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Cruz Sobre Berlim I


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - Prólogo

A pequena chama provocou penumbras por toda a sala escura. A criatura que acendeu a vela colocou-a no chão de pedras, seus olhos misteriosos percorreram o cômodo vazio de vértice a vértice. Não havia móveis, não havia portas, somente ele e aquela vela habitavam o local. E sua sombra. Olhou o sangue  que a manchava, os pequenos furos que ele mesmo abrira nos braços com seu dedal foram o suficiente para produzir rapidamente um aglomerado de gotas sobre o piso sombreado. Estreitou os olhos absorto na textura etérea que começara a brotar e abriu um sorriso singelo. Duas figuras ganhavam formas, cada vez mais nítidas, naquilo que já não era mais sua sombra.
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- Veja. Todas essas pessoas não fazem idéia do que pode estar à espreita no próximo beco escuro que adentrarem. Ladrões, assassinos, estupradores... isso elas esperam, se acostumaram a caminhar por aí estreitando os olhos a qualquer membro da sociedade que fuja de seus padrões de vida. Não, elas não esperam que alguém em plena multidão possa lhe puxar pelos cabelos, cheirar sua pele e cravar os dentes em seu pescoço pulsante. Subjugadas por uma força que jamais sentiram antes. Em segundos, seu líquido vital é roubado, provavelmente não o suficiente para matar seu corpo, mas, sem dúvida, o suficiente para ruir toda sua certeza de que monstros não existem.

- A pessoa não foi morta, mas sua dignidade foi abalada como se houvesse sido estuprada. A marca do corte, seja por caninos afiados, seja por um objeto cortante, permanecerá por alguns dias, lembrando-lhe que não fora alertada sobre lunáticos que afiam seus dentes e bebem sangue. Como você acha que ficará a fé desse cidadão? Deus nunca lhe mostrou provas de sua existência, mas o diabo...

Vinicius levou a boca o charuto que girara entre os dedos nos últimos segundos e o acendeu. A densa fumaça branca seguia o rumo do vento, levando o aroma de fumo pela praça iluminada. O adolescente coçou o nariz contendo um espirro, mas não reclamou da alergia, continuava atento a face do robusto homem ao seu lado que fumava observando os cidadãos de Berlim. Engoliu em seco tentando formar alguma palavra nos lábios, procurando em sua mente algo inteligente para se comentar. Queria realmente ouvir, só ouvir, mas aqueles olhos estreitos o encaravam agora indiferentes, como se esperassem alguma coisa que demonstrasse que ele era digno de estar ali acompanhando-o.  Vinícius tragou mais uma vez e falou gesticulando com o charuto:

- Não que eles sejam filhos do diabo, você entende isso já, não é? Eles não se declaram assim e não há provas de que eles realmente o são... mesmo que, como aquele Labyrs que nos atacou, consigam tomar formas bestiais, ainda assim, não podemos taxa-los disso... Mas o que as pessoas com pouca fé pensariam ao ver uma criatura com características tão diferentes de tudo o que conhece? Não apenas um que se transforme daquele jeito, mas um com forma humanóide, ele consegue incomodar com seus olhos selvagens e hipnóticos. Não importa o vampiro, quando você vê um olhando para você, desejando seu sangue, você sabe que ele não é humano. Você nota seu cheiro seco, a pele límpida como a de uma estátua, os cabelos sedosos como os das malditas propagandas de xampu... - fez uma careta debochada - Cada linha de seu corpo demonstra como eles ignoram os limites do tempo.
 
O adolescente cruzou os braços, voltando os olhos escuros para a multidão apressada que cruzava a praça. Agora ele fazia parte dos raros de seu batalhão que conhecera um vampiro antigo, um Labyrs. Justamente seu primeiro contato com um vampiro de linhagem pura fora um que assumia formas tão atípicas do resto da própria espécie, cujo sangue negro e oleoso poderia envenenar em uma breve aspiração. Seu estômago ainda não se recuperara daquele cheiro, passara os últimos três dias nauseado sem conseguir digerir algo sólido. O temor de perder um de seus próprios membros como acontecera com Eric também não colaborava para que o enjôo passasse. Ao invés de deixá-lo inspirado, a experiência só o lembrara o quanto ele ainda precisava treinar para conseguir combater um inimigo tão forte. A verdade, é que antes de encarar aquela fera, nunca levara vampiros a sério, afinal era comum em seu país derrotá-los. Nunca ouvira alguém comentando que teve um companheiro tão brutalmente ferido como fora Eric. Como se soubesse o que pensava, o homem, muito mais velho do que ele, coçou o cavanhaque dizendo:

- O que nós enfrentamos em Portugal não se compara em nada com os vampiros daqui, garoto. Aqueles são vagabundos com simplória fome de sangue e imortalidade fraca. Seu olhar é vago, perdido, sem noção da história de sua espécie, sem noção da história de seu sangue. Vi alguns vampiros assim sucumbirem com apenas uma espada no peito. Eles são o mais comum e realmente, se planejar bem como matá-los, não dão muito trabalho. Mas a pequena parcela dos imortais que originaram as lendas quase nos extinguiu na era renascentista.

Molhou os lábios, tragando novamente e se levantou, dando alguns passos para frente. O homem tinha quase 60 anos, mas por debaixo daquelas espessas roupas de frio havia um físico muito bem conservado, era mais ágil e forte do que a maioria dos novatos que o adolescente conhecia. Nem o vício parecia atrapalhar seu fôlego quando lhe ensinava a manejar a espada. Observou o velho andando de um lado para o outro deixando um rastro de fumaça ao seu redor. Admirava-o, não apenas por essas habilidades físicas louváveis, mas principalmente por expor constantemente suas próprias ideias sobre os Templários e os noturnos como Alban gostaria que seu pai o fizesse.

O jovem pousou os olhos tristes na grandiosa igreja que servia de cenário de fundo dos civis apressados voltando para a casa. As luzes dos postes geravam sombras nas esculturas dos anjos que enfeitavam seu telhado, dando-lhes um ar grotesco, temível. Pareciam julgar os mortais que os ignoravam na praça abaixo. Ele cruzou as mãos, estalando os dedos, preparando-se para perguntar:

- Quanto desses você já matou? – sua voz era esganiçada.

- Um vampiro “nobre”? – Vinicius, com uma expressão zombeteira fez aspas no ar - “De Família”? - o moreno fez que sim com a cabeça, empertigando o corpo para ouvir a resposta. – uns 15, mas não sozinho. Sozinho eu matei apenas 2, totalmente por sorte. É muito difícil achar um vampiro dessas antigas linhagens em países como o nosso. Sair para caçá-los exige muito planejamento...  o que viemos fazer aqui é uma situação atípica. Você sabe que o certo (e o ideal) é reunir vários de nós para dizimarmos todos os vampiros da cidade, mas não é o caso. Não podemos correr o risco de perder mais homens como ocorreu na Islândia.

- E com Eric...

- Você já sabe disso, estou sendo repetitivo... - o mais velho retrucou.

- Não, não está! – Alban cruzou os braços, a tristeza dos olhos castanhos foi substituída por sincera curiosidade – Eu sei que estamos aqui mais para espionar e precisamos ser discretos, mas é bom ouvir mais detalhes. Cada um que participou dessas invasões ou espionagens falam dela de um jeito diferente, é bom para aprender...

Vinicius forçou um sorriso e desviou do olhar complacente do garoto. Esfregou a ponta do charuto na aba metálica da lata de lixo apagando-o:

- O que é realmente "bom para aprender" é a prática. - virou-se e retirou um papel amassado do bolso, mostrando-o para Alban. Era uma página rasgada de jornal, os títulos gritantes da matéria exibiam palavras como “extirpado” e, a que mais chamou a atenção da leitura imediata do garoto, “padre” - Dessa vez você vai poder observar e tirar suas próprias conclusões, Alban. Hoje vamos matar um pouco dos vampiros dessa cidade.


Continua em: Cruz Sobre Berlim II

Marolas do Aqueronte - Parte II



- Este é o carro do James Bond, né? – Perguntou Sasha, com um sorriso divertido no rosto, evidenciando o teor jocoso da pergunta. Remmy, com os longos cabelos loiros amarrados em um rabo-de-cavalo, abriu a porta do carona para ela com uma firula cavalheiresca e respondeu, com igual sarcasmo:

- Não, querida, este é o carro do Senhor meu pai, Siegfried Von Vogelrauch, creio que já tenha ouvido falar nele. – Sasha riu, enquanto se acomodava no banco e passava o cinto de segurança sobre o torso. Os cabelos da mercenária, naquela tarde, estavam arrumados em um coque apertado na nuca, e a mulher trazia uma bolsa de mão que emitiu um perigoso ruído metálico ao ser depositada entre as suas pernas, no piso emborrachado do Aston Martin Rapide do mago milionário. Poucos segundos depois a porta do motorista se abriu e Remmy pulou para dentro com uma elegância e fluidez de movimentos quase felinos. – E então, pronta?

- Pé na tábua, Sr. Bond! – Brincou, piscando para ele. Remmy sorriu e girou a chave na ignição; logo depois, o carro deslizava suavemente pelo asfalto das ruas de Praga. – E então, para onde vamos, mesmo?

- Primeiro, precisamos nos encontrar com Dorian e Hector. Depois, para o interior, arredores de Cieszyn. – Replicou Remmy, girando a direção com uma mão e, com a outra, sintonizando uma estação de rádio qualquer. Tamborilando os dedos no volante, no ritmo da música, perguntou: - E nas suas pesquisas, o que descobriu sobre o Aurel?

Sasha arqueou as sobrancelhas, encarando Remmy com surpresa. Abriu a boca lentamente, antes de disparar com uma rispidez tão pouco característica: - Como é que é? Você que me vem com a idéia de invadir a casa do cara, e quer que eu faça o dever de casa? Você só pode estar brincando, garoto! – Protestou, enfiando a mão no bolso da gabardine caramelo e pescando de lá uma cigarreira dourada contendo uma dezena de cilindros de papel negro. Cheiro de Artemísia, cravo e sálvia encheu o ambiente. Ela sorriu e acendeu um. O loiro, instintivamente, baixou o vidro da janela do carona, deixando uma brisa gélida varrer o interior do Aston Martin. – No mundo de hoje, Remmy, onde em qualquer esquina, em qualquer canto escuro, pode se esconder um demônio sedento de sangue, ou coisa pior, prevenção é tudo. E só se consegue isso com informações, certo? Então o que você deveria me perguntar não é o que eu sei, mas quanto eu sei, e quanto eu quero por isso... Entende?

- Pensei que você tivesse acabado de dizer que odeia seres mágicos. Estamos indo ferrar com um, não é satisfação o suficiente?

- Odeio. – Um vislumbre dos dentes de uma Sasha zombeteira. O som do cigarro queimando, e a mulher graciosamente deslizando os dedos para fora do carro para se livrar das cinzas, antes de replicar: - Odeio, mesmo. Mas odeio ainda mais a minha conta bancária vazia. Amo dinheiro, por isso tenho tanto a oferecer, você sabe...

Remmy riu alto, e outra música começou a sair dos auto-falantes. Mordeu os lábios por um segundo, antes de perguntar: - Você não tem marido, Sasha? Namorado? Você é tão g... bonita, não precisava se arriscar tanto para viver uma vida de rainha.

- Isto foi uma cantada? – Perguntou ela, franzindo o cenho em uma expressão de velada confusão. – Eu não vou dar as informações para você só porque me elogiou, hein?

- Não, não foi. Podemos conversar do preço depois que você me responder por que eu sempre vejo você sozinha...

- Por que eu não tenho interesse em homens. Nem em mulheres. Nem em vampiros. Nem em nada que se mexa, meu único amante é o meu cartão de crédito, lindinho. Por isso eu me empenho tanto em ser boa no que faço: para me sentir amada! – Gracejou, piscando para ele e tragando mais uma vez. – Respondi a sua pergunta? Podemos falar de negócios agora? – Em sua outra mão, um blackberry preto descansava, e em um rápido vislumbre Remmy conseguiu ler “Alioth” estampado no display luminoso.

- Claro. Claro.

