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Marolas do Aqueronte - Parte V


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte IV

Os olhos dourados do magista encontraram os de Remmy, que os sustentou bravamente. O jovem mago sorria com deboche, e deu um passo adiante. Nos dedos, as baquetas de bateria rodopiavam habilmente, como se tudo aquilo fosse apenas a preparação para um novo conserto de rock, e o rapaz quisesse desestabilizar emocionalmente o adversário.

- Patético é você, cuja insignificância é tamanha que nunca despertou o interesse de meu pai. – O rosto de Aurel endureceu por um segundo, revelando linhas estatuescas e repletas de raiva. O desenho do sorriso que se fez em seguida não passava de um esboço mal feito. Remmy continuou, percebendo que tinha tocado num ponto sensível: - Você imagina como fiquei sabendo dos artefatos que você mantém em seu poder, não é? – Murmurou, malicioso. O dedo polegar deslizou lentamente pelo lábio inferior, como se o curvasse para um sorriso genuinamente maldoso. – Muito ingênuo de sua parte mandar aquela carta para o meu pai. Acho que você ficará desapontado em saber que... ele nem a abriu, ao ver o remetente... Heh. – Obviamente tratava-se de uma mentira, mas o garoto continuou com a farsa mesmo assim: - Coube a mim ler o seu humilhante pedido de ingresso na Ain Soph, e também a relação dos... como foram mesmo as palavras que você usou? Ah, sim, “espólios que, por ventura, venham a interessá-lo pela sua natureza funesta e pela inestimável fonte de poder que contém e que seriam muito convenientes à organização, dado o teor primordial dos seus estudos.” Hah... hah... – O garoto bateu palmas, como se estivesse ovacionando um poeta particularmente talentoso, ou um bufão especialmente idiota.

Os olhos ambáricos de Aurel estreitaram-se perigosamente. Seu rosto nada mais era do que uma carranca indecifrável. Os lábios, apenas uma fina linha avermelhada, e a pele, se é que era possível, estava ainda mais macilento e doentio. Os dedos descarnados apertaram-se mais em volta do espadim, e quando abriu a boca para revidar, as palavras saíram com uma força e determinação pouco esperada de alguém cujo orgulho fora ferido de maneira tão íntima.

- Confesso que era do meu interesse ingressar na organização, mas isso não implica em qualquer tipo de admiração de minha parte em relação ao seu pai. Reitero então as minhas palavras: Siegfried é patético, por julgar-se imortal valendo-se de artifícios tão prolixos e anódinos. Tudo tem o seu preço, e você e o seu pai são tolos ao pensar que o custo da imortalidade seria tão parco. – Os dedos da mão livre ergueram-se à altura dos olhos. Sorriu. Os quatro invasores, por um segundo, tiveram a nítida impressão de que vislumbravam o braço de um esqueleto, e não o de um humano normal. Não havia carne, sangue ou veias, tudo se tornou momentaneamente translúcido e luminoso. Queixos caíram, embasbacados, e à medida que o corpo de Aurel tornava-se mais claro, o ambiente escurecia, como se o bruxo sugasse toda a luz ao redor, e deixasse com que as trevas engolfassem todo o resto.

- Em todas as culturas do mundo é sabido que qualquer ação mágica acarreta reações potencializadas. Você mesmo está, neste exato momento, tentando se restabelecer da notável demonstração de poder que acaba de dar às minhas Lâmias. – Sorriu novamente, a língua negra e viscosa deslizando pelos dentes brancos e pela boca descarnada. Os olhos, por um átimo, tornaram-se ocas órbitas escuras, antes de brilharem mais uma vez com a luminosidade dourada que lhe fazia parecer tanto com uma pantera negra. Os movimentos eram fluídos, lentos e hipnotizantes, e os dedos ainda conservavam a pequena espada cativa, faiscante em meio à luz vertida pelos seus ossos. – Se você é imortal, precisa se alimentar de outras vidas. Precisa matar. A sua vida flui diretamente das veias de outros seres vivos e, acredite em mim quando falo que... a morte nunca é bonita. Assim como quem se vale dela para continuar vivo. É uma casca, um invólucro demasiado frágil e quebradiço, que separa isto... – Os dedos deslizaram na frente do rosto amorfo, que parecia descarnado, apodrecido e incrivelmente belo e vivaz ao mesmo tempo. - ...do que você é agora.

