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Orgulho Real - pt. II


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- Hmm... – Ela sorriu, um sorriso provocador e cheio de malícia, e curvando-se para frente, tocou os lábios finos e pintados de rosa nos de Uriel, colando-os demoradamente. Ele não protestara nem por um segundo, embora não tivesse fechado os olhos e nem simulado uma expressão de prazer como ela fizera, e quando Charlotte finalizou o beijo, aparentemente cândido, lascivamente correu a língua do lábio inferior ao superior de Uriel, dando uma risadinha e declarando por fim, olhando-o nos olhos bem de perto: - Será que você consegue? Você sabe o que dizem por aí de homens mais velhos, querido...

Novamente algumas pessoas ao redor captaram a cena com seus olhares indiscretos, fazendo o vampiro apertar as arcadas e soltar um longo e pesaroso suspiro de resignação, enquanto ela... bem, ela olhou ao redor e simplesmente sorriu. Não era tão raro assim ver uma garota de dezesseis namorando um homem de trinta, e embora aquele não fosse exatamente o caso, era como lhes parecia. Uriel, educadamente, caminhou ao seu lado até a saída do estabelecimento. Charlotte ia atrelada romanticamente ao seu braço, como uma jovem apaixonada.

- Estamos conversados então... – Disse ela, sibilante, com aquele enorme e plástico sorriso nos lábios que sequer se moveram.

- Boa noite, Charlotte. – Fora a única coisa que ele disse, ao se desvencilhar dela e virar as costas, enfiando as mãos nos bolsos e se afastando pela calçada, deixando-a sem resposta. A mulher, apertando as mãos em punho, deixou a máscara derreter e se fundir em uma careta contrariada e irritada.

Uma hora depois, o vampiro ainda estava na cidade, como era de se esperar. Sentado no topo de um arranha-céu, olhando para o mar de luz abaixo, alimentava-se de uma bela donzela de cabelos loiros e anelados, iguais aos de Charlotte. Podia parecer um desafio ou algo assim, mas fora por puro acaso que encontrara aquela mulher cujo sangue lhe parecera tão apetitoso, e cravar os dentes nela fora só uma questão de tempo. Ela estava morta, e aquilo sim podia ser encarado como um desafio ao General local, que certamente naquele exato momento convocava sua confraria para varrer as ruas da cidade em busca de um dos ancilaes mais poderosos do mundo por puro capricho. A loucura de Charlotte não tinha limites, e tudo aquilo só por que recebera um não como resposta.

O celular tocou, dragando o vampiro de volta à realidade. Retirando-o do bolso, afastando um pouco o cadáver em seu colo, olhou para o display luminoso e, revirando os olhos impacientemente, atendeu.

- Eu já estou de saída!

- VOCÊ MATOU UMA HUMANA NA MINHA CIDADE! – Berrou ela, fazendo o vampiro afastar o telefone da orelha com uma expressão de desagrado no rosto e desligar, fechando o flip prateado do aparelho, que tocou de novo quase imediatamente.

- Eu já estou de saída! – Disse ele na mesma entonação de antes, com as mesmas pausas, como se o episódio de segundos atrás não tivesse acontecido. Charlotte, já mais comedida, repetiu:

- Você matou uma humana na minha cidade!

- Hum.

- E ela se parece comigo! – Guinchou a vampira do outro lado, fazendo ele afastar de novo o telefone e olhar para o display que agora indicava os segundos de ligação corrente. Depois esquadrinhou ao redor, a procura de alguma câmera de vigilância, mas não encontrou nenhuma. Dando de ombros, encostou de novo o telefone na orelha. – Comigo! – Ela repetiu enfaticamente.

- Eu não tinha percebido. – Mentiu.

- Eu já convoquei... – começou a anunciar inutilmente, ele emitiu um som de concordância com a garganta.