***



O firmamento estava tingido de vermelho e dourado quando os quatro finalmente desembarcaram do Aston Martin Rapide, em uma rua pavimentada de cascalho e completamente deserta. Sasha olhou ao redor, pouco interessada, enquanto curvava o corpo para frente para pegar a bolsa de mão e colocá-la sobre o banco que ocupou nas últimas duas horas. Com um movimento rápido, abriu o zíper principal, revelando todo o aparato que trouxera para aquela situação.

Dorian assobiou baixinho, parte para as ancas erguidas de Sasha, parte para a coleção de facas, armas de fogo, punhais e um enorme chicote negro que pulavam para o exterior da bolsa da assassina. – Que faca grande você tem aí, vovozinha! – Brincou, aproximando-se lentamente. – Diz que você vai levar esse chicote, chérrie! Couro sempre me excita!

- Algo me diz que você tem um ou dez DVDs da Fornicaraz, hein? – Brincou Hector, deslizando para fora do carro vestindo apenas uma camiseta regata preta, calça e gorro de lã cinza escuro. Remmy, que observava tudo de pé ao lado da porta do motorista, simplesmente sorriu. Na mão, um cantil translúcido cheio até o gargalo com um líquido verde-esmeralda.

- E então, Sasha, você ainda não nos disse o que descobriu sobre o tal mago... – Perguntou ele, atraindo o foco da conversa para si. Tragou longamente da garrafa, enquanto a mercenária enfiava duas adagas de obsidiana nos coldres atados na altura das coxas.

A mulher suspirou longamente e, de bom grado, ignorou o pedido de Dorian e começou a falar em voz monocórdia. – Bom, segundo meu informante, o nome dele na verdade é Grzegorz Väduwa...

- Não me admira que tenha mudado. – Murmurou Remmy. Hector sorriu, Dorian revirou os olhos e Sasha também o ignorou, prosseguindo:

- Ele é Polonês dessa região, porém passou a maior parte da vida viajando e reunindo artefatos lúgubres. Dizem que ele tem o maior acervo do mundo, mas isto não é confirmado. A dracma que vocês querem é um dos itens de menor valor que ele possui, creiam-me. – Passou os dedos pelos cabelos, ajeitando uma mecha atrás da orelha, e continuou: - Dizem que ele sabe como criar e controlar vários tipos de mortos-vivos, acho que é por isso que pouca gente se aventura para estas bandas, especialmente vampiros.

- Ok, então em poucas palavras, ele é um necromante virado em dinheiro e artefatos mágicos. – Dorian concluiu.

- Não: ele é um necromante virado em dinheiro e artefatos mágicos que nem mesmo a Ain Soph teve cacife para recrutar.

- A Ain Soph recruta apenas pesquisadores e os melhores em suas áreas de atuação. Meu pai já tem um necromante a seu serviço, e teve muitos outros anteriormente. Ser colecionador não faz dele mais competente, só o faz menos insignificante. - Respondeu Remmy, rispido. O sorriso de Sasha se manteve inabalável, quando a mulher deu de ombros e continuou seu relato:

- Ele passou duas décadas na Ásia, durante os anos de 40 e 50, então podemos esperar algumas surpresinhas bem desagradáveis: os mortos-vivos e demônios asiáticos são bem... incomuns e podem ser bastante chocantes.

- 40 e 50? - Dorian assobiou baixinho. - Quantos anos esse cara tem?

- Segundo meu informante, quase 100. Mas eu não esperaria um velho incapacitado, se fosse vocês. Lembrem-se do tipo de objetos que ele costuma colecionar. - Sasha calou-se por algum tempo, para deixar os garotos digerirem as informações. Curvou-se para frente, apanhando o chicote que alvoroçara tanto Dorian, enrolando-o metodicamente: a arma tinha a grossura de um dedo e contava com três lâminas de prata amarradas às pontas. Atou também um coldre de pistolas à cintura - muito embora não gostasse de armas de fogo, sem o sangue de Alioth teria que contar com toda ajuda que pudesse arranjar - que, além dos encaixes para as armas, dispunha de alguns compartimentos os quais Sasha preencheu com três pequenos cilindros vítreos, cujo conteúdo líquido mudava de cor de acordo com a posição da assassina; prendeu também o chicote ao cinto do coldre. Finalmente, remexeu no fundo da bolsa, arrebatando de lá uma pequena garrafa térmica, e se serviu de uma generosa quantidade de café, enquanto acendia outro cigarro. Bebericou o líquido, tragou o cigarro, e quando ergueu os olhos novamente para os garotos, os três a olhavam com o que lhe pareceu assombro e admiração. - Quê? Não divido meu café nem meus cigarros com ninguém, aviso logo! - Objetou.

- Na verdade, nos perguntávamos para que guerra você está indo... - Respondeu Hector, com um ar consternado. - Digo...

- Vocês são magos. Você é lobisomem - ela apontou com a mão do cigarro para Hector - você é filho de um dos homens mais poderosos do mundo - e para Remmy - e você é... bem, tenho certeza que você vai me surpreender de alguma forma - disse, olhando para um Dorian levemente irritado - e eu sou uma simples garota que sabe um ou dois encantamentos, que também gosta de se precaver e... principalmente, que conhece o tipo de monstro que vamos enfrentar. - Finalizou, batendo a porta do carro com certa violência e tragando mais uma vez.

- Humanos também são monstros? Vamos enfrentar humanos também... - Observou Remmy, com um quê de “te peguei” na voz. Sasha olhou-o por apenas um segundo, antes de responder:

- O pior tipo de todos.

Nenhum dos três respondeu nada, apenas ponderaram por um segundo. Tudo acontecia por causa dos humanos, não era? Ninguém nascia vampiro, virava mago, lobisomem ou invocava demônios ou espíritos por acaso. Não era a ideia de se alimentar sangue e esturricar no sol que os seduzia, que os impelia a isso. A ganância humana era a raiz de tudo. A pior fome não era de sangue, mas de poder. Era esta que os consumia por dentro. A todos eles, inclusive aos quatro ali reunidos.

- Quanto tempo até ele perceber que estamos aqui, Sasha? - Murmurou Dorian, olhando ao redor, ignorando a pertinência do que a mulher acabara de falar, como se para afastar aqueles pensamentos.

- Tenho a impressão de que ele já sabe. - Disse Hector, observando por entre as árvores laterais. Ouvia-se o farfalhar de folhas secas e galhos, porém não se sentia o soprar da brisa. Alguém, ou alguma coisa, espreitava.

- Ou talvez não saiba ainda, mas saberá muito em breve. Não tem como entrar ali sem o conhecimento dele, especialmente porque o terreno inteiro parece ter sido enfeitiçado... - Disse Remmy, puxando do bolso um pequeno tubo de ensaio cheio do que parecia ser ouro em pó, o qual despejou no interior do cantil. A poeira dourada espiralou lentamente, nadando no mar verde-esmeralda, e a bebida efervesceu por alguns segundos, ínfimos segundos. Quando o líquido aquietou-se, continuava com a mesma tonalidade de verde e a substancia amarelada continuava dançando em seu interior, embalada por uma melodia a qual os dedos de Remmy não eram responsáveis. O rapaz aproximou o gargalo lentamente do rosto, cheirou o interior e, com uma expressão temerosa, bebeu um gole. Imediatamente a expressão do mago pareceu relaxar, e ele soltou uma risadinha afetada. - Vocês não percebem? Parece que tem algum bicho morto por aqui, tamanho o cheiro de carniça...

- Ou talvez seja só um dos zumbis do tal Ariel! - Disse Dorian, fingindo não ouvir Hector corrigi-lo quanto ao nome do necromante. - Já pensou nisso?

- Não, é magia. Você vai ver, quanto mais nos aproximarmos, mais o cheiro vai aumentar. Talvez te dê vontade de sair correndo, talvez você seja acometido por um pânico absurdo, ou dor de barriga, ou... você se lembre que deixou o feijão no fogo. Qualquer coisa que te faça sair daqui o mais rápido possível. - A cada sílaba, a voz de Remmy ficava mais e mais pastosa e enrolada. - Escutem, se a coisa ficar preta lá dentro e precisarmos nos separar, utilizem aquele feitiço que Alícia nos ensinou, o de criar portais de espelho, ok? Sasha, você consegue se virar sozinha, se algo acontecer, não é? - A garota olhou-o de cima a baixo com uma expressão de profundo desdém, o que, para Remmy, servia como uma afirmação.
- Mas e o carro? - Hector perguntou.

- Tenho certeza que a vida de qualquer um aqui vale mais do que um carro, Hec. - Disse o loiro. - Todos memorizaram a planta da mansão, certo?

Hector olhou para ele com uma expressão confusa. Seu desconforto era evidente, especialmente ao se aproximar um pouco do loiro e inquirir quase em um sussurro preocupado: - Porque nos pergunta sobre isso? Você não vai conosco? A ideia de invadir este local foi sua, lembre-se...

- Relaxa, Hec. – Remmy tranqüilizou-o, apoiando a mão direita espalmada sobre o seu corpo. Com a esquerda, virou mais um gole da bebida verde. Era sabido que o filho de Siegfried só conseguia performar magia em estado alterado de consciência, o que o obrigava a ingerir diversos tipos de substancias alucinógenas - às vezes, simultaneamente. - Todos nós vamos ficar juntos, só perguntei isso para o caso de alguma eventualidade. Como dizem por ai, o seguro morreu de velho, né? Hehe...

- Não precisa ficar preocupado, bonitinho, eu cuido bem de você! - Disse a assassina, piscando para Hector. O garoto, absolutamente embaraçado, corou até a raiz dos cabelos e baixou os olhos para o chão. Remmy riu, quase conseguindo ver o brilho maníaco nos olhos da garota, enquanto ela imaginava o prestígio que teria se por acaso salvasse o herdeiro dos Terrazas da morte. Um perigo que, ele não duvidava nem um pouco, a própria Sasha poderia se assegurar que Hector corresse, apenas para ter a oportunidade de colher os frutos posteriormente. O jovem mago se aproximou da assassina e murmurou, de forma que apenas ela conseguisse ouvir: - Assegure-se de que ele volte ileso e você será muito bem recompensada. Mas ele não pode sofrer nenhum arranhão!

A garota estudou-o por um ou dois segundos. Os enormes olhos castanho-esverdeados de Sasha esquadrinharam todos os traços de Remmy rapidamente, antes que ela abrisse um sorriso malicioso e concordasse com os termos. Inclinou-se para ele e afagou os seus cabelos, como se o loiro não passasse de um bebê e tivesse dito algo particularmente perspicaz para sua idade. - Agora sim estamos falando a mesma língua, bonitinho!

Antes que ele pudesse responder, entretanto, um alto estrondo ecoou e o ruído inconfundível de madeira se partindo encheu os ouvidos dos quatro. Sobressaltados, aproximaram-se das árvores que margeavam a estrada de cascalho, mas foi Hector que explicou o que estava acontecendo: - Eles estão acordando. Posso sentir o cheiro...

- Cheiro de quê? - Perguntou Dorian, enfiando a mão no bolso. Sua voz, por um segundo, pareceu um guincho assustado, mas no final da sentença já carregava o timbre normal. Ou quase. - Cheiro de quê, porra?

Hector não respondeu e aproximou-se um pouco mais. Hesitante, afastou os primeiros galhos de uma das árvores e espreitou a escuridão... apenas por um átimo de segundo antes da criatura saltar sobre ele. A princípio nenhum dos quatro percebeu do que se tratava; Hector e uma bola de pêlos negra e mal-cheirosa se embolaram na estrada. Um urro de dor, cheiro de carne podre e carbonizada queimou-lhes os olhos e no fundo da garganta. Dorian, alarmado, levou uma das mãos até a boca, como se fizesse força para não vomitar, puxou de dentro do bolso um bordão de madeira negra, de aproximadamente um metro e vinte, porém antes que tomasse coragem suficiente para atingir o animal, quatro disparos explodiram em suas orelhas. A criatura berrou e desabou sobre Hector, expelindo bile e sangue podre sobre seu corpo e rosto. Dorian então não aguentou, curvou-se para frente e vomitou. Sasha, com uma pistola na mão, aproximou-se do garoto e, com um pontapé, livrou-o do animal morto.

