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Cruz Sobre Berlim II - parte 1


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - I

Os dedos bateram forte nos botões do rádio. Uma, duas, três vezes. O impacto da unha afiada com o painel era similar ao som de algumas das músicas pops das estações, obviamente ele estava inquieto. Nada lhe interessava, o barulho que virou a música nesse início de século o aborrecia profundamente, precisava ouvir qualquer coisa sem rap, sem grito, sem desafino. Apertou com força o volante, as unhas rasgando a capa de couro que o envolvia. Não apenas a música, mas também os meios de transporte o faziam sentir uma saudade imensurável dos séculos que viveu. Em outros tempos não estaria dentro de um veículo obedecendo a leis de trânsito, preocupado com carros ao redor e com as cores de um sinal.

Pisou fundo ao verde do semáforo, seus olhos cor de mel passavam da pista movimentada aos prédios que contornavam a rua. A boate que procurava iluminou os vidros da janela com suas cores pulsantes e ele deu seta virando à direita. Desligou o rádio com um prazer indescritível nos olhos, bem no momento que uma famosa cantora começou a gemer em sua música, cada vez mais repetida naqueles dias. Estacionou sem muito cuidado próximo a uma viela e saiu do veículo. Balder era de uma estatura mediana, mas o físico claramente forte, os músculos torneados aparentes na camiseta esportiva, chamavam a atenção das mulheres que, assim como ele, iam em direção à boate. Estava totalmente vestido de preto, os longuíssimos cabelos ruivos presos para trás davam-lhe um aspecto de um jovem metaleiro, reforçado com as pulseiras de couro com detalhes em prata. Apesar de a pele pálida lhe dar uma aparência de doente, seus exóticos traços felinos se sobressaíam, gerando um encanto natural a qualquer garota (ou garoto) que o vislumbrava.

Não estava com um rosto amigável e nem respondeu ao sorriso das jovens na fila da danceteria que o observavam. Não que ele não fosse bem humorado; o era até mais do que o normal entre os de sua espécie, mas raramente sorria para humanos, seus caninos longos eram evidentes e até com os lábios fechados sentia que desconfiavam de sua peculiar dentição. Viu uma estranha movimentação na fila, todos se afastavam de um indivíduo que tentava abrir espaço na direção oposta da porta da boate. Balder sabia quem era e porque estava correndo. O vampiro apressou os passos até começar a correr, contendo-se para não divulgar sua velocidade sobre-humana coisa que aquele maldito a sua frente já não fazia questão de disfarçar. Desde que conseguiu se livrar da fila, o indivíduo corria a ponto de virar um mero vulto aos olhos humanos. Sorte, pensou, que com a escuridão do lugar isso não causou grande tititi ou filmagens de celular que posteriormente apareceriam na internet. Porém, graças a atitudes assim que aquele idiota era agora convocado para comparecer à maior hierarquia da cidade.

Rapidamente ele alcançara o final da quadra, obrigando o ruivo a correr mais rápido, confiante que a má iluminação das calçadas não revelariam sua velocidade anormal. Mais ágil e experiente a esse tipo de perseguição, Balder, em segundos, já estava a poucos metros do vampiro que fugia. Este tentou pular um muro, porém o ruivo atrapalhou-o puxando um de seus pés. O fugitivo se desequilibrou sobre a barreira de concreto e caiu do outro lado em um grande estrondo. Balder sentou-se no topo da grossa parede e disse com sua voz rouca:

- Assim você nem me fez tentar respirar. - os caninos super pontiagudos se destacavam entre os lábios sorridentes - Péssima fuga para alguém que fez uma bela merda essa semana, Andrew.

O vampiro tirou a lama do rosto e se virou para o outro, a expressão tentava passar desafio:

- Piada ouvir isso de um Labyrs traidor como você – Andrew tocou na mancha avermelhada que se espalhava pela barra de sua calça jeans e por um instante seu rosto demonstrou a dor que sentia naquele lugar - Sempre achei ridículo usarem justamente um traidor para ser o braço direito do General de Berlim...

Balder, sem mudar a expressão animada, pulou cravando os coturnos no chão enlameado. Como aquela lenga-lenga Vox sobre seu passado o entediava:

- Pois eu sempre achei patético alguém que não gosta das regras da cidade insistir em ficar por aqui - rapidamente inclinou-se puxando o pé machucado e derrubando o sujeito que agora tentava se levantar. Cravou as unhas afiadas no local ensanguentado, observando tranquilamente a mancha de sangue aumentando no calcanhar - Estripar um padre, na própria igreja, antes de uma missa... Vamos lá, você era um coroinha e te foderam quando mortal? Ou você é daqueles fanáticos que acham que a igreja é manipuladora e deveria se extinguir? - pisou em sua virilha, satisfeito por ouvir um gemido de dor - É bom você preparar sua justificativa logo, hein, Andrew, você é uma merdinha nessa cidade e só não está morto agora porque o General faz questão de ouvir de sua boca o que aconteceu. Ou quer matá-lo com as próprias mãos, difícil saber o motivo de ele exigir que eu te leve com a cabeça no pescoço.

