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O Sopro do Auroque pt II

Continuação de: O Sopro do Auroque pt I


- Sabem o que está escrito aqui? - sorriu, a expressão arrogante delineando sua face - Vocês sabem o que pode acontecer se eu ler isso aqui, não sabem? - sussurrou, sem tirar os olhos verdes do metal, esperando alguma resposta dos rapazes.

Eles se entreolharam, preocupados. O mais magro se afastou, indo até a entrada do estabelecimento, enquanto o outro se aproximou dos forasteiros. Voltou sua atenção para a mulher e em seguida para os desenhos de caveira da camisa do ruivo:

- Não vamos deixar necromantes levarem o auroque - apertava as pálpebras para conseguir ignorar o reflexo do objeto e encarar a face petulante do homem mais velho - Acham que não os reconheceríamos? - o rosto moreno tornou-se sombrio.

Fais descruzou os braços, ficando mais séria a medida que o volume da risada debochada de Cathir aumentava:

- Espera - enxugou os olhos lacrimejantes - vocês acham que somos necromantes? - falou entre risadas contidas - Por causa da minha camisa? - riu mais uma vez e apontou para os escritos góticos na barra da roupa - É de uma banda, pô!!

- Claro que não é por causa da camisa - disse o gordinho entre dentes, cravando os olhos na mulher logo atrás do ruivo.

O outro alemão trancara a porta e já retornara ao balcão. Também encarava desconfiado a maga. Cathir a olhou:

- Tsc, sabia que você me daria problemas - murmurou, cínico, e continuou fitando-a enquanto falava - A garota aqui, assim como eu, é da Ordem Bretã. - virou-se para os adolescentes com uma expressão soturna - Os Bretãos não aceitam necromantes.

O mais magro balançou a cabeça em negação, sussurrando algo em alemão. Cathir com um tom irritado questionou:

- Que você disse?

- O sussurro dos mortos... - a maga traduziu, indiferente.

O rosto do mago irlandês atingiu um coloração rubra:

- Qualquer porcaria pode causar um efeito desses em alguém! - esbravejou, e as janelas estranhamente bateram, o vidro de uma delas se estilhaçou, resultando em um olhar apavorado do alemão mais novo - Pode ser uma maldição, um objeto amaldiçoado... há tanta coisa que provocaria isso e vocês pensam na possibilidade mais remota? A que seja um necromante, pior um necromante que procura um artefato inútil para as magias dele! - os outros tentaram falar, mas ele não deixou, continuou esbravejando, cada vez mais vermelho.

- Cathir - o sussurro de Fais era um pedido de calma, mas ele a ignorou:

- Como vocês vigiam um objeto e não sabem para que ele serve? Sabe o que acontece quando essa porcaria chega perto de um vampiro? - levantou o chifre - Racha! Imaginem por conta própria o que acontece em um ritual necromante! Com um defunto de verdade!

- Cathir! - a maga puxou a mão do ruivo e apontou para o chão logo abaixo dele.

A madeira ganhara um aspecto esverdeado cujas ramificações subiam pelo seu tênis. Ele tentou mover os pés, mas, assim como os de Fais, estes pareciam fincados ao chão. Xingou, furioso. Estranhamente os raios solares que atravessavam as janelas pareciam mais amarelados destacando a poeira que pairava no ar como se fosse uma névoa difusa. A face dos anfitriões demonstrava insegurança, parecia que mil pensamentos pairavam em sua mente, mas Fais sabia que não estavam assustados pela transformação do lugar. A mudança era um mecanismo de segurança pronto a funcionar ao menor sinal de mágica e confirmava que a loja era fachada para guardar coisas especiais da Ordem Alemã. Provavelmente eles sabiam que isso aconteceria quando Cathir retirou o auroque da estante. A expressão em suas faces era o medo da reação do irlandês, receio sensato considerando que claramente ele era muito mais experiente do que eles. Talvez ela pudesse aproveitar isso para fazê-los desativar a resposta da casa, a qual agora exalava um odor muito mais forte de mofo:

- Ei! Nós somos da mesma Sociedade do Dr. Ackart! – contestou a jovem, agachando-se e passando os dedos pelos fungos que se espalhavam pelo seu coturno - Ele pode vir aqui e explicar tudo! Não precisamos bri.. – sua voz soou fraca, ela engoliu em seco, fazendo uma careta ao sentir um estranho gosto agridoce. Seu corpo enfraquecia e precisou se ajoelhar, apoiando os braços na madeira coberta pela textura esverdeada. Uma gota de sangue manchou o chão, fazendo-a ignorar a fraqueza para observar o companheiro – Ah, não, não faz isso!