- Você está machucado? - Perguntou a Hector, ajudando-o a se levantar. O rapaz olhou para si mesmo, com os olhos úmidos, e abanou a cabeça negativamente. - Nenhum arranhão? - Ele negou novamente, e a mulher olhou para Remmy com um sorrisinho vitorioso. O loiro, por outro lado, aproximou-se rapidamente do amigo, apanhando-o pelos ombros, preocupado. Murmurou “desculpe” algumas vezes, antes de passar a mão pelo seu rosto e pelas suas vestimentas, e por onde os dedos do jovem mago deslizavam, toda a sujeira e podridão simplesmente desapareciam.

Dorian ainda estava curvado sobre o seu próprio corpo, expelindo os salgadinhos que comera no caminho, e o bordão negro se esfarelou aos seus pés, tão subitamente como tinha aparecido em seu bolso. - O que era aquilo? O... q... argh!

- Ai, por favor, ele é um necromante. Se vocês estão assim por um animalzinho reanimado, acho melhor voltarem para Praga e aproveitar a noite jogando RPG ou algo assim. - Censurou Sasha, puxando a outra arma do coldre e sumindo na orla da mata. - Deixem que eu pego o Dracma, junto com todo o resto.
Remmy olhou para Hector e para Dorian por uma fração de segundo, antes de correr atrás da mulher. Hector o seguiu, e Dorian, com uma última cusparada sobre o cadáver apodrecido do enorme animal, também. Por um momento, entoou mentalmente o encantamento que Alícia tinha ensinado, mas não conseguiu pensar em outro lugar onde gostaria de estar naquele momento senão ali. Sua cobiça sobrepujava em muito o medo.

Antes que os três pudessem acompanhar Sasha, ouviram mais meia dúzia de disparos adiante. Caminhavam apressados, com Hector na dianteira seguindo o rastro da mulher. Quando desembocaram em uma enorme clareira, a assassina estava parada alguns metros adiante da mata, com as armas em riste. Três enormes cães (ou seriam lobos?) em decomposição se avolumavam pelo gramado, diante do palacete bem iluminado que se erguia diante deles. As paredes eram brancas, e todas as luzes do lugar pareciam estar acesas.

- Para um mago maligno, esse cara gosta muito de luz. - Observou Dorian, ainda com uma expressão desgostosa. Lentamente, mais adiante, algo mais começou a se mexer. - Ele não vai ficar só em cachorros, vai? - Havia um toque de esperança na pergunta que os outros três ignoraram sumariamente.

Poucos metros diante de Sasha, a terra começou a ser revolvida de dentro para fora. E em vários outros pontos do gramado também. Folhas farfalharam, vindo de algum ponto atrás dele e também de adiante. Por algum tempo, toda a clareira se movimentava, mas nenhuma criatura pôde ser vista - apenas a casa permanecia absolutamente imóvel, como que inabitada ou alheia à brisa que soprava por ali. Cortinas, lustres, janelas, nada se movia, como se o que estivesse ali fosse meramente uma impressão de uma mansão, e não uma propriamente dita.

E então tudo silenciou. A terra parou de se mover, as folhas aquietaram-se por um momento. E a porta da casa se abriu. Os pranchões duplos deslizaram suavemente, projetando um brilhante facho de luz dourada sobre o gramado revolvido, porém não se podia ver ninguém no interior do longo corredor além do portal de madeira branca.

Sasha olhou por cima do ombro para os três e estudou-os. Os braços caídos ao longo do corpo esguio, ainda segurando as duas pistolas. Sem dizer nada, deu um passo adiante, e mais outro. Os três apenas observavam, enquanto a mulher avançava na direção da porta.

Súbito, em alguns pontos o chão voltou a se mexer. Dos fundos do palacete, uma dúzia de animais mortos-vivos trotaram para o gramado, rosnando. Alguns estavam tão decompostos que era difícil identificar o que tinham sido em vida, mas a maioria era composta de enormes cães. Remmy identificou também dois lobos, um lince, e uma raposa. Até ai, nada demais.

Sasha, sem esperar por eles, continuou caminhando e descarregou as duas pistolas nos bichos. Metade tombou, e a outra metade avançou em sua direção. A assassina jogou as armas no chão e, de maneira quase teatral, levou a mão ao cabo do chicote.

- Não vai dar tempo! - Disse Hector, correndo em sua direção.

- Faz alguma coisa! - Disse Remmy a Dorian, enquanto ele mesmo acendia um cigarro e tragava violentamente. A fumaça descrevia circulos preguiçosos pelo ar. - Merda, merda!!! Eu devia ter acendido isso antes...

Tudo aconteceu muito rápido: O chicote de Sasha estalou e abriu um dos lobos no meio no exato instante que Hector pulava sobre o lince e, com as mãos nuas, agarrava as mandíbulas do animal com selvageria, partindo também a sua cabeça em dois pedaços. Pisou sobre a sua caixa torácica, esmigalhando-a sob o calcanhar. Um dardo flamejante passou raspando o braço de Sasha e cravou-se na testa de outro cão, e quando Hector ergueu os olhos, viu Dorian empunhando uma enorme besta e puxando outro dardo do bolso da calça.

O chicote de Sasha estalou mais uma vez, e a esta altura Hector já estava completamente tomado. Seus olhos eram agora de um amarelo luminoso, os dentes levemente mais pontiagudos do que os de um humano, e os dedos eram mais longos e mais pontudos. Mas de resto, ainda era completamente humano. Movia-se rápido e letal por entre os animais, rasgando-os com selvageria ímpar. Sasha abateu mais um, e Dorian acertou outro no flanco. Este, o lobisomem agarrou com ambas as mãos e atirou contra a porta de entrada.

Com um baque seco, o animal colidiu com algo que os quatro não conseguiam ver. Filetes de sangue escorreram lentamente pelo ar, como se ali houvesse uma parede de vidro. O chão moveu-se mais uma vez. Estremeceu, e uma miríade de vozes se levantou juntamente com os cadáveres que saíam da terra, preguiçosamente. Primeiro as mãos, depois a cabeça e o torso. Todos aqueles eram humanos, ou tinham sido em algum momento; agora eram apenas monstros perniciosos e famintos.

- Mais zumbis? - Perguntou Hector, entre dentes. Sua voz soou levemente sibilada.

- Olhe bem. - Aconselhou Sasha.

Subitamente, uma delicada renda de fumaça encobria o solo, dançando preguiçosamente entre os mortos-vivos e os quatro invasores. Hector aproximou-se de Sasha, que ainda empunhava o chicote. Dorian já estava ao lado da mercenária, porém Remmy continuava no mesmo ponto de antes, como que congelado de medo. Seus olhos estavam vidrados, e seus lábios tremulavam rapidamente.

- São vampiros? - Perguntou Dorian, abismado, observando os monstros avançarem silvando e de caninos estendidos.

- Recém-criados. - Murmurou Sasha, erguendo o cabo do chicote e estalando-o com um movimento vigoroso. Um dos monstros tombou com o toque das lâminas da ponta. - Estão famintos. - E outro, e outro. A mulher movia-se com agilidade quase sobre-humana, e todas as chicotadas vinham com graça e destreza igualmente extraordinárias. Dorian mais uma vez levou a mão ao bolso, puxando de lá mais um dardo. - Ataquem eles com fogo. Hector, eu sugiro que você use magia, e não as suas garras, contra estes... - Disse Sasha. Porém, no momento em que os jovens se preparavam para desferir o primeiro golpe, a voz de Remmy se ergueu acima dos silvos e as marolas de fumaça tornaram-se levemente incandescentes. Curiosamente, observaram eles, a fumaça passava diretamente pelas pernas dos três, sem tocá-las.

O fogo ergueu-se em menos de um segundo, e logo todos eles berraram em agonia. Tecido, cabelo e pele consumiram-se rapidamente; a carne pareceu derreter e desprender dos ossos como cera de uma vela, e os monstros chiavam alto enquanto caiam de joelhos e, em seguida, estatelavam-se no chão.


O chão permaneceu ardendo mesmo depois dos vampiros serem carbonizados. Remmy ainda parecia entregue a uma espécie de transe, embora ele caminhasse pelo terreno com os ombros retesados e as feições duras. Todo aquele fogo, perceberam, brotava da ponta do cigarro do rapaz, rodopiava por um momento e derramava-se aos seus pés e adiante, estendendo-se até a porta do lugar. A barreira, os três perceberam, também começava a se consumir com o fogo, incandescendo suavemente, tremulando e, por fim, explodindo como uma parede de vidro atingida por uma bala de canhão.

E foi ai que viram quem aparentemente estava controlando aquelas criaturas: uma mulher nua levitava fantasmagoricamente no interior da casa, os cabelos negros ondulando como se ela estivesse dentro d’água, a boca escancarada em um grito silencioso e os olhos revirados, brancos e cegos. Girava ao redor do próprio eixo, lentamente, e os braços pendiam pesadamente ao lado do corpo. O peito subia e descia, e este era o único indicativo de que estava viva, e no momento que Sasha deu o primeiro passo na direção do palacete, a mulher gritou. Gritou alto, cheia de terror e de dor, sobressaltando os três. A magia de Remmy lentamente retraía-se, o fogo evanescia e os olhos do jovem paulatinamente voltavam ao normal.

Os ombros daquela criatura afastaram-se, de fato, o barulho de carne sendo rasgada e ossos sendo partidos estampou no rosto dos invasores uma expressão genuína de asco e horror. Sangue escorreu pelo corpo nu e violado da mulher quando a cabeça precipitou-se lentamente para cima.

- Q... O q... - Hector gaguejava, aterrorizado, enquanto a cabeça se desprendia e erguia-se, trazendo consigo a coluna vertebral e as vísceras da mulher: pulmões abriam-se como pequenas asas sanguinolentas, o coração -do tamanho de um punho fechado- pulsava por entre eles e os intestinos levitavam ao redor, por vezes arrastando-se pelo chão. Lágrimas de sangue escorreram pelos olhos brancos e cegos, e a boca emitiu mais um grito fantasmagórico e ululante.

- É uma penanggalan... - Disse Sasha, a expressão de choque esmaecendo rapidamente de seu rosto. De nada adiantaria ficar com medo agora, especialmente quando se estava cercada de crianças que, embora talentosas, tinham pais podres de ricos. - É uma espécie de vampiro asiático. Eu avisei para esperar coisas grotescas...

- Remmy, acho que você estava certo: acho que eu esqueci o meu feijão no fogo... - Disse Dorian, por fim. Remmy e Hector limitaram-se a engolir em seco.

Cruz Sobre Berlim - Prólogo



Continua em: Cruz Sobre Berlim I


O alarme do carro disparou ecoando pela rua vazia. O rapaz ignorou as luzes se acendendo dos prédios ao redor e continuou sua corrida, dessa vez concentrado no que estava a sua frente. Há algum tempo corria com a atenção desvirtuada pelos barulhos nos topos dos prédios, estava tão tenso com os ruídos que não calculara direito a distância de seu corpo para os carros estacionados. Alguns moradores abriram a janela e passaram a xingá-lo, mas ele não diminuiu o ritmo, muito pelo contrário. Precisava alcançar os outros dois de seu grupo, cujos passos já ecoavam no final do quarteirão.

Ninguém lhe falara nada, mas claramente ele não era o único a perceber o perseguidor, o líder do trio aumentara seu ritmo depois que os sons suspeitos começaram, até um humano comum perceberia que algo os seguia. Alban olhou de relance o topo dos telhados, temendo ver algum vulto, mas nada, agora com a balbúrdia sonora provocada pelo veículo não conseguia distinguir qualquer ruído que revelasse a proximidade do perseguidor.

Manteve a visão nas limitações da calçada imitando o caminho que os dois a sua frente tomavam e finalmente conseguiu alcançar um deles. Vinícius, um homem bem mais velho que Alban, não disse nada, o repreendeu com um olhar rápido e frio; o garoto sabia o que aquela expressão significava: se a vizinhança não dera muita importância pelo barulho o oposto ocorreu com a criatura que os perseguia. O adolescente entregara a localização exata do trio com o sopetão que dera com o carro. E daí que ele não estava habituado a correr com aquele vestuário metálico por debaixo da roupa? Seus companheiros não queriam ouvir desculpas, a expressão cizuda era uma ordem para que isso não se repetisse.

