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Máscaras


A forma simétrica e sinuosa do jarro era perfeitamente polida. Não havia resquício algum de ranhuras na superfície branca. As telas de alta definição arruinavam o charme de várias peças expostas no site, mas essa em particular ficara mais bela do que pessoalmente. Até a tampa - uma escultura de rosto bestial - tinha detalhes límpidos, o par de olhos compostos de pedra azul brilhava como se acabara de ser colado nos orifícios. Laura sabia que todos em frente aos seus computadores agora estavam com um olhar fascinado pela conservação sobrenatural. O artefato era irresistível, a mulher previra que seria vendida em poucos minutos e com uma bagatela mínima de um milhão. Já até tinha feito as dividas a serem pagas com a gorda comissão que ganharia. Virou o rosto para a outra tela, a que mostrava somente os nomes dos inscritos na sala virtual e o cronômetro expondo os segundos restantes para o leilão começar. Arqueou as sobrancelhas ao notar um nome familiar na lista:

- Tsc, ele vai ganhar de novo. – murmurou passando as mãos no coque loiro.

- Senhora? – questionou sua assistente, a agenda aberta em uma das mãos, caneta pronta para a próxima anotação na outra. Laura não respondeu, apenas movimentou a cabeça em negação, os olhos negros ainda fixos no nome. Permaneceu assim por mais alguns segundos até que percebeu a respiração ansiosa da jovem ao seu lado e se lembrou do motivo da garota estar ali perturbando seu raciocínio:

– Perdoe-me, querida, te interrompi. Pode continuar. - apontou para a agenda e seguiu até sua escrivaninha ouvindo o gaguejar da jovem ao seu encalço:

- Bem, não sei se a senhora se lembra, mas é hoje às 20h a reunião com o Senhor Wilkins. Vou deixar o café e água aqui antes de ir. Tem certeza que não quer que eu fique?

Laura negou com a cabeça e riu, não por estar agradecida pela iniciativa da assistente, mas por sua ingenuidade ao pensar nas necessidades do Senhor Wilkins. Café e água... Por vezes era cansativo trabalhar com uma pessoa que não sabia de toda a verdade da instituição, mas momentos assim a relaxavam, era divertido ver a garota tentar encaixar aquele cargo nos padrões normais. Sentada confortavelmente, deixou-a continuar a falar sobre recados e outras providências, fingiu interesse apoiando os cotovelos sobre a mesa em sua direção. Seus olhos observavam, impassíveis, as telas no outro extremo do escritório. Apesar da distância, Laura conseguia ver perfeitamente os números saltando, os lances apareciam em destaque e quando ela viu o valor seis vezes maior que o estipulado soube que terminara. Sim, Mathias Herbertsson ganhara novamente.

Ele não tinha nenhuma ligação com museus, universidades ou instituições de pesquisa. Não era uma celebridade excêntrica conhecida, mas pelo visto tinha muitos milhões para gastar com jarros cuja função fora a de guardar órgãos de múmias. Havia algo errado. Percebeu o silêncio no escritório, o penteado de Laura deixava todas suas rugas de expressão expostas e facilmente a garota percebeu a tensão em seu rosto. Encarou-a paciente e imaginou por alguns segundos qual seria a reação da menina se ela lhe explicasse: “Querida, desculpe por não prestar atenção no seu precioso trabalho, mas sabe esse senhor que está comprando os artefatos? Provavelmente ele está fazendo magia negra com eles, entende? E isso não é bom. Pode ser para os negócios, mas não para, hum... a humanidade. Portanto, preciso pensar agora, preciso decidir como e quando ele deve morrer”.

Desconcertada pela expressão divertida que a chefe agora fazia, a menina repetiu o que havia falado no último minuto. Laura a interrompeu, o sorriso debochado já sumira e agora seu rosto só esboçava impaciência:

- Desculpe, estava verificando o leilão e me perdi nos números – olhou de relance a tela, agora anunciando o ganhador (justamente o que previra), e continuou a falar com uma voz indiferente – Mas eu escutei da primeira vez, obrigada pelos recados. Você pode ir agora, boa noite.

