama no ar, encobrindo tanto a si mesmo quanto a Sasha.

Neste instante, Hector chegara à soleira da porta da mansão, porém, parecia impossibilitado de entrar por uma nova barreira invisível. O lobisomem socou o ar, e um estrondo se propagou instantaneamente. Um ganido, e o corpo de Hector foi atirado para trás violentamente.

Dorian, já restabelecido, ergueu os olhos para o combate que se desenvolvia alguns metros adiante. Remmy, percebendo que Hector precisava de ajuda, pôs-se de pé e correu em sua direção. Sasha, habilmente, saltou até um galho mais grosso, e sobre outro, pulando diretamente sobre a criatura e içando-se com a ajuda do chicote. Os ramos de espinheiros apertaram-se ao redor das vísceras da vampira, quando Dorian fechou a mão em punho, com uma expressão carrancuda. – Morre, vadia! – Cuspiu. A vampira arregalou os olhos, rubros e brilhantes, cravando-os em Sasha, que caía livremente em sua direção com uma adaga negra em uma mão, e o cabo do chicote na outra. O brilho nos olhos da penanggalan intensificou-se. Dorian, percebendo o que ia acontecer, ergueu a outra mão no exato instante em que duas rajadas sangrentas escapavam dos orbes oculares da sinistra criatura.

Quando Remmy se aproximou de Hector, este já estava de pé mais uma vez e murmurava que estava bem. O loiro mostrava uma expressão conturbada no rosto, mas não perguntou mais nada, simplesmente disse: - Me ajuda a quebrar esta barreira, então. Vamos destruir o corpo dessa vadia juntos! – Hector anuiu, com um meio-sorriso, e repetiu a fórmula mágica de Remmy. Ambos entoaram em uníssono o cântico, e espalmaram as mãos diante do corpo ao mesmo tempo. A barreira oscilou e faiscou. Uma rachadura apareceu bem diante dos dois. O loiro, impacientemente, precipitou-se para frente e chutou a parede invisível no ponto fissurado. A barreira pareceu revidar da mesma forma que fizera diante da primeira investida de Hector, mas Remmy não recuou. – Quebra! Quebra! QUEBRA, PORRA!!! – O terceiro chute foi mais forte. Um clarão se deu no exato instante em que o solado do sapato de Remmy encontrou a barreira, e a mesma se estilhaçou. Uma súbita rajada de vento brotou do interior da casa, jogando-os alguns metros para trás e afastando toda a poeira e fumaça da clareira às suas costas, onde Sasha e Dorian enfrentavam a cabeça.

- Ali está o corpo... Vamos! – Disse Remmy, mas foi Hector que tomou a frente, correndo em sua direção. As luzes da casa então apagaram-se de súbito.

Sasha, salva pelo escudo de energia que Dorian conjurara, cravara a lâmina de obsidiana diretamente no coração da penanggalan. O espinheiro apertou-se ainda mais em torno da vampira, que berrou mais alto – desta vez de dor. Os tentáculos agitaram-se mais rapidamente, um deles atingindo Sasha diretamente na face e lançando-a para trás. O chicote incandescente da assassina fora o que a impedira de cair sobre os ramos de espinheiro, e o que a ajudara a utilizar o impulso do golpe para descrever um semicírculo e aterrissar em segurança no solo revolvido. Ali, com um torção mais forte do pulso, fez o galho se partir logo acima da cabeça e cair sobre ela. A adaga ainda estava cravada no coração pulsante quando, em um último esforço, a vampira expeliu uma nova rajada de energia pela boca, desta vez misturada à podridão de suas entranhas decompostas. A assassina saltou para o lado e o tentáculo sangrento atingiu o solo no ponto onde ela estivera.

Uma pequena explosão se fez ouvir no interior do palacete, e quando Dorian e Sasha ergueram os olhos para a porta de entrada, o que viram foi o corpo sem cabeça da penanggalan ser atirado na clareira com violência ímpar e, no instante em que tocou o solo, irromper em chamas negras. A cabeça também fora carbonizada, vítima do mesmo feitiço conjurado por um Remmy carrancudo que saía da escuridão da mansão para a penumbra do terreno.

- Tudo certo, podemos prosseguir. – Disse. Sasha virou para o lado e cuspiu uma grande quantidade de sangue, depois se aproximou do espinheiro e, com um movimento brusco, arrancou a adaga do coração em chamas da vampira morta.

- Conheço uma vampira que iria adorar a obra de arte que você fez aqui, Dorian. – Disse, sorrindo. – Foi uma escultura e tanto. – Piscou para ele, finalmente, antes de se virar na direção da porta. Ele a havia surpreendido mesmo, no final das contas.