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A Morte e a Donzela



Conto bem bobo para comemorar o Dia dos Namorados e matar a curiosidade de quem leu o conto Máscaras. Não se esqueçam de comentar!



O homem tombou sobre o suntuoso carpete púrpura. Parecia um fantoche sem mestre, a cabeça apoiada de qualquer maneira sobre seus braços moles e as pernas estendidas em uma posição nem um pouco confortável. Os olhos por trás da máscara observavam cada detalhe daquela cena, apreciando os furos no pescoço, ainda pulsante, do moreno. A vampira lambeu os próprios lábios rubros degustando as últimas gotas de sangue e se levantou.

A máscara dourada cobria os detalhes da metade superior de seu rosto e delineava seus olhos de tal maneira que a íris cor azul parecia ser a única coisa viva sobre a face redonda e pálida. Se sua vítima parecia uma criatura de tecido, ela parecia uma boneca de porcelana, tamanha delicadeza (e inexpressividade) do rosto sob a máscara. Cobriu sua nudez com um roupão de seda da mesma cor que o chão e só então se voltou para o sujeito que dormia profundamente aos seus pés. Ele não era tão agradável quanto muitos outros que já compartilharam de sua companhia, mas seu sangue tinha um sabor que a inspirava a pensar em novas criações.

Observou a máscara branca que cobria o rosto dele, lembrando-se dos versos recitados com tanta paixão há alguns minutos. Como ele fora romântico, insistira em criar um poema especialmente para hoje, dia que aparentemente significava muito para os mortais. O quanto aquelas palavras valeriam para uma humana? Alguns versos firulescos e uma ninfeta de respeito da burguesia o convidaria para entrar em sua casa para uma conversa íntima? Provavelmente sim, quantas não sonhavam com uma desculpa para permitir algum avanço dos homens que as cortejavam? Se ajoelhou retirando a máscara do amante:

- Não era isso que você esperava hoje, era, meu amor? E eu achava que você seria o menos enfadonho dos meus homens hoje, tsc. - Sorriu, divertindo-se ao pensar no que ele faria ao acordar e notar as feridas no pescoço e a fraqueza no corpo. Provavalmente sumiria, envergonhado pela tentativa falha de sedução e, claro, medo.

Despreocupada, limpou algumas gotas de sangue que respingaram sobre a superfície lisa da máscara e então se dirigiu a uma parede do cômodo. Centenas de máscaras cobriam todos os cantos do lugar, ali não havia janela alguma, móvel algum, apenas um lustre dourado iluminava aquelas criações de infinitas cores e texturas. Maeve cruzou os braços, concentrada em decidir qual máscara não mais merecia pertencer a sua amada coleção. Apontou uma azulada, cujas plumas e cor lhe pareceram velhas demais.

- Morta demais. - murmurou, batendo o dedo indicador nos lábios.

A retirou da parede, colocando-a sobre o rosto do desfalecido. Ajeitou-o no chão da maneira que acreditava ser a mais confortável para um humano dormir e deu-lhe um beijo rápido nos lábios cobertos de porcelana.

Saiu do cômodo cantarolando uma música de Schubert que ocasionalmente vinha-lhe a mente quando sentia saudades de seu mentor e que seria a que ouviria por toda a noite, mais uma das que passaria ocupada até o amanhecer com o que mais amava.

3 comentários:

Anna Carolina Schermak Alves disse...

Quanto tempo não lia um de seus contos.
Agora noto quanto sinto saudade dos seus vampiros.
Acho que poderíamos juntar os contos do Manuscritos e fazer um livro!
Beijos Helu!

www.pausaparaumcafe.com.br

Thiago disse...

Então é essa a doida que foi capturada depois. Também, vacilou!!! Chamou muita atenção... Muito bom o conto. Curtinho e gostoso de ler. E o melhor: é um spin-off, ou algo parecido com isso (para os especilistas no assunto não me matarem), da estória original. Adoro ler sobre passados quando é bem esrito e interessante como esse conto. Aliás, senti muita falta dos contos!!

Michele Bowkunowicz disse...

oi,
otimo conto!
adorei seu blog,
estou te seguindo, segue o meu tambem
http://www.lostgirlygirl.com

bjos