O homem respondeu ao pedido emitindo um som debochado. Cortara os dedos com um de seus anéis e pincelava o vermelho na parte interna do chifre. Seus olhos eram pura fúria, motivando os dois jovens a começar a falar uma série de palavras desconhecidas. Demoraram um pouco para conseguir acertarem as palavras e, quando conseguiram, aumentaram o tom. Encaravam Cathir como se esperassem o momento em que cederia ao encanto do lugar ou a suas ladainhas:

Sério, ele balançou a cabeça em negação, como se lhes respondesse que isso não aconteceria com ele. Começou a ler os escritos no acabamento do auroque. Sua voz soou grave, como se não fosse sua e as pontas dos dedos ensangüentadas pareciam ganhar uma fluidez alaranjada ao encostarem no artefato. Quando ele terminou a leitura dos símbolos, os magos se calaram, dando passos para trás assustados.

Uma chama fluída preencheu o auroque, transformando-se em um líquido cor de mel. Os sujeitos enfraqueceram a ladainha, se afastando quando o irlandês levantou o artefato como uma taça no ato de brindar, levando-o a boca. Um deles pegou um dos besteiros à venda, mas não houve tempo de armá-lo. Cathir inspirou fundo e soltou pela boca todo o ar sobre o auroque. Volumosas bolhas se formaram no líquido âmbar, explodindo em vapor em direção aos dois magos. As gotículas amareladas atingiram o balcão provocando um característico som de queimado. A superfície da madeira, assim como o chão próximo a ela, corroera em cinzas como se brasas a atingissem.

Os alemães observaram paralisados a cena. O vapor quase os atingira, mas só o calor próximo que sentiram fora o suficiente para não conseguirem se mover. Ambos olhavam fixamente para a caixa eletrônica, cuja estrutura permanecera intacta, mas a pintura ganhara manchas enegrecidas. As mãos trêmulas do gordinho seguravam com uma mão a balestra e com a outra uma seta metálica. De repente, como se despertasse de um transe, tentou novamente encaixá-la:

- Larga essa merda! - ordenou o mago ruivo, as falas provocando vapores sutis na superfície do auroque - Vamos! - inclinou um pouco o artefato, assoprando sua borda, direcionando as leves nuvens alaranjadas para o pavimento.

A textura esverdeada carbonizou conforme a fumaça sedimentava. O mago movimentou suas pernas, rachando as formas orgânicas e desprendendo os pés do chão. Olhou de relance para a mulher caída, mas não se aproximou, deu um passo a frente, encarando curioso o gordinho. Apesar da tremedeira, ele encaixou a seta, entretanto, não teve força nos braços para levantá-la o suficiente para mirar no inimigo:

- A escolha foi sua - retrucou o irlandês, petulante, antes de encher os pulmões de ar e expirar no misterioso líquido que preenchia o auroque.

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- Então vocês disseram que a Ordem Bretã já conversara sobre isso com a organização Alemã e ainda assim eles insistiram em negar o Auroque? - o velho rechonchudo era o único em pé no salão, andava de um lado e para o outro na frente de Cathir e Fais, a qual sorriu, doce:

- Citamos os alemães envolvidos na Ordem Bretã também, pedimos educadamente uma reunião. Mas não adiantou. Simplesmente os dois nos atacaram. Cathir só pretendia retirar aqueles “fungos” que nos prendiam, só isso.