O escolhido a guiar o trio naquela madrugada, Eric, estava bem mais a frente, virando em uma esquina. Apesar da distância e do soar do alarme, sua respiração tornara-se audível aos companheiros, em nenhum momento na última meia hora ele diminuíra as passadas e agora seu fôlego parecia chegar ao limite. A rua que escolhera percorrer tinha menos postes funcionando que a anterior deixando Alban inseguro com a escuridão, ele segurou seus passos guiando-se unicamente pelo vulto do companheiro mais próximo até que um repentino ranger de telhas superou o barulho do alarme. Os três diminuíram as passadas, procurando a origem do ruído nas pequenas construções ao redor, Alban percebeu o movimento de um imenso animal alcançando o asfalto metros a frente. A criatura postou suas patas silenciosamente na rua e, vagarosa, foi de encontro ao grupo.

Imediatamente Eric e Vinícius pararam observando o animal com atenção. O adolescente os imitou, os olhos marrons cravados no andar felino do animal. Provavelmente um humano que observasse de relance o julgaria como uma pantera negra anormalmente grande, porém, independente do quão inexperiente ele era, Alban sabia que não era esse o caso. A névoa densa que saía da narina pontiaguda revelava traços reptilianos, o verde dos globos oculares brilhava tão intensamente que parecia criar um rastro de luz de seus movimentos. A visão monstruosa amedrontaram o garoto e ele pensou em todos os motivos (... idiotas, concluía) que o levaram até aquele país dominado por criaturas vis. Nada do que passava em sua cabeça era útil para o ataque imitente daquele demônio.

Quando a fera saltou sobre o que estava mais a frente, automaticamente o adolescente colocou a mão dentro do casaco segurando o cabo de sua pequena arma. Ele e Vinícius correram para socorrer a vítima, a qual tombara com o peso e rapidez do animal. O homem conseguira desviar o braço prestes a ser mordido e cravou seu stilleto no peito da criatura. Imediatamente um intenso odor se espalhou pela rua, obrigando o adolescente e o mais velho a pararem de correr tampando o nariz nauseados com o cheiro de putrefação. A falsa pantera não se abateu nem com o cheiro nem com a ferida que o provocara, simplesmente rugiu alto e expôs novamente os dentes enormes, dilacerando o braço do homem aos seus pés.

Os gritos de pânico do companheiro incentivaram Vinícius a ignorar o odor e voltar a correr em direção a fera, mas não rápido o suficiente. Em um puxão ela arrancou o braço e o largou rugindo, preparando-se para o mais velho do trio. Alban não conseguia ir ajudá-lo, a fraqueza o dominava e vomitou o pouco que tinha no estômago, assim, impossibilitado de acompanhar a empreitada de seu mentor, limitou-se a observar a luta. A criatura pisou no rosto da vítima aleijada e ganhou impulso para pular sobre o humano, porém, ele já a esperava com a arma prateada em punho, sibilando palavras em latim. Uma luz cintilante percorreu o fio da pequena espada no momento em que atingiu o ombro escamado do animal. Cambaleando, o perseguidor bestial se afastou deixando um rastro negro do líquido que escorria dessa nova ferida.

Alban conseguiu controlar a ânsia e correu para ajudar a carregar o companheiro aleijado. Sobre o olhar e rugidos do animal, os dois levaram Eric. Antes de virar no beco mais próximo, o adolescente observou por uma última vez o vulto da criatura. Ela retesava suas patas resistindo em deitar sobre o asfalto, até que o verde brilhante de seus olhos sumiu em meio a penumbra e ele ouviu um estralar, que julgou ser da pancada do monstro contra o chão.

Mas não era, o que ouvira antes de seguir pelos subúrbios de Berlim era o estalar de ossos. Pouco a pouco o corpo da fera perdeu volume, a penugem negra escorria criando uma grande poça sobre o asfalto. A falsa-pantera agora não passava de uma raquítica adolescente de cabelos alaranjados, manchas escuras e oleosas estavam espalhadas por todo seu corpo pálido, revelando sua relação com o rastro na rua. Jack colocou a mão na ferida, que ainda borbulhava com se houvesse sido queimada, e segurou a arma cravada. Mordeu os lábios para conter os gemidos enquanto retirava o stilleto de suas entranhas. Ele saiu imediatamente deixando um grande buraco na pele clara da vampira. A ruiva olhou o intenso brilho prateado da arma, não se surpreendendo por achar símbolos familiares no punho, afinal, conhecia apenas um inimigo que conseguia fazê-la voltar a forma humanóide contra sua vontade. Murmurou:

- Templários filhos da puta...

Continua em: Cruz Sobre Berlim I

Marolas do Aqueronte - Parte I



Já fazia algum tempo que os dois estavam naquela posição, e a única coisa que se podia ouvir no apartamento era o som da televisão. Os dois garotos piscavam e moviam-se letargicamente, como se aquilo demandasse muito esforço de seus corpos juvenis. O loiro, deitado de barriga para cima na cama, deixava a cabeça pender para o vazio, os cabelos roçando de leve o piso encerado que dava abrigo ao outro, que permanecia sentado abraçando os joelhos. Os olhos cravados na tela, os rostos entediados iluminados pelas cores que pulavam da superfície vítrea e incidiam sobre eles.

- Quer mudar de canal? – Perguntou o loiro, enquanto observava um vampiro para lá de caricaturesco envolvendo sua vítima. Tudo parecia artificial demais, viajado demais, a começar pela criatura que caminhava à luz do dia e possuía princípios morais tão fortes, mesmo sendo tão antiga. A garota também não ajudava, uma vez que parecia querer violentar o outro, jogando-se para cima dele e pedindo para ser mordida, transformada, etc. Remmy pensava que ela provavelmente morreria, se o cara cedesse – o que ele não faria, era óbvio – e se perguntou se ela pediria aquilo a um vampiro de verdade. Não, ela não pediria. É difícil ver alguém que realmente queira morrer e que não mude de opinião na hora H. É da natureza humana lutar pela sobrevivência, ele sabia, por que desde que se entendia por gente lutava pela sua. – Se quiser, pode pegar o controle e mudar.

A morte não é bonita, disso todo mundo sabe; embora seja muito mais fácil sonhar com ela, pintá-la como um filme adolescente, e iludir-se até que ela realmente te encare e clame pela sua vida. Ai sim, todos vêem que ela não é bonita. Ele pensava em como ela reagiria quando um vampiro de verdade cravasse os dentes nela, em quando ela sentisse a vida rapidamente se esvair de suas veias, e naquele segundo... naquele fatídico e desesperador segundo em que você tem certeza do que acontecerá no próximo. Ele se perguntava se ela não lutaria, e um sorriso sádico se desenhou em seus lábios. Era óbvio que lutaria.

- Pergunto-me se ela realmente pediria isso a um vampiro como o seu tio. – Brincou o moreno, apanhando o controle sem desviar os olhos da tela. Remmy soltou um risinho de deboche, e balançou a cabeça. O outro também sorriu e olhou para ele.

- Eu me perguntava a mesma coisa. Provavelmente o Ash não deixaria a garota pedir duas vezes... – Suspirou o garoto, mudando de posição e apoiando-se no cotovelo, para encarar o amigo melhor. – Mas eu duvido que ele realmente a transformasse. Sabe, é meio difícil parar de beber de uma vítima, quando se começa. E mesmo que ele tenha um auto-controle invejável, não acredito que ele realmente quisesse parar.

- Haha, entendo. – Riu o outro, começando a zapear pelos canais à procura de algo minimamente interessante para assistir. Em algum lugar, um relógio de pêndulo badalou três vezes. Três da manhã. – Não tem nada de bom para ver. Quer ver um dos filmes? – Perguntou, apontando para uma pequena pilha de DVDs eróticos ao lado do televisor.

- Hah! Você não tem estômago para ver aquilo, Hector. Já viu os encartes? Os filmes com o selo da Fornicaraz são pouco... convencionais. – O moreno engatinhou lentamente até os objetos e pegou-os, voltando ao lugar de origem em seguida. Remmy já estava sentado no chão, ao lado de Hector, com um sorriso maldoso desenhado nos lábios pálidos. O dedo indicador apontou para o primeiro disco da pilha, onde um emaranhado de pessoas retratadas em trajes de couro se beijava, tocava, mordia, etc.

- A capa em si já é bastante explícita. – Riu o moreno, obviamente surpreso. As sobrancelhas arqueadas, e os pequenos olhos perscrutando cada detalhe. O dedo indicador de Remmy deslizou para uma figura da capa, cuja perna esquerda faltava; depois para outra, que embora possuísse corpo feminino, brindava a todos com um grande aparelho sexual masculino. – Seu tio é ousado! Esse tipo de coisa realmente vende? – Perguntou, com um quê de nojo na voz.
- Você não faz idéia! – Riu o loiro, aproximando-se um pouco mais do amigo e debruçando o corpo sobre o dele, para pegar o próximo DVD que jazia na pilha do outro lado. Voltou com um onde três mulheres apareciam lambuzadas com uma substancia que lembrava barro, ou chocolate, ou... – Escatologia também é um prato cheio pra esse povo. Tem fetiche de todos os tipos, por ai. Tem gente que tem tara por balões, por pés, mulheres grávidas, gente mutilada, anões, bosta, mijadas, vômitos...

Hector contorcia mais e mais o rosto, evidenciando o asco que sentia a cada palavra que o amigo falava. Remmy sorriu, desta vez complacentemente, e perguntou em tom um pouco mais ameno: - Ainda quer assistir a um dos filmes dele? Se você procurar ai, deve ter algum que te interesse... Tem gosto para tudo nesse mundo, hehe.

- Por que o seu tio faz isso? – Questionou o outro, afastando a pilha e olhando para Remmy ainda com um semblante consternado.

- Por que dá dinheiro, óbvio. E por que vampiros donos de puteiros é o que mais tem por ai. Mas uma casa noturna não era o suficiente para as perversões do Ash, então ele decidiu dirigir filmes. Ele diz que isso sim é arte, não aquelas porcarias que os Ingenium fazem. Eu só não entendi como nenhum desses vampiros ainda não veio encher o saco...

- Não tem filmes com vampiros? Hehe...

- Tem filmes de gente que finge ser, e bebe suco de groselha como se fosse sangue. – Disse o rapaz, simplesmente, passando o indicador rapidamente pelos encartes dos filmes, procurando por um título específico. Estalando a língua, fez questão de ignorar o celular que neste momento começou a tocar os primeiros acordes de Fresh Blood, do Eels. Hector ergueu os olhos interrogativos para Remmy, que se limitou a sorrir. – O que posso dizer? Sou um amante de lobos... – E estendeu para ele o estojo do DVD que acabara de arrebatar da pilha.
O moreno, imediatamente, corou. Corou e desviou os olhos e gaguejou ao falar, sem graça: - Vo-você não deveria brincar com essas coisas, Remmy. Não vai atender? Deve ser...

- Quem disse que eu estava brincando? – Respondeu o filho de Siegfried, aproximando-se alguns centímetros e olhando-o nos olhos. Sorriu, malicioso. Hector podia ver o próprio reflexo consternado no fundo dos olhos do garoto, mas não conseguia desviar o olhar. Remmy, ele sabia mas não queria admitir, exercia um enorme fascínio sobre ele. Engoliu em seco, ao mesmo tempo em que o amigo começava a cantarolar junto com a música: - I know you're prob'ly gettin' ready for bed. Beautiful woman, get out of my head… I'm so tired of the same old crud. Sweet baby, I need fresh blood…

E aproximou-se mais. Hector, sem reação aparente, limitou-se a prender a respiração e esperar, mas o beijo não veio. Pelo menos não da forma como esperava, pois no momento em que pôde sentir o hálito quente (e alcoólico) de Remmy, uma batida na janela chamou a sua atenção. Ali, parado do lado de fora, num parapeito do 37º andar, estava um Dorian bastante contrariado.

