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Marolas do Aqueronte - Parte V


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte IV

Os olhos dourados do magista encontraram os de Remmy, que os sustentou bravamente. O jovem mago sorria com deboche, e deu um passo adiante. Nos dedos, as baquetas de bateria rodopiavam habilmente, como se tudo aquilo fosse apenas a preparação para um novo conserto de rock, e o rapaz quisesse desestabilizar emocionalmente o adversário.

- Patético é você, cuja insignificância é tamanha que nunca despertou o interesse de meu pai. – O rosto de Aurel endureceu por um segundo, revelando linhas estatuescas e repletas de raiva. O desenho do sorriso que se fez em seguida não passava de um esboço mal feito. Remmy continuou, percebendo que tinha tocado num ponto sensível: - Você imagina como fiquei sabendo dos artefatos que você mantém em seu poder, não é? – Murmurou, malicioso. O dedo polegar deslizou lentamente pelo lábio inferior, como se o curvasse para um sorriso genuinamente maldoso. – Muito ingênuo de sua parte mandar aquela carta para o meu pai. Acho que você ficará desapontado em saber que... ele nem a abriu, ao ver o remetente... Heh. – Obviamente tratava-se de uma mentira, mas o garoto continuou com a farsa mesmo assim: - Coube a mim ler o seu humilhante pedido de ingresso na Ain Soph, e também a relação dos... como foram mesmo as palavras que você usou? Ah, sim, “espólios que, por ventura, venham a interessá-lo pela sua natureza funesta e pela inestimável fonte de poder que contém e que seriam muito convenientes à organização, dado o teor primordial dos seus estudos.” Hah... hah... – O garoto bateu palmas, como se estivesse ovacionando um poeta particularmente talentoso, ou um bufão especialmente idiota.

Os olhos ambáricos de Aurel estreitaram-se perigosamente. Seu rosto nada mais era do que uma carranca indecifrável. Os lábios, apenas uma fina linha avermelhada, e a pele, se é que era possível, estava ainda mais macilento e doentio. Os dedos descarnados apertaram-se mais em volta do espadim, e quando abriu a boca para revidar, as palavras saíram com uma força e determinação pouco esperada de alguém cujo orgulho fora ferido de maneira tão íntima.

- Confesso que era do meu interesse ingressar na organização, mas isso não implica em qualquer tipo de admiração de minha parte em relação ao seu pai. Reitero então as minhas palavras: Siegfried é patético, por julgar-se imortal valendo-se de artifícios tão prolixos e anódinos. Tudo tem o seu preço, e você e o seu pai são tolos ao pensar que o custo da imortalidade seria tão parco. – Os dedos da mão livre ergueram-se à altura dos olhos. Sorriu. Os quatro invasores, por um segundo, tiveram a nítida impressão de que vislumbravam o braço de um esqueleto, e não o de um humano normal. Não havia carne, sangue ou veias, tudo se tornou momentaneamente translúcido e luminoso. Queixos caíram, embasbacados, e à medida que o corpo de Aurel tornava-se mais claro, o ambiente escurecia, como se o bruxo sugasse toda a luz ao redor, e deixasse com que as trevas engolfassem todo o resto.

- Em todas as culturas do mundo é sabido que qualquer ação mágica acarreta reações potencializadas. Você mesmo está, neste exato momento, tentando se restabelecer da notável demonstração de poder que acaba de dar às minhas Lâmias. – Sorriu novamente, a língua negra e viscosa deslizando pelos dentes brancos e pela boca descarnada. Os olhos, por um átimo, tornaram-se ocas órbitas escuras, antes de brilharem mais uma vez com a luminosidade dourada que lhe fazia parecer tanto com uma pantera negra. Os movimentos eram fluídos, lentos e hipnotizantes, e os dedos ainda conservavam a pequena espada cativa, faiscante em meio à luz vertida pelos seus ossos. – Se você é imortal, precisa se alimentar de outras vidas. Precisa matar. A sua vida flui diretamente das veias de outros seres vivos e, acredite em mim quando falo que... a morte nunca é bonita. Assim como quem se vale dela para continuar vivo. É uma casca, um invólucro demasiado frágil e quebradiço, que separa isto... – Os dedos deslizaram na frente do rosto amorfo, que parecia descarnado, apodrecido e incrivelmente belo e vivaz ao mesmo tempo. - ...do que você é agora.

- Não entendi nada do que você falou, amigo... – Disse Remmy, dando de ombros. Mentia mais uma vez, era óbvio, pois em sua face estava impresso o quão marcantes foram aquelas palavras para ele. Punha em xeque muita coisa. A imagem de Fais, seus olhos purpúreos, cabelos arroxeados e pele extremamente pálida brotou em sua mente. Magia podia ter consequências bem ruins, ele sabia muito bem disso, especialmente quando se trata de necromancia. Depois, pensou em Teresa e em como ela costumava ser antes de tudo... e em como ela estava agora, com seus olhos febris e comportamento paranoico. E por fim, pensou no próprio pai, sempre tão austero, imaculado e distante. Aurel riu.