Laura respirou aliviada ao vê-la se afastar. Aturara a garota por nove horas, não dava mais para agüentar aquela pró-atividade, não com a chance do ganhador do leilão ser mais uma das criaturas nojentas que cobiçavam seus artefatos. Postou os olhos escuros no nome, séria, a repulsa crescendo em seu peito. Pegou o telefone disposta a resolver isso agora, mas o movimento na porta chamou sua atenção: a assistente, ao invés de ter seguido o seu caminho e ido embora da sala, estava parada sobre o arco falando com alguém na recepção. Por que essa idiota não saiu ainda?

- Senhora Laura, o senhor Wilkins já chegou – a garota morena notou sua surpresa, ainda faltava meia hora para a reunião, e continuou em tom mais baixo – A Sra. pode atender agora?

Laura tentou disfarçar o quão inconveniente era aquela notícia, mas apenas conseguiu desmanchar as sobrancelhas arqueadas e pediu para que esperasse alguns minutos antes de deixá-lo entrar. Mesmo com a saída da assistente, permaneceu imóvel na cadeira por algum tempo, o rosto soturno observando a porta recém-fechada. Não era para ele chegar agora, nem o respeito pelo horário essas malditas criaturas tem? Poderia sim dizer que só o receberia às 20h, não é, por que fui falar que o aceitaria receber agora? Sentiu sua nuca umedecer com um suor frio, a repulsa anterior virara pavor.

Ignorou os pensamentos pessimistas e finalmente discou um número no telefone, objeto que segurou como se fosse uma arma nos últimos segundos. Após a sexta tentativa sem resposta, desistiu e ficou de pé. Faltava vinte minutos para as vinte horas, Deus estava do seu lado, se convenceu, daria tempo. Ligou para a recepção pedindo para que o Senhor Wilkins entrasse e foi até os telões do leilão encerrado. Leu novamente o nome do ganhador e sentiu sua confiança voltar. Não era atoa que tinha anos de experiência nesse cargo, era excelente no que fazia e não seria diferente nessa reunião, independente dos minutos contra a seu favor.

Quando a porta se abriu, Laura já estava calma o suficiente para dar um sorriso doce ao fitar a criatura masculina que adentrava a sala. O senhor aparentava ter uma idade aproximada a de Laura, 40 anos, tinha estatura mediana e o rosto de traços retos, sem nenhum atrativo particular, dificilmente seria notado nas ruas se não fosse os olhos. A cor de um belíssimo azul escuro era rara, mas não era exatamente isso que fascinava quem o fitasse, era o olhar intenso, dominador. Uma lembrança dos jarros pré-cristãos anormalmente conservados perpassou a mente de Laura e, então, ela estendeu a mão.

Ah, o misterioso Senhor Wilkins. Demorou até um relatório comprovar o que a mulher desconfiava quando lia aquele nome como o ganhador do leilão de máscaras da era vitoriana. Um especialista afirmara que elas eram pertencentes a uma das criaturas demoníacas capturadas pela instituição há centenas de anos. Sua afirmação não era baseada apenas nos detalhes similares dos objetos, mas pelo material em comum: sangue, pele e cabelos humanos. Isca perfeita. Laura deixou os leilões das máscaras continuarem até que, em sua nona compra, um relatório completo chegou a sua mesa. Confirmado: Robert Wilkins era inegavelmente um vampiro e não um simplório. O maldito cliente pertencia à antiga linhagem... Agora, pela primeira vez, Laura apertava a mão de um Vox Régius:

- É um prazer recebê-lo, Senhor Wilkins! - sua voz soou calma, como sempre em ocasiões como essa, mesmo que o toque gélido a enojasse profundamente; escutou a resposta padrão dele e se livrou da mão fria. Apontou para uma das três poltronas da mesa circular – Por favor, fique à vontade.

Ele esperou que Laura sentasse antes de escolher seu lugar, bem ao seu lado, e negou a oferta da assistente. Sim, claro que ela tinha que oferecer café, água e chá:

- Querida, muito obrigada, você pode ir agora. - Laura a dispensou e somente após sua saída do cômodo voltou-se para o cliente, cujos olhos não pararam de encará-la por segundo algum – Confesso, Senhor Wilkins, que fiquei surpresa quando seu advogado entrou em contato novamente. Achei que o certificado técnico seria o suficiente para sanar suas dúvidas.

