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Cruz Sobre Berlim III



Continuação de: Cruz Sobre Berlim - II parte 2

As portas de vidro abriam e fechavam violentamente com o forte vendaval que assolara a madrugada. A cada abertura, as folhas secas do jardim mal cuidado invadiam o recinto e foi em um desses momentos que a figura animalesca se aproveitou para entrar na sala. Seus passos, fracos e cambaleantes, deixavam rastros negros pela assoalho de madeira a medida que se aproximava do tapete imundo que algum dia servira de enfeite para o cômodo. Jack mal colocara as patas dianteiras no tecido quando tombou, fraca com os ferimentos abertos por todo o corpo escamoso. O cansaço perante a tanta dor a dominou e fechou os olhos tentando ignorar a recuperação inquietante de seu corpo ferido. Os músculos ao redor da mandíbula exposta pulsavam conforme cresciam vagarosamente, o ombro deslocado contorcia-se e estralava à medida que a clavícula destruída se regenerava, ah, e o ardor... como era insuportável a abertura dos antigos ferimentos de séculos de batalhas contra os Templários.

Sim, ela fora estúpida. Não olhou ao atravessar a rua e não, não prestara atenção alguma ao som do trambolho a poucos metros de distância. O ódio pelas fisgadas que lhe percorriam os membros naquele momento era maior do que qualquer cautela que poderia tomar, era tão difícil Balder entender isso? Como ele conseguia manter os pensamentos em ordem com a proximidade do inimigo secular? Os sentidos se perdiam na vontade irresistível de dilacerá-los, de colocá-los em seu devido lugar, como reles humanos que eram. Ah, mas seu garoto nunca se deixara levar pela raiva, dor ou pelo temor a esse ponto. A não ser, é claro, quando alguém cometia uma burrada como a de atravessar a rua ignorando o enorme caminhão de carga se aproximando. Jack imaginou o quanto ele a xingara enquanto estava desacordada, os gritos de repreensão ainda soavam em seus ouvidos. Não respeitara sua dor pelos ferimentos, não se importava realmente com o seu estado, queria mesmo era que ela saísse do local antes que os policiais chegassem. Com certeza a essa altura já se livrara do corpo de Andrew e estava dando um jeito nas câmeras de segurança da quadra inteira.

Certinho insuportável, não parou o sermão nem quando me alimentou. Pensou e riu, ou melhor, tentou rir, contudo apenas um som gutural saiu entre seus dentes animalescos lembrando-a que nessa forma não conseguia rir, assim como não conseguia apalpar ou ver o estado das cicatrizes reabertas. Agoniada, ergueu-se postando as quatro patas no chão e emitiu um novo rugido. A medida que as escamas negras de seu corpo escorriam sendo absorvidas por uma camada vermelho escuro, os ganidos viraram tosse e posteriormente um gemido de dor. Nunca se acostumara com a transformação brusca de volume e forma, o mal-estar era muito, muito, pior do que o de dar a luz. Ossos estalaram a medida que perdiam dimensão, a crosta escura diluíra-se, parte virara seu sangue, parte manchara mais o tapete. Agora seu corpo pesara metade do que há alguns minutos, os contornos bestiais viravam membros delicados. A respiração diminuía voltando a inércia da morte, o olfato perdeu a prioridade para a audição e a visão. Girou o corpo raquítico postando as costas na trama umedecida e tomando consciência dos limites de sua nova forma, até que conseguiu movimentar os dedos e levá-los ao ombro deteriorado:

- Precisa de sangue?

Jack observou o imortal à poucos metros de distância. Os olhos azuis encaravam-na serenamente, os fios loiros e longos brilhavam com a fraquíssima iluminação do cômodo. A luz da cidade parecia que invadia o lugar somente para isso, para iluminar aquele belíssimo rosto alvo. Sentado no sofá encardido, parecia pairar no ar tamanho o contraste de suas roupas claras com a imundice ao redor. Era como um anjo, cuja reles presença era suficiente para zombar de sua vida mundana. O nome lhe caía bem. Oh, o tão perfeito, límpido e superior Uriel:

- Sangue... Ah, chefe, seu precioso sangue ainda envenena minhas veias. - a ruiva murmurou com dificuldade. Os músculos do maxilar não se recuperaram totalmente, mas, por mais estranho que soasse suas palavras, precisava zombá-lo – Se eu tomar outra dose, conseguirei te ouvir em minha cabeça quando precisar de mim? Ou baterá palmas e eu aparecerei ao seu lado quando você bem entender?

- Talvez sua língua se torça ou seus lábios crispem toda vez que você tentar fazer piadas. Isso seria interessante de ver e nunca mais ouvir. - ele respondeu suavemente, o rosto não demonstrando nada além de indiferença.

Jack impulsionou o corpo sentando despojada. Estava nua, ferida e imunda, mas os olhos misteriosos do pacificador não a intimidavam. Encarava-o entre as longas mechas ruivas e desgrenhadas que cobriam seu rosto juvenil:

- Há quanto tempo você está aqui?

- Tempo suficiente para lembrar porque marcamos de você sempre me encontrar e não o contrário. Sabia que tem ratos no andar de cima comendo seu dinheiro?

A vampira revirou os olhos, odiava alguém remexendo suas coisas. Forçou um sorriso:

- E porque veio, Uriel? - colocou-se de pé aguardando a resposta do Vox. Jack estranhou o silêncio e a rara expressão que ele exibiu por alguns segundos. Seria tristeza?

- Você até parece que foi atingida por um trem.. - desconversou, taciturno.

- Por um caminhão para ser mais precisa. - confessou zombeteira. Fitou-o ainda tentando interpretar aquela expressão quando ele baixou os olhos e passou a observar atentamente seu corpo esguio. Não era uma observação maliciosa, o fato dela estar nua não significava nada para o imortal. Ela sabia que Uriel não admirava seus pequenos seios ou seu ventre magro, o que lhe chamava a atenção em sua pele eram as cicatrizes inchadas e avermelhadas por todo o corpo, em particular o corte profundo abaixo da costela. A marca pelo estilleto de algumas noites atrás ardia e pulsava novamente. Os ferimentos provocados pelo caminhão distinguiam-se daqueles cortes que tinham volume como se foram marcados a brasa. Eram cicatrizes de atritos anteriores com os Templários, normalmente arranhões sobre a pele, mas que após o contato com o poder de um dos 13 reabriam e mutilavam por um bom tempo. Pelo visto, Uriel entendia o que isso significava:

– Um do grupo é um aprendiz e bem poderoso. Fez um puta estrago em mim e no Balder agora.- Jack murmurou apertando o machucado mais recente - Você tinha razão, acho que eles estão completos dessa vez, para ousar vir aqui treiná-lo...

- E fugir – o loiro completou tranquilamente e voltou a fitá-la.

- Se não fosse pelo caminhão, nós o teríamos capturado. - mentiu. Balder não prolongaria uma perseguição deixando para trás um terreno cheio de evidências, era fiel demais aos desejos de discrição do General para ousar assim. A verdade é que ela sozinha e cambaleante após o golpe do pirralho nunca conseguiria alcançá-los naquele distrito cheio de ruas, becos e civis. Não sem causar um estardalhaço. - Balder não fazia ideia do que aconteceu naquela noite, pensei que você falaria para o Fahd que eles estavam te vigiando.

- Ora, ele é o General – Uriel deu de ombros, desinteressado, e observou as portas que davam acesso ao jardim, elas continuavam a abrir e fechar conforme o vento úmido arejava o lugar – Ele já sabe e com certeza sabe sobre a mulher também. Fahd só gosta de fingir que não nos espiona através das sombras, mas porque não o faria? - sorriu misterioso.

A garota perpassou os olhos pela pequena sala e subitamente se sentiu desconfortável com a escuridão que a envolvia de vértice a vértice. Contorceu o rosto de nojo pela suposição. Certamente você o faria, não é, seu idiota?

- Não quero que os investigue mais, Jaqueline. Deixe-o lidar com isso. - A Labyrs abriu os lábios prestes a protestar, porém Uriel a interrompeu incisivo - Berlim vai ser a menor das nossas preocupações agora.

- Pff, sim senhor. – resmungou dando as costas e se afastando do Vox, ignorou que obviamente ele falaria mais alguma coisa. Estava furiosa pela constatação que não poderia se vingar daqueles dois. O cansaço, as dores e o cheiro que seu próprio corpo exalava pareciam insuportáveis agora e ela realmente estava de saco cheio de aguentar aquele hipócrita em sua casa – Agora que me dispensou do trabalho, você pode tirar seu corpinho lindo daqui e ir embora, né? Eu realmente preciso de um banho.

- Mikhail está morto. - a menção daquele nome a fez parar – Basil me ligou há algumas horas. O Kremlin caiu em chamas matando metade da nossa população de Moscou.

E um monte de humanos pervertidos também, Jack quis completar, mas apenas virou-se e o observou. Uriel não a encarava, levantara do sofá e estava concentrado em tirar a camada de poeira de suas roupas:

- O nosso Kremlin obviamente, não o Kremlin russo.

- Uouuuu – marota, a garota sorriu expondo os caninos e se encostando no batente do corredor. Isso sim era uma excelente notícia e impossível de não ser tratada como tal. – Finalmente ele se queimou com aquele cetro maldito? Demorou para uma merda acontecer com aquela arrogância purificadora, hahaha – zombou analisando a face calma de Uriel. Era isso que os olhos dele transmitiam? Luto pelo irmão repugnante? - Meus pêsames, chefe. Pode deixar que amanhã cedo eu aparecerei para ajudar nos preparativos na reuniãozinha dos pacificadores. Será aqui ou em Moscou?

Uriel fitou-a intensamente, os olhos azuis cravados nos seus. Molhou os lábios:

- Jaqueline, por que você não me falou que Ekaterina veio a Berlim há algumas semanas?

O tom austero fez a ruiva esticar a coluna e se afastar do batente:

- Quê? O que isso tem a ver com Mikhail? - irritada, colocou as mãos no quadril como uma pequena adolescente respondendo a questionamentos do pai - Eu não disse porque ela não deixou recado algum para você, chefe. Agora quer que eu fique fofocando quando encontro sua esposinha? - ah, isso teria desconsertado Ekaterina, mas nunca funcionava com Uriel. Precisava achar uma maneira de evitar que ele fizesse uma pergunta direta. - Não é da minha conta a briga de casal, ok?

- Jaqueline, vamos lá. Sua língua ferina sempre fez questão de contar como a vida de Kath ficou enfadonha após o Indulto. Toda vez que a encontra eu escuto no mínimo uma piadinha sobre a conversa que tiveram. Sei que ela esteve aqui mês passado e você acaba de confessar que conversaram.

- E daí?! Puta que pariu, o que isso tem haver com seu irmão? - a ruiva protestou, mas já sabendo qual seria a resposta. Ah, o padrão de comportamento dos bons e velhos tempos:

- Um incêndio repentino, ausência de tentativa de fuga, os únicos resquícios de luta estão nas acomodações do General... E preciso destacar que ele era um Vox prometido de morte por você e Balder? Acha mesmo que é possível ignorar como vocês eliminavam a corte inteira de uma cidade no Indulto de Sangue? Nem você e nem ele conseguem sair daqui sem autorização, só resta ela para desconfiar. Responda-me agora, na última vez que você a viu, Ekaterina te falou alguma coisa sobre Mikhail? O que ela disse?