- Não entendi nada do que você falou, amigo... – Disse Remmy, dando de ombros. Mentia mais uma vez, era óbvio, pois em sua face estava impresso o quão marcantes foram aquelas palavras para ele. Punha em xeque muita coisa. A imagem de Fais, seus olhos purpúreos, cabelos arroxeados e pele extremamente pálida brotou em sua mente. Magia podia ter consequências bem ruins, ele sabia muito bem disso, especialmente quando se trata de necromancia. Depois, pensou em Teresa e em como ela costumava ser antes de tudo... e em como ela estava agora, com seus olhos febris e comportamento paranoico. E por fim, pensou no próprio pai, sempre tão austero, imaculado e distante. Aurel riu.

- Vampiros podem parecer a epítome da beleza para olhos mortais, assim como uma serpente pode ser absolutamente hipnotizante ao ser vislumbrada pelos olhos de um lagarto indefeso. – Mais uma vez a língua escura e viscosa deslizou, madeixas negras ocultaram momentaneamente os seus olhos e, quando o mago arqueou lentamente o corpo para trás, erguendo os braços. Ao redor de seus dedos, a escuridão avolumou-se, condensando-se. Tudo ao redor era negro, todos ali estavam suspensos no que parecia ser uma nova dimensão paralela, absolutamente diferente da outrora criada por Remmy. Ninguém se mexia ou falava, como se também aquilo fosse controlado pelo mago. Sentiam uma pressão intensa sobre seus ombros, praticamente impossibilitando que ficassem de pé ou respirassem. Gotículas de suor brotaram de seus poros, umedecendo a pele, tornando-a gélida como a dos cadáveres que acabaram de enfrentar. Sentiam, pouco a pouco, a energia de seus corpos se esvaindo como água escapando por entre os dedos, como o ar que lhes rareava nos pulmões. – Todavia, se souber para onde olhar, o que verá é a faceta real da criatura que se põe diante de você. São monstros. Somos... Monstros. Todos nós que, de uma forma ou outra, vivemos através da dor, energia e esperança dos outros...

Rapidamente, todos ali se viram sozinhos na escuridão. Por mais que olhassem ao redor, ou para si próprios, tudo o que viam era um intenso véu negro posto diante de seus olhos. A escuridão era tão densa e esmagadora, que era possível senti-la tocando a pele gelada, como um milhão de línguas lambendo-lhes voluptuosamente. Um arrepio correu pela espinha de Remmy, quando a Aurel se fez ouvir mais uma vez, como se sussurrasse diante do rapaz. O garoto sentiu a face sendo envolvida por duas mãos, direcionando seu olhar para cima, mas não viu nada ali. Engoliu em seco.

- Mas algumas pessoas pensam o contrário. São inocentes e se permitem sonhar... Sweet dreams are made of this... – Sussurrou, começando a cantar uma famosa música, em um tom cadenciado e letárgico, quase como uma canção de ninar. – ...who am I to disagree? I travel the world and the seven seas... Everybody’s looking for something.

- Porra. – Esbravejou Remmy, movimentando-se convulsivamente para os lados. O rapaz se deu conta de que estava de joelhos no chão, não conseguia se levantar, e as mãos dançavam aleatoriamente à frente do corpo, na vã tentativa de acertar o mago que lhe prendera naquela armadilha. Embora sentisse as mãos de Aurel segurando seu rosto, Remmy não conseguia acertá-lo, não conseguia vê-lo, apenas ouvi-lo sussurrando. Os silvos ecoavam dolorosamente em seus ouvidos, como unhas arranhando um quadro negro. A melodia e a voz que a cantava eram doces e serenas, mas a dor que lhe causava, a intensa agonia de não poder se livrar daquela influência era quase insuportável.

- Some of them want to use you... – Sussurrou a voz de Sasha, à distância. Pôde sentir a malícia gotejando de seus lábios, como mel.

- Some of them want to get used by you… - Remmy reconheceu a voz grave de Hector acariciando-lhe gentilmente, e sentiu como se pequenas agulhas adentrassem seus ouvidos. Uma dor aguda, excruciante.

- Some of them want to abuse you... – Era a vez de Dorian. A voz soou poucos metros adiante. Tudo parecia tão surreal que ele teve certeza de que na verdade tudo aquilo era a sua imaginação. Seus tímpanos explodiram em dor, sentiu o líquido quente e –imaginou- vermelho escorrer pela cartilagem e empapar a camiseta. Levou as mãos até os ouvidos, tampando-os, os dentes travados e o rosto retesado em dor. Todavia, a voz continuou a soar. Desta vez, uma que ele não ouvia há algum tempo.

- Some of them want to be abused... – A voz feminina fez com que ele arregalasse os olhos e perscrutasse o ambiente. Tudo o que viu foi nada. Escuridão. A voz continuava a cantar, desta vez apenas a dela. Lágrimas encheram os olhos do garoto, que continuava a olhar ao redor, girando em torno do próprio eixo com uma expressão desolada.

Já não sentia as mãos de Aurel no seu rosto, ao invés disso, sentiu os dedos dela fechando-se em torno do seu pulso. O calor do seu toque fez a sua pele arder e queimar, mas o menino não reclamou. Ela passou a mão pelos seus cabelos, ajeitando-os para trás, como se tentasse ver melhor os seus olhos. Os seus olhos.

- Mãe? – Murmurou ele fracamente.

- Hold your head up... – Pediu ela, ainda cantando com doçura. A mão deslizou até a nuca dele, e ele percebeu que mais uma vez estava de joelhos no chão. Sentiu o toque de sua mão sobre o peito, como se ela tentasse sentir as batidas de seu coração, e os dedos dela adquirindo alguma firmeza sobre a sua nuca, em torno dos seus cabelos. As unhas roçaram o tecido da camiseta; conservava o punho fechado sobre o coração de Remmy.

- Mãe... Escuta... E-eu...

- Keep-- your-- head-- UP!!! – Bradou a voz de Aurel, puxando o cabelo do garoto com violência, fazendo sua cabeça pender para trás e o pescoço estalar dolorosamente. De repente, teve ciência de toda a agonia e exaustão que sentia. Não respirava direito, os tímpanos pareciam perfurados e sangrava em profusão, juntamente com os três cortes em sua bochecha. A gargalhada do necromante ecoou ao redor, um som estranho aos ouvidos de Remmy. Amalgamava frieza e loucura. O rapaz apertou as pálpebras, tentando se livrar do véu aquoso que se instalara diante de seus olhos, e quando as últimas lágrimas desceram, ele se pôs de pé. Trôpego, andou alguns passos para frente, e encarou a escuridão.

- Filho da puta! - Esbravejou o garoto, para o nada, antes de ser atingido na nuca e tombar para frente. Tão logo tocou o chão, uma dezena de mãos ávidas o agarrou com firmeza, e as bocas sibilantes e famintas se aproximaram perigosamente de sua pele. Remmy sentiu o cheiro podre de carne humana, e ouviu os gemidos de sofrimento dos mortos-vivos que tentavam devorá-lo. Debateu-se, chutou, berrou e demasiadamente próximo ao seu ouvido, captou a risada desdenhosa do mago responsável por tudo aquilo...

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Neste momento, nada me dá mais prazer do que o medo do filho do homem que me repudiou de maneira tão atroz. Sorri, em regozijo, ao perceber o desespero que se apodera de todas as fibras do corpo do adolescente, e o prazer é tamanho que simplesmente não consigo me conter e acabo exteriorizando a minha felicidade. É óbvio que ele me ouvirá como se eu estivesse ao seu lado, veja só como ele vira a cabeça e tenta me acertar... mas o fato é que eu sou... tudo.

Eu sou a escuridão que o envolve, que o engolfa e afoga. Sou o ar que entra em seus pulmões, rascante, como lâminas de gelo. Sou as mãos que o rasgam, os dentes que dilaceram sua carne. Tenho certeza que neste momento, Remmy consegue sentir o toque pegajoso das minhas línguas fazendo desenhos e padrões em sua pele, enquanto meus dentes afundam-se na tenra carne de suas coxas, braços e abdômen. E, ah, quão delicioso é o sabor! O medo, o choque, o desespero por continuar vivo. O sôfrego ímpeto que inflama as suas veias, instigando-o a continuar a se debater.

E a certeza de que não importa o que ele faça, não importa o quão forte seja fisicamente, ele nunca se livrará do abraço das minhas criaturas. Rio novamente, e o meu riso se mistura aos bramidos de agonia e pânico emitidos pelo adolescente. Vejam só, agora ele é apenas um pobre, inútil e indefeso adolescente. Vejam como ele chora. Vejam como rapidamente os seus cabelos se tornam vermelhos, e o quão belo é o contraste do rubro com a sua pele clara.

Ah, e o prazer é ainda maior ao me lembrar de que o garoto é extremamente parecido com o pai. Posso ver, finalmente, o rosto de Siegfried contorcido de dor, implorando... cedendo pouco à pouco ao frio e inevitável abraço da morte. Quão arrogante ele foi, ao pensar que era, de fato, imortal. Tsc. E agora, extinguindo a sua linhagem, creio que seja o ponto final na sua patética brincadeira, não é?