- Então é melhor eu correr. – Respondeu, finalmente limpando os resquícios de sangue de seus lábios e pondo-se de pé, acomodando o cadáver da mulher sob a amurada que circundava o heliporto da edificação. Mais uma vez, dando mostras de que sabia exatamente onde ele estava, e o que estava fazendo, Charlotte deu uma risadinha desdenhosa e perguntou, cheia de veneno:

- Hihihi... Me diz, Uriel... Você sabe voar?

Ele sorriu, despreocupado, desligou deixando-a sem resposta pela segunda vez naquela noite. Enfiando o celular no bolso do terno, olhou para o céu sem estrelas da megalópole e quase que imediatamente três quimeras aladas pousaram com estrondo ao seu redor, fazendo o solo tremer. Eram humanas em tudo, exceto pelo fato de possuírem um par de asas brancas como a neve. Trajavam placas de metal, como armaduras, e os cabelos negros das três criaturas (que ele não conseguia distinguir se eram machos ou fêmeas) estavam presos em longas tranças. Uma delas portava uma espada, e foi a primeira a se aproximar. O homem, com as mãos nos bolsos, limitou-se a encará-la sem disfarçar o interesse e a curiosidade. Ele já tinha visto algumas das obras de arte de Charlotte antes, e aquelas eram, de longe, as menos grotescas que ele conhecia. Eram anjos.

- Boa noite. – Cumprimentou, encarando os olhos totalmente negros da criatura, como os de um Cruentus Umbra faminto. Não possuía íris, era apenas um par de orbes escuros e sem brilho. Observou também que a mão que empunhava a lâmina era a que ele tinha ido buscar: a dele. Sentindo um arroubo de lisonja, sorriu. Ela estava lhe devolvendo as suas mãos, então. Talvez fosse medo, talvez um desafio, ou –o mais provável- puro descaso de sua parte, que não devia dar tanto valor assim a algo tão trivial e insignificante quanto aquilo. O fato é que, de certa forma, o gesto funcionou como o hastear de uma bandeira branca, e o vampiro limitou-se a caminhar até a criatura, que o encarava com o rosto definitivamente livre de expressões: - Diga a ela que eu agradeço.

- O quê? – Perguntou o anjo, os outros dois dando um passo em sua direção, fechando ainda mais o cerco.

- Apenas diga isto a ela, certo?

A temperatura aumentou caoticamente, fazendo as três criaturas vacilarem por um instante antes de bater as asas de forma a afastar o mormaço dos seus corpos brancos como a mais pura cera. As feições suaves e andróginas não se abalaram, como se fossem desprovidos de qualquer emoção; estátuas animadas. As lufadas de ventos frios agitaram os cabelos do vampiro, que olhava para elas com um sorriso ameaçador. Foi então que as três criaturas precipitaram-se para ele, brandindo os punhos e a espada. Uriel tratou de aparar o golpe da lamina, segurando o pulso da quimera e apertando-o até sentir os ossos estilhaçarem sob os dedos, e com um movimento violento, atirou-o para o lado, como se o anjo fosse um mero objeto, varrendo o que estava imediatamente ao seu lado e atirando-o contra a grade que os separavam do vazio para além do prédio. Com um movimento simples, jogou a perna direita para o lado, fazendo o calcanhar colidir com o nariz da terceira marionete de Charlotte, quebrando-o. Nenhum sangue escapou das narinas, como era de se esperar.

As três quimeras se restabeleceram quase que de imediato. A terceira, agarrando o tornozelo do vampiro, puxou seu corpo com nenhuma cerimônia, fazendo-o rodopiar em torno do próprio eixo algumas vezes, antes de solta-lo da mesma forma que ele fizera com suas irmãs segundos atrás. O vampiro voou rápido em direção à grade, onde o anjo com a espada o aguardava pronto para, ele pensou, decepar a sua cabeça. O ser ainda tinha uma mão em perfeito estado, e força suficiente para fazê-lo. – Tsc. – Como se nada daquilo realmente apresentasse algum desafio para o ancião, ele espalmou a mão abaixo do corpo e, mesmo naquela velocidade, conseguiu desviar o curso de seu corpo, fazendo-o ganhar os céus por alguns segundos e fugindo do fio da espada de Charlotte. Lá, uns bons dez metros acima do heliporto, a outra quimera o aguardava, batendo as asas tranquilamente. O corpo do vampiro loiro esquentou como um ferro em brasa, e tão logo a criatura o agarrou, o odor acre e desagradável de pele e carne calcinando se fez presente, porém a mesma mais uma vez não expressou dor alguma, muito embora pudesse se notar um brilho perolado em seus olhos. Mas nenhuma lágrima rolou.

O ser iniciou então uma descida vertiginosa, segurando Uriel de ponta cabeça, obviamente tencionando colidi-lo contra o solo de concreto. E assim o fez. A dor se apoderou do vampiro, que por um momento não conseguiu nem pensar, e quando deu por si já estava coberto pelos outros dois anjos. Sentiu o gume frio da lâmina deitar e deslizar sobre o seu pescoço, cortando-o até um ponto que seria letal para qualquer humano; mas ele não era humano, era?

Sangue fresco jorrou da ferida, o alimento que tinha acabado de ingerir. Apenas um jato que tingiu o rosto do algoz de escarlate, antes de findar. O corpo do ancião ainda ardia quando ele agarrou o pulso da criatura e o arrancou sem o menor esforço, como se os ossos do anjo fossem meros gravetos. Ele tinha destruído ambas as mãos, quão irônico. Livrando-se da espada que já tinha atingido um ponto crítico, praticamente partindo a traquéia, o imortal socou e atirou para o lado a outra criatura, pondo-se de pé e agarrando a terceira pelos cabelos, fazendo-a se ajoelhar aos seus pés. – Ok, chega de brincadeira. – Disse sério, antes de afundar, literalmente, o punho no rosto de traços indistinguíveis da criatura à sua mercê. Os ossos cederam com facilidade, as falanges de Uriel fincadas na carne macia, porém sem sangue, do ser que agonizava. Três ou quatro espasmos, e seus movimentos cessaram. A cabeça era o ponto fraco então.

- A sua mestra é sempre assim tão óbvia? – Perguntou o loiro, aprumando a postura e fingindo um suspiro decepcionado. Embora o gesto tenha sido forjado, o sentimento era genuíno. A cabeça, tsc... Os dois monstros aproximaram-se então e, o que ainda tinha mãos tocou gentilmente as asas do outro, afundando os dedos na plumagem como se esta fosse feita de algum líquido facilmente transponível. Aos olhos do vampiro, eles estavam se fundindo, provavelmente para resultar em um outro ser –este, com toda certeza, não tão fácil de derrotar. – E ela, definitivamente, precisa parar de ver tanta porcaria na TV. O nível de insanidade já ultrapassou em muito o limite do aceitável.

- Calado! – Esbravejou as duas criaturas em uníssono, fazendo suas vozes retumbarem pesadamente e ecoarem, como se estivessem em um espaço fechado. Uriel olhou-os com censura, obviamente irritado com a falta de modos dos dois, e quando os anjos já estavam se unindo pelo tronco –numa posição que dava margem a outras interpretações, diga-se de passagem-, o vampiro avançou para eles e, com uma destreza abissal, decepou as duas cabeças com a espada que até então jazia no chão. O corpo disforme da criatura caiu de joelhos, e os rostos o encaravam com aquele mesmo olhar vazio e sem emoção. Mesmo quando ele ergueu a arma e cravou no meio dos olhos da primeira, partindo-a ao meio. À eminência da extinção definitiva, a última cabeça limitou-se a murmurar em tom elogioso, porém levemente sarcástico:

- Digno do pacificador que é.

- Obrigado. – Agradeceu o outro, sinceramente, antes de esmagar o crânio com o sapato social de couro lustroso. E então, silêncio. Passou os dedos da mão direita no corte do pescoço, que já estava praticamente cicatrizado, e se pôs a caminhar em direção as escadas do arranha-céu em um luto velado pelas vidas que acabara de tirar. Não que se arrependesse, longe disso, mas os anos o ensinaram que não são todos os que merecem morrer, e aquelas pobres quimeras definitivamente não mereciam. Meros fantoches nas mãos de uma criança mimada e doente. Preferia matar humanos, eles pelo menos lhe proveriam algum alimento.

O telefone celular tocou novamente, mas desta vez ele não atendeu.

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Estocolmo - 19:57

Corria a ponta do indicador pela borda da taça, cujo líquido rubro repousado no bojo permanecia intocado, esperando, de alguma forma, produzir um daqueles sons que já presenciara tantas vezes os humanos extraírem do cristal. Inútil. Tentou outra vez e nada, de forma que logo se limitou apenas a contornar o buquê do cálice distraidamente, o rosto pensativo apoiado na outra mão espalmada, os dedos tamborilando nas bochechas pálidas. Não estivesse na presença de um General vampírico tão poderosa e influente naquelas bandas, com certeza permaneceria incógnito no meio do restaurante, tamanha a sua habilidade de se camuflar entre os medíocres e insignificantes - embora ele não compartilhasse destas características.

- Eu sinceramente não entendo por que você marcou um encontro aqui. Nem comer podemos. – Apontou a mulher loira, erguendo as sobrancelhas e encarando o outro com os olhos azuis penetrantes. – Você quer pedir alguma coisa para disfarçar, ou vai dizer ao garçom que somos vampiros?

- O dono daqui é meu amigo, ele sabe o que eu sou. – Respondeu ele simplesmente, após um longo suspiro que mesclava tédio e pesar.

- Amigo?

- Conhecido, na verdade. É um tarado qualquer, freqüentador assíduo da boate do Alexis, você sabe... – Contraindo o rosto em uma careta de descaso, o imortal abanou a mão displicentemente como se aquele gesto tolo fosse fazê-la entender o que ele queria dizer. Surpreendentemente, a imortal balançara a cabeça e concordara, pegando o menu sobre a mesa, abrindo-o e começando a examiná-lo com um ar pretensamente interessado.

- Sei. Fornicaraz. – Disse ela.

- É! – E outro suspiro. Aprumou a coluna por fim, adotando finalmente uma postura mais séria e austera, fazendo-a erguer os olhos por cima do cardápio e fitá-lo com desinteresse. Charlotte sabia o motivo dele ter aparecido em Estocolmo, mas desconhecia o porquê de ter exigido encontrá-la em um local tão... mundano, exposto e definitivamente nada adequado para dois vampiros confabularem. Uriel sorriu, tomando gentilmente o menu das mãos de Charlotte antes mesmo que ela pudesse detê-lo, prendendo-o sob a mão espalmada sobre a mesa e cravando os olhos nela. – Eu marquei o encontro aqui por que, no meio de tanta gente, uma briga seria extremamente inconveniente...

- Para você? – Desdenhou ela astuciosamente.

- Definitivamente. Eu não gosto de perder a calma. – A voz de Uriel baixou até se tornar apenas um sussurro, e inclinando-se para frente, como um amante a se aproximar da cúmplice, sibilou: - Para mim, com certeza seria inconveniente. Para você, por outro lado, seria apenas vergonhoso. Agora, simplesmente me dê o que eu vim buscar, Charlotte.

A mulher empertigou-se, momentaneamente desconcertada com a franqueza do homem. Piscou uma ou duas vezes, antes de afixar novamente o olhar sobre a face de mármore esculpido de Uriel e perguntar com o ar mais dissimulado e sonso que conseguiu exprimir: - E o quê você veio buscar, meu querido?

- As minhas mãos. – Mais alguns centímetros vencidos, de forma que a mulher inconscientemente arqueou a coluna alguns graus para trás, distanciando-se um pouco. – Eu quero as minhas mãos, General, e se você não me entregá-las, eu mesmo hei de arrancar a sua cabeça e levá-la comigo de volta a Berlim.

- Você já tem mãos novas agora, Uriel, querido! – Um sorriso cáustico aos poucos tomava o lugar das linhas sem nitidez em sua face, preenchendo o seu rosto de adolescente com a expressão essencialmente malévola que lhe era tão característica; como se tivesse nascido com ela, tamanha a perfeição com que ela se encaixava sobre sua tez. – Mãos muito mais bonitas por sinal. De pianista. São meio femininas, não são? São da Sasha?

- Da marionete que ela usou. – Respondeu ele francamente, agora voltando à posição inicial na cadeira. O garçom se aproximava e perguntou se eles queriam fazer o pedido. Charlotte simplesmente negara com a cabeça, mas Uriel pediu alguma bebida quente, talvez uma caneca de café ou chá. O humano olhou para ele desconfiado, pois em um estabelecimento luxuoso como aquele não era lá muito comum que os clientes –em especial tão elegantes e aparentemente ricos- pedissem apenas café ou chá. Mas o homem loiro apenas fez um gesto com a mão, dispensando-o, e voltou a atenção novamente para a vampira à sua frente: - Ela é bastante talentosa, faz jus à fama.

- Ela é uma oficial da Inquisição, Uriel, você queria o quê?

- Alguém não tão atraente, com certeza. – Confessou, o fantasma de um sorriso se espalhando pelos seus lábios, exibindo os caninos afiados por um átimo de segundo. – Bonita, talentosa e destemida. Um achado, realmente. Ela entrou no meu ninho fazendo o maior barulho, quebrando coisas...

- Ela me disse. – Riu a fêmea.

A gargalhada não fora acompanhada por Uriel, embora ele ainda sorrisse. Encarou Charlotte fixamente por alguns segundos, não se detendo nem mesmo quando o garçom aparecera ao seu lado e depositara sobre a mesa uma caneca de chá fumegante. A nuvem de fumaça que se erguia, espiralando entre os dois vampiros, e era a única coisa que se movia na linha onde os seus olhos se cruzavam. Encaravam-se tão cálida e ao mesmo tempo tão intensamente como duas víboras prestes a dar o bote. A vontade de ambos naquele momento era, sem dúvida, agarrar e estraçalhar o pescoço do outro com os dedos, e refestelar-se em seu sangue. Eles se odiavam, e sempre fora assim, embora naquela ocasião o sentimento que geralmente se encontrava latente, estivesse à flor da pele.

- Você continua bonito. – Ela disse por fim, desviando os olhos dos dele em um sinal claro de inferioridade, correndo a ponta do dedo pela xícara de porcelana branca e quente. Um leve tremor, um novo sorriso de regozijo.

- Vampiros não mudam, minha cara, você deveria saber disso melhor do que ninguém.

- Você é mais velho. É mais sábio e experiente.

- Você é mulher. – Disse em tom de fim de conversa, puxando a xícara para si e entrelaçando os dedos ao redor dela, a fim de sentir o calor sobre a pele, aquecendo a carne morta das mãos que não eram suas. – Eu não tenho toda a paciência do mundo, Charlotte. Eu quero as minhas mãos.

- Por que você insiste tanto nesta tolice, Uriel? Parece um menino mimado, chorando por um brinquedo que perdeu!

- Talvez eu seja isso mesmo. – Concordou ele, sorrindo genuinamente mais uma vez. Embora a tensão no ar fosse quase palpável, o vampiro simplesmente não conseguia evitar. Era o seu jeito, aquele jeito que geralmente irritava pessoas como Charlotte e a sua cria, Alexis, ou que apenas lhe garantia a indiferença deste seleto grupo de imortais que não apreciavam sua companhia.
– Mas elas são minhas, e por isso as estou reclamando de volta. Eu as teria dado de bom grado se me pedisse, mesmo não nutrindo nenhum sentimento virtuoso por você. Não me custaria nada.

- Me dê então.

- Não.

A mulher bateu com as duas palmas sobre a mesa, fazendo o arranjo floral do centro, bem como a porcelana e os pequeninos talheres de prata tilintarem ruidosamente. Os lábios crispados e os olhos azuis fumegando sobre a figura austera de Uriel, que ainda sorria. Fora a vez dela se inclinar para frente, os cabelos loiros cascateando pelos ombros e pendendo no vazio, enquanto o rosto de menina aproximava-se cada vez mais do dele. Ela, possessa, e Uriel, quase indiferente ao seu estado.