- Vampiros podem parecer a epítome da beleza para olhos mortais, assim como uma serpente pode ser absolutamente hipnotizante ao ser vislumbrada pelos olhos de um lagarto indefeso. – Mais uma vez a língua escura e viscosa deslizou, madeixas negras ocultaram momentaneamente os seus olhos e, quando o mago arqueou lentamente o corpo para trás, erguendo os braços. Ao redor de seus dedos, a escuridão avolumou-se, condensando-se. Tudo ao redor era negro, todos ali estavam suspensos no que parecia ser uma nova dimensão paralela, absolutamente diferente da outrora criada por Remmy. Ninguém se mexia ou falava, como se também aquilo fosse controlado pelo mago. Sentiam uma pressão intensa sobre seus ombros, praticamente impossibilitando que ficassem de pé ou respirassem. Gotículas de suor brotaram de seus poros, umedecendo a pele, tornando-a gélida como a dos cadáveres que acabaram de enfrentar. Sentiam, pouco a pouco, a energia de seus corpos se esvaindo como água escapando por entre os dedos, como o ar que lhes rareava nos pulmões. – Todavia, se souber para onde olhar, o que verá é a faceta real da criatura que se põe diante de você. São monstros. Somos... Monstros. Todos nós que, de uma forma ou outra, vivemos através da dor, energia e esperança dos outros...

Rapidamente, todos ali se viram sozinhos na escuridão. Por mais que olhassem ao redor, ou para si próprios, tudo o que viam era um intenso véu negro posto diante de seus olhos. A escuridão era tão densa e esmagadora, que era possível senti-la tocando a pele gelada, como um milhão de línguas lambendo-lhes voluptuosamente. Um arrepio correu pela espinha de Remmy, quando a Aurel se fez ouvir mais uma vez, como se sussurrasse diante do rapaz. O garoto sentiu a face sendo envolvida por duas mãos, direcionando seu olhar para cima, mas não viu nada ali. Engoliu em seco.

- Mas algumas pessoas pensam o contrário. São inocentes e se permitem sonhar... Sweet dreams are made of this... – Sussurrou, começando a cantar uma famosa música, em um tom cadenciado e letárgico, quase como uma canção de ninar. – ...who am I to disagree? I travel the world and the seven seas... Everybody’s looking for something.

- Porra. – Esbravejou Remmy, movimentando-se convulsivamente para os lados. O rapaz se deu conta de que estava de joelhos no chão, não conseguia se levantar, e as mãos dançavam aleatoriamente à frente do corpo, na vã tentativa de acertar o mago que lhe prendera naquela armadilha. Embora sentisse as mãos de Aurel segurando seu rosto, Remmy não conseguia acertá-lo, não conseguia vê-lo, apenas ouvi-lo sussurrando. Os silvos ecoavam dolorosamente em seus ouvidos, como unhas arranhando um quadro negro. A melodia e a voz que a cantava eram doces e serenas, mas a dor que lhe causava, a intensa agonia de não poder se livrar daquela influência era quase insuportável.

- Some of them want to use you... – Sussurrou a voz de Sasha, à distância. Pôde sentir a malícia gotejando de seus lábios, como mel.

- Some of them want to get used by you… - Remmy reconheceu a voz grave de Hector acariciando-lhe gentilmente, e sentiu como se pequenas agulhas adentrassem seus ouvidos. Uma dor aguda, excruciante.

- Some of them want to abuse you... – Era a vez de Dorian. A voz soou poucos metros adiante. Tudo parecia tão surreal que ele teve certeza de que na verdade tudo aquilo era a sua imaginação. Seus tímpanos explodiram em dor, sentiu o líquido quente e –imaginou- vermelho escorrer pela cartilagem e empapar a camiseta. Levou as mãos até os ouvidos, tampando-os, os dentes travados e o rosto retesado em dor. Todavia, a voz continuou a soar. Desta vez, uma que ele não ouvia há algum tempo.

- Some of them want to be abused... – A voz feminina fez com que ele arregalasse os olhos e perscrutasse o ambiente. Tudo o que viu foi nada. Escuridão. A voz continuava a cantar, desta vez apenas a dela. Lágrimas encheram os olhos do garoto, que continuava a olhar ao redor, girando em torno do próprio eixo com uma expressão desolada.

Já não sentia as mãos de Aurel no seu rosto, ao invés disso, sentiu os dedos dela fechando-se em torno do seu pulso. O calor do seu toque fez a sua pele arder e queimar, mas o menino não reclamou. Ela passou a mão pelos seus cabelos, ajeitando-os para trás, como se tentasse ver melhor os seus olhos. Os seus olhos.

- Mãe? – Murmurou ele fracamente.

- Hold your head up... – Pediu ela, ainda cantando com doçura. A mão deslizou até a nuca dele, e ele percebeu que mais uma vez estava de joelhos no chão. Sentiu o toque de sua mão sobre o peito, como se ela tentasse sentir as batidas de seu coração, e os dedos dela adquirindo alguma firmeza sobre a sua nuca, em torno dos seus cabelos. As unhas roçaram o tecido da camiseta; conservava o punho fechado sobre o coração de Remmy.

- Mãe... Escuta... E-eu...

- Keep-- your-- head-- UP!!! – Bradou a voz de Aurel, puxando o cabelo do garoto com violência, fazendo sua cabeça pender para trás e o pescoço estalar dolorosamente. De repente, teve ciência de toda a agonia e exaustão que sentia. Não respirava direito, os tímpanos pareciam perfurados e sangrava em profusão, juntamente com os três cortes em sua bochecha. A gargalhada do necromante ecoou ao redor, um som estranho aos ouvidos de Remmy. Amalgamava frieza e loucura. O rapaz apertou as pálpebras, tentando se livrar do véu aquoso que se instalara diante de seus olhos, e quando as últimas lágrimas desceram, ele se pôs de pé. Trôpego, andou alguns passos para frente, e encarou a escuridão.