- Ah, vão tomar no cu vocês dois! Foi para isso que você, terminou com a minha irmã, seu viado de merda? Pra pegar a porra do lobisomem? – Esbravejou, assim que se viu do lado de dentro do apartamento. Flutuava a alguns centímetros do chão, evidenciando como tinha chegado até ali, a mão esquerda segurava uma mochila enorme e tinha na mão direita um pequeno celular rosa (o celular de Mariabelle, ex de Remmy), aberto. – E foi por isso que não atendeu a minha ligação, é? Pau no cu do caralho... – A despeito do pretenso tom de irritação, Dorian sorria. Era difícil que tivesse a oportunidade de se desfazer da usual faceta de cavalheiro que fora tão magistralmente condicionado a adotar, por isso, sempre que podia, acabava cruzando todos os limites. Os garotos sabiam disso, o que não impediu Hector de corar como um pimentão.

- Tá com inveja, é? – Foi a única coisa que o loiro respondeu, aproximando-se e pegando a mochila da mão de Dorian. Hector, absolutamente embaraçado, de repente pareceu achar os encartes bizarros dos DVDs muito interessantes e instrutivos. – Tá tudo aqui? Trouxe a planta?
Dorian sorriu, zombeteiro, balançou a cabeça e disse simplesmente: - Sim, minha rainha. Digo... princesa... digo... err... está tudo aí, Remígio! – proferiu, por fim, quando percebeu o olhar gélido com que o loiro lhe brindara. Claramente já estava indo longe demais, até para os seus padrões.

- Porque diabos você está com o celular da Mariabelle? Acabaram os seus créditos, pé-rapado?

- Não. – Deu de ombros, jogando-se no sofá ao lado de Hector e colocando os pés sobre a mesinha de centro. – Achei que seria divertido te passar uns trotes. Sabe como é, imitar a voz da Belle chorando, pedindo para reatar e...

- Que tal parar, hein? Hec, senta aqui e vamos ver o que ele trouxe. – Acomodou-se então entre os dois garotos, e com um soco na lateral da coxa do ex-cunhado, fez com que ele deixasse a mesa disponível. Por fim, debruçou-se sobre ela e estendeu a planta, prendendo as pontas com os pequenos bibelôs de vidro, em forma de mulheres nuas em posições ousadas, que se encontravam por ali. – Então é aqui que está?

- É. Quer dizer, acho que é...

- A Dracma perdida de Caronte... – Murmurou Remmy, passando os dedos sobre a planta do prédio, a mansão de um mago de renome razoável, que residia em um dos vilarejos no interior do país. Um sorriso maníaco perpassou seus lábios. Os olhos faiscaram, cobiçosos. – Quanto vocês acham que vale?

- Alguns milhões, diria eu. Quem sabe bilhões? – Replicou a voz de Ashtaroth, aparentemente vinda do nada. Levaram alguns segundos para perceber que o vampiro estava do outro lado do apartamento, no corredor, girando a fechadura dourada da porta da sala de estar. Graças à sua audição privilegiada, conseguira pescar os últimos fragmentos da conversa, obviamente. O noturno de cabelos ruivos e ondulados, e grandes olhos de um azul profundo e malicioso estava ali, à entrada de sua própria morada, absorvendo rapidamente todos os elementos da cena que observava com aparente desinteresse. Sorria ao afastar-se com uma reverência teatral e convidar uma jovem a cruzar a soleira da porta. – Está congelando aí, querida, e você não vai querer perder isso: esses garotinhos, aparentemente, estão querendo ir atrás da Dracma de Caronte. Conhece a lenda, não é? Pensei que sim, gananciosa e malévola como só uma mulher pode ser...

- Sasha! – Exclamou Remmy, pondo-se de pé de imediato. Dorian e Hector continuavam ficando, embasbacados, a visitante que caminhava desinteressadamente pela sala. A mulher usava um enorme e apertado rabo de cavalo, os olhos eram de um castanho quase verde. Vestia uma calça apertada, botas de couro cru e saltos altos, e uma gabardine bege amarrada na cintura inacreditavelmente fina. – Porque está aqui? Você não deveria estar...

- Matando, roubando e destruindo? Precisamente... – Respondeu Ashtaroth, ainda na porta. Aparentemente ele não iria demorar, pensou Remmy. Sasha, por outro lado, carregava uma mala de viagem. – Nicole, louca de pedra como só ela consegue ser, a fez explodir todo o kremlin vampírico, acredita? Agora a coitadinha não tem para onde ir, porque está todo mundo querendo o c... couro dela, por isso ela ficará por aqui por algum tempo, entendeu?
- Só por alguns dias. – Complementou, dando uma piscadela marota para Remmy. Não era a primeira vez que a mercenária procurava abrigo ali, mas definitivamente era a primeira vez que o fazia em posse de uma mala tão grande. Pelo que entendeu, ela tinha feito uma caca gigantesca e seria preciso algum tempo para que a poeira abaixasse, se é que algum dia isso iria acontecer. – Enquanto isso, podemos dar uma olhada nessa planta. Pelo que ouvi, essa dracma é capaz de...

- ...trazer de volta à vida as almas que não cruzaram o Aqueronte? É, você ouviu certo. – Interrompeu Dorian, com um sorriso galanteador desenhando-se nos lábios. Pôs-se de pé também, estendendo a mão para a mulher e aproximando-se pomposamente. – Acredito que ainda não fomos apresentados, caríssima. Eu me chamo Dorian. Dorian Lancaster Hagreaves.
Por uma ínfima fração de segundo, Sasha pareceu verdadeiramente surpresa, todavia, um átimo depois havia apenas um terno sorriso adornando seus lábios. Piscou, adoravelmente, e estendeu também a mão para ele. – O filho do conde Hargreaves? Caro Remmy, você nunca tinha mencionado o quão bem relacionado é! – O que, obviamente, tratava-se de uma mentira descarada, uma vez que era de conhecimento geral que ele costumava namorar a filha de Cain Lancaster Hargreaves; Remmy limitou-se a piscar para ela, enquanto Dorian inclinava a cabeça para depositar um beijo no dorso de sua mão. – Encantada, milorde! – Murmurou ela, dissimuladamente. Remmy, enlaçando Hector pelo ombro, aproximou-se também e disse:

- Ok, se o que você quer é expandir a sua rede de contatos, eis aqui mais uma personalidade para a sua agendinha de telefones, Sasha: este é Hector Oleastro Terrazas, filho da senhora Adelaide Terrazas, a peeira matriarca do povo da lua.

Desta vez a mulher não conseguiu esconder o entusiasmo, por mais que tentasse. Afinal, de que valia tinha um mero conde, em comparação com uma Rainha? Os olhos castanho-esverdeados de Sasha faiscaram quando ela, ligeira, fez uma pequena reverência diante de um Hector ainda mais encabulado. A reação de Sasha era comum entre as pessoas, muito embora os lobisomens não encarassem Adelaide como, no sentido literal da palavra, uma rainha. Ela era simplesmente uma bruxa que calhou de ter poderes suficientes para subjugar os alfas das matilhas. Era uma Peeira.

- Encantada em conhecê-lo, alteza! – Disse, ignorando o muxoxo contrariado de Dorian e a risadinha debochada de Ashtaroth. Remmy permaneceu empático, e Hector limitou-se a balançar a cabeça rapidamente, engolindo as palavras e corando.

- Bom, eu fico mortalmente entediado com essas idiotic... digo, formalidades, principalmente quando estamos falando de um monte de pirralhos, você sabe, caríssima. Por isso os deixo com apenas dois conselhos: preservem-se e não subestimem Aurel, ele tem um ou dois truques na manga que podem mandar vocês rapidinho para a cova, ou pior. Dito isso, retirar-me-ei. Espero que tenha uma encantadora estadia em meu nada humilde apartamento, querida Sasha. – Complementou, imitando caricaturescamente a mesma reverência que a própria assassina havia acabado de fazer para o príncipe lobisomem, e por fim fechou a porta atrás de si.

Imediatamente, Remmy apanhou a mala de viagem de Sasha e se dirigiu até o quarto de hospedes no final do corredor, deixando-a com os outros dois. A mulher, apertando o rabo-de-cavalo, dirigiu-se para o mini bar na lateral da sala e bufou, irritada.

- Tem algo aqui que não seja vermelho? Estando onde estou, só a idéia de beber algo dessa cor me deixa nauseada.

- Bom, você está na morada de alguém que, além de vampiro, é dono de um selo de filmes pornográficos, ma chérrie. O que você esperava, rum? Tequila?

- Estamos em Praga, não estamos? No mínimo, eu esperava Fernet. – Disse, servindo-se da primeira garrafa que encontrou pela frente, envolvendo o copo com um guardanapo, provavelmente para não ter que lidar com a cor da bebida. – Vocês ainda não têm idade para beber, certo? – Não esperou resposta, o que evidenciou que ela apenas não queria preparar drinques para mais ninguém. Voltou para o sofá, gingando sobre as botas de salto alto, e sentou-se no local outrora ocupado por Remmy. – Então este é o lugar? Ouvi dizer que esse cara tem uma coleção de objetos mágicos que deixaria até o seu pai louco para comprar, Rem... – Murmurou antes de tomar um longo gole da bebida. - ...vocês só querem o dracma? O resto que conseguirmos roubar é meu, então?

- Você vai mesmo conosco então? – Perguntou Hector, inclinando-se para frente, aproximando-se um pouco mais de Sasha e olhando-a diretamente nos olhos. Ainda estava rosado, mas nada comparado a antes. Ela sorriu, arqueando uma das sobrancelhas e respondeu, por fim, com a voz carregada de malícia:

- Querido, você realmente não sabe quem eu sou, sabe?

Máscaras


A forma simétrica e sinuosa do jarro era perfeitamente polida. Não havia resquício algum de ranhuras na superfície branca. As telas de alta definição arruinavam o charme de várias peças expostas no site, mas essa em particular ficara mais bela do que pessoalmente. Até a tampa - uma escultura de rosto bestial - tinha detalhes límpidos, o par de olhos compostos de pedra azul brilhava como se acabara de ser colado nos orifícios. Laura sabia que todos em frente aos seus computadores agora estavam com um olhar fascinado pela conservação sobrenatural. O artefato era irresistível, a mulher previra que seria vendida em poucos minutos e com uma bagatela mínima de um milhão. Já até tinha feito as dividas a serem pagas com a gorda comissão que ganharia. Virou o rosto para a outra tela, a que mostrava somente os nomes dos inscritos na sala virtual e o cronômetro expondo os segundos restantes para o leilão começar. Arqueou as sobrancelhas ao notar um nome familiar na lista:

- Tsc, ele vai ganhar de novo. – murmurou passando as mãos no coque loiro.

- Senhora? – questionou sua assistente, a agenda aberta em uma das mãos, caneta pronta para a próxima anotação na outra. Laura não respondeu, apenas movimentou a cabeça em negação, os olhos negros ainda fixos no nome. Permaneceu assim por mais alguns segundos até que percebeu a respiração ansiosa da jovem ao seu lado e se lembrou do motivo da garota estar ali perturbando seu raciocínio:

– Perdoe-me, querida, te interrompi. Pode continuar. - apontou para a agenda e seguiu até sua escrivaninha ouvindo o gaguejar da jovem ao seu encalço:

- Bem, não sei se a senhora se lembra, mas é hoje às 20h a reunião com o Senhor Wilkins. Vou deixar o café e água aqui antes de ir. Tem certeza que não quer que eu fique?

Laura negou com a cabeça e riu, não por estar agradecida pela iniciativa da assistente, mas por sua ingenuidade ao pensar nas necessidades do Senhor Wilkins. Café e água... Por vezes era cansativo trabalhar com uma pessoa que não sabia de toda a verdade da instituição, mas momentos assim a relaxavam, era divertido ver a garota tentar encaixar aquele cargo nos padrões normais. Sentada confortavelmente, deixou-a continuar a falar sobre recados e outras providências, fingiu interesse apoiando os cotovelos sobre a mesa em sua direção. Seus olhos observavam, impassíveis, as telas no outro extremo do escritório. Apesar da distância, Laura conseguia ver perfeitamente os números saltando, os lances apareciam em destaque e quando ela viu o valor seis vezes maior que o estipulado soube que terminara. Sim, Mathias Herbertsson ganhara novamente.