O ruivo sentiu o celular vibrando em seu bolso. Andrew o xingava de sabe-se lá o que novamente, mas Balder o ignorou, limitando-se a arremessá-lo contra o muro para calá-lo antes de atender a ligação. Era um de seus subordinados encarregados de achar os Vox que frequentemente acompanhavam Andrew:

- Vamos ver se os seus amiguinhos tem mais bom senso que você e saíram de Berlim ontem mesmo, Senhor Revoltadinho... – murmurou, sua face irônica perdeu o sorriso quando ele ouviu apenas um som irritante no telefone, alguém falava, mas tamanha era a interferência no sinal que ele não conseguiu decifrar palavra alguma. Impaciente com a estática, desligou e voltou sua atenção para o loiro que mancava a alguns metros à sua frente, prestes a correr.

A diversão voltou à face do Labyrs, achava engraçado como todos os idiotas realmente acreditavam que conseguiriam escapar dele, poderia muito bem segurá-lo agora, mas deixou-o se afastar mais. Não apenas as músicas e o sistema de transporte mudaram para pior, os vampiros mais novos, concluiu, estavam cada vez mais risíveis . A velocidade com o que o loiro corria era quase equivalente a de um humano agora que um de seus pés estava machucado:

- Caralho, Andrew, como você é ridículo! Você nem estava perto de nascer como humano quando me chamaram de traidor. A única coisa Vox que corre na sua veia é a arrogância, seu idiota! - Gritou enquanto retornava a ligação, os olhos cravados no vampiro que fugia.

Porém, antes que Balder pudesse recomeçar a perseguição, um som fino cortou o ar e ele viu um objeto atravessando o corpo de Andrew. O grito do loiro ecoou no lugar por alguns segundos, tempo que a lança demorou para fincar-se na lama e erguê-lo do chão. Faíscas em formas de tentáculos saiam do lugar onde a arma de prata rasgara-o. A face se contorcia em horror, a boca aparentava continuar a gritar, entretanto o único som audível agora no local era o de seus membros queimando em meio aos espasmos. Ele definhava envolto em luz prateada. Lama e sangue escorriam pelo rosto de Balder, ele não se incomodou em limpar aqueles respingos da ação brutal, nem os notara, assim como demorou a perceber que o barulho irritante voltara ao celular nos últimos segundos interrompendo a ligação. Observou a cena (e continuava) paralisado:

- Realmente, um idiota. - disse uma voz grave, ecoando no outro extremo do terreno.


Continua em: Cruz Sobre Berlim - II parte 2

Marolas do Aqueronte - Parte III


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte II

- Eu achei que elas só atacavam mulheres grávidas! – Protestou Remmy. Por ter uma maga tão pouco convencional como preceptora, o garoto era obrigado a estudar diversas culturas e, consequentemente, as criaturas folclóricas que compunham as crenças daqueles povos. Lembrava-se vagamente da penanggalan, principalmente por seu aspecto tão asquerosamente peculiar. – O que diabos ela está fazendo aqui?

- Ela é serva de um necromante, fará o que lhe for ordenado, bonitinho. Porque você acha que vampiros não se associam com este tipo de magos, se não para conservar o seu livre-arbítrio? – Sasha mostrava-se um pouco exasperada. Obviamente não estava habituada a explicar coisas tão elementares para as pessoas. Apertou a empunhadura do chicote e murmurou uma fórmula mágica. O chicote começou a incandescer, lentamente, a partir dos dedos da mercenária até as pontas prateadas:

- Ok, e como a gente mata? – Perguntou Hector, hesitante. Os dentes e suas unhas continuavam com aparência bestial, e os olhos emitiam um fantasmagórico brilho âmbar. Respirou ruidosamente, como se rosnasse um aviso para a vampira não chegar mais perto. Inútil. A cabeça e as vísceras continuavam a se aproximar lentamente.

- Batendo? – Sugeriu Remmy, com um sorriso amarelo.

