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Marolas do Aqueronte - Parte III


Continuação de: Marolas do Aqueronte - Parte II

- Eu achei que elas só atacavam mulheres grávidas! – Protestou Remmy. Por ter uma maga tão pouco convencional como preceptora, o garoto era obrigado a estudar diversas culturas e, consequentemente, as criaturas folclóricas que compunham as crenças daqueles povos. Lembrava-se vagamente da penanggalan, principalmente por seu aspecto tão asquerosamente peculiar. – O que diabos ela está fazendo aqui?

- Ela é serva de um necromante, fará o que lhe for ordenado, bonitinho. Porque você acha que vampiros não se associam com este tipo de magos, se não para conservar o seu livre-arbítrio? – Sasha mostrava-se um pouco exasperada. Obviamente não estava habituada a explicar coisas tão elementares para as pessoas. Apertou a empunhadura do chicote e murmurou uma fórmula mágica. O chicote começou a incandescer, lentamente, a partir dos dedos da mercenária até as pontas prateadas:

- Ok, e como a gente mata? – Perguntou Hector, hesitante. Os dentes e suas unhas continuavam com aparência bestial, e os olhos emitiam um fantasmagórico brilho âmbar. Respirou ruidosamente, como se rosnasse um aviso para a vampira não chegar mais perto. Inútil. A cabeça e as vísceras continuavam a se aproximar lentamente.

- Batendo? – Sugeriu Remmy, com um sorriso amarelo.

- Precisamente. Na verdade, o ideal seria destruirmos o corpo, mas não acho que será assim tão fácil com aquele escudo ao redor dele. E a cabeça vai fazer de tudo para protegê-lo, também... – Resmungou Sasha, visivelmente impaciente. O cenho franzido da mercenária denunciava o quão insatisfeita estava com aquele falatório todo em um momento tão delicado. A mulher não esperou resposta dos garotos, deu três passos adiante, ergueu o punho na altura do rosto e, com um movimento brusco, estalou a arma. O chicote sibilou e rasgou o ar como um raio de fogo. Os cravos enrolaram-se nas vísceras da vampira, que berrou um desafio tão agudo que os três garotos levaram as mãos aos ouvidos, com caretas de dor. O grito da penanggalan pareceu distorcer o ar ao seu redor, como se a criatura regurgitasse uma espécie de tentáculo transparente. Ergueu a cabeça em direção ao firmamento, direcionando o desafio para os céus.

- Isso aqui está ficando cada vez melhor... – Disse Dorian, enfiando a mão no bolso mais uma vez. Hector precipitou-se pela clareira, ganhando terreno rapidamente. Remmy espalmou as mãos na frente do corpo, unindo os polegares e os anelares, recitando rapidamente uma fórmula mágica. O corpo do lobisomem cintilou em azul por um segundo, depois voltou ao normal, mas a velocidade do rapaz aumentou consideravelmente, chegando a deixar um borrão difuso às suas costas ao correr pelo lugar. Os dedos de Remmy mudaram de posição quando o garoto inverteu o sentido de uma das mãos e voltou a murmurar outra fórmula; entre suas mãos, uma luz verde explodiu, lambendo-lhe os dedos como chamas cor de esmeralda.

A assassina continuou a investida, puxando lentamente o chicote e fazendo a penanggalan se aproximar contra a sua vontade. Sasha pisou no açoite, prendendo-o sob o salto, e com a outra mão puxou um dos frascos do cinto. Em um movimento rápido, jogou-o no chão, estilhaçando o recipiente; o líquido se espalhou e foi absorvido pelo solo, e no instante seguinte uma bruma purpúrea começou a brotar onde a poção fora derramada. Dorian, percebendo a dificuldade de Sasha em manter a vampira parada, entendeu imediatamente o que deveria fazer: puxou do bolso algumas bolinhas castanhas e enrugadas, atirando-as ao chão bem abaixo da criatura. Em seguida, cravou os dedos na terra e, jogando a cabeça para trás, murmurou mais uma fórmula mágica.

- Eu cuido para que ela fique parada... - Disse entre dentes, os olhos apertados como se não quisesse ver o que aconteceria a partir dali. - ...vai e mata essa vadia!