Ele não tinha nenhuma ligação com museus, universidades ou instituições de pesquisa. Não era uma celebridade excêntrica conhecida, mas pelo visto tinha muitos milhões para gastar com jarros cuja função fora a de guardar órgãos de múmias. Havia algo errado. Percebeu o silêncio no escritório, o penteado de Laura deixava todas suas rugas de expressão expostas e facilmente a garota percebeu a tensão em seu rosto. Encarou-a paciente e imaginou por alguns segundos qual seria a reação da menina se ela lhe explicasse: “Querida, desculpe por não prestar atenção no seu precioso trabalho, mas sabe esse senhor que está comprando os artefatos? Provavelmente ele está fazendo magia negra com eles, entende? E isso não é bom. Pode ser para os negócios, mas não para, hum... a humanidade. Portanto, preciso pensar agora, preciso decidir como e quando ele deve morrer”.

Desconcertada pela expressão divertida que a chefe agora fazia, a menina repetiu o que havia falado no último minuto. Laura a interrompeu, o sorriso debochado já sumira e agora seu rosto só esboçava impaciência:

- Desculpe, estava verificando o leilão e me perdi nos números – olhou de relance a tela, agora anunciando o ganhador (justamente o que previra), e continuou a falar com uma voz indiferente – Mas eu escutei da primeira vez, obrigada pelos recados. Você pode ir agora, boa noite.

Laura respirou aliviada ao vê-la se afastar. Aturara a garota por nove horas, não dava mais para agüentar aquela pró-atividade, não com a chance do ganhador do leilão ser mais uma das criaturas nojentas que cobiçavam seus artefatos. Postou os olhos escuros no nome, séria, a repulsa crescendo em seu peito. Pegou o telefone disposta a resolver isso agora, mas o movimento na porta chamou sua atenção: a assistente, ao invés de ter seguido o seu caminho e ido embora da sala, estava parada sobre o arco falando com alguém na recepção. Por que essa idiota não saiu ainda?

- Senhora Laura, o senhor Wilkins já chegou – a garota morena notou sua surpresa, ainda faltava meia hora para a reunião, e continuou em tom mais baixo – A Sra. pode atender agora?

Laura tentou disfarçar o quão inconveniente era aquela notícia, mas apenas conseguiu desmanchar as sobrancelhas arqueadas e pediu para que esperasse alguns minutos antes de deixá-lo entrar. Mesmo com a saída da assistente, permaneceu imóvel na cadeira por algum tempo, o rosto soturno observando a porta recém-fechada. Não era para ele chegar agora, nem o respeito pelo horário essas malditas criaturas tem? Poderia sim dizer que só o receberia às 20h, não é, por que fui falar que o aceitaria receber agora? Sentiu sua nuca umedecer com um suor frio, a repulsa anterior virara pavor.

Ignorou os pensamentos pessimistas e finalmente discou um número no telefone, objeto que segurou como se fosse uma arma nos últimos segundos. Após a sexta tentativa sem resposta, desistiu e ficou de pé. Faltava vinte minutos para as vinte horas, Deus estava do seu lado, se convenceu, daria tempo. Ligou para a recepção pedindo para que o Senhor Wilkins entrasse e foi até os telões do leilão encerrado. Leu novamente o nome do ganhador e sentiu sua confiança voltar. Não era atoa que tinha anos de experiência nesse cargo, era excelente no que fazia e não seria diferente nessa reunião, independente dos minutos contra a seu favor.

Quando a porta se abriu, Laura já estava calma o suficiente para dar um sorriso doce ao fitar a criatura masculina que adentrava a sala. O senhor aparentava ter uma idade aproximada a de Laura, 40 anos, tinha estatura mediana e o rosto de traços retos, sem nenhum atrativo particular, dificilmente seria notado nas ruas se não fosse os olhos. A cor de um belíssimo azul escuro era rara, mas não era exatamente isso que fascinava quem o fitasse, era o olhar intenso, dominador. Uma lembrança dos jarros pré-cristãos anormalmente conservados perpassou a mente de Laura e, então, ela estendeu a mão.

Ah, o misterioso Senhor Wilkins. Demorou até um relatório comprovar o que a mulher desconfiava quando lia aquele nome como o ganhador do leilão de máscaras da era vitoriana. Um especialista afirmara que elas eram pertencentes a uma das criaturas demoníacas capturadas pela instituição há centenas de anos. Sua afirmação não era baseada apenas nos detalhes similares dos objetos, mas pelo material em comum: sangue, pele e cabelos humanos. Isca perfeita. Laura deixou os leilões das máscaras continuarem até que, em sua nona compra, um relatório completo chegou a sua mesa. Confirmado: Robert Wilkins era inegavelmente um vampiro e não um simplório. O maldito cliente pertencia à antiga linhagem... Agora, pela primeira vez, Laura apertava a mão de um Vox Régius:

- É um prazer recebê-lo, Senhor Wilkins! - sua voz soou calma, como sempre em ocasiões como essa, mesmo que o toque gélido a enojasse profundamente; escutou a resposta padrão dele e se livrou da mão fria. Apontou para uma das três poltronas da mesa circular – Por favor, fique à vontade.

Ele esperou que Laura sentasse antes de escolher seu lugar, bem ao seu lado, e negou a oferta da assistente. Sim, claro que ela tinha que oferecer café, água e chá:

- Querida, muito obrigada, você pode ir agora. - Laura a dispensou e somente após sua saída do cômodo voltou-se para o cliente, cujos olhos não pararam de encará-la por segundo algum – Confesso, Senhor Wilkins, que fiquei surpresa quando seu advogado entrou em contato novamente. Achei que o certificado técnico seria o suficiente para sanar suas dúvidas.

- Você é direta. - ele sorriu sem mostrar os dentes e relaxou o corpo no encosto da poltrona – Esperava que até me oferecessem uma massagem em um Spa antes de começar a falar nesse assunto.

- Não é por isso que está aqui? - a loira retrucou mantendo a coluna mais ereta do que o normal, firme para não ceder ao peso que aqueles olhos pareciam impor.

- Oh, sim! Mas veja, eu dei muito dinheiro a vocês ao longo desse ano e provavelmente darei mais caso tenham outras máscaras do tipo. - seu tom de voz, assim como seu rosto, era indiferente, como se estivesse lendo polidamente uma publicação - Porém, se o que eu questionei vier a público, a reputação da empresa poderá ser arruinada, então...

- Mais um motivo para irmos direto ao assunto, não, senhor Wilkins?

- … como eu dizia, eu gostei de sua postura, e isso é raro. - ele esboçou um leve sorriso e liberou-a do olhar. Observou as próprias abotoaduras douradas por um tempo, passando os dedos nos detalhes em relevo enquanto continuava a falar – É bom mesmo que saiba que bajulação alguma me impedirá de processá-los caso não me mostrem todos os registros dessas máscaras. Fotos de quando as encontraram, local, relatório do estado de conservação. Tudo.

- A avaliação técnica...

- Já li a avaliação técnica e ela está errada, senhorita Ortez.- O vampiro a interrompeu encarando-a, sua voz soava agora tão dura quanto seu olhar - A máscara foi modificada. Ela tem material não original.

A mulher observou de relance a cortina balançando, o vento noturno refrescava o escritório espalhando um cheiro de mata molhada, porém Laura sentia que não havia mais nada reconfortante naquele lugar. Ansiava por olhar o relógio no pulso, mas se segurou e continuou a encarar a criatura vil:

- Senhor Wilkins, como já disse para seu advogado, nós não alteramos as composições de nossos artefatos. Nunca fizemos restaurações, apenas limpamos as peças. Por que seria diferente com essas máscaras? O senhor comprou várias de nós, não temos motivo algum para alterar apenas uma, especialmente um pequeno detalhe como esse! - mentiu, surpresa em como conseguia manter um tom de voz tão honesto independente do desconforto físico que aumentava a cada piscar de olhos.

- Pequeno detalhe … - o vampiro murmurou inclinando o corpo para a mulher, manteve a boca semi-aberta como se fosse completar a sentença, mas não o fez. Crispou os lábios após um segundo e então sorriu. Não como os sorrisos tímidos anteriores: nesse ele expôs os caninos inegavelmente anormais. Passou os dedos no próprio rosto, delineando a linha de contorno de uma máscara dizendo – O acabamento nas bordas desta última é de sangue animal, senhorita Ortez, e em todas as outras máscaras a mistura do gesso tem outra composição.

Antes que Laura pudesse retrucar ele agarrou seu pulso com uma mão e seu queixo com a outra, inclinando-a em sua direção. Ela havia percebido a mudança de postura em seus braços, a ameaça do movimento, mas não fora rápida o suficiente para se afastar e agora o susto pela prisão repentina era óbvio em seu rosto delicado:

- Você sabe o que é, humana. Eu sei que sabe – Sussurrou, claramente se divertindo com os gemidos de dor que ela emitia, o relógio dourado cedia a pressão dos dedos do vampiro e cortava-lhe a carne. Laura sempre soube do risco de se conversar com um Vox Regius. Muitos da Instituição já lhe alertaram que eles podiam mover objetos com a mente e, o pior, poderiam ler seus pensamentos. A dor que ela sentia nas têmporas parecia lhe gritar que essa última possibilidade era real e tentou não pensar em nada enquanto ele a encarava bem próximo, mas já era tarde. - Você sabe que é sangue humano.

A mulher ouviu o relógio se estilhaçar antes de seu corpo ser jogado no outro extremo do escritório. Olhou para o lado, confusa e ao mesmo tempo fascinada com a precisão do vampiro: por alguns centímetros ela não caíra na estante repleta de livros e objetos o que geraria um barulho muito mais estrondoso do o som oco de seu choque com a parede. Ele se aproximou mais rápido do que seus olhos puderam acompanhar e a ergueu pelos ombros. Laura não ousaria gritar, mesmo que houvesse mais alguém no escritório ninguém conseguiria impedi-lo, porém, precavido, ele tampou sua boca:

- Você sabe da natureza de quem criou essas máscaras, sabe quem as compraria e ainda assim se arrisca a modificá-las? Para quê? - o vampiro não esperava uma resposta audível, óbvio, e a mulher nem ao menos tentou fazê-lo. Gemia involuntariamente com a enxaqueca e a falta de ar provocada pela pressão no pescoço que ele apertava levemente. Não queria pensar na hora. Não devia, ele saberia caso ela pensasse! Precisava ignorar sua esperança, deixar somente o pessimismo gritar em sua mente, entretanto era impossível manter a mente sã com as agulhadas de dor em seu cérebro. Wilkins fitou intensamente seus olhos lacrimejantes por alguns segundos e, então, com um rosto soturno, murmurou - Inquisição? Você é uma inquisidora?

Laura sentiu o coração acelerar, pronta para que seu pescoço fosse esmagado pelo ódio da criatura vil e fechou os olhos determinada a não demonstrar seu desespero. Rezava, tranquilizando-se que, se Deus quisesse que ela morresse agora, lutando pela causa, assim seria. Pelo menos havia matado muitos desses demônios, era uma boa cristã e um bom cristão não teme seu pós morte. Foi um pouco antes do “amém” que ele a soltou abruptamente. A inquisidora caiu de joelhos no chão e abriu os olhos a tempo suficiente de ver um vulto avermelhado puxando o vampiro para longe:

- Graças a Deus... - sussurrou ainda de joelhos no carpete. Acompanhava as formas difusas tentando se concentrar e entender os movimentos rápidos demais para os seus olhos humanos. Passou a mão no coque bagunçado, colocando atrás da orelha as mechas loiras que se soltaram. Sua visão era limitada, mas ouvia nitidamente o som fino de lâminas diferindo golpes, um som distinto lembrou-lhe do rasgar de pele e músculos e pôde, então, ver a forma das duas criaturas.