- Precisamente. Na verdade, o ideal seria destruirmos o corpo, mas não acho que será assim tão fácil com aquele escudo ao redor dele. E a cabeça vai fazer de tudo para protegê-lo, também... – Resmungou Sasha, visivelmente impaciente. O cenho franzido da mercenária denunciava o quão insatisfeita estava com aquele falatório todo em um momento tão delicado. A mulher não esperou resposta dos garotos, deu três passos adiante, ergueu o punho na altura do rosto e, com um movimento brusco, estalou a arma. O chicote sibilou e rasgou o ar como um raio de fogo. Os cravos enrolaram-se nas vísceras da vampira, que berrou um desafio tão agudo que os três garotos levaram as mãos aos ouvidos, com caretas de dor. O grito da penanggalan pareceu distorcer o ar ao seu redor, como se a criatura regurgitasse uma espécie de tentáculo transparente. Ergueu a cabeça em direção ao firmamento, direcionando o desafio para os céus.

- Isso aqui está ficando cada vez melhor... – Disse Dorian, enfiando a mão no bolso mais uma vez. Hector precipitou-se pela clareira, ganhando terreno rapidamente. Remmy espalmou as mãos na frente do corpo, unindo os polegares e os anelares, recitando rapidamente uma fórmula mágica. O corpo do lobisomem cintilou em azul por um segundo, depois voltou ao normal, mas a velocidade do rapaz aumentou consideravelmente, chegando a deixar um borrão difuso às suas costas ao correr pelo lugar. Os dedos de Remmy mudaram de posição quando o garoto inverteu o sentido de uma das mãos e voltou a murmurar outra fórmula; entre suas mãos, uma luz verde explodiu, lambendo-lhe os dedos como chamas cor de esmeralda.

A assassina continuou a investida, puxando lentamente o chicote e fazendo a penanggalan se aproximar contra a sua vontade. Sasha pisou no açoite, prendendo-o sob o salto, e com a outra mão puxou um dos frascos do cinto. Em um movimento rápido, jogou-o no chão, estilhaçando o recipiente; o líquido se espalhou e foi absorvido pelo solo, e no instante seguinte uma bruma purpúrea começou a brotar onde a poção fora derramada. Dorian, percebendo a dificuldade de Sasha em manter a vampira parada, entendeu imediatamente o que deveria fazer: puxou do bolso algumas bolinhas castanhas e enrugadas, atirando-as ao chão bem abaixo da criatura. Em seguida, cravou os dedos na terra e, jogando a cabeça para trás, murmurou mais uma fórmula mágica.

- Eu cuido para que ela fique parada... - Disse entre dentes, os olhos apertados como se não quisesse ver o que aconteceria a partir dali. - ...vai e mata essa vadia!

A fumaça purpúrea fora aspirada tanto por Sasha quanto por Dorian, e o efeito já começava a ser sentido pelos dois. No instante em que o morto-vivo baixou a cabeça, mais três tentáculos translúcidos haviam brotado do fundo de sua garganta e serpenteavam pelo ambiente. Um deles chicoteou o chão logo abaixo de si, fendendo a terra e erguendo uma nuvem de poeira e plantas no exato instante em que as sementes que Dorian atirara germinavam magicamente. Grandes espinheiros se desenvolveram ao redor do morto-vivo, alguns ainda no solo, outros em pleno ar, e alguns dos ramos enroscaram-se e desenvolveram-se ao redor das vísceras do penanggalan, que berrou ainda mais alto. Os pulmões da vampira inflaram, e a criatura movimentou a cabeça de forma a fazer os três tentáculos varrerem todo o terreno. Hector facilmente desviou, pulando sobre a cabeça e dirigindo-se ao corpo no interior da mansão. O ar ao redor de Remmy, Sasha e Dorian começara a ser distorcido, todavia o mago loiro não fora rápido o suficiente para preparar uma defesa satisfatória: a barreira fora vencida com facilidade e os três foram atingidos; Sasha e Remmy curvaram-se para frente, e Dorian caiu de costas na terra, com sangue escorrendo da lateral dos lábios. A assassina arfou, engolindo grandes quantidades de ar e pondo-se de pé o mais rápido possível - e mais lentamente do que o aceitável, quando se tem um monstro na sua cola. Remmy, de joelhos na terra revolvida, apertou os dentes.

Sasha recolheu o chicote rapidamente. Com um novo movimento, fê-lo enroscar-se a um ramo de espinheiro mais grosso, metros acima da cabeça do penanggalan e puxou uma das adagas de obsidiana. A névoa permitia que a assassina enxergasse mais claramente na penumbra do local, bem como aumentara consideravelmente a sua agilidade – não se equiparava ao sangue élfico. A mulher puxou o chicote, firmando-o, e correu na direção da vampira, descrevendo uma trajetória semicircular ao redor dela. A vampira investiu mais uma vez, os três tentáculos amalgamaram-se em um único, cravando-se aos pés da assassina, erguendo mais uma nuvem de terra e grama no ar, encobrindo tanto a si mesmo quanto a Sasha.