- Filho da puta! - Esbravejou o garoto, para o nada, antes de ser atingido na nuca e tombar para frente. Tão logo tocou o chão, uma dezena de mãos ávidas o agarrou com firmeza, e as bocas sibilantes e famintas se aproximaram perigosamente de sua pele. Remmy sentiu o cheiro podre de carne humana, e ouviu os gemidos de sofrimento dos mortos-vivos que tentavam devorá-lo. Debateu-se, chutou, berrou e demasiadamente próximo ao seu ouvido, captou a risada desdenhosa do mago responsável por tudo aquilo...

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Neste momento, nada me dá mais prazer do que o medo do filho do homem que me repudiou de maneira tão atroz. Sorri, em regozijo, ao perceber o desespero que se apodera de todas as fibras do corpo do adolescente, e o prazer é tamanho que simplesmente não consigo me conter e acabo exteriorizando a minha felicidade. É óbvio que ele me ouvirá como se eu estivesse ao seu lado, veja só como ele vira a cabeça e tenta me acertar... mas o fato é que eu sou... tudo.

Eu sou a escuridão que o envolve, que o engolfa e afoga. Sou o ar que entra em seus pulmões, rascante, como lâminas de gelo. Sou as mãos que o rasgam, os dentes que dilaceram sua carne. Tenho certeza que neste momento, Remmy consegue sentir o toque pegajoso das minhas línguas fazendo desenhos e padrões em sua pele, enquanto meus dentes afundam-se na tenra carne de suas coxas, braços e abdômen. E, ah, quão delicioso é o sabor! O medo, o choque, o desespero por continuar vivo. O sôfrego ímpeto que inflama as suas veias, instigando-o a continuar a se debater.

E a certeza de que não importa o que ele faça, não importa o quão forte seja fisicamente, ele nunca se livrará do abraço das minhas criaturas. Rio novamente, e o meu riso se mistura aos bramidos de agonia e pânico emitidos pelo adolescente. Vejam só, agora ele é apenas um pobre, inútil e indefeso adolescente. Vejam como ele chora. Vejam como rapidamente os seus cabelos se tornam vermelhos, e o quão belo é o contraste do rubro com a sua pele clara.

Ah, e o prazer é ainda maior ao me lembrar de que o garoto é extremamente parecido com o pai. Posso ver, finalmente, o rosto de Siegfried contorcido de dor, implorando... cedendo pouco à pouco ao frio e inevitável abraço da morte. Quão arrogante ele foi, ao pensar que era, de fato, imortal. Tsc. E agora, extinguindo a sua linhagem, creio que seja o ponto final na sua patética brincadeira, não é?

Oh, não resista, Remmy. Sinta meus dedos envolver a sua pele. Veja o quão refrescante é o meu hálito gélido a soprar em seu rosto. Perceba que, além do toque dos mortos, dos dentes e das unhas putrefatas, há muito mais para sentir neste momento. Muito mais para aproveitar. Deite a sua cabeça para trás e simplesmente se entregue, prometo não demorar muito...

Isso, deixe-se levar. Percebe agora? Consegue sentir?

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Ele simplesmente parou de se debater. Parou de lutar. A dor era tamanha, a força que o envolvia era tão avassaladora que percebeu ser inútil ir contra. Talvez se ele fechasse os olhos e começasse a contar, tudo acabaria antes dele chegar até o dez. Certo?

Então era assim que acabava. Quão arrogante ele foi ao pensar que poderia sair ileso de uma empreitada daquelas. Sentia o corpo todo em chamas, e o coração batendo desesperadamente, como uma mariposa presa em uma caixinha de papel, tentando sair.

Fechou os olhos então e começou a contar. E, antes que chegasse a dez, realmente, tudo parou. Sentiu uma dor diferente desta vez. Uma dor lancinante penetrando as suas pálpebras e queimando suas retinas. Não abriu os olhos, mas sabia que, de alguma forma, estava em um lugar iluminado. Pode ver vultos movendo-se ao redor, e uma cacofonia de sons confusos que ele não conseguia identificar. Sentiu o corpo ser tocado, içado e balançado violentamente. Sentiu-se inundado de energia. O peito arfava, queimava com uma nova onda de vitalidade que fluía diretamente para dentro de si. Percebeu, só agora, que a mão direita fechava-se em torno do pequeno colar de prata que sempre trazia consigo; os dedos ensanguentados envolviam o pequeno pingente com o brasão da família. Era dali que vinha a energia, das pedras preciosas incrustadas no metal, fluindo a partir deles para dentro do seu corpo debilitado.

Rapidamente tomou consciência de uma presença familiar próxima a si. Alguém que ele não via há semanas, ajudando-o com o amuleto, alimentando-o com a própria energia, inundando-o de poder. Um poder quente, pungente, extremamente concentrado. Sentia-o nas veias, fluindo com certa dificuldade, como se o próprio sangue estivesse mais denso, carregado.

E foi aí que Remmy abriu os olhos. A luminosidade não o feriu, pelo menos não como deveria, depois de tanto tempo no escuro. Olhou ao redor, tomando nota de tudo o que o rodeava, e em seguida para frente, observando a figura negra prostrada diante de si, o rosto lívido contorcido em uma careta de dor.