- Não foi um pedido, Uriel. Eu não vou devolvê-las, elas não pertencem mais a você. – Sibilou ela como uma serpente, o hálito inodoro e frio beijando a pele igualmente gélida do homem. – Elas são minhas!

- Ora, e você dizia que pareço um menino mimado. Somos duas crianças muito malcriadas então, minha cara, por que você agora aparenta ser tão odiosa quanto eu.

- URIEL! – Alteou a voz, atraindo olhares de censura dos humanos que os rodeavam. O burburinho cessou por uns bons segundos, de forma que nem ela e nem o vampiro se pronunciaram naquele meio tempo para não evidenciarem a todos o teor da conversa. Quando, paulatinamente, os outros clientes retomaram as rédeas de suas próprias vidinhas miseráveis, ela repetiu em um sussurro perigoso: - Uriel!

- Charlotte. – Chamou o vampiro, afastando displicentemente uma mecha dos cabelos da vampira que ameaçava cair dentro do chá e colocando-a para além da borda da xícara. E só então a encarou nos olhos uma vez mais, o rosto agora talhado em uma expressão absolutamente ilegível.

- Do que você me chamou?

– Deve ser muito difícil para você, não é, perceber que eu ligo para os seus caprichos? – Suspirou pesadamente, os dedos novamente tecendo uma teia em volta do recipiente quente. – Veja bem, eu não sei se você sabe, mas sou o criador de Alexis...

- Ashtaroth, eu sei. – Interrompeu.

- Alexis. O nome dele é Alexis, Charlotte. Embora ele, de fato, goste que vampiros inferiores e mortais o tratem por este nome desprezível. – Seu rosto fora marcado por uma expressão de desgosto que não durou nem uma fração de segundo para sumir, dando prosseguimento: - Então, eu realmente acho que você deveria engolir esse seu orgulho completamente infundado e ir aprender um pouco sobre como ser chantagista e manipulador com a minha cria. Por que perto dele, General... Tsc...

Charlotte sentou-se novamente, o rosto tremendo de ódio e vergonha. Podia-se até mesmo notar a formação de minúsculas lágrimas em seus olhos, que ela se apressou em limpar com o guardanapo, não ligando muito para as pessoas que a olhavam com desconfiança e censura. Pior seria se começasse a chorar sangue no meio de todo mundo, aí eles olhariam para ela com terror e veriam que por trás daquele rostinho angelical de adolescente se escondia um monstro tão horrendo quanto...

- Pois bem. Esta é a minha palavra final, e o encontro que você marcou foi inútil. Como você está na minha cidade, tem uma hora para sair daqui ou...

- Ou você joga os seus asseclas e suas quimeras em cima de mim. – Concluiu ele, olhando-a se erguer da cadeira e atirar o guardanapo de algodão manchado de sangue sobre a mesa. Uma das pontas eventualmente foi parar dentro da infusão de ervas do vampiro, e o tecido começara a aspirar rapidamente o máximo de líquido que conseguiu.

- Exatamente.

- Tudo bem então. Se eu não estiver longe daqui uma hora, você pode fazer isto. – E sorriu, levantando também e deixando sobre a mesa uma nota que valia pelo menos cem vezes mais o valor do chá.

- Ótimo.

- Apenas esteja avisada, minha cara... – Fez uma reverencia para ela, inclinando rapidamente a cabeça loura em sua direção, como um servo que se prostra obedientemente diante de sua Senhora. Porém, as palavras que saíram de sua boca não condiziam em nada com aquela atitude passiva e nem com a educação esmerada que se empenhava tanto em exibir para todos os convivas, vampíricos ou não: - ...de que mais cedo ou mais tarde eu voltarei para reclamar algo de igual valor, afinal, você me deve... E eu hei de cobrar, nem que para isto eu precise dizimar toda a sua corte e fazer o seu reinado ruir.

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