Neste instante, Hector chegara à soleira da porta da mansão, porém, parecia impossibilitado de entrar por uma nova barreira invisível. O lobisomem socou o ar, e um estrondo se propagou instantaneamente. Um ganido, e o corpo de Hector foi atirado para trás violentamente.

Dorian, já restabelecido, ergueu os olhos para o combate que se desenvolvia alguns metros adiante. Remmy, percebendo que Hector precisava de ajuda, pôs-se de pé e correu em sua direção. Sasha, habilmente, saltou até um galho mais grosso, e sobre outro, pulando diretamente sobre a criatura e içando-se com a ajuda do chicote. Os ramos de espinheiros apertaram-se ao redor das vísceras da vampira, quando Dorian fechou a mão em punho, com uma expressão carrancuda. – Morre, vadia! – Cuspiu. A vampira arregalou os olhos, rubros e brilhantes, cravando-os em Sasha, que caía livremente em sua direção com uma adaga negra em uma mão, e o cabo do chicote na outra. O brilho nos olhos da penanggalan intensificou-se. Dorian, percebendo o que ia acontecer, ergueu a outra mão no exato instante em que duas rajadas sangrentas escapavam dos orbes oculares da sinistra criatura.

Quando Remmy se aproximou de Hector, este já estava de pé mais uma vez e murmurava que estava bem. O loiro mostrava uma expressão conturbada no rosto, mas não perguntou mais nada, simplesmente disse: - Me ajuda a quebrar esta barreira, então. Vamos destruir o corpo dessa vadia juntos! – Hector anuiu, com um meio-sorriso, e repetiu a fórmula mágica de Remmy. Ambos entoaram em uníssono o cântico, e espalmaram as mãos diante do corpo ao mesmo tempo. A barreira oscilou e faiscou. Uma rachadura apareceu bem diante dos dois. O loiro, impacientemente, precipitou-se para frente e chutou a parede invisível no ponto fissurado. A barreira pareceu revidar da mesma forma que fizera diante da primeira investida de Hector, mas Remmy não recuou. – Quebra! Quebra! QUEBRA, PORRA!!! – O terceiro chute foi mais forte. Um clarão se deu no exato instante em que o solado do sapato de Remmy encontrou a barreira, e a mesma se estilhaçou. Uma súbita rajada de vento brotou do interior da casa, jogando-os alguns metros para trás e afastando toda a poeira e fumaça da clareira às suas costas, onde Sasha e Dorian enfrentavam a cabeça.

- Ali está o corpo... Vamos! – Disse Remmy, mas foi Hector que tomou a frente, correndo em sua direção. As luzes da casa então apagaram-se de súbito.

Sasha, salva pelo escudo de energia que Dorian conjurara, cravara a lâmina de obsidiana diretamente no coração da penanggalan. O espinheiro apertou-se ainda mais em torno da vampira, que berrou mais alto – desta vez de dor. Os tentáculos agitaram-se mais rapidamente, um deles atingindo Sasha diretamente na face e lançando-a para trás. O chicote incandescente da assassina fora o que a impedira de cair sobre os ramos de espinheiro, e o que a ajudara a utilizar o impulso do golpe para descrever um semicírculo e aterrissar em segurança no solo revolvido. Ali, com um torção mais forte do pulso, fez o galho se partir logo acima da cabeça e cair sobre ela. A adaga ainda estava cravada no coração pulsante quando, em um último esforço, a vampira expeliu uma nova rajada de energia pela boca, desta vez misturada à podridão de suas entranhas decompostas. A assassina saltou para o lado e o tentáculo sangrento atingiu o solo no ponto onde ela estivera.

Uma pequena explosão se fez ouvir no interior do palacete, e quando Dorian e Sasha ergueram os olhos para a porta de entrada, o que viram foi o corpo sem cabeça da penanggalan ser atirado na clareira com violência ímpar e, no instante em que tocou o solo, irromper em chamas negras. A cabeça também fora carbonizada, vítima do mesmo feitiço conjurado por um Remmy carrancudo que saía da escuridão da mansão para a penumbra do terreno.

- Tudo certo, podemos prosseguir. – Disse. Sasha virou para o lado e cuspiu uma grande quantidade de sangue, depois se aproximou do espinheiro e, com um movimento brusco, arrancou a adaga do coração em chamas da vampira morta.

- Conheço uma vampira que iria adorar a obra de arte que você fez aqui, Dorian. – Disse, sorrindo. – Foi uma escultura e tanto. – Piscou para ele, finalmente, antes de se virar na direção da porta. Ele a havia surpreendido mesmo, no final das contas.