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A música é Sweet Dreams, preferencialmente a versão cantada pela Emily Browning, que tem um ritmo mais lento e parecido com uma canção de ninar, como descrito no texto. Para ouvir a música, basta clicar aqui.
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Cruz Sobre Berlim II - parte 2


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - II parte 1

Filho de uma puta, desgraçado... escroto!! Infindáveis xingamentos popularam a mente de Balder conforme o corpo deteriorava-se a sua frente. Óbvio que um assassinato tão banal, tão descarado, daria merda. Esse era o problema dos novatos, eles acreditavam piamente que a única coisa a se temer na noite eram os outros vampiros. Observou os dois vultos ganhando contornos cada vez mais nítidos conforme se aproximavam; as precisas passadas metálicas, inaudíveis a um humano comum, confirmaram sua desconfiança ao ver a lança. Conhecia esse golpe fatal:

- Templários...- murmurou, soturno.  

Apesar do furor avermelhado dominar sua face, Balder manteve-se imóvel. Questionava-se por que eles não correram em sua direção no imediato momento que Andrew fora atingido. O chão elameado e a escuridão da maior parte do terreno não justificavam aquela cautela, ele poderia muito bem ter fugido dali se quisesse, outro vampiro qualquer fugiria. Postou os olhos nas câmeras de segurança do pequeno prédio, atento as nuances do lugar. Já passava da meia-noite, não havia som de teclas ou de passos em nenhum dos três andares, porém era perceptível o barulho da TV, abafado pelas paredes das diversas salas do primeiro pavimento. O vigilante deveria estar bem entretido e ignorava o que acontecia no estacionamento mal cuidado da empresa. O ruivo não percebeu qualquer outra nuance e concluiu que não havia mais Templários naquele local, a situação era atípica demais. Eles nunca foram estúpidos ao ponto de lhe deixar pensar antes de um confronto “No mínimo 10 segundos eles perderam nessa andadinha vagarosa … Ah, entendi”. Balder desmanchou as sobrancelhas arqueadas e sorriu, lépido:

- Sabe, assim como uma boa música, armaduras não fazem mais o estilo de sua espécie. - apontou para o jovem raquítico que andava desengonçado com o peso das tramas metálicas e as botas prateadas. Foi preciso que eles estivessem mais próximos para o vampiro perceber o quão diferente era o andar dos dois inimigos, assim como as expressões em suas faces. O garoto seria um aprendiz inseguro, claramente despreparado para correr (e lutar?) com aquele peso extra – Se você estivesse com a armadura completa, provavelmente estaria “empacado” lá atrás, não é mesmo, moleque?

Riu encarando os olhos castanhos do adolescente. Não teria mais que 16 anos e, como é de se esperar de um garoto, não conseguia disfarçar o temor que sentia. Observou o outro homem, a espada longa  em posição de batalha, as placas metálicas do peitoral reluzindo a cada passo. Andava imponente, o rosto quadrado exibia um orgulho que Balder não conseguiu distinguir se era pelo seu lançamento perfeito da arma ou se era pelo acerto do discípulo.

Será que desconfiavam que ele era um Labyrs? Apostaria com Jack que não, se o soubessem, não ousariam lutar sem o elmo. Templários eram incrivelmente fortes, mas eram sensíveis como qualquer humano ao sangue venenoso de sua Família. Imaginou quanto tempo ganharia no primeiro ferimento que lhe atingisse, poderia matar os dois no momento da surpresa, bastaria arrancar-lhes a cabeça. Garantir que não o atingissem em algum ponto vital seria o maior problema, claro. Balder aquietou os pensamentos quando ambos começaram a correr, em alguns segundos estariam sobre ele e tudo o que tinha era um plano que envolvia ser ferido. Ridículo, era suicídio enfrentar um Templário assim, nessa forma tão fraca, e sem nem se quer ter uma arma em mãos.

Fitou o reflexo cintilante nas armaduras perfeitamente polidas e mais uma ideia estúpida lhe veio a mente. Estúpida e dolorosa. A lança ainda exibia os malditos tentáculos de luz, mas qual outra escolha ele tinha? Largou o celular e, sem pestanejar, foi de encontro ao corpo moribundo agarrando a base da lança e a erguendo do chão. Gritou. Como esperava, a energia templária não se dissipara totalmente do objeto, ela queimava suas mãos e percorria seus membros como um choque elétrico. Determinado a completar seu plano, ignorou a dor e movimentou a lança jogando a carcaça de Andrew na direção do cavaleiro mais jovem. O alvo tombou na lama lutando contra o peso do moribundo, e o ruivo, rindo alto em meio a dor, correu para desferir a lança contra o outro humano.

O velhote prontamente defendeu seu pescoço com a espada longa, surpreendendo o vampiro por conseguir manter sua postura imbatível independentemente da força que depositava contra a lâmina. O estranho tilintar do choque das duas armas manteve-se conforme o Labyrs pressionava a lança. Mordeu o lábio inferior contendo o gemido pelo aumento da queimadura nas mãos e se sentiu um idiota ao notar a face inabalável do humano. Os olhos negros eram desafiadores. Não demonstravam raiva ou excitação pela luta e sim uma concentração absurda para manter a posição dos braços. Toda sua energia estava depositada na arma, ela virara uma extensão de seu corpo e agora agia como um escudo perfeito, indiferente a força superior do vampiro. Balder notou o início de movimento nos lábios do oponente e se lembrou do quanto odiava lutar contra os “encantados”:

- Há, não... nada disso – disse furioso, tirou repentinamente a lança do atrito da espada, atrapalhando as falas mágicas, e expôs os dentes enormes tentando abocanhar o rosto tão próximo do Templário. Imediatamente este pulou para trás, a face morena empalidecendo e o corpo aparentando ganhar mais volume tamanha a rigidez de seus ombros e braços. Era óbvio que se assustara com a tentativa selvagem.