- Não precisa repetir o que você acabou de falar, Fais. - interrompeu grosseiramente uma senhora morena

- Acho que preciso - sua voz era tão branda que o sorriso confiante não parecia petulância - Vocês me enviaram para vigiar o rabugento aqui - apontou o sujeito carrancudo ao seu lado - E não acreditam quando digo que o que aconteceu foi um mero desentendido, um aciden..

- Acidente, ACIDENTE?! - gritou a outra - Queimar uma loja inteira em uma briga NÃO É UM ACIDENTE! É estupi..

- Não precisa repetir o que você acabou de dizer - ela lambeu os lábios, seu rosto ganhou uma tonalidade rósea e continuou a falar antes que a outra se levantasse para lhe bater - Cathir estava tentando nos libertar daquela magia, só isso. Não vimos que a loja era tão facilmente suscetível a efeitos mágicos, se não, nunca teríamos usado o auroque.

- Se a loja reagiu a vocês quando foram hostis com os magos é óbvio que é um lugar suscetível!

- Lugar reagiu? - questionou inclinando a cabeça com uma expressão curiosa

- Aqueles fungos! Aquilo foi uma reação do lugar a vocês! - a mulher esbravejou, ignorando o apelo do senhor em pé para que se acalmasse - Como não sentiram que a loja era diferente, como não sentiram nenhum encantamento?

Cathir olhou para o chão, irritado, apoiou-se no encosto cruzando os braços, obstinado a não falar nada. Continuou assim enquanto Fais continuava sua defesa:

- Humm - a jovem pálida levou o dedo ao queixo - é ... mas existem encantamentos que ofuscam esse tipo de coisa, certo?

- Chega - disse firme um dos homens próximos a morena irritadiça – chega dessa discussão. Estou convencido que Cathir já cumpriu o que deveria pelo acidente - levantou-se e ficou de frente para o resto do salão - quem mais está?

A grande maioria levantou o braço com uma expressão enfadonha, claramente cansados. Cathir franziu a testa, indiferente inclusive a próxima pergunta:

- Alguém é contra que ele volte para o grupo do Senhor Seymaur?

A morena e alguns poucos se manifestaram, cheios de justificativas. O homem em pé os ignorou, anunciando uma decisão favorável e desejando boa noite a todos. O pequeno grupo de contestadores o cercaram enquanto o resto se dispersava pelo salão.

- Nada como cansaço para apressar uma decisão – murmurou a criatura pálida olhando as horas em seu relógio.

- Não - ele descruzou os braços fitando-a muito sério - Nada como uma mentirosa eficiente...

- Oh. De nada. – sussurrou dando de ombros, levantou-se – Vamos, Maur está nos esperando no cemitério.

- Quê? Nos – frisou a palavra – Nos esperando?

- Quem você acha que te substituiu na sua ausência? – colocou os óculos no decote da blusa, ignorando o olhar furioso do mago, piscou marota – Você tem sorte de ele ainda querer você.

Virou-se, tirando um molho de chaves do bolso da jaqueta jeans. Mexeu no outro bolso e achou uma barra de cereal, oferecendo ao ruivo que a seguia duvidoso. A acompanhava silencioso, desconfortável não apenas pelo irritante barulho de chaves de um lado para o outro, mas principalmente por saber que estava em dívida pela mentira. Fais apontou o seu modesto carro estacionado próximo a entrada, seus olhos brilhavam sobrenaturalmente com a iluminação dos postes de luz e por um momento ele quis lhe perguntar exatamente o que lhe acontecera para ficar assim, mas conteve-se ao vê-la apressar os passos. Ao invés de ir direto abrir a porta, a maga parou próxima a parte traseira de seu automóvel e deu batidinhas no vidro:

- Jurava que você mentiu para o garoto quando disse que o Auroque era da sua família - esperou Cathir colocar os olhos na caixa que seus dedos pálidos indicavam - Até que fui pesquisar sobre ele e... - ela piscou, indo até a porta dianteira.

O mago irlandês entrou rapidamente no carro, sem desviar a atenção da caixa postada sobre o banco inferior, a madeira era repleta de símbolos:

- Isso.. é..

