-->

Marolas do Aqueronte - Parte IV


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte III

Quando abri os olhos, senti uma lufada de ventos agitando os meus cabelos e percebi que não estava mais no interior da casa do necromante: pequenos flocos de fuligem cinza acumulavam e espiralavam ao redor, compondo uma paisagem inóspita e monocromática. A principio não consegui identificar do que se tratava, vislumbrei pequenos montes, fachos de luz e nuvens negras como as plumas de um corvo. Pouco a pouco o cenário foi ganhando forma, com apenas a minha figura no meio de toda aquela imensidão. Girei e perscrutei o ambiente, os dedos deslizando pelos cabelos quase brancos. A luz ali deixava tudo com um aspecto muito mais... morto.

Me vi então no que parecia ser um antigo campo de batalha ao ar livre. A terra estava revolvida, e hera crescia em torno de ossadas secas. Não havia animais necrófagos ali, pois toda a carne e sangue há muito se fora. Sorri. Era engraçado perceber que todo aquele cenário fora composto pelo meu subconsciente. Quis, involuntariamente, um lugar cujo horizonte estivesse à perder de vista, porque achava inapropriado lutar em espaços apertados e à mercê do tal magista louco. Me abaixei, os dedos roçando um dos ossos secos, sentindo a textura áspera e o cheiro acre. A terra estava seca e cor de chumbo, o vento trazia um leve odor que eu não conseguia identificar completamente, mas sabia que era familiar. Tudo estava perfeitamente crível.

Como que por mágica, pude ouvir um lamento distante. Uma lamúria incessante e muito baixa, como se o sussurro me beijasse os lóbulos das orelhas, acariciasse minha face pálida e me lambesse a pele fria. Senti-me envolvido, cativo, como um marinheiro entregue aos caprichos de uma sirene e do mar. Aqui, cabe-me dizer, também comecei a ouvir um tamborilar suave e intermitente que, entrelaçado com o canto choramingado da entidade invisível, parecia ditar o ritmo daquele deserto envolto em cinzas e podridão. Percebi então que se tratava de uma música. Uma melodia de harmonia um pouco questionável, com arranjos simples e hipnóticos. Primeiro os vocais, depois o rufar cadente dos tambores e, agora, o ressonar intrépido das cordas de um violão.

Lentamente ergui-me, deixando a brisa varrer para longe as minhas preocupações. Meus cabelos loiros eram embalados ao seu sabor gélido, bem como as vestes negras. Línguas de gelo lambiam-me, inebriavam-me e eriçavam todos os pelos do meu corpo. Do bolso de trás da minha calça, puxei as minhas duas baquetas de bateria. Olhei para o lado e percebi que não estava mais desacompanhado, pois uma enorme massa de pelos negros avolumava-se ali; Hector agora era um enorme licantropo, babando e rosnando com os punhos apertados, os olhos ambáricos fulgurando em frenesi alucinado. Do meu outro lado, obviamente, estava Dorian, com toda a sua pompa e classe de mágico de festinhas infantis, com cartola, varinha mágica e tudo o mais. Engraçado a imagem que tenho desses caras – ou como gostaria que eles realmente fossem, porque convenhamos, um lobisomem que não muda de forma não é tão intimidador assim, certo? Sem falar em um mágico que tem um bolso sem fundo, no melhor estilo fanfarrão “nada nesta mão, nada nesta aqui”, haha!

Sasha também estava ali. A mulher trazia nas mãos dois dos chicotes mais estranhos que já vi, pois na ponta inferior das empunhaduras, onde o cabo deveria acabar, havia mais uns vinte centímetros de lâmina curva, negra e extremamente afiada -imaginei que serviriam para estocar inimigos demasiado próximos, em casos urgentes quando não houvesse tempo para brandir o açoite. Ela calçava botas de saltos altíssimos que, suspeito, seriam impossíveis de se equilibrar sobre se estivéssemos no “mundo real”. Os cabelos dela estavam amarrados no topo da cabeça e toda a roupa dela era de vinil preto, exceto a enorme saia cuja fenda ia da cintura ao tornozelo - esta era de um profundo bordô, quase marrom. O tecido eu não consegui identificar, mas tive a impressão de que estava úmido, como que embebido em sangue fresco, embora o chão ao redor de si estivesse livre de qualquer respingo. Uma dominatrix - ainda que tivesse me acabado de dizer que não curtia sexo e esse tipo de coisa, era meio óbvio para mim que Sasha era extremamente controladora.

Girei habilmente as baquetas pelos dedos, e ao meu redor o vento pareceu se intensificar um pouco. Sorri novamente, exibindo os dentes desta vez.

- E aí, todos prontos? - Sem resposta audível. Hector rosnava, Dorian borboleteava ao redor, e Sasha seguia-os com olhos reprovadores. Era como se eu nem estivesse ali, e o mais curioso de tudo é que eu também não podia ouví-los. Deduzia, observando os dentes arreganhados do lobisomem e o sorriso zombeteiro do mágico de araque, o teor da conversa que tinham, mas apenas via lábios se moverem sem produzirem som algum. O véu que nos separava não era tão tênue quanto se fazia parecer, e era preciso muito mais do que dedos fortes para rasgá-lo.

Nesta hora a música atinge o ápice, em sincronia com as criaturas que parecem brotar do chão bem diante dos nossos olhos. Pareciam enormes abutres parcialmente decompostos, mas ao invés de uma cabeça de pássaro, os bichos exibiam crânios humanos. Rufaram as asas ameaçadoramente, erguendo uma nuvem de poeira e fuligem que me queimaram os olhos. Tossi, eles ergueram as cabeças para o alto, abriram as mandíbulas descarnadas e, acredito eu, gritaram em uníssono um desafio. A única coisa que eu ouvia era a voz ronronante da sirene invisível, acariciando-me os ouvidos e incitando-me a continuar. As aves eram horrendas, mas no meu mundo ninguém ofega ou se assusta com esse tipo de coisa, apenas sorri e meneia com a cabeça em concordância. Ter medo perde o sentido quando você se torna Deus; a única coisa que eu sentia ao ver aquele monte de criaturas putrefatas era excitação. Pura e simplesmente, eu queria destroçar todas elas com as minhas próprias mãos. Sentir os ossos estalando a cada golpe.

E foi isso o que fiz. Fui o primeiro a correr na direção deles. Pulei, alcei voo em direção ao firmamento cinza e fuliginoso, e cai estrondosamente no meio das criaturas em decomposição. Sob meus pés a terra tremeu, um abalo sísmico inacreditável e impossível se estivéssemos no “mundo real”. Mais uma vez, um véu de poeira se ergueu, e com um giro em torno do meu eixo, golpeei algumas aves com as baquetas e as derrubei. Pisei no crânio de uma delas, esmagando-o, depois apontei a ponta do instrumento para outra, e a mesma explodiu em chamas.

Cara, não estar presos àquele monte de regras do “mundo real” é um puta alívio. Tem magos que jamais saberão o quão libertador é poder fazer o que der na telha, como eu, pois “lá” não se pode alterar tão bruscamente a realidade. Tem alguns magos que se excedem e... explodem, morrem, ficam loucos, às vezes só por tentar abrir uma porta numa parede lisa, por exemplo. Óbvio que depois eu tenho que arcar com as consequências, mas enquanto posso, faço o possível para aproveitar o barato. Simplesmente deixo-me guiar pela marola, entende o que eu digo?

Enfim, voltando à batalha, pulei novamente, uns dez metros acima de todas elas, e de relance vi os outros lutando também com outras criaturas. Voltei a atenção para baixo, girei as baquetas nos dedos, e um pequeno redemoinho formou-se abaixo de mim. O tilintar das ossadas agitando-se e levantando-se encheu os meus ouvidos, e depois percebi que eu mesmo estava gargalhando loucamente. Meus cabelos encobriam parcialmente a minha visão, mas eu conseguia saber exatamente o que estava acontecendo abaixo de mim. Cai novamente, as baquetas agindo como duas pequenas espadas ao degolar mais dois “abutres”. Mesmo com toda aquela agitação, a única coisa que eu ouvia era, além da minha própria gargalhada, a música que se agitava cada vez mais. Por uma fração de segundo, cheguei a pensar que eu a estava produzindo, pois agora quem parecia ditar o ritmo era o meu próprio corpo: quanto mais rápido eu me movia, mais a sirene ululava, e a cada movimento de mãos, o som da percursão ficava mais e mais forte e retumbante.

As aves se aproximaram mais. Ao longe, explosões silenciosas podiam ser vistas. O horizonte fora, rapidamente, tingindo-se de negro, quando centenas de asas pútridas e crânios risonhos se fechavam em torno de mim. Tsc. Com um único movimento, ergui os dois braços verticalmente e duas colunas de areia, ossos e pó se içou metros acima, levando consigo grande parte dos abutres. Fechei as mãos em punho, e as colunas explodiram em uma chuva cinzenta, impulsionando para trás as criaturas, derrubando-as no solo arenoso.

Ofeguei por um segundo, limpando o suor que se acumulava em minha testa e parei para analisar o meu belo feito. As criaturas moviam-se, se aproximando umas das outras com lamentos silenciosos. Tudo pareceu escurecer, ergui os olhos para o céu e quando dei por mim, a abóboda esfumaçada não era mais cinza, mas de um amalgama de laranja doentio e preto. Franzi o cenho, olhando ao redor. Tudo parecia se corroer lentamente. Que merda.

As criaturas não eram mais aves, mas uniam-se rapidamente, também corroendo-se. Negras como piche, transformavam-se então em dezenas de mulheres nuas sem os membros inferiores – ali, queridos leitores, estava uma enorme e cachoalhante cauda de serpente. Eram Lâmias.

Mas que porra, primeiro uma cabeça bizarra da Malásia, depois abutres com cabeças humanas, agora um vampiro/demônio da Grécia. A seguir, aposto que será o Chupacabra.

Suspirei. Apertei os dedos em torno dos punhos das baquetas, e elas se alongaram consideravelmente, adquirindo o tamanho e a forma de dois pequenos sabres. Legal, hein?

Lancei-me sobre aquelas criaturas desferindo golpes rápidos, tentando degolar o máximo possível antes que me pegassem. Logo percebi uma explosão muito perto de mim, e de relance vi Sasha lutando com um dos chicotes na mão e a saia na outra: a mulher usava o tecido para fintar as Lâmias, cegando-as momentaneamente antes de parti-las ao meio com as lâminas na ponta do chicote. Juro que a vi pisar na garganta de uma delas, com aquele salto agulha, e deixá-la se afogar no próprio sangue negro e podre, mas acho que foi só a minha imaginação.

Dorian e Hector também estavam ali. A julgar pelo caos, Dorian explodia os bichos e Hector... bem, mordia, rasgava e se banhava em sangue, como qualquer lobisomem que se preze?

As rajadas de vento sopraram mais forte, faziam meus cabelos me chicotearem o rosto. Corri, gritei, e finquei os dois sabres nas clavículas de uma das Lâmias. A mesma me bateu, as garras rasgando a minha bochecha e fazendo meu sangue jorrar sobre si. Ela riu, um riso senil e silencioso, e eu também, quando afundei ainda mais as lâminas em sua carne.

- MORRE! – Torci os sabres, rasgando-a lentamente, e ela berrou de agonia. Não sei se no “mundo real” ela também o fez, mas aquilo me regozijou imensamente. Os olhos vermelhos do demônio me fitavam, e quando ela ergueu a mão e agarrou o meu pescoço, eu curvei o corpo para frente e a penetrei mais ainda. Ela cuspiu em meus olhos, e aquilo ardeu feito o inferno, mas eu não parei, exerci pressão para cima até que senti as clavículas se partirem e sua cabeça tombar para trás. Ela já estava morta quando a degolei, mas senti um prazer imenso ao fazer aquilo.

Olhei ao redor, e todas as Lâmias estavam mortas. Não existia ninguém de pé, exceto nós quatro. Sorri.

Todos ofegavam, mas por algum motivo estavam perfeitamente sãos. Nenhum arranhão, nenhum rasgo, sujeira ou cabelo fora do lugar. Só eu, que tinha três vincos profundos na face esquerda. Minha roupa preta lentamente grudava no corpo, devido à mistura de suor e sangue, e as baquetas diminuíram até assumirem a forma original.

Continuava a ventar, e o céu continuava cinza. Um estalo alto se fez ouvir, atraindo a atenção de todos para cima. O firmamento parecia rachar lentamente, derramando fachos de escuridão sobre nós. Um segundo de apreensão e tudo ruiu como um globo de neve se espatifando no chão. Uma torrente de cacos de realidade caiu sobre nós, e a negritude nos engolfou.

Eu estava em um vórtice negro, cujas rajadas queimavam a minha pele. Lágrimas quentes brotaram dos meus olhos, e minha cabeça fora atirada para trás e colidiu contra o que pareceu ser uma parede. Atordoado, olhei ao redor.

Por um segundo, uma ínfima fração de segundo, vi uma pequena espada de luz, que se equilibrava perfeitamente sobre sua ponta, e cuja empunhadura era cravejada de pedras preciosas. Parecia pequena demais, mas extremamente poderosa. Depois, vi a Dracma que tinha ido buscar -aquela que supostamente seria capaz de ressuscitar os mortos-, e vi o rosto esmaecido de uma mulher de olhos verdes e cabelos castanhos e senti sua dor e suas lágrimas banharem as minhas faces. E então, subitamente, eu soube quem era ela. Lembrei de seus dedos roçando minhas bochechas e a melancolia de sua alma tocando o meu coração. Em meio às lágrimas, sorri. No meio do turbilhão de estilhaços, entrevi um homem de cabelos e intenções negras abrindo os braços e ali, sob o peso de seu olhar, me afoguei.