Querendo se aproveitar do temor do humano, o ruivo imediatamente intensificou seu ataque. Tentou golpear diversas partes do corpo do velho com a lança e ele se defendeu muito bem com a sua espada, mas se esquecera da maldita reza e era esse o principal intuito de Balder. Se dependesse do vampiro, o Templário não teria concentração para fazer mais nenhuma mandinga essa noite.

Escutou a queda do garoto metros dali e sorriu, satisfeito por o chão escorregadio manter um dos adversários longe. Sentia que o material prateado não o feria mais, a energia que executara Andrew finalmente se dissipara e não retardava mais seus braços. Girou a lança contra as pernas do velho, obrigando-o a usar a lâmina da espada para defender seus joelhos e deixando a cabeça exposta. Fora apenas um piscar de olhos, contudo era tempo suficiente para Balder se aproveitar e ele o fez. Extremamente rápido, manteve apenas uma das mãos segurando a lança e levou a outra contra o Templário. As unhas cheias de lama do vampiro rasgaram as partes proeminentes do rosto bronzeado e o delicioso cheiro de sangue envolveu o ar.

Os cortes não foram tão profundos quando gostaria, mas Balder se deleitou com a expressão dolorosa que o humano tentava disfarçar. Incrível vê-lo manter a postura inabalável mesmo que os lábios trêmulos e as lágrimas traíssem sua indiferença perante a dor da pele dilacerada. Quais são as chances desse desgraçado conseguir rezar agora? Pensou continuando a golpeá-lo. Queria cansar o Templário e provavelmente o teria executado em breve se um estranho ruído não o tivesse distraído. Percebeu que o humano também ouvira, pois seus olhos procuraram a origem daqueles baques contra o chão úmido.

“Puta que pariu, Jack!” pensou ao reconhecer a criatura monstruosa invadindo o terreno. Sabia que era ela não apenas por ser a única outra Labyrs de Berlim, mas pelo cheiro familiar. O mesmo resquício humano, o mesmo sangue vampírico que o seu. O ruivo perdeu um segundo precioso a observando se aproximar, os dentes afiadíssimos expostos e determinados a abocanhar o aprendiz ajoelhado. Porém, no momento em que Jack pulou em seu peito, fios translúcidos surgiram no local de atrito. A forma etérea ganhou volume transformando-se em uma esfera e explodindo, jogando a vampira longe e derrubando Balder no chão:

- Argh...- as dores musculares dos choques anteriores da lança eram nada comparadas com o que sentia agora. Parecia que a energia criada pelo moleque o queimara por dentro, sua pele estava intacta, mas seus membros tremiam, cada um com espasmos totalmente diferentes.

Não conseguia sentar e nem virar a cabeça para ver o que estava acontecendo, limitou-se a ouvir o rugido ameaçador de Jack seguido de ruídos metálicos. Eles estavam... fugindo? Sentou a tempo de ver a Labyrs pulando o muro, o ideal seria se libertar desse corpo humanóide e acompanhá-la, mas não aguentaria a transformação brusca. Seu sangue escorria pelo nariz misturando-se à lama que cobria seu rosto e as tremedeiras não cessaram completamente:

- Ele não disse uma palavra. Ele não conjurou merda alguma – resmungou colocando-se de pé. Não queria acreditar no que isso significava, mas era a única explicação. Por que mais o velhote se arriscaria a andar pelo noite assim, sem um batalhão acompanhando-o? Ele não está treinando um Templário qualquer, está treinando um dos 13.

Temendo a segurança da Labyrs, conseguiu correr e ganhou impulso para alcançar o topo do muro. Estava prestes a pular do outro lado, quando ouviu o som de uma freada brusca seguida de uma forte batida. Forçou sua visão para a rua além das árvores que circundavam o terreno. Um enorme caminhão estava tombado na pista, a carreta havia desencaixado e espalhou produtos eletrônicos por toda a rua. A parte fronteira estava quase irreconhecível, a lataria estava esmagada como se uma bola de chumbo houvesse lhe acertado em cheio:

- Ah não, caralho! - Xingou, correndo em direção a criatura negra que jazia inerte no asfalto.


Continua em: Cruz Sobre Berlim - III

Marolas do Aqueronte - Parte IV


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte III

Quando abri os olhos, senti uma lufada de ventos agitando os meus cabelos e percebi que não estava mais no interior da casa do necromante: pequenos flocos de fuligem cinza acumulavam e espiralavam ao redor, compondo uma paisagem inóspita e monocromática. A principio não consegui identificar do que se tratava, vislumbrei pequenos montes, fachos de luz e nuvens negras como as plumas de um corvo. Pouco a pouco o cenário foi ganhando forma, com apenas a minha figura no meio de toda aquela imensidão. Girei e perscrutei o ambiente, os dedos deslizando pelos cabelos quase brancos. A luz ali deixava tudo com um aspecto muito mais... morto.

Me vi então no que parecia ser um antigo campo de batalha ao ar livre. A terra estava revolvida, e hera crescia em torno de ossadas secas. Não havia animais necrófagos ali, pois toda a carne e sangue há muito se fora. Sorri. Era engraçado perceber que todo aquele cenário fora composto pelo meu subconsciente. Quis, involuntariamente, um lugar cujo horizonte estivesse à perder de vista, porque achava inapropriado lutar em espaços apertados e à mercê do tal magista louco. Me abaixei, os dedos roçando um dos ossos secos, sentindo a textura áspera e o cheiro acre. A terra estava seca e cor de chumbo, o vento trazia um leve odor que eu não conseguia identificar completamente, mas sabia que era familiar. Tudo estava perfeitamente crível.