A Labyrs crispou os lábios prontos para ceder ao poder que o sangue do Vox exercia sobre o seu. Sentiu as palavras se formando, a língua mexendo involutariamente querendo lhe responder. A Ingenium não era exatamente uma amiga, na verdade, eram mais cúmplices do que qualquer outra coisa, contudo isso não significava que poderia traí-la. Se realmente conseguira este feito, Jack lhe ofereceria todos os pescoços da Europa para que se saciasse. Percebeu a própria cabeça vagarosamente se movimentando para baixo e para cima, não havia força de vontade que resistisse a uma dominação de sangue. Um sim arrastado escapou de seus lábios:

- Ela perguntou porque eu o traí e me pediu detalhes de como poderia entrar em Moscou sem que Mikhail soubesse. “Silenciosa surpresa”. - murmurou, sua face ganhando a serenidade misteriosa que a Ingenium comumente expressava. Repentinamente o rosto se contorceu em ódio, os olhos verdes fuzilando o loiro. Gritou - Kath não seria estúpida de fazer exatamente o que fazíamos, Uriel! E ela nem tem mais voz para hipnotizar assim, ela não canta mais!

Ele sorriu, curioso com a afirmação:

- Você realmente acredita que a Voz dos Ingenium “morreu”? Infelizmente, eu sei que Basil não acredita. Quando me ligou, foi percetível que... Ele sabe de mais alguma coisa. - crispou os lábios, cauteloso. Era hilário como os três vampiros responsáveis por manter o clima amigável entre as Famílias não conseguiam algo tão simples como confiar um no outro. Por alguns segundos, observando a face inegavelmente preocupada de Uriel, a ruiva se sentiu aliviada por ser ele o carrasco de sua sentença. Provavelmente já estaria morta se fosse submetida a rígida disciplina de Basil. - Quando nossos inimigos souberem que Moscou está sem um General, a cidade vai entrar em guerra, não dá para ignorar o responsável por isso. Basil já a está caçando, eu sei, e é por isso que você deverá encontrará-la primeiro, Jaqueline. Encontre-a e a traga viva até mim.

Continua em: Cruz Sobre Berlim IV - Final

7 comentários:

Ana Paula Lima disse...

A descrição da metamorfose de Jack foi FANTÁSTICA. Parabéns Helu. Demora não! Posta logo a continuação...

[јuṡτ] яuαṉ disse...

Olá Helu, tudo bem?

Acabei de ler a sequência da Cruz Sobre Berlim... muito bommmm, essa foi uma continuação pra deixar qualquer leitor morrendo de ansiedade hehe, ainda bem que li os 3 de uma vez, teremos mais alguns? u.u

Sempre gosto do Uriel, indiferente como sempre rs, parabéns!

[јuṡτ] яuαṉ disse...

Ah, esqueci de avisar, o link pro e-book 31/10 não está funcionando mais no meu blog, e vi que aqui no seu também não, se arrumarem depois me mande o que devo colocar plz (;

OBS: Apaga esse comentário hehe

Lucas T. Costa disse...

Ruan, segue o link correto do livro:

http://www.manuscriptsoftheshadows.com.br/trintaeumdodez.pdf

[јuṡτ] яuαṉ disse...

Muito obrigado, deu certo, abraços!

Helu disse...

Ruan, Ana, obrigada pelos comentários, que bom que gostaram da transformação, essa crônica/saga/whatever nasceu por causa desse capítulo, da transformação e da conversa do Uriel e Jack, então fico feliz mesmo que tenham gostado. Foi tenso escrever com o Uriel pois ele é a estrelinha do Manuscritos, Ruan hahaha, como honrar a escrita do criador dele??

Ainda esse mês o Cruz vai ser finalizado, continuem acompanhando :)

Lucas T. Costa disse...

Ficou excelente! Jack como sempre chutado bundas, hahahaha o final, quando o Uriel faz ela falar, me deixou muito empolgado. Ficou super bem escrito!!! Ela citando o que a Eka disse, e eu "será que ela falou isso mesmo?" *corre para pesquisar nos textos* ahuaha *O*

E o Uriel ficou super fiel também! Tu sabe que 95% do que tu fez aí eu não precisei apontar, só elogiar, né? *o*

Mas o medo é compartilhado, hahaha não sei se fiz jus ao Leon, também ç.ç