Eles caíram justamente sobre a mesa de reunião. O vampiro se contorcia tentando se livrar da pequena criatura ruiva que pulara em suas costas e envolvia seus ombros com a perna. A mulher reparou nos ferimentos no peito de Wilkins, sua camisa branca e terno estavam ensanguentados dos cortes precisos que Alioth desferira. Ágil, o elfo puxou os cabelos do imortal, expondo seu pescoço para as lâminas afiadas. Laura virou o rosto, enojada, ao ver os fios avermelhados se rompendo. O desconforto cresceu quando ouviu a cabeça rolar e levou a mão a boca certa de que vomitaria, não suportava aquele cheiro de sangue que envolvia o escritório. Ele quase a matara e ainda assim ela se sentia desconfortável com a situação. Não havia vida, apenas morte naqueles corpos, decepá-los era apenas a continuidade do plano divino, se convenceu abrindo os olhos e encarando os olhos semicerrados do vampiro. A alma não deve permanecer no corpo após a morte física e é isso. Estava liberando-os para que fossem julgados por uma força superior, certo? Libertação, não assassinato, sussurrou, pálida, observando o rastro de sangue deixado pela cabeça. A voz de Alioth dissipou seus pensamentos:

- Pensei que era às 20h. Me enganei?

Ela se limitou a negar com a cabeça, ainda estava atordoada, contudo seu olhar brando demonstrou que estava agradecida. A criatura ruiva não esboçava raiva, muito menos desdém pela recente vitória. Encarou-a indiferente por alguns segundos, talvez aguardando uma ordem ou uma represália. Alioth fora pontual, ela tinha certeza, o elfo nunca a desapontara anteriormente. Precisava dizer a ele de quem fora a culpa por esse estardalhaço todo? Sim, precisava:

- Ele apareceu mais cedo... - as estranhas pupilas estreitas pareciam julgá-la, e ela arqueou os ombros e se levantou – Eu achava que conseguiria entretê-lo antes de você chegar. Claramente, falhei, não é?

Desta vez, o elfo quem deu de ombros. A postura distante não incomodava Laura, muito pelo contrário, essa natureza etérea a encantava, eram criaturas muito mais racionais do que os humanos. Observou-o arrastar o corpo para perto da janela e, só então, reparou no rastro de sangue que manchava a tapeçaria turca. O bordado estava arruinado para sempre, sabia que aquela mancha não sairia e fez uma careta a qual não durou mais que alguns segundos. Um tapete com sangue vampírico seria uma boa moeda de barganha para os pesquisadores inquisidores ou ... “Ah, os magos pagariam bem caro por isso”. Sorriu:

- Alioth, quando eu for te pagar, me lembre que te darei um bônus, está bem?




Mais sobre Alioth você pode conferir no conto Justiça Carmin e em alguns capítulos de Malleus Malleficarum.

Esse é o primeiro conto da Laura, mas os Inquisidores aparecem também no conto Claire de Lune.

Espero que tenham gostado. Fiquem atentos que no mês de dezembro não apenas começará uma nova Crônica como também faremos diversos sorteios!

Clair de Lune - Final


Continuação de: Clair de Lune - pt 4
Inicio em Clair de Lune pt 1




- Eu estou enxergando, vem!! - sussurrei para Kath puxando-a para me acompanhar pelo apartamento. Estávamos na metade do corredor quando ouvi um gemido de dor. Ekaterina parou e levou as mãos ao nariz com uma estranha expressão no rosto. Permaneceu assim por alguns segundos e então, subitamente, correu em direção ao quarto.

Apressei os passos para acompanhá-la e só quando cheguei no cômodo entendi o olhar selvagem que vira no corredor: Henry havia esfaqueado o mago. Seu corpo estava caído sobre a cama, o sangue encharcava seu tórax. Tecido, pele e órgãos se misturavam a cor avermelhada e o lençol começava a ganhar aquele mesmo tom. Ekaterina agarrara o mercenário no momento em que ele se preparava para abrir a garganta do estudante, mas já era tarde. Ela conseguira achar o quarto e localizar o caçador graças ao enfraquecimento da trama negra. Os fios de magia escorriam pelo lugar. O garoto estava morrendo e, com ele, sua magia.

Foi horrível, fiquei ali parado por um tempo observando o corpo inerte, não havia mais o que fazer. O estardalhaço da luta entre a vampira e o maldito inquisidor me despertaram do horror daquela cena. As lâminas das adagas de Henry brilhavam na fraca iluminação do quarto, ele tentava incessantemente acertá-la em vão. Ekaterina era muito mais rápida apenas empurrava-o de leve contra a parede e deixava-o voltar às tentativas fúteis. Parecia que brincava com ele, talvez estudava seus movimentos. O olhar feroz do mercenário rapidamente se transformou em desespero, ele estava encurralado como em uma ratoeira e queria fugir, era óbvio.

Você sabe que muitos mercenários praticam magia, especialmente os que matam criaturas como vocês, não adianta só saber os pontos fracos, ser um bom estrategista ou ser um exímio lutador. Quando se é pego de surpresa por um imortal ou por um mago poderoso, habilidades humanas não são o suficiente. Acreditava que Henry tinha algum tipo de poder, afinal, ele vira os fios no instrumento de Egor, tentara desmanchar o feitiço de proteção do apartamento … O guia da cidade estava cheios de rastros mágicos, fortes demais para uma pessoa com um talento superficial para a coisa. Contudo, em nenhum momento ele tentou conjurar uma magia naquela situação e era exatamente isso que a Ingenium verificava ao provocá-lo com leves empurrões.

Ela segurou seus dois pulsos, obrigando-o a encará-la. A expressão raivosa que eu vira anteriormente no rosto de Ekaterina não era nada comparada com a que vi naquele momento:

- E eu preocupada por haver esquecido meu sabre... Como você é fraco! – desdenhou exibindo os dentes e pude ouvir os ossos de Henry estralarem. As adagas caíram no chão e ele começou a se ajoelhar sobre a força da vampira, era nítido o esforço dele para não gritar. – Você veio até minha morada tão ansioso para matar um vampiro e nem conseguiu me atingir agora, mesmo eu não usando metade da minha velocidade. Covarde. Pretendia nos atacar de dia, não é? Ou com vários inquisidores ou quem sabe...

Ela o obrigou a ficar de pé novamente e reparei como a respiração ofegante de Henry começara a ficar audível. Ele deixou escapar um gemido, mas não pela dor, era desespero por não conseguir inspirar direito:

- Quem te deu esse guia? Foi um mago, não foi? - a vampira questionou ferozmente e então reparei no movimento de seu tórax. Ela parecia respirar. A cada inspiração tortuosa dele eu tinha mais certeza que Ekaterina sugava seu ar, alimentando-se daquela respiração como uma humana. Até seu tom de pele parecia ganhar uma coloração mais... viva.

Não sei se Henry percebia exatamente o que acontecia, mas estava apavorado. Balançou a cabeça em negação algumas vezes até que desistiu e gaguejou:

- Or.. or.. dem. - Kath o largou e me encarou enquanto ele completava - Ordem Francesa.

A face soturna da vampira não esboçava surpresa alguma com aquela resposta. Algo em sua expressão me fez crer que ela desconfiava disso desde que conversara com Eugéne e só o forçara a falar a resposta para que eu ouvisse, para que eu soubesse. A ordem de magos parisiense que sempre acolheu tão bem os estrangeiros decidiu desencorajar a imigração. Covardes filhos da puta.

Henry estava de joelhos, inclinado sobre o chão e recuperando o ar inspirando desesperado pela boca. Eu queria lhe perguntar dos motivo dessa mudança de comportamento da Ordem, se estavam confabulando com a Inquisição, ou se ele agira como um agente duplo. Enfim, tinha muitas perguntas, mas antes que eu pudesse me aproximar dos dois, o mercenário chutou os joelhos de Ekaterina e tentou fugir aproveitando-se do pulo que a vampira dera para se esquivar do golpe. Mesmo com a falta de fôlego, Henry era rápido e em um segundo já pulara sobre a cama e estava prestes a sair pela porta quando a vampira o alcançou.

Jogou-o no chão sem dificuldade e calou sua boca quando ele começou a gritar. Sem pestanejar, cravou os dentes em seu pescoço. Henry me olhava suplicante implorando ajuda. O corpo do mago assassinado covardemente estava ali bem ao seu lado, como o desgraçado ousava me olhar daquele jeito? Lembrei de todos os nomes marcados no mapa, de todos os conhecidos que desapareceram em Paris e o odiei. Contudo não foi a ausência de empatia que me manteve atônito, foi a ferocidade com que Ekaterina o atacava. Espera-se que um vampiro beba o sangue do pequeno corte provocado pelos caninos, era isso que eu esperava, mas Ekaterina rasgara a jugular com furor. Arranhava, mordida, bebia...

- E, então, você vomitou. - Adrian riu. Havia sentado casualmente no chão ao longo da narrativa e permanecido em silêncio até agora:

- Sim... - Hans murmurou, a resposta foi quase inaudível em meio aos sons da tempestade que caía fora do calabouço. Olhou taciturno para as algemas entediado por voltar ao seu presente:

- Ela era uma Ingenium... toda essa fome provavelmente era destinada ao sangue do mago que estava na cama. Ela não o abocanhou por respeito a você, hum? Poderia ser pior. - Aguardou alguma reação do prisioneiro, mas Hans só deu de ombros. Adrian insistiu – Você continuou em Paris, já que foi assim que conheceu Ashtaroth, mas e ela? Você a viu novamente?

O mago alemão encarou o rosto cheio de escárnio do vampiro e permaneceu em silêncio por alguns segundos. Sentia uma estranha dormência nas têmporas e um cansaço anormal mesmo para o seu corpo atrofiado dos dias de aprisionamento. Fechou os olhos irritado com o significado desses sintomas:

- Adrian, estávamos conversando sobre o meu primeiro contato com vampiros e é isso. Uma noite de sangue e vômito. Chega desse assunto...- apesar de sua seriedade, o tom de voz e olhar eram brandos. Fora um pedido amigável e o vampiro o atendeu. Sorriu olhando a hora em seu celular e foi até a saída do minúsculo cômodo. Porém antes de abrir a porta, começou a falar:

“Ele vomitou uma vez. Duas. Na terceira vez, conseguiu alcançar o banheiro. Ficou ali por um bom tempo, o estômago doendo de fome e ânsia. Lavou o rosto querendo esquecer o que havia fora no quarto. Era sangue demais. Enxugava o rosto quando ouviu a voz da vampira:

- É melhor você ir, garoto, eu cuido do resto – Hans a observou pelo reflexo do espelho, estava menos suja de sangue do que ele esperava, contudo era o suficiente para que sentir o estômago doer de novo. Respirou fundo lavando novamente sua boca e controlando a ânsia:

- Não. Eu vou te ajudar. Só.. preciso de um tempo. - Um tempo para digerir a chacina planejada pela Ordem que o acolhera. Um tempo para ignorar o que acabara de presenciar no quarto. Era demais para um mago inexperiente como ele. - Eu não entendo. A Ordem Francesa é conhecida por acolher os magos de toda a Europa. Se unir justamente com os inquisidores... Eu costumava ser até bem devoto antes de toda a merda que eu vi na Alemanha...

- Sua fé mudou pelo o que os fanáticos fizeram lá?

- Digamos que eu não sigo mais nenhuma religião... - Hans se afastou da pia, dando espaço para ela entrar e lavar as unhas imundas. O sangue escorria pelo ralo enquanto Ekaterina esfregava as mãos, mesmo após o assassinato seu rosto mantinha o ar raivoso anterior. Hans encostou-se no batente, incomodado com a naturalidade que ela tirava o vermelho dos dedos. Murmurou - E agora, a Ordem que eu confiava faz uma merda dessas. Puta que pariu.

- Não tem nada a ver com religião, garoto. Não perca seu tempo tentando entender os inquisidores ou a posição política da sua Ordem. É só simples e puro ódio. - encarou-o pelo reflexo e exibiu os caninos em um sorriso cínico - Vampiros, humanos, magos, inquisidores, nós todos escolhemos um alvo de nosso ódio e desenvolvemos infinitas desculpas para racionalizar isso. Não tem nada a ver com fé ou política, é só ódio e ilusão.