Como que por mágica, pude ouvir um lamento distante. Uma lamúria incessante e muito baixa, como se o sussurro me beijasse os lóbulos das orelhas, acariciasse minha face pálida e me lambesse a pele fria. Senti-me envolvido, cativo, como um marinheiro entregue aos caprichos de uma sirene e do mar. Aqui, cabe-me dizer, também comecei a ouvir um tamborilar suave e intermitente que, entrelaçado com o canto choramingado da entidade invisível, parecia ditar o ritmo daquele deserto envolto em cinzas e podridão. Percebi então que se tratava de uma música. Uma melodia de harmonia um pouco questionável, com arranjos simples e hipnóticos. Primeiro os vocais, depois o rufar cadente dos tambores e, agora, o ressonar intrépido das cordas de um violão.

Lentamente ergui-me, deixando a brisa varrer para longe as minhas preocupações. Meus cabelos loiros eram embalados ao seu sabor gélido, bem como as vestes negras. Línguas de gelo lambiam-me, inebriavam-me e eriçavam todos os pelos do meu corpo. Do bolso de trás da minha calça, puxei as minhas duas baquetas de bateria. Olhei para o lado e percebi que não estava mais desacompanhado, pois uma enorme massa de pelos negros avolumava-se ali; Hector agora era um enorme licantropo, babando e rosnando com os punhos apertados, os olhos ambáricos fulgurando em frenesi alucinado. Do meu outro lado, obviamente, estava Dorian, com toda a sua pompa e classe de mágico de festinhas infantis, com cartola, varinha mágica e tudo o mais. Engraçado a imagem que tenho desses caras – ou como gostaria que eles realmente fossem, porque convenhamos, um lobisomem que não muda de forma não é tão intimidador assim, certo? Sem falar em um mágico que tem um bolso sem fundo, no melhor estilo fanfarrão “nada nesta mão, nada nesta aqui”, haha!

Sasha também estava ali. A mulher trazia nas mãos dois dos chicotes mais estranhos que já vi, pois na ponta inferior das empunhaduras, onde o cabo deveria acabar, havia mais uns vinte centímetros de lâmina curva, negra e extremamente afiada -imaginei que serviriam para estocar inimigos demasiado próximos, em casos urgentes quando não houvesse tempo para brandir o açoite. Ela calçava botas de saltos altíssimos que, suspeito, seriam impossíveis de se equilibrar sobre se estivéssemos no “mundo real”. Os cabelos dela estavam amarrados no topo da cabeça e toda a roupa dela era de vinil preto, exceto a enorme saia cuja fenda ia da cintura ao tornozelo - esta era de um profundo bordô, quase marrom. O tecido eu não consegui identificar, mas tive a impressão de que estava úmido, como que embebido em sangue fresco, embora o chão ao redor de si estivesse livre de qualquer respingo. Uma dominatrix - ainda que tivesse me acabado de dizer que não curtia sexo e esse tipo de coisa, era meio óbvio para mim que Sasha era extremamente controladora.

Girei habilmente as baquetas pelos dedos, e ao meu redor o vento pareceu se intensificar um pouco. Sorri novamente, exibindo os dentes desta vez.

- E aí, todos prontos? - Sem resposta audível. Hector rosnava, Dorian borboleteava ao redor, e Sasha seguia-os com olhos reprovadores. Era como se eu nem estivesse ali, e o mais curioso de tudo é que eu também não podia ouví-los. Deduzia, observando os dentes arreganhados do lobisomem e o sorriso zombeteiro do mágico de araque, o teor da conversa que tinham, mas apenas via lábios se moverem sem produzirem som algum. O véu que nos separava não era tão tênue quanto se fazia parecer, e era preciso muito mais do que dedos fortes para rasgá-lo.

Nesta hora a música atinge o ápice, em sincronia com as criaturas que parecem brotar do chão bem diante dos nossos olhos. Pareciam enormes abutres parcialmente decompostos, mas ao invés de uma cabeça de pássaro, os bichos exibiam crânios humanos. Rufaram as asas ameaçadoramente, erguendo uma nuvem de poeira e fuligem que me queimaram os olhos. Tossi, eles ergueram as cabeças para o alto, abriram as mandíbulas descarnadas e, acredito eu, gritaram em uníssono um desafio. A única coisa que eu ouvia era a voz ronronante da sirene invisível, acariciando-me os ouvidos e incitando-me a continuar. As aves eram horrendas, mas no meu mundo ninguém ofega ou se assusta com esse tipo de coisa, apenas sorri e meneia com a cabeça em concordância. Ter medo perde o sentido quando você se torna Deus; a única coisa que eu sentia ao ver aquele monte de criaturas putrefatas era excitação. Pura e simplesmente, eu queria destroçar todas elas com as minhas próprias mãos. Sentir os ossos estalando a cada golpe.

E foi isso o que fiz. Fui o primeiro a correr na direção deles. Pulei, alcei voo em direção ao firmamento cinza e fuliginoso, e cai estrondosamente no meio das criaturas em decomposição. Sob meus pés a terra tremeu, um abalo sísmico inacreditável e impossível se estivéssemos no “mundo real”. Mais uma vez, um véu de poeira se ergueu, e com um giro em torno do meu eixo, golpeei algumas aves com as baquetas e as derrubei. Pisei no crânio de uma delas, esmagando-o, depois apontei a ponta do instrumento para outra, e a mesma explodiu em chamas.