- Você é direta. - ele sorriu sem mostrar os dentes e relaxou o corpo no encosto da poltrona – Esperava que até me oferecessem uma massagem em um Spa antes de começar a falar nesse assunto.

- Não é por isso que está aqui? - a loira retrucou mantendo a coluna mais ereta do que o normal, firme para não ceder ao peso que aqueles olhos pareciam impor.

- Oh, sim! Mas veja, eu dei muito dinheiro a vocês ao longo desse ano e provavelmente darei mais caso tenham outras máscaras do tipo. - seu tom de voz, assim como seu rosto, era indiferente, como se estivesse lendo polidamente uma publicação - Porém, se o que eu questionei vier a público, a reputação da empresa poderá ser arruinada, então...

- Mais um motivo para irmos direto ao assunto, não, senhor Wilkins?

- … como eu dizia, eu gostei de sua postura, e isso é raro. - ele esboçou um leve sorriso e liberou-a do olhar. Observou as próprias abotoaduras douradas por um tempo, passando os dedos nos detalhes em relevo enquanto continuava a falar – É bom mesmo que saiba que bajulação alguma me impedirá de processá-los caso não me mostrem todos os registros dessas máscaras. Fotos de quando as encontraram, local, relatório do estado de conservação. Tudo.

- A avaliação técnica...

- Já li a avaliação técnica e ela está errada, senhorita Ortez.- O vampiro a interrompeu encarando-a, sua voz soava agora tão dura quanto seu olhar - A máscara foi modificada. Ela tem material não original.

A mulher observou de relance a cortina balançando, o vento noturno refrescava o escritório espalhando um cheiro de mata molhada, porém Laura sentia que não havia mais nada reconfortante naquele lugar. Ansiava por olhar o relógio no pulso, mas se segurou e continuou a encarar a criatura vil:

- Senhor Wilkins, como já disse para seu advogado, nós não alteramos as composições de nossos artefatos. Nunca fizemos restaurações, apenas limpamos as peças. Por que seria diferente com essas máscaras? O senhor comprou várias de nós, não temos motivo algum para alterar apenas uma, especialmente um pequeno detalhe como esse! - mentiu, surpresa em como conseguia manter um tom de voz tão honesto independente do desconforto físico que aumentava a cada piscar de olhos.

- Pequeno detalhe … - o vampiro murmurou inclinando o corpo para a mulher, manteve a boca semi-aberta como se fosse completar a sentença, mas não o fez. Crispou os lábios após um segundo e então sorriu. Não como os sorrisos tímidos anteriores: nesse ele expôs os caninos inegavelmente anormais. Passou os dedos no próprio rosto, delineando a linha de contorno de uma máscara dizendo – O acabamento nas bordas desta última é de sangue animal, senhorita Ortez, e em todas as outras máscaras a mistura do gesso tem outra composição.

Antes que Laura pudesse retrucar ele agarrou seu pulso com uma mão e seu queixo com a outra, inclinando-a em sua direção. Ela havia percebido a mudança de postura em seus braços, a ameaça do movimento, mas não fora rápida o suficiente para se afastar e agora o susto pela prisão repentina era óbvio em seu rosto delicado:

- Você sabe o que é, humana. Eu sei que sabe – Sussurrou, claramente se divertindo com os gemidos de dor que ela emitia, o relógio dourado cedia a pressão dos dedos do vampiro e cortava-lhe a carne. Laura sempre soube do risco de se conversar com um Vox Regius. Muitos da Instituição já lhe alertaram que eles podiam mover objetos com a mente e, o pior, poderiam ler seus pensamentos. A dor que ela sentia nas têmporas parecia lhe gritar que essa última possibilidade era real e tentou não pensar em nada enquanto ele a encarava bem próximo, mas já era tarde. - Você sabe que é sangue humano.