- E qual é a desculpa para o seu ódio? - Hans ousou perguntar. O tom de voz soou mais rancoroso do que ele gostaria, mas manteve o olhar nos olhos cinza que, óbvio, o fulminaram. O mago temeu a reação da vampira, sentiu o peito pesar por todo o tempo que se encararam em silêncio até que ela se inclinou para lavar o rosto. Respondeu ignorando o reflexo do mago, sua voz mais rouca do que nunca:

- Eu não sei mais.

Antes disso, antes desse encontro, o mago realmente acreditava que todos os vampiros eram um bando de aberrações que não tinham função alguma no equilíbrio terreno, julgava todos como se fossem um tipo de parasita que se deve exterminar sem exceção. Mas com essa conversa ele percebeu que poderia … se identificar com um deles. “

Adrian se virou:

- Ah, Hans. Desculpe-me, mas tanto rancor, tanta nostalgia em seu cheiro, era impossível não invadir sua lembranças! Sua mente ficou totalmente exposta! - debochou, nem um pouco envergonhado - E essa sua memória é incrível, hein? Você lembra de todos os detalhes que quer!

O mago alemão não esboçava raiva alguma pelos comentários, o cansaço era evidente em seus olhos semicerrados. Há dias recebia a visita do Vox, já imagina quando fraquejaria em sua presença. Mordeu os lábios tentando se manter acordado:

- Não se preocupe, humano, não vou fofocar sobre... isso que te preocupa, mas infelizmente não posso ignorar suas habilidades. Eu sei do que você é capaz. E do que essa vampira é capaz de fazer por você. Não posso ignorar isso, certo? Volto mais tarde, vou te levar para um lugar novo.

Hans ouviu a porta bater deixando-se levar pelo sono que o consumia. “Isso que me preocupa...” murmurou em um sorriso triste, esperançoso que Adrian cumpriria o que falava. Não o incomodava que o vampiro soubesse da intimidade que ganhara posteriormente com Ekaterina. Isso não o afetaria em nada. O problema era o que fariam se descobrissem que a Voz dos Ingenium, a temerosa assassina do Indulto de Sangue, ainda estava viva.




A narração de Clair de Lune acontece antes dos eventos da Crônica Resgate. Para saber mais sobre Hans e Ekaterina é só ler a Crônica aqui

É isso, gente, desculpa a demora para finalizar, praticamente um ano, mas tive outras pioridades nos últimos meses que quebraram o ritmo da escrita...

Espero que tenham gostado. Não gostaram? Me xinguem aí embaixo!

Obrigada a todos que continuaram a nos divulgar e comentarem aqui e no twitter, especialmente o @JotaFF, o @SnakeTnTaylor e o @professorvaz!

Daqui a 15 dias postaremos outro conto.

Clair de Lune pt 4


Continuação de: Clair de Lune - pt 3



- Aonde ele está agora? - sua expressão estava transformada, não parecia mais uma musa exótica de olhar indiferente. Era muito claro que se não fosse por seu mentor ela já teria cravado os dentes nele. Porém, mesmo com a vampira sufocando-o pela gola, o inquisidor manteve uma expressão calma e disse:

- O nome dele é Henry. Solte-me. Vou te contar o que sei.

Ela aceitou o pedido e o largou. Os olhos cinza o acompanharam pelo cômodo enquanto ele se afastava. Éugene não parecia estar nem um pouco abalado pela chacoalhada que levara, foi sem pressa a uma das diversas escrivaninhas do lugar e pegou um pequeno livro abrindo-o cuidadosamente. Sua encadernação era peculiar, cada dupla de página se desdobrava em um grande mapa mostrando alguma área da cidade de Paris. Ele desdobrou uma dessas páginas e estranhei os fios multicoloridos percorrendo a superfície do papel. Não, não era algum efeito de impressão, aqueles pontilhados não seriam visíveis a um humano comum. Eram rastros de magia, bem sutis, não eram densos e prontos para serem manipulados como o que preenchia a pequena peça que a vampira me mostrara anteriormente. Esses sobre as ruas desenhadas denunciavam que algum mago manipulara anteriormente aquela encadernação, eram praticamente uma digital mágica. A voz do inquisidor interrompeu o que eu pensava:

- Hoje é o 14a dia que Henry está na cidade. Então, hoje ele matará o 14a bruxo - disse batendo o dedo na anotação à caneta sobre o mapa, a escrita formava justamente o decimal que ele citou, adicionado de duas letras as quais eu, que já estava ao seu lado, li em voz alta:

- “L.D”? São as iniciais do nome dos magos?

Antes que o idoso me respondesse, concluí a resposta observando a outra anotação sobre aquela região, mais uma dupla de letras acompanhada de um número. A vampira fez o que eu estava prestes a fazer: sorrateira, puxou o guia e passou a folheá-lo. Ela murmurava ignorando os dedos nervosos do inquisidor requerendo o objeto de volta:

- Não tem tantos nomes marcados aqui, não para a quantidade de magos que eu imagino que habitam Paris. Somente os estrangeiros estão aqui? Ora... - fechou o livro observando a capa chamativa do guia – Quem deu isso para vocês? Isso aqui não pode ser da Inquisição.

Éugene colocou as mãos nos bolsos e se afastou respondendo:

- Eu apenas recebi isso de Henry, ele tem um similar... Não sei detalhes - pegou uma coleira atrás da porta e prontamente o cachorro reapareceu, correndo para os seus pés, ansioso pelo o que significava aquele ato.

Kath não repetiu a pergunta, manteve um longo silêncio enquanto fitava o idoso acariciando o animal. Percebendo a insatisfação com sua resposta, Eugéne colocou o acessório no cão e completou o que dissera:

– Eu realmente não sei. Apenas desconfio que não seja nosso – disse incisivo, colocou-se de pé e apontou para o vão da porta - Agora, por favor, eu preciso levar o cachorro para passear...

Ela não questionou a expulsão, me entregou o guia e foi até a porta olhando por alguns segundos a corda da coleira branca antes de sair. Disse:

- Tsc, pena que a sua enforcadora não é visível, Éugene.

Fiquei atônito com o sarcasmo e por ter certeza que ia dar merda se ele a respondesse. Eu queria sair dali o mais rápido possível, queria impedir um assassinato... Ficar discutindo e pensando em quem deu o guia e planejou tudo não passava pela minha cabeça naquele momento! Porém, ela não esperou a resposta (que certamente viria) e desceu a escadaria. Satisfeito por não precisar impedir uma briga eu a segui ignorando o início das ofensas do velho.

A ida até ao endereço foi um saco. Ekaterina não me deixou observar o mapa e também nem fez questão de me indicar o caminho. Folheava incessantemente o guia, forçando as dobras e xeretando a costura do miolo. Aquele interesse me fez pensar se ela conseguia ver os rastros de magia também, mas aquelas digitais seriam percebidas por raríssimos magos, seria impossível vampiros perceberem algo tão específico da minha espécie. Estaria daquele jeito só desconfiar da origem do livro?

E daí que o mapa não é dos inquisidores?!” tinha vontade de gritar, irritado por andar à vinte por hora esperando algum indicação da parte dela. Hoje, se isso fosse parar em minhas mãos naquela situação, eu estaria daquele jeito também. Raciocinar quem estava colaborando com a matança, o porque, é fundamental, porém, preciso lembrar que naquela noite eu era um garoto inexperiente? Eu reagia aos problemas conforme eles chegavam até mim, e, aliás, a preocupação de caçar um mercenário sem um plano, de novo, me desconcentravam o suficiente naquele momento.

Quando Ekaterina se cansou do livro e passou a me guiar pelo subúrbio parisiense, rapidamente chegamos ao local. Andamos em silêncio até o edifício, ele era bem mais moderno e alto do que o que eu morava na época, contudo tinha o mesmo o inconveniente de ser sobre um pavimento comercial. Apontei a pizzaria para a vampira:

- Isso é bom, certo? Com a pizzaria funcionando ele não deve ter feito nada.

- Depende. Na verdade, isso só garante que ele tenha dificuldades em sair com o morto. – respondeu atravessando a rua, continuou a falar indiferente sem nem me deixar digerir a resposta pessimista – A dúvida é, como garantir que ele não saia do apartamento enquanto entramos e subimos no prédio? Ele pode muito bem fugir deixando o corpo.

- Ainda “não tem corpo... – contestei murmurando.

Observei o prédio para ignorar a expressão cínica dela e avistei algo bem peculiar. Duas grandes janelas do 3º andar exibiam uma estranha forma etérea, a única coisa que se via dentro do apartamento eram fios enegrecidos que se cruzavam densamente. O formato era típico de um feitiço de proteção, mas estranhei a cor, mesmo que seu criador seja um inexperiente metido a Harry Potter, ele é tremeluzente. Observei que haviam alguns buracos na trama e xinguei. Infelizmente a vampira estava certa, Henry já estava lá.

Corri até a porta do prédio e Kath me seguiu, antes que me questionasse eu já estava com a chave do citroen em mãos, envolvendo-a e convencendo-a com meus sussurros que agora ela não era uma chave de carro. Ela era uma chave-mestra e abriria qualquer porta. É. E funcionou.

Kath passou por mim enquanto subíamos a escada, me fitava com grandes olhos indagadores e só então eu expliquei sussurrando:

- O desgraçado já está lá. Acho que ele quebrou o feitiço de proteção do apartamento.

- Imaginei mesmo que você vira algum abracadabra assim... – ela disse com um sorriso astuto – Mas o que eu quero saber é como fez isso com a chave!

Não deixou eu responder, seguiu a escadaria rapidamente, deixando apenas tênues vultos de sua forma no caminho. Minutos depois, sem fôlego, eu cheguei ao terceiro andar. Ignorei minha ansiedade e andei vagarosamente até o apartamento 303. O silêncio do lugar me preocupou, esperava barulhos de luta, no mínimo vozes, e no entanto só conseguia ouvir minha própria respiração ofegante. A porta estava entreaberta e a empurrei cauteloso.

A pequena sala estava tomada pelos fios protetores, os móveis e paredes se mantinham intactos, nada estava alterado, mas podia sentir que as energias do lugar estavam estranhas. Avistei o caçador bem próximo ao batente que dava acesso ao outro cômodo, estava envolto pelos mesmos fios do resto do ambiente. Ele me encarava arregalando os olhos a cada ranger da porta, segurava as adagas pronto para atacar, mas ao invés de correr em minha direção, cortava o “nada” a sua frente. As nuvens negras ao seu redor espalhavam-se com o movimento, como se fossem poeira, e em meio a essa penumbra reparei na expressão de dúvida de seus olhos, ele não me via ali.

Olhei a vampira, ainda próxima da entrada do apartamento, sem saber se ela também percebera aquilo. O jeito cauteloso como fitava o local também era bem estranho, como o caçador, ela parecia que não me via, muito menos o inimigo no oposto da sala. Concluí que eles não estavam enxergando o cômodo como eu que distinguia perfeitamente os móveis daquela névoa escura. O matador não quebrara o feitiço corretamente e, ao invés de extingui-lo, mudou seu efeito sobre o lugar criando uma ilusão de escuridão para inimigos.

Observei Kath se movendo para a sua direita, provavelmente tentando voltar a entrada do apartamento. Segurei sua mão, disposto a planejar com ela o que fazer já que eu não conseguia lembrar de nada que pudesse conjurar para manipular aqueles fios ao meu favor. Ela aceitou a ajuda, envolvendo meus dedos e se aproximando da saída mais rapidamente, porém, antes que eu pudesse tirá-la da escuridão, passos arrastados soaram no outro cômodo. O estudante “D.L” acordara e agora seus ruídos alertaram o caçador, guiando-o sem hesitação até a entrada do quarto.



Continuação: Clair de Lune Final


* Erros de português como O fitando são propositais, pois não acho que o Hans falaria formalmente (fitando-o) a todo o momento.

** Esse post foi postado ano passado e "recolhido" posteriormente para revisão.

*** Obrigada aos que continuaram nos seguindo e fazem comentários aqui e no twitter :)