Cara, não estar presos àquele monte de regras do “mundo real” é um puta alívio. Tem magos que jamais saberão o quão libertador é poder fazer o que der na telha, como eu, pois “lá” não se pode alterar tão bruscamente a realidade. Tem alguns magos que se excedem e... explodem, morrem, ficam loucos, às vezes só por tentar abrir uma porta numa parede lisa, por exemplo. Óbvio que depois eu tenho que arcar com as consequências, mas enquanto posso, faço o possível para aproveitar o barato. Simplesmente deixo-me guiar pela marola, entende o que eu digo?

Enfim, voltando à batalha, pulei novamente, uns dez metros acima de todas elas, e de relance vi os outros lutando também com outras criaturas. Voltei a atenção para baixo, girei as baquetas nos dedos, e um pequeno redemoinho formou-se abaixo de mim. O tilintar das ossadas agitando-se e levantando-se encheu os meus ouvidos, e depois percebi que eu mesmo estava gargalhando loucamente. Meus cabelos encobriam parcialmente a minha visão, mas eu conseguia saber exatamente o que estava acontecendo abaixo de mim. Cai novamente, as baquetas agindo como duas pequenas espadas ao degolar mais dois “abutres”. Mesmo com toda aquela agitação, a única coisa que eu ouvia era, além da minha própria gargalhada, a música que se agitava cada vez mais. Por uma fração de segundo, cheguei a pensar que eu a estava produzindo, pois agora quem parecia ditar o ritmo era o meu próprio corpo: quanto mais rápido eu me movia, mais a sirene ululava, e a cada movimento de mãos, o som da percursão ficava mais e mais forte e retumbante.

As aves se aproximaram mais. Ao longe, explosões silenciosas podiam ser vistas. O horizonte fora, rapidamente, tingindo-se de negro, quando centenas de asas pútridas e crânios risonhos se fechavam em torno de mim. Tsc. Com um único movimento, ergui os dois braços verticalmente e duas colunas de areia, ossos e pó se içou metros acima, levando consigo grande parte dos abutres. Fechei as mãos em punho, e as colunas explodiram em uma chuva cinzenta, impulsionando para trás as criaturas, derrubando-as no solo arenoso.

Ofeguei por um segundo, limpando o suor que se acumulava em minha testa e parei para analisar o meu belo feito. As criaturas moviam-se, se aproximando umas das outras com lamentos silenciosos. Tudo pareceu escurecer, ergui os olhos para o céu e quando dei por mim, a abóboda esfumaçada não era mais cinza, mas de um amalgama de laranja doentio e preto. Franzi o cenho, olhando ao redor. Tudo parecia se corroer lentamente. Que merda.

As criaturas não eram mais aves, mas uniam-se rapidamente, também corroendo-se. Negras como piche, transformavam-se então em dezenas de mulheres nuas sem os membros inferiores – ali, queridos leitores, estava uma enorme e cachoalhante cauda de serpente. Eram Lâmias.

Mas que porra, primeiro uma cabeça bizarra da Malásia, depois abutres com cabeças humanas, agora um vampiro/demônio da Grécia. A seguir, aposto que será o Chupacabra.

Suspirei. Apertei os dedos em torno dos punhos das baquetas, e elas se alongaram consideravelmente, adquirindo o tamanho e a forma de dois pequenos sabres. Legal, hein?

Lancei-me sobre aquelas criaturas desferindo golpes rápidos, tentando degolar o máximo possível antes que me pegassem. Logo percebi uma explosão muito perto de mim, e de relance vi Sasha lutando com um dos chicotes na mão e a saia na outra: a mulher usava o tecido para fintar as Lâmias, cegando-as momentaneamente antes de parti-las ao meio com as lâminas na ponta do chicote. Juro que a vi pisar na garganta de uma delas, com aquele salto agulha, e deixá-la se afogar no próprio sangue negro e podre, mas acho que foi só a minha imaginação.

Dorian e Hector também estavam ali. A julgar pelo caos, Dorian explodia os bichos e Hector... bem, mordia, rasgava e se banhava em sangue, como qualquer lobisomem que se preze?

As rajadas de vento sopraram mais forte, faziam meus cabelos me chicotearem o rosto. Corri, gritei, e finquei os dois sabres nas clavículas de uma das Lâmias. A mesma me bateu, as garras rasgando a minha bochecha e fazendo meu sangue jorrar sobre si. Ela riu, um riso senil e silencioso, e eu também, quando afundei ainda mais as lâminas em sua carne.

- MORRE! – Torci os sabres, rasgando-a lentamente, e ela berrou de agonia. Não sei se no “mundo real” ela também o fez, mas aquilo me regozijou imensamente. Os olhos vermelhos do demônio me fitavam, e quando ela ergueu a mão e agarrou o meu pescoço, eu curvei o corpo para frente e a penetrei mais ainda. Ela cuspiu em meus olhos, e aquilo ardeu feito o inferno, mas eu não parei, exerci pressão para cima até que senti as clavículas se partirem e sua cabeça tombar para trás. Ela já estava morta quando a degolei, mas senti um prazer imenso ao fazer aquilo.