A fumaça purpúrea fora aspirada tanto por Sasha quanto por Dorian, e o efeito já começava a ser sentido pelos dois. No instante em que o morto-vivo baixou a cabeça, mais três tentáculos translúcidos haviam brotado do fundo de sua garganta e serpenteavam pelo ambiente. Um deles chicoteou o chão logo abaixo de si, fendendo a terra e erguendo uma nuvem de poeira e plantas no exato instante em que as sementes que Dorian atirara germinavam magicamente. Grandes espinheiros se desenvolveram ao redor do morto-vivo, alguns ainda no solo, outros em pleno ar, e alguns dos ramos enroscaram-se e desenvolveram-se ao redor das vísceras do penanggalan, que berrou ainda mais alto. Os pulmões da vampira inflaram, e a criatura movimentou a cabeça de forma a fazer os três tentáculos varrerem todo o terreno. Hector facilmente desviou, pulando sobre a cabeça e dirigindo-se ao corpo no interior da mansão. O ar ao redor de Remmy, Sasha e Dorian começara a ser distorcido, todavia o mago loiro não fora rápido o suficiente para preparar uma defesa satisfatória: a barreira fora vencida com facilidade e os três foram atingidos; Sasha e Remmy curvaram-se para frente, e Dorian caiu de costas na terra, com sangue escorrendo da lateral dos lábios. A assassina arfou, engolindo grandes quantidades de ar e pondo-se de pé o mais rápido possível - e mais lentamente do que o aceitável, quando se tem um monstro na sua cola. Remmy, de joelhos na terra revolvida, apertou os dentes.

Sasha recolheu o chicote rapidamente. Com um novo movimento, fê-lo enroscar-se a um ramo de espinheiro mais grosso, metros acima da cabeça do penanggalan e puxou uma das adagas de obsidiana. A névoa permitia que a assassina enxergasse mais claramente na penumbra do local, bem como aumentara consideravelmente a sua agilidade – não se equiparava ao sangue élfico. A mulher puxou o chicote, firmando-o, e correu na direção da vampira, descrevendo uma trajetória semicircular ao redor dela. A vampira investiu mais uma vez, os três tentáculos amalgamaram-se em um único, cravando-se aos pés da assassina, erguendo mais uma nuvem de terra e grama no ar, encobrindo tanto a si mesmo quanto a Sasha.

Neste instante, Hector chegara à soleira da porta da mansão, porém, parecia impossibilitado de entrar por uma nova barreira invisível. O lobisomem socou o ar, e um estrondo se propagou instantaneamente. Um ganido, e o corpo de Hector foi atirado para trás violentamente.

Dorian, já restabelecido, ergueu os olhos para o combate que se desenvolvia alguns metros adiante. Remmy, percebendo que Hector precisava de ajuda, pôs-se de pé e correu em sua direção. Sasha, habilmente, saltou até um galho mais grosso, e sobre outro, pulando diretamente sobre a criatura e içando-se com a ajuda do chicote. Os ramos de espinheiros apertaram-se ao redor das vísceras da vampira, quando Dorian fechou a mão em punho, com uma expressão carrancuda. – Morre, vadia! – Cuspiu. A vampira arregalou os olhos, rubros e brilhantes, cravando-os em Sasha, que caía livremente em sua direção com uma adaga negra em uma mão, e o cabo do chicote na outra. O brilho nos olhos da penanggalan intensificou-se. Dorian, percebendo o que ia acontecer, ergueu a outra mão no exato instante em que duas rajadas sangrentas escapavam dos orbes oculares da sinistra criatura.

Quando Remmy se aproximou de Hector, este já estava de pé mais uma vez e murmurava que estava bem. O loiro mostrava uma expressão conturbada no rosto, mas não perguntou mais nada, simplesmente disse: - Me ajuda a quebrar esta barreira, então. Vamos destruir o corpo dessa vadia juntos! – Hector anuiu, com um meio-sorriso, e repetiu a fórmula mágica de Remmy. Ambos entoaram em uníssono o cântico, e espalmaram as mãos diante do corpo ao mesmo tempo. A barreira oscilou e faiscou. Uma rachadura apareceu bem diante dos dois. O loiro, impacientemente, precipitou-se para frente e chutou a parede invisível no ponto fissurado. A barreira pareceu revidar da mesma forma que fizera diante da primeira investida de Hector, mas Remmy não recuou. – Quebra! Quebra! QUEBRA, PORRA!!! – O terceiro chute foi mais forte. Um clarão se deu no exato instante em que o solado do sapato de Remmy encontrou a barreira, e a mesma se estilhaçou. Uma súbita rajada de vento brotou do interior da casa, jogando-os alguns metros para trás e afastando toda a poeira e fumaça da clareira às suas costas, onde Sasha e Dorian enfrentavam a cabeça.