Oh, não resista, Remmy. Sinta meus dedos envolver a sua pele. Veja o quão refrescante é o meu hálito gélido a soprar em seu rosto. Perceba que, além do toque dos mortos, dos dentes e das unhas putrefatas, há muito mais para sentir neste momento. Muito mais para aproveitar. Deite a sua cabeça para trás e simplesmente se entregue, prometo não demorar muito...

Isso, deixe-se levar. Percebe agora? Consegue sentir?

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Ele simplesmente parou de se debater. Parou de lutar. A dor era tamanha, a força que o envolvia era tão avassaladora que percebeu ser inútil ir contra. Talvez se ele fechasse os olhos e começasse a contar, tudo acabaria antes dele chegar até o dez. Certo?

Então era assim que acabava. Quão arrogante ele foi ao pensar que poderia sair ileso de uma empreitada daquelas. Sentia o corpo todo em chamas, e o coração batendo desesperadamente, como uma mariposa presa em uma caixinha de papel, tentando sair.

Fechou os olhos então e começou a contar. E, antes que chegasse a dez, realmente, tudo parou. Sentiu uma dor diferente desta vez. Uma dor lancinante penetrando as suas pálpebras e queimando suas retinas. Não abriu os olhos, mas sabia que, de alguma forma, estava em um lugar iluminado. Pode ver vultos movendo-se ao redor, e uma cacofonia de sons confusos que ele não conseguia identificar. Sentiu o corpo ser tocado, içado e balançado violentamente. Sentiu-se inundado de energia. O peito arfava, queimava com uma nova onda de vitalidade que fluía diretamente para dentro de si. Percebeu, só agora, que a mão direita fechava-se em torno do pequeno colar de prata que sempre trazia consigo; os dedos ensanguentados envolviam o pequeno pingente com o brasão da família. Era dali que vinha a energia, das pedras preciosas incrustadas no metal, fluindo a partir deles para dentro do seu corpo debilitado.

Rapidamente tomou consciência de uma presença familiar próxima a si. Alguém que ele não via há semanas, ajudando-o com o amuleto, alimentando-o com a própria energia, inundando-o de poder. Um poder quente, pungente, extremamente concentrado. Sentia-o nas veias, fluindo com certa dificuldade, como se o próprio sangue estivesse mais denso, carregado.

E foi aí que Remmy abriu os olhos. A luminosidade não o feriu, pelo menos não como deveria, depois de tanto tempo no escuro. Olhou ao redor, tomando nota de tudo o que o rodeava, e em seguida para frente, observando a figura negra prostrada diante de si, o rosto lívido contorcido em uma careta de dor.

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A música é Sweet Dreams, preferencialmente a versão cantada pela Emily Browning, que tem um ritmo mais lento e parecido com uma canção de ninar, como descrito no texto. Para ouvir a música, basta clicar aqui.
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6 comentários:

Helu disse...

Consegui ficar com pena do pirralho insuportável =O. O ambiente negro ficou muito envolvente, a primeira pessoa do Aurel ficou muito legal. Ótima introdução a Ain Soph e Siegfried, quem não leu Abstinência e o conto da Fais vai correr para ler agora kkkk. Cadê o próximo, Lu?

Lucas T. Costa disse...

Remmy não é insuportável u.u

O próximo sai em breve >D nesta mesma hora, neste mesmo canal! hohoho!

O Aurel acabou saindo do meu controle e ganhando vida própria hahaha meus personagens sempre fazem isso ç.ç

Ana Paula Lima disse...

Remmy quase se foi dessa vez...
Lucas, sua escuridão me tomou, pude sentí-la (muito bom!) Esse adversário é "barra de gota", tô no aguardo pra saber como eles vão superar essa luta, e principalmente como Remmy vai dá o troco a essas humilhações.
Posta logo a continuação

Thays C. Rodrigues disse...

Adorei a ilusão. OUASHDUOASHDUOSDA. Gostei desse carinha foderoso! *-*

Lucas T. Costa disse...

Sim, Remmy quase se vai, pobrezinho :(
Que bom que curtiu, Ana Paula! Vou tentar fazer um desfecho bem legal, ai você me diz se correspondeu às expectativas, certo? ahauhaa

A continuação vem mais ou menos daqui a 15 dias, na sexta feira, se tudo der certo \o\ cruze os dedos!

A Teka, que bom que tu curtiu também! Já que tu ama zumbis né, tem todo o direito de ter odiado ahauha :***

O Garoto Perdido AKA: Gabriel O! disse...

Está certo que a estrela é o Remmy, mas só acho que faltou um pouco mais de Sasha nesse capítulo, rs.

"Morte nunca é bonita". Gostei.

Sobre a música, nada supera a original do Eurythmics, na minha opinião.

Muito bem escrito. Parabéns.