A mulher ouviu o relógio se estilhaçar antes de seu corpo ser jogado no outro extremo do escritório. Olhou para o lado, confusa e ao mesmo tempo fascinada com a precisão do vampiro: por alguns centímetros ela não caíra na estante repleta de livros e objetos o que geraria um barulho muito mais estrondoso do o som oco de seu choque com a parede. Ele se aproximou mais rápido do que seus olhos puderam acompanhar e a ergueu pelos ombros. Laura não ousaria gritar, mesmo que houvesse mais alguém no escritório ninguém conseguiria impedi-lo, porém, precavido, ele tampou sua boca:

- Você sabe da natureza de quem criou essas máscaras, sabe quem as compraria e ainda assim se arrisca a modificá-las? Para quê? - o vampiro não esperava uma resposta audível, óbvio, e a mulher nem ao menos tentou fazê-lo. Gemia involuntariamente com a enxaqueca e a falta de ar provocada pela pressão no pescoço que ele apertava levemente. Não queria pensar na hora. Não devia, ele saberia caso ela pensasse! Precisava ignorar sua esperança, deixar somente o pessimismo gritar em sua mente, entretanto era impossível manter a mente sã com as agulhadas de dor em seu cérebro. Wilkins fitou intensamente seus olhos lacrimejantes por alguns segundos e, então, com um rosto soturno, murmurou - Inquisição? Você é uma inquisidora?

Laura sentiu o coração acelerar, pronta para que seu pescoço fosse esmagado pelo ódio da criatura vil e fechou os olhos determinada a não demonstrar seu desespero. Rezava, tranquilizando-se que, se Deus quisesse que ela morresse agora, lutando pela causa, assim seria. Pelo menos havia matado muitos desses demônios, era uma boa cristã e um bom cristão não teme seu pós morte. Foi um pouco antes do “amém” que ele a soltou abruptamente. A inquisidora caiu de joelhos no chão e abriu os olhos a tempo suficiente de ver um vulto avermelhado puxando o vampiro para longe:

- Graças a Deus... - sussurrou ainda de joelhos no carpete. Acompanhava as formas difusas tentando se concentrar e entender os movimentos rápidos demais para os seus olhos humanos. Passou a mão no coque bagunçado, colocando atrás da orelha as mechas loiras que se soltaram. Sua visão era limitada, mas ouvia nitidamente o som fino de lâminas diferindo golpes, um som distinto lembrou-lhe do rasgar de pele e músculos e pôde, então, ver a forma das duas criaturas.

Eles caíram justamente sobre a mesa de reunião. O vampiro se contorcia tentando se livrar da pequena criatura ruiva que pulara em suas costas e envolvia seus ombros com a perna. A mulher reparou nos ferimentos no peito de Wilkins, sua camisa branca e terno estavam ensanguentados dos cortes precisos que Alioth desferira. Ágil, o elfo puxou os cabelos do imortal, expondo seu pescoço para as lâminas afiadas. Laura virou o rosto, enojada, ao ver os fios avermelhados se rompendo. O desconforto cresceu quando ouviu a cabeça rolar e levou a mão a boca certa de que vomitaria, não suportava aquele cheiro de sangue que envolvia o escritório. Ele quase a matara e ainda assim ela se sentia desconfortável com a situação. Não havia vida, apenas morte naqueles corpos, decepá-los era apenas a continuidade do plano divino, se convenceu abrindo os olhos e encarando os olhos semicerrados do vampiro. A alma não deve permanecer no corpo após a morte física e é isso. Estava liberando-os para que fossem julgados por uma força superior, certo? Libertação, não assassinato, sussurrou, pálida, observando o rastro de sangue deixado pela cabeça. A voz de Alioth dissipou seus pensamentos:

- Pensei que era às 20h. Me enganei?

Ela se limitou a negar com a cabeça, ainda estava atordoada, contudo seu olhar brando demonstrou que estava agradecida. A criatura ruiva não esboçava raiva, muito menos desdém pela recente vitória. Encarou-a indiferente por alguns segundos, talvez aguardando uma ordem ou uma represália. Alioth fora pontual, ela tinha certeza, o elfo nunca a desapontara anteriormente. Precisava dizer a ele de quem fora a culpa por esse estardalhaço todo? Sim, precisava:

- Ele apareceu mais cedo... - as estranhas pupilas estreitas pareciam julgá-la, e ela arqueou os ombros e se levantou – Eu achava que conseguiria entretê-lo antes de você chegar. Claramente, falhei, não é?