Olhei ao redor, e todas as Lâmias estavam mortas. Não existia ninguém de pé, exceto nós quatro. Sorri.

Todos ofegavam, mas por algum motivo estavam perfeitamente sãos. Nenhum arranhão, nenhum rasgo, sujeira ou cabelo fora do lugar. Só eu, que tinha três vincos profundos na face esquerda. Minha roupa preta lentamente grudava no corpo, devido à mistura de suor e sangue, e as baquetas diminuíram até assumirem a forma original.

Continuava a ventar, e o céu continuava cinza. Um estalo alto se fez ouvir, atraindo a atenção de todos para cima. O firmamento parecia rachar lentamente, derramando fachos de escuridão sobre nós. Um segundo de apreensão e tudo ruiu como um globo de neve se espatifando no chão. Uma torrente de cacos de realidade caiu sobre nós, e a negritude nos engolfou.

Eu estava em um vórtice negro, cujas rajadas queimavam a minha pele. Lágrimas quentes brotaram dos meus olhos, e minha cabeça fora atirada para trás e colidiu contra o que pareceu ser uma parede. Atordoado, olhei ao redor.

Por um segundo, uma ínfima fração de segundo, vi uma pequena espada de luz, que se equilibrava perfeitamente sobre sua ponta, e cuja empunhadura era cravejada de pedras preciosas. Parecia pequena demais, mas extremamente poderosa. Depois, vi a Dracma que tinha ido buscar -aquela que supostamente seria capaz de ressuscitar os mortos-, e vi o rosto esmaecido de uma mulher de olhos verdes e cabelos castanhos e senti sua dor e suas lágrimas banharem as minhas faces. E então, subitamente, eu soube quem era ela. Lembrei de seus dedos roçando minhas bochechas e a melancolia de sua alma tocando o meu coração. Em meio às lágrimas, sorri. No meio do turbilhão de estilhaços, entrevi um homem de cabelos e intenções negras abrindo os braços e ali, sob o peso de seu olhar, me afoguei.

A música findou, a Sirene parou de cantar e tudo era silêncio. Silêncio e dor.

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Quando Remmy voltou a abrir os olhos, estava de joelhos no chão da casa do Necromante. Arfava, as mãos espalmadas apoiando o próprio corpo, e pequenas gotas carmesim empoçando lentamente no mosaico abaixo de si. Hector estava ao seu lado, os olhos preocupados encarando-o; o rosto de Remmy sangrava, e seus membros ardiam com o esforço que fizera para realizar todas aquelas coisas. Seus dedos ainda envolviam as baquetas, e os pulmões pediam por um cigarro.

Sabia que não tinha se passado nem um minuto desde que entrara em transe, pois tão logo ergueu o olhar para o companheiro, viu duas sombras avolumarem-se na escuridão atrás de si. Sasha e Dorian acabaram de entrar na mansão, e sentiu o cheiro de carne humana calcinando logo atrás deles. A assassina olhou para o adolescente com um semblante curioso, depois voltou-se para Hector, como se achasse que ele fosse responsável pelo ferimento no rosto de Remmy. Hector abanou a cabeça, negando, e Dorian tocou seu ombro e murmurou alguma coisa, fazendo sua expressão relaxar um pouco. Remmy sorriu.

- Tive um sonho maravilhoso. Você estava lá, bonitinha, e usava chicotes muito mais legais do que esse que você tem aí. Hec, me ajuda aqui... precisamos pegar logo essa espada e sair daqui. Ele está vindo.

- Espada? – Perguntou Sasha, enquanto Hector oferecia o ombro para Remmy. – Você não quer apenas o Dracma?

- Queria, agora quero uma espada também.

- Que espada? – Perguntou ela, ríspida. A assassina obviamente não estava gostando nada daquela história, afinal, o garoto tinha prometido todo o saque para ela, certo? Mas a sua revolta não chegou a ser verbalizada, pois quando a mulher abriu a boca para protestar, ruidos secos e ritmados chamaram a sua atenção para o topo da espada.

- Creio que ele se refira à esta espada. - A voz era sibilante e fazia os pêlos da nuca dos quatro se eriçarem. Hector estremeceu subitamente, um espasmo involuntario e completamente animalesco. Mostrou os dentes, a garganta produzindo aquele mesmo ruido ameaçador de outrora. O homem no topo da escada era tão branco quanto um cadaver, com os cabelos de um negro espectral. Trazia envolvido nos dedos uma pequena espada, de aproximadamente trinta centímetros e inteiramente dourada. O punho, como Remmy vislumbrara, era adornado com pedras preciosas que faíscavam lindamente à luz bruxuleante das velas que - ele não tinha percebido até então - compunham o cenário ao redor.

- Aurel?!

Ele sorriu. O mago movia-se de maneira tão fluída e tinha olhos dourados, ameaçadores e flamejantes, como os de uma pantera à espreita. Estava exatamente na junção das duas escadarias que circundavam o ambiente, na frente da porta que levava à ala superior da mansão. Eles tinham certeza que era para lá que deviam seguir.

- Você é o filho de Siegfried, não é? Percebo a semelhança. Então é verdade o que dizem? - O espadim dançou, um movimento rápido e faiscante, pulando de uma mão para outra. Rodopiou, como se o mago testasse o peso e equilibrio da arma, mas à medida que ela se movia, um rastro esfumaçado era desenhado no ar. - E ele se alega imortal? Quão... - Mostrou os dentes, mas não era um sorriso, acentuando a semelhança com um enorme felino negro de olhos dourados. - ...patético.