Sorridente, a maga ligou o carro:

- Insisti com o Maur para me ajudar a achar o invólucro apropriado - observou-o pegando a caixa - Claro, isso foi fácil comparado a convencê-lo que você deveria guardar o Auroque.

Ele abriu a caixa. Mesmo sob a fraca iluminação, o chifre encastoado em prata parecia mais suntuoso do que nunca sobre o forro de couro escuro. Raspou os dedos no acabamento, mais desconsertado do que outrora. O combinado nunca fora ele ficar com o artefato, a sociedade que Maur liderava tinha como principal objetivo evitar que artefatos encantados fossem usados por inconsequentes. E Cathir sabia que Maur o encaixava nessa característica. Franzindo a testa, fitou a figura pálida:

- Você mentiu para ele também?

- Não. Ele sabe como você é - dirigia tranquila, atenta as ruas vazias a sua frente. Sabia o que ele estava pensando - Esse auroque só tem aquele efeito com o seu sangue, certo? Maur sabe disso também, e sabe como pode ser útil em outras situações... Só fiz questão de lembrá-lo disso, irlandês.

Cathir fechou a caixa. Não conseguia confiar em ninguém rapidamente, especialmente alguém que fora encaminhada para controlá-lo. Entretanto, não podia negar que o que ela fizera lhe lembrava muito o modo como ele mesmo lidava com as normas da Ordem. Arriscara sua delicada posição sem pestanejar e ainda lhe presenteara com aquele velho artefato que desejava desde criança. Apertou a caixa, convencendo-se que deveria lhe dar uma chance:

- Obrigado – murmurou desviando do brilho espectral dos olhos da motorista e olhando as luzes mundanas da cidade.


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O Sopro do Auroque pt I

Esse conto envolve dois personagens importantes do universo criado para o Manuscritos, mas você não precisa ler nenhum post anterior para entendê-lo. Se os personagens lhe interessar, procure nos marcadores (tags) quais outros posts eles aparecem!

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“Dizem que quando se faz uma reunião em pé, ela é mais rápida que o normal. As pessoas ficam tão desconfortáveis que evitam a embromação e vão direto ao ponto. Queria saber por que isso não se aplica a esses malditos magos...”

O ruivo esboçou a mais tediosa expressão que sua face conseguia, suspirou aborrecido com a discussão que já acontecia há algum tempo. Provavelmente os principais membros de Dublin estavam presentes, espalhados pelos bancos do lugar atentos as indagações dos irlandeses à frente da primeira fileira. Curiosamente, todos eles estavam em pé, exceto Cathir. Observava irritado a discussão dos mais velhos ao seu redor. Franziu a testa quando escutou uma das senhoras acusando-o se não ter bom senso.

“Sem dúvida eu não tenho bom senso por aceitar participar de uma organização tão chata quanto à da Ordem Bretã” pensou, amargo, soltando um suspiro indiferente. O som de passos ecoou no pequeno salão e todos se voltaram para trás. As batidas do coturno da mulher silenciaram os presentes como um martelo de juiz. Sua voz rouca desejava boa noite a cada fileira de bancos, entretanto poucos murmuravam de volta, apenas os líderes da discussão lhe responderam dignamente. Cathir ignorou os que conversavam com a jovem e voltou sua atenção para os rostos assustados dos demais participantes da reunião.

Era sempre divertido reparar o desconforto dos membros perante aquela estranha criatura alva. Seus fios de cabelo, tão brancos quanto sua pele, refletiam o sol em um tom arroxeado e seus olhos, bem... quando ela se afastou do casal idoso e colocou os óculos escuros sobre o topo da cabeça, ouviu-se alguns murmúrios. Os pequenos olhos cor de púrpura completavam suas características espectrais e provavelmente foram os reais responsáveis pelo seu apelido quando chegou a Ordem: Fais.

A um humano comum essa aparência passava despercebida, afinal, poderia ser uma tinta de cabelo original, sua pele teria algum tipo de albinismo, o brilho nos olhos seriam lentes, o arrepio pelo corpo seria causado pela assustadora beleza. Contudo, para os magos que a acolheram, cada pedaço de seu corpo lembrava-lhes o seu passado sombrio e nem sempre eles faziam questão de disfarçar o seu temor. Notou que ela o cumprimentava, e ele respondeu ao sorriso com um discreto arquear de sobrancelhas. Enquanto ela se sentava ao seu lado, um dos magos explicou à Ordem que Fais viera relatar o que aconteceu:

- Muito bem, Fais, conte os detalhes que me falou semana passada - pediu o mais velho

- Certo. Como ordenado - inclinou uma das mãos em direção ao inquiridor - Cathir me ligou avisando que iria a Alemanha para verificar uma pista de uma das relíquias bretãs. O Senhor Seymaur conseguira uma passagem para eu acompanhar Cathir na viagem...

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- Você realmente achava que eu não viria, não é? - a figura pálida andava sorridente pelas árvores secas; o homem por sua vez a ignorava com uma expressão irritada, caminhando a passos largos, tentando despistá-la entre os troncos – Sabe, o Maur não gostou nada de saber que você não me falou sobre a viagem, a voz dele ficou em um tom – engrossou a voz - assustador.

O ruivo resmungou algo entre o som de galhos se quebrando. Seguia em frente, determinado a ignorá-la, e só cessou os passos quando chegou a uma extensa clareira, composta por diversas casas de arquitetura peculiar. Ele colocou a mão sobre a testa, tampando a luz do sol e observando as construções uma a uma.

- É a menor, certo? - indagou a mulher ao seu lado; hesitante, leu o letreiro da pequena estrutura. - Schwarz .. wald?

- Seu alemão é ótimo, hein?! - olhou-a de relance, petulante - não sei para quê o Maur te enviou. - implicou antes de voltar a caminhar.

- Maur não iria desacatar uma recomendação da Ordem, ao contrário de você - acusou apressando os passos e ficando ao lado dele - Não preciso lembrar o que eles decidiram na sua última cagada, né? - apertou sua mão, puxando-o de leve, ele parou virando o rosto impaciente:

- Que foi?

- Qual o plano? - ela o fitava por cima dos óculos e, percebendo o olhar de surpresa, virou o rosto para cima, inquiridora - Você tem um plano, certo?

Cathir apertou os lábios e ignorou o rosto divertido da mulher. Observou algumas pessoas saindo da loja e colocou as mãos no bolso da calça jeans:

- Vamos entrar, procurar o objeto e comprá-lo caso seja o auroque - respondeu quase em um resmungo, ainda olhando o comércio.

- E se não for o auroque? E se estiver corrompido? E se.. - ele se afastou, balançando a cabeça em negação - Cathir!

- Provavelmente não é um verdadeiro auroque, tsc. Sabe há quantos anos eu procuro essa porcaria? - resmungou; ele diminuiu os passos ao se aproximar da escada e esperou Fais alcançá-lo nos primeiros degraus. Encarou-a sério murmurando - Se for, nós vemos o que fazer na hora.

- Certo ...- a mulher deu de ombros, satisfeita por ele simplesmente aceitar sua presença.

Continuou acompanhando-o, atenta aos detalhes do lugar. Havia uma gritaria em línguas variadas na frente da loja, grupos de turistas tiravam foto da floresta próxima, ou dos objetos que compraram. O casal desviou das pessoas paradas ou correndo na sacada, ela com um sorriso maroto na face pálida, ele com as sobrancelhas arqueadas, sem disfarçar a irritação pela muvuca. Sua expressão não melhorou quando entrou no antiquário. Levou a mão ao nariz, contendo um espirro, e manteve uma careta perante o estranho odor de umidade no ambiente.

Havia apenas dois atendentes na loja, eles conversavam atrás de um balcão e pareceram não se importar com os novos clientes. Fais os observou por um tempo antes de continuar a acompanhar o mago que já se inclinava curioso sobre os objetos, jogados de qualquer maneira sobre os móveis:

- Não é estranho um lugar assim atrair tanta gente? - sussurrou, passando os dedos sobre uma caixa empoeirada. A sujeira no ar fez o mago espirrar:

- Que tanta gente? Não tem ninguém a.. - espirrou de novo, e resmungou um palavrão.