Desta vez, o elfo quem deu de ombros. A postura distante não incomodava Laura, muito pelo contrário, essa natureza etérea a encantava, eram criaturas muito mais racionais do que os humanos. Observou-o arrastar o corpo para perto da janela e, só então, reparou no rastro de sangue que manchava a tapeçaria turca. O bordado estava arruinado para sempre, sabia que aquela mancha não sairia e fez uma careta a qual não durou mais que alguns segundos. Um tapete com sangue vampírico seria uma boa moeda de barganha para os pesquisadores inquisidores ou ... “Ah, os magos pagariam bem caro por isso”. Sorriu:

- Alioth, quando eu for te pagar, me lembre que te darei um bônus, está bem?




Mais sobre Alioth você pode conferir no conto Justiça Carmin e em alguns capítulos de Malleus Malleficarum.

Esse é o primeiro conto da Laura, mas os Inquisidores aparecem também no conto Claire de Lune.

Espero que tenham gostado. Fiquem atentos que no mês de dezembro não apenas começará uma nova Crônica como também faremos diversos sorteios!

Clair de Lune - Final


Continuação de: Clair de Lune - pt 4
Inicio em Clair de Lune pt 1




- Eu estou enxergando, vem!! - sussurrei para Kath puxando-a para me acompanhar pelo apartamento. Estávamos na metade do corredor quando ouvi um gemido de dor. Ekaterina parou e levou as mãos ao nariz com uma estranha expressão no rosto. Permaneceu assim por alguns segundos e então, subitamente, correu em direção ao quarto.

Apressei os passos para acompanhá-la e só quando cheguei no cômodo entendi o olhar selvagem que vira no corredor: Henry havia esfaqueado o mago. Seu corpo estava caído sobre a cama, o sangue encharcava seu tórax. Tecido, pele e órgãos se misturavam a cor avermelhada e o lençol começava a ganhar aquele mesmo tom. Ekaterina agarrara o mercenário no momento em que ele se preparava para abrir a garganta do estudante, mas já era tarde. Ela conseguira achar o quarto e localizar o caçador graças ao enfraquecimento da trama negra. Os fios de magia escorriam pelo lugar. O garoto estava morrendo e, com ele, sua magia.

Foi horrível, fiquei ali parado por um tempo observando o corpo inerte, não havia mais o que fazer. O estardalhaço da luta entre a vampira e o maldito inquisidor me despertaram do horror daquela cena. As lâminas das adagas de Henry brilhavam na fraca iluminação do quarto, ele tentava incessantemente acertá-la em vão. Ekaterina era muito mais rápida apenas empurrava-o de leve contra a parede e deixava-o voltar às tentativas fúteis. Parecia que brincava com ele, talvez estudava seus movimentos. O olhar feroz do mercenário rapidamente se transformou em desespero, ele estava encurralado como em uma ratoeira e queria fugir, era óbvio.

Você sabe que muitos mercenários praticam magia, especialmente os que matam criaturas como vocês, não adianta só saber os pontos fracos, ser um bom estrategista ou ser um exímio lutador. Quando se é pego de surpresa por um imortal ou por um mago poderoso, habilidades humanas não são o suficiente. Acreditava que Henry tinha algum tipo de poder, afinal, ele vira os fios no instrumento de Egor, tentara desmanchar o feitiço de proteção do apartamento … O guia da cidade estava cheios de rastros mágicos, fortes demais para uma pessoa com um talento superficial para a coisa. Contudo, em nenhum momento ele tentou conjurar uma magia naquela situação e era exatamente isso que a Ingenium verificava ao provocá-lo com leves empurrões.

Ela segurou seus dois pulsos, obrigando-o a encará-la. A expressão raivosa que eu vira anteriormente no rosto de Ekaterina não era nada comparada com a que vi naquele momento:

- E eu preocupada por haver esquecido meu sabre... Como você é fraco! – desdenhou exibindo os dentes e pