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Cruz Sobre Berlim II - parte 2


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - II parte 1

Filho de uma puta, desgraçado... escroto!! Infindáveis xingamentos popularam a mente de Balder conforme o corpo deteriorava-se a sua frente. Óbvio que um assassinato tão banal, tão descarado, daria merda. Esse era o problema dos novatos, eles acreditavam piamente que a única coisa a se temer na noite eram os outros vampiros. Observou os dois vultos ganhando contornos cada vez mais nítidos conforme se aproximavam; as precisas passadas metálicas, inaudíveis a um humano comum, confirmaram sua desconfiança ao ver a lança. Conhecia esse golpe fatal:

- Templários...- murmurou, soturno.  

Apesar do furor avermelhado dominar sua face, Balder manteve-se imóvel. Questionava-se por que eles não correram em sua direção no imediato momento que Andrew fora atingido. O chão elameado e a escuridão da maior parte do terreno não justificavam aquela cautela, ele poderia muito bem ter fugido dali se quisesse, outro vampiro qualquer fugiria. Postou os olhos nas câmeras de segurança do pequeno prédio, atento as nuances do lugar. Já passava da meia-noite, não havia som de teclas ou de passos em nenhum dos três andares, porém era perceptível o barulho da TV, abafado pelas paredes das diversas salas do primeiro pavimento. O vigilante deveria estar bem entretido e ignorava o que acontecia no estacionamento mal cuidado da empresa. O ruivo não percebeu qualquer outra nuance e concluiu que não havia mais Templários naquele local, a situação era atípica demais. Eles nunca foram estúpidos ao ponto de lhe deixar pensar antes de um confronto “No mínimo 10 segundos eles perderam nessa andadinha vagarosa … Ah, entendi”. Balder desmanchou as sobrancelhas arqueadas e sorriu, lépido:

- Sabe, assim como uma boa música, armaduras não fazem mais o estilo de sua espécie. - apontou para o jovem raquítico que andava desengonçado com o peso das tramas metálicas e as botas prateadas. Foi preciso que eles estivessem mais próximos para o vampiro perceber o quão diferente era o andar dos dois inimigos, assim como as expressões em suas faces. O garoto seria um aprendiz inseguro, claramente despreparado para correr (e lutar?) com aquele peso extra – Se você estivesse com a armadura completa, provavelmente estaria “empacado” lá atrás, não é mesmo, moleque?

Riu encarando os olhos castanhos do adolescente. Não teria mais que 16 anos e, como é de se esperar de um garoto, não conseguia disfarçar o temor que sentia. Observou o outro homem, a espada longa  em posição de batalha, as placas metálicas do peitoral reluzindo a cada passo. Andava imponente, o rosto quadrado exibia um orgulho que Balder não conseguiu distinguir se era pelo seu lançamento perfeito da arma ou se era pelo acerto do discípulo.

Será que desconfiavam que ele era um Labyrs? Apostaria com Jack que não, se o soubessem, não ousariam lutar sem o elmo. Templários eram incrivelmente fortes, mas eram sensíveis como qualquer humano ao sangue venenoso de sua Família. Imaginou quanto tempo ganharia no primeiro ferimento que lhe atingisse, poderia matar os dois no momento da surpresa, bastaria arrancar-lhes a cabeça. Garantir que não o atingissem em algum ponto vital seria o maior problema, claro. Balder aquietou os pensamentos quando ambos começaram a correr, em alguns segundos estariam sobre ele e tudo o que tinha era um plano que envolvia ser ferido. Ridículo, era suicídio enfrentar um Templário assim, nessa forma tão fraca, e sem nem se quer ter uma arma em mãos.

Fitou o reflexo cintilante nas armaduras perfeitamente polidas e mais uma ideia estúpida lhe veio a mente. Estúpida e dolorosa. A lança ainda exibia os malditos tentáculos de luz, mas qual outra escolha ele tinha? Largou o celular e, sem pestanejar, foi de encontro ao corpo moribundo agarrando a base da lança e a erguendo do chão. Gritou. Como esperava, a energia templária não se dissipara totalmente do objeto, ela queimava suas mãos e percorria seus membros como um choque elétrico. Determinado a completar seu plano, ignorou a dor e movimentou a lança jogando a carcaça de Andrew na direção do cavaleiro mais jovem. O alvo tombou na lama lutando contra o peso do moribundo, e o ruivo, rindo alto em meio a dor, correu para desferir a lança contra o outro humano.

O velhote prontamente defendeu seu pescoço com a espada longa, surpreendendo o vampiro por conseguir manter sua postura imbatível independentemente da força que depositava contra a lâmina. O estranho tilintar do choque das duas armas manteve-se conforme o Labyrs pressionava a lança. Mordeu o lábio inferior contendo o gemido pelo aumento da queimadura nas mãos e se sentiu um idiota ao notar a face inabalável do humano. Os olhos negros eram desafiadores. Não demonstravam raiva ou excitação pela luta e sim uma concentração absurda para manter a posição dos braços. Toda sua energia estava depositada na arma, ela virara uma extensão de seu corpo e agora agia como um escudo perfeito, indiferente a força superior do vampiro. Balder notou o início de movimento nos lábios do oponente e se lembrou do quanto odiava lutar contra os “encantados”:

- Há, não... nada disso – disse furioso, tirou repentinamente a lança do atrito da espada, atrapalhando as falas mágicas, e expôs os dentes enormes tentando abocanhar o rosto tão próximo do Templário. Imediatamente este pulou para trás, a face morena empalidecendo e o corpo aparentando ganhar mais volume tamanha a rigidez de seus ombros e braços. Era óbvio que se assustara com a tentativa selvagem.

