-->

Marolas do Aqueronte - Parte VI (Final)


Bom, mais uma crônica finalizada! Peço desculpas pelo atraso nas postagens, e espero que tenham gostado de lê-la tanto quanto eu gostei de escrevê-la para vocês! Um grande abraço a todos, e obrigado pela companhia! ;)

Sem mais delongas, segue o desfecho da aventura:

Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte V

Os dedos em garras de Hector ainda se fechavam em torno de retalhos rasgados e negros, como pedaços da escuridão que até então os rodeava. E eram exatamente isso, mas de alguma forma quando cravou as unhas no denso negrume, abrindo uma brecha, sentiu os dedos afundarem em algo macio e quente, e as mãos ficaram molhadas não apenas de suor, mas de sangue. A compreensão de que Aurel era tudo aquilo o acertou como uma bofetada, e a despeito do desespero que sentia para salvar Remmy, precisou de um ou dois segundos para si, para que não se curvasse para frente e vomitasse. Lágrimas escorreram de seus olhos, a garganta seca queimava e sentia imensa dificuldade em respirar. Estava salvo. Estavam salvos.

Quando levou o dorso da mão aos olhos, para enxugar as lágrimas de choque, vislumbrou um Remmy bastante ferido de pé na frente de Aurel. O necromante sangrava em profusão, o líquido rubro empoçava embaixo de seu corpo e era absorvido pelo tecido negro de suas vestes. O lobisomem observou também que Sasha e Dorian também estavam ali, também estavam cobertos de sangue, e também traziam nas mãos retalhos da tão aterradora escuridão que tentara afogá-los. O rapaz ergueu a mão até a altura dos olhos, e percebeu que o que trazia na mão era um pedaço da camisa do necromante, um retalho da parte que compreendia a altura do peito. Talvez fora dele o golpe que dissipara o breu. Talvez fora ele, de fato, quem salvara Remmy. Sorriu com a ideia.

Remmy ainda segurava o pingente de prata, e tinha um aspecto um pouco melhor do que há pouco tempo. Ele estava absorvendo a energia que Siegfried armazenara nas pedras, pensou. Deu um passo vacilante, e os olhos verdes do garoto encontraram os dele. Remmy piscou devagar, respirou bem fundo e por fim sorriu. Um sorriso enorme, cheio de gratidão e ternura. – Obrigado, Hec! – Disse, e Hector percebeu que estivera prendendo a respiração. Suspirou, aliviado, e seu rosto se contorceu. Não era um sorriso, ele estava chorando mais uma vez.

- Se você tivesse... – Começou, com a voz embargada, mas parou no segundo seguinte. Percebeu que Sasha e Dorian também os assistiam. Pela visão periférica, viu que a assassina franziu o cenho, e o amigo esboçou um sorriso debochado. Abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas não conseguiu formular mais nada. Apenas um ruído rouco e embaraçado. Remmy continuava sorrindo, como se não tivesse percebido o que estava acontecendo ali. Como se não percebesse como o lobisomem se sentia.

- Estou vivo, Hector, graças a você. A vocês. – Os dedos do rapaz ainda envolviam o pingente, e ele ainda sorria. Fora um gemido estrangulado do mago que os trouxera de volta à realidade, e que fizera o rosto do rapaz endurecer rapidamente. Remmy, súbito, parecia muito mais velho do que realmente era. A expressão fria, distante e austera que permeava seu rosto o fazia idêntico ao próprio pai, coisa que Aurel percebera tão logo o garoto o agarrou pelos cabelos e o fez se levantar.

- Siegfried!

- Agora você tem medo de mim? – Perguntou, e a frieza com que as palavras eram proferidas parecia com a de uma lâmina afiada roçando a pele. Arrepiava. – Agora percebe o quão estúpido foi?

Não tivera tempo de responder, pois o soco que Remmy lhe aplicara quebrara a sua mandíbula. A expressão fria do rosto do garoto não se alterou, o que atribuía à cena uma intensa surrealidade, como se aquele corpo que socava não pertencesse ao rosto que assistia à cena com incrível indiferença. Os socos continuaram, ininterruptamente, e a cada investida podia-se ouvir o estalar de um osso fraturado. O rosto de Aurel logo se converteu em uma massa sanguinolenta e amorfa. Remmy ainda segurava os seus cabelos e fazia perguntas pelas quais não esperava resposta. Porque você usou a imagem dela? Como você conseguiu encontrá-la? Tudo isso por uma porra de posição na minha organização? Porque você não responde? Hein? Você não controla os mortos? HEIN?

Quando o último gorgolejo de sangue escapou da garganta de Aurel e ele parou de espasmar nas mãos do rapaz, Remmy simplesmente cessou. Afrouxou os dedos dos cabelos do cadáver e deixou-o cair aos seus pés. Observou o corpo de Aurel ali, jogado, e percebeu que não teria o que ele fora buscar. De alguma forma, sabia que ela já tinha continuado a sua jornada. O Dracma não seria o suficiente para invocá-la, e mesmo que fosse, ele não queria que ela vivesse num mundo onde o filho se tornara justamente o que ela morrera tentando evitar. Ele, finalmente, percebera o quão parecido era com o pai, não apenas fisicamente.

E com a constatação de que jamais tornaria a ver a mãe, engoliu em seco e apertou os olhos para sufocar as lágrimas. Abaixou-se ao lado do corpo do mago e pegou o espadim dourado. O toque frio do metal em contraste com a pele ensanguentada e quente lhe trouxe algum alívio. Pondo-se de pé, caminhou até a assassina e estendeu-lhe a arma, com o rosto inexpressivo. Sasha hesitou por um segundo, mas logo ergueu a mão e a pegou. Sorriu e agradeceu, mas o garoto conservou a gelidez na face.

Até então, Dorian, Sasha e Hector simplesmente assistiram ao desfecho do embate, escandalizados com tamanha mostra de violência por parte de Remmy. Todos eles lutaram outras batalhas àquela noite, e foram essenciais para a derrocada do necromante, direta e indiretamente, mas agora eram completamente inúteis. Nenhum deles conseguira mover um músculo sequer para confortá-lo. Enquanto Remmy se dirigia para a porta de entrada da mansão.

O garoto mancava e ainda sangrava em profusão. Pousou a mão no arco da porta, deixando ali uma impressão rubra de sua palma.

- Remmy, espera! – Pediu Sasha, finalmente reunindo a coragem necessária para dar o primeiro passo. Avançou com rapidez, os dedos trêmulos tateando o cinto de couro e arrematando de lá um dos frascos de poções que levara consigo. Estendeu para ele, como se fizesse a sua parte na barganha pelo stiletto. – Bebe isso, vai te ajudar com as mordidas dos zumbis.

- Ele não vai virar um, vai? – Perguntou Dorian, tentando buscar no âmago um pouco do humor canastrão que antes lhe parecia inesgotável, e agora tão parco. – Seria bastante irônico, se virasse.

- Não, Zumbis não infectam pessoas assim, isso só acontece na televisão. Eles precisam ser invocados por um necromante... Mas isso não significa que a boca deles seja diferente da de qualquer outro cadáver...

- Não é frequente vê-los escovando os dentes. – Completou Dorian, com um meio sorriso incerto.

Remmy ignorou a conversa, limitando-se a desarolhar o frasco e beber a poção em um único e longo gole. Entregou o frasco para Sasha, e voltou a olhar para fora. Sentia os ferimentos queimando, e o fluxo sanguíneo aumentando pouco a pouco. As mordidas começaram a pinicar, e ele sabia que não deveria ceder à tentação de coçá-las, por isso apertou as mãos em punho e esperou até que parasse.

- Ele está querendo ir embora sem o dracma, não está? - Perguntou Dorian, um quê de indignação na voz. - Tudo isso foi para nada então? - O que ele não percebia, ou não parecia perceber, era que de todo mundo, Remmy fora o que mais sofrera aquela noite. Fisicamente ou não. - Ah, fala sério! Não vou sair de mãos abanando...

Quando os olhos se acostumaram com a baixa luminosidade, o garoto percebeu uma sombra que avolumava-se no meio do gramado. Por um momento, suas costas retesaram-se e ele permaneceu tenso, observando a pessoa se aproximando-se pelo terreno destruido e repleto de cadáveres apodrecidos. A primeira coisa que percebeu, quando o homem adentrou na luz proveniente da mansão, foi o sorriso. Um enorme e empático sorriso que se estendia por todo o rosto, inclusive pelos olhos e pela grande testa vincada pela idade. Ele parecia tão estranho, ali, parado no meio de tamanho caos, com as mãos enfiadas nos bolsos e com um sorriso parafusado nos lábios. E era terrivelmente familiar.

- Bon soir, petit Remmy!

O garoto olhou ao redor, desconcertado por um momento, e percebeu que Hector e Dorian não estavam mais na sala de estar. Sasha aproximou-se um pouco, pondo-se ao lado do menino e pousando a mão em seu ombro. Aí estava o apoio que ele precisava. O menino engoliu em seco, como se aquele ato de solidariedade fosse o suficiente para faze-lo desmoronar, e percebeu quase que imediatamente que era exatamente o oposto: eles estavam ali para ampará-lo, caso tudo desse errado, certo? Queria acreditar que sim.