- Ahm, lembra das pessoas lá fora? - perguntou ajeitando os óculos sobre o nariz esperando alguma resposta de Cathir, a qual não veio.

O ruivo caminhava entre os móveis apertando os olhos totalmente absorto nos detalhes dos artefatos. Fais sorriu complacente e voltou a observar a bagunça do lugar. Havia castiçais, adagas, pedaços de flecha, caixas e variadas estatuetas. Porém, nada disso despertou sua atenção como os objetos de uma estante robusta. Ela se agachou, aproximando-se da penúltima prateleira, colocou o rosto bem próximo ao objeto curvilíneo encastoado em prata. Levantou os óculos, o olhar curioso pronto para analisar aquele chifre peculiar. Cathir interrompeu sua observação:

- Agora precisamos de um plano - murmurou sorridente ao seu lado, agachou-se - Aliás, auroques não se corrompem, a estrutura deles – coçou as pálpebras avermelhadas de alergia - não aguenta.

- Oh... - ela ficou de pé, voltando os óculos ao nariz; sua expressão marota se desmanchara, observava séria o objeto - Isso não está me cheirando bem...

- Nada aqui cheira. – afirmou, levantando o artefato com um lenço que retirou do bolso; os escritos nórdicos brilhavam mesmo com a fraca iluminação da loja.

- Não, Cathir, veja, não está a venda - o dedo longo apontou a tradução inglesa da placa ao lado da estante - Não é estranho, um antiquário tão “baixo nível” ter uma área só para exposição?

- É comum... - os grandes olhos verdes memorizavam cada particularidade do chifre de autorque - Fazem isso para extrapolar o preço. – colocou o objeto no lugar e voltou com o lenço ao bolso, - É comum - reafirmou, categórico, ao olhar de relance o rosto sério da acompanhante.

Hesitante, ela o seguiu a distância, parou e cruzou os braços quando Cathir chegou ao balcão. O ruivo perguntou gaguejando quanto era o chifre:

- Seu alemão é ótimo, hein?! - a maga murmurou estampando um sorriso maroto.

Os rapazes, recém saídos da adolescência, fitaram demoradamente os dois e se entreolharam. O mais gordinho apoiou-se no balcão empoeirado:

- Você é britânico, sim? - perguntou em inglês - Ver o que está escrito ali do lado? Não está a venda.

- Quanto você quer para que esteja a venda? – o ruivo colocou uma nota de 50 euros sobre a superfície de madeira, provocando um risinho de Fais.

Ele a reprovou com o olhar, mas não por muito tempo. O outro alemão lhe chamou a atenção repetindo em sua língua nativa, o que o mais moreno dissera anteriormente. Cathir tamborilou os dedos no balcão, tentando ser simpático:

- Aquele artefato pertenceu a minha família há muitos anos; um tio falido o perdeu em um jogo. Vamos lá, é só um chifre brilhante para vocês, - fingiu um sorriso, mas seus olhos verdes intimidavam ferozmente os dois - já para minha família significa muito.

- Qualquer um entra aqui com essa conversa - o que falava em inglês empurrou a cédula de volta para Cathir - Não está a venda.

O mago assumiu uma postura ereta, aparentando ser bem mais alto do que já era.

- Ah, é? - sorriu, formando leves rugas no rosto magro. Misterioso, encarou o lugar de quina a quina e retornou a delinear a face dos mais jovens. Girou o corpo, passando por Fais e apanhando o chifre na estante. Ignorando o protesto dos garotos, virou-se, erguendo o artefato e expondo-o a iluminação da pequena janela próxima. O brilho dos traços desgastados fez os dois se calarem e cobrirem os olhos; Fais inclinou a cabeça, deixando a franja cair sobre os óculos. Apenas Cathir encarava os detalhes ofuscantes:

- Sabem o que está escrito aqui? - sorriu, a expressão arrogante delineando sua face - Vocês sabem o que pode acontecer se eu ler isso aqui, não sabem? - sussurrou, sem tirar os olhos verdes do metal, esperando alguma resposta dos rapazes.



Continua em: O Sopro do Auroque pt II