Querendo se aproveitar do temor do humano, o ruivo imediatamente intensificou seu ataque. Tentou golpear diversas partes do corpo do velho com a lança e ele se defendeu muito bem com a sua espada, mas se esquecera da maldita reza e era esse o principal intuito de Balder. Se dependesse do vampiro, o Templário não teria concentração para fazer mais nenhuma mandinga essa noite.

Escutou a queda do garoto metros dali e sorriu, satisfeito por o chão escorregadio manter um dos adversários longe. Sentia que o material prateado não o feria mais, a energia que executara Andrew finalmente se dissipara e não retardava mais seus braços. Girou a lança contra as pernas do velho, obrigando-o a usar a lâmina da espada para defender seus joelhos e deixando a cabeça exposta. Fora apenas um piscar de olhos, contudo era tempo suficiente para Balder se aproveitar e ele o fez. Extremamente rápido, manteve apenas uma das mãos segurando a lança e levou a outra contra o Templário. As unhas cheias de lama do vampiro rasgaram as partes proeminentes do rosto bronzeado e o delicioso cheiro de sangue envolveu o ar.

Os cortes não foram tão profundos quando gostaria, mas Balder se deleitou com a expressão dolorosa que o humano tentava disfarçar. Incrível vê-lo manter a postura inabalável mesmo que os lábios trêmulos e as lágrimas traíssem sua indiferença perante a dor da pele dilacerada. Quais são as chances desse desgraçado conseguir rezar agora? Pensou continuando a golpeá-lo. Queria cansar o Templário e provavelmente o teria executado em breve se um estranho ruído não o tivesse distraído. Percebeu que o humano também ouvira, pois seus olhos procuraram a origem daqueles baques contra o chão úmido.

“Puta que pariu, Jack!” pensou ao reconhecer a criatura monstruosa invadindo o terreno. Sabia que era ela não apenas por ser a única outra Labyrs de Berlim, mas pelo cheiro familiar. O mesmo resquício humano, o mesmo sangue vampírico que o seu. O ruivo perdeu um segundo precioso a observando se aproximar, os dentes afiadíssimos expostos e determinados a abocanhar o aprendiz ajoelhado. Porém, no momento em que Jack pulou em seu peito, fios translúcidos surgiram no local de atrito. A forma etérea ganhou volume transformando-se em uma esfera e explodindo, jogando a vampira longe e derrubando Balder no chão:

- Argh...- as dores musculares dos choques anteriores da lança eram nada comparadas com o que sentia agora. Parecia que a energia criada pelo moleque o queimara por dentro, sua pele estava intacta, mas seus membros tremiam, cada um com espasmos totalmente diferentes.

Não conseguia sentar e nem virar a cabeça para ver o que estava acontecendo, limitou-se a ouvir o rugido ameaçador de Jack seguido de ruídos metálicos. Eles estavam... fugindo? Sentou a tempo de ver a Labyrs pulando o muro, o ideal seria se libertar desse corpo humanóide e acompanhá-la, mas não aguentaria a transformação brusca. Seu sangue escorria pelo nariz misturando-se à lama que cobria seu rosto e as tremedeiras não cessaram completamente:

- Ele não disse uma palavra. Ele não conjurou merda alguma – resmungou colocando-se de pé. Não queria acreditar no que isso significava, mas era a única explicação. Por que mais o velhote se arriscaria a andar pelo noite assim, sem um batalhão acompanhando-o? Ele não está treinando um Templário qualquer, está treinando um dos 13.

Temendo a segurança da Labyrs, conseguiu correr e ganhou impulso para alcançar o topo do muro. Estava prestes a pular do outro lado, quando ouviu o som de uma freada brusca seguida de uma forte batida. Forçou sua visão para a rua além das árvores que circundavam o terreno. Um enorme caminhão estava tombado na pista, a carreta havia desencaixado e espalhou produtos eletrônicos por toda a rua. A parte fronteira estava quase irreconhecível, a lataria estava esmagada como se uma bola de chumbo houvesse lhe acertado em cheio:

- Ah não, caralho! - Xingou, correndo em direção a criatura negra que jazia inerte no asfalto.


Continua em: Cruz Sobre Berlim - III

2 comentários:

Lucas T. Costa disse...

Como eu tinha falado antes, amei o Balder! Adoro personagens desbocados hahaha acho que o manuscritos tava precisando mesmo de um personagem esquentado assim! *-*

Ah, e Jack né <3 amor da minha vida! To ansioso pra ver a parte dela com you-know-who hahaha

E o tiozão me lembrou muito o Sir Barristan Selmy *o* o que é ótimo, porque eu o adoro!!!

Ana Paula Lima disse...

Gostei de tudo. Tensão, luta, e um vocabulário pesado, digno da ação.
Balder é maravilhoso!
Helu, não deixa esses malditos templários o machucarem muito tá? ...rs...