Remmy olhou para o homem à sua frente por alguns segundos, analisando seu rosto e os seus olhos negros e sem brilho. Percebeu agora que embora os olhos sorrisem junto com o rosto, estes lhe pareceram consideravelmente menos amistosos do que todo o resto.

- Eu te conheço? - Perguntou, por fim.

- Não me conhece? - Perguntou o homem. Sua voz era grave, profunda, como ecos em uma tumba abandonada, pensou Remmy. - Digo, reconhece? - Remmy ergueu as sobrancelhas, ainda confuso, encarando-o sem piscar. Percebeu que o outro também quase não piscava, o que o perturbou um pouco, especialmente porque ele tinha acabado de sair da escuridão para a luz. O rapaz não respondeu, esperou que ele dissesse de onde os conhecia, mas o outro não o fez. Fora Sasha que quebrou o silencio, murmurando:

- Acho que eu sei quem é ele, Remmy. Ele é...

- Não estrague a brincadeira, minha querida. Ele está quase se lembrando... - Disse o homem, olhando para ela pela primeira vez. Por uma fração de segundo, os olhos abriram-se levemente. Faíscaram, ao ver o que ela trazia na mão. O sorriso pareceu aumentar um pouco mais, mas foi só impressão, pois o rosto permanecia inalterado. Quando percebeu que o rapaz realmente não iria se lembrar de onde o conhecia, ele deu mais um passo adiante. Pela primeira vez, Remmy percebeu que usava um rosário de prata em torno do pescoço. - Eu sou um velho amigo da família. - Dera ênfase à “família”, e imediatamente ele percebeu que o estranho se referia à Ain Soph. - E foi nessa hora que se lembrou quem ele era.

Remmy apertou os lábios, os olhos ardendo e sendo derrotados pelas lágrimas que se acumulavam e rolavam em profusão. Não estava mais ali a expressão que o remetia tão fielmente à Siegfried, embora definitivamente não fosse mais um choro de criança, que toma toda a face, a lhe escorrer pelos olhos. Apenas vertia dois filetes de lágrimas, as narinas dilatadas e os lábios crispados. Era um choro de adulto, por fim. Daqueles que não se pode ouvir, apenas ver.

- Não precisa ficar assim. Sei que você não pôde se despedir dela, na ocasião.

Lampejos de memória ofuscavam os olhos de Remmy, como se as lágrimas que rolavam ampliassem ainda mais a luminosidade do lugar e o fizesse apertar as palpebras. Viu, não com os seus olhos, ele percebera imediatamente, o homem de pé na frente de sua mãe praticamente morta. Ele lhe dava a extrema unção, percebeu. Ele fechava as suas palpebras, e limpava as lágrimas de seu rosto, lágrimas que já estavam quase secas. O rosto dela não parecia sereno, como as pessoas dizem que os mortos parecem. Estava pálido, magro, doentio. Os lábios estavam descarnados, as bochechas não existiam, os globos oculares pareciam boiar em poças negras de esquecimento, decepção e dor. Viu o padre se inclinar e ajeitar os cabelos da mulher atrás de suas orelhas e, por fim, o viu retirar uma moeda do bolso.

- Leon... - Murmurou Remmy, limpando os olhos com o dorso da mão. O rosto dele pareceu reassumir alguma frieza com as lembranças, como se elas lhe revigorassem. Como se percebesse que a morte de sua mãe não fosse grande coisa. Acessando aquele tipo de lembrança, ele percebia que acabava, invariavelmente, aproximando-se mais e mais de seu pai. Cada vez mais parecido. Um véu de mentiras bem diante de seus olhos.

Leon sorriu de novo, um sorriso bondoso e fraternal. Estendeu a mão para Remmy, apoiando-a sobre seu ombro. Quando os dedos roçaram os de Sasha, a mulher recolheu a mão como se tivesse sido queimada. Uma expressão de horror perspassou seus olhos, ao constatar que ele era realmente quem ela imaginava. - Você não precisava ter feito tudo isso para vê-la novamente...

O tilintar de metal encheu o local, e imediatamente Remmy soube onde Dorian e Hector estavam de volta. O olhar que Leon lançou por cima de seu ombro foi voraz, cintilante, e o sorriso se abriu um pouco mais. - Coloquem os artefatos no chão, garotos, e vamos conversar um pouco...