A música findou, a Sirene parou de cantar e tudo era silêncio. Silêncio e dor.

.
.
.

Quando Remmy voltou a abrir os olhos, estava de joelhos no chão da casa do Necromante. Arfava, as mãos espalmadas apoiando o próprio corpo, e pequenas gotas carmesim empoçando lentamente no mosaico abaixo de si. Hector estava ao seu lado, os olhos preocupados encarando-o; o rosto de Remmy sangrava, e seus membros ardiam com o esforço que fizera para realizar todas aquelas coisas. Seus dedos ainda envolviam as baquetas, e os pulmões pediam por um cigarro.

Sabia que não tinha se passado nem um minuto desde que entrara em transe, pois tão logo ergueu o olhar para o companheiro, viu duas sombras avolumarem-se na escuridão atrás de si. Sasha e Dorian acabaram de entrar na mansão, e sentiu o cheiro de carne humana calcinando logo atrás deles. A assassina olhou para o adolescente com um semblante curioso, depois voltou-se para Hector, como se achasse que ele fosse responsável pelo ferimento no rosto de Remmy. Hector abanou a cabeça, negando, e Dorian tocou seu ombro e murmurou alguma coisa, fazendo sua expressão relaxar um pouco. Remmy sorriu.

- Tive um sonho maravilhoso. Você estava lá, bonitinha, e usava chicotes muito mais legais do que esse que você tem aí. Hec, me ajuda aqui... precisamos pegar logo essa espada e sair daqui. Ele está vindo.

- Espada? – Perguntou Sasha, enquanto Hector oferecia o ombro para Remmy. – Você não quer apenas o Dracma?

- Queria, agora quero uma espada também.

- Que espada? – Perguntou ela, ríspida. A assassina obviamente não estava gostando nada daquela história, afinal, o garoto tinha prometido todo o saque para ela, certo? Mas a sua revolta não chegou a ser verbalizada, pois quando a mulher abriu a boca para protestar, ruidos secos e ritmados chamaram a sua atenção para o topo da espada.

- Creio que ele se refira à esta espada. - A voz era sibilante e fazia os pêlos da nuca dos quatro se eriçarem. Hector estremeceu subitamente, um espasmo involuntario e completamente animalesco. Mostrou os dentes, a garganta produzindo aquele mesmo ruido ameaçador de outrora. O homem no topo da escada era tão branco quanto um cadaver, com os cabelos de um negro espectral. Trazia envolvido nos dedos uma pequena espada, de aproximadamente trinta centímetros e inteiramente dourada. O punho, como Remmy vislumbrara, era adornado com pedras preciosas que faíscavam lindamente à luz bruxuleante das velas que - ele não tinha percebido até então - compunham o cenário ao redor.

- Aurel?!

Ele sorriu. O mago movia-se de maneira tão fluída e tinha olhos dourados, ameaçadores e flamejantes, como os de uma pantera à espreita. Estava exatamente na junção das duas escadarias que circundavam o ambiente, na frente da porta que levava à ala superior da mansão. Eles tinham certeza que era para lá que deviam seguir.

- Você é o filho de Siegfried, não é? Percebo a semelhança. Então é verdade o que dizem? - O espadim dançou, um movimento rápido e faiscante, pulando de uma mão para outra. Rodopiou, como se o mago testasse o peso e equilibrio da arma, mas à medida que ela se movia, um rastro esfumaçado era desenhado no ar. - E ele se alega imortal? Quão... - Mostrou os dentes, mas não era um sorriso, acentuando a semelhança com um enorme felino negro de olhos dourados. - ...patético.

3 comentários:

Ana Paula Lima disse...

Remmy viajou legal! Fabulosa a luta no mundo paralelo, AMEI!!!! Fantástico!
Gostei da visão criada de todos os personagens nesse universo do Remmy. Principalmente o da Sasha. A visão do salto agulha me levaram a uma pintura de Dali.
Parabéns Lucas, vc se superou.

Helu disse...

Simmmm, definitivamente o melhor post da crônica (pelo menos é o meu favorito). Impressionante como o Lucas se superou e até conseguiu me fazer gostar mais do Remmy =X

*Aurel ficou sexy ...

O Garoto Perdido AKA: Gabriel O! disse...

Gostei, achei bem bom esse capítulo também. Ficou bacana a tua narrativa em primeira pessoa. Achei válido o destaque que o Remmy ganhou aqui.