- Ali está o corpo... Vamos! – Disse Remmy, mas foi Hector que tomou a frente, correndo em sua direção. As luzes da casa então apagaram-se de súbito.

Sasha, salva pelo escudo de energia que Dorian conjurara, cravara a lâmina de obsidiana diretamente no coração da penanggalan. O espinheiro apertou-se ainda mais em torno da vampira, que berrou mais alto – desta vez de dor. Os tentáculos agitaram-se mais rapidamente, um deles atingindo Sasha diretamente na face e lançando-a para trás. O chicote incandescente da assassina fora o que a impedira de cair sobre os ramos de espinheiro, e o que a ajudara a utilizar o impulso do golpe para descrever um semicírculo e aterrissar em segurança no solo revolvido. Ali, com um torção mais forte do pulso, fez o galho se partir logo acima da cabeça e cair sobre ela. A adaga ainda estava cravada no coração pulsante quando, em um último esforço, a vampira expeliu uma nova rajada de energia pela boca, desta vez misturada à podridão de suas entranhas decompostas. A assassina saltou para o lado e o tentáculo sangrento atingiu o solo no ponto onde ela estivera.

Uma pequena explosão se fez ouvir no interior do palacete, e quando Dorian e Sasha ergueram os olhos para a porta de entrada, o que viram foi o corpo sem cabeça da penanggalan ser atirado na clareira com violência ímpar e, no instante em que tocou o solo, irromper em chamas negras. A cabeça também fora carbonizada, vítima do mesmo feitiço conjurado por um Remmy carrancudo que saía da escuridão da mansão para a penumbra do terreno.

- Tudo certo, podemos prosseguir. – Disse. Sasha virou para o lado e cuspiu uma grande quantidade de sangue, depois se aproximou do espinheiro e, com um movimento brusco, arrancou a adaga do coração em chamas da vampira morta.

- Conheço uma vampira que iria adorar a obra de arte que você fez aqui, Dorian. – Disse, sorrindo. – Foi uma escultura e tanto. – Piscou para ele, finalmente, antes de se virar na direção da porta. Ele a havia surpreendido mesmo, no final das contas.

5 comentários:

Ana Paula Lima disse...

Criaturinha difícil!
O que será que espreita depois desta porta?
Se o negócio já é sinistro do lado de fora fico a imaginar o que ainda vai aparecer na tentativa de impedir os garotos e Sasha de conseguirem seu objetivo.

Muito bom Lucas!

Mais uma vez ficarei aqui na ansiosa expectativa da continuação

Helu disse...

Sasha roubando a cenaaaaa, hahaha, adorei que, nesse capítulo, o Dorian mostrou pq, afinal, está no grupo do Remmy :) (além do status).

Osso ter que esperar até mês que vem para ler mais.

Lucas T. Costa disse...

Tudo aconteceu muito rápido, não teve como dar muito destaque ao Remmy e ao Hector né? hehe

Obrigado Ana! *o*

Sasha sempre rouba a cena quando aparece .bee e sim, Dorian também tem seu valor, ele não é só o cagão idiota/canastrão ahauhauha u.u

Tentarei dar uma agilizada para postar mais rapido. Engraçado que esse cap eu escrevi de uma vez, depois só tive que ir revisando e aparando as arestas. Acho que foi o capitulo que escrevi mais rápido ever hehe.

O Garoto Perdido AKA: Gabriel O! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Garoto Perdido AKA: Gabriel O! disse...

Você escreve muito bem, Lucas! Parabéns! Gosto bastante da estrutura dos teus textos e os diálogos não se tornam cansativos. Foi o capítulo que mais gostei (até agora). Morre penanggalan! xD Dorian me faz lembrar do Presto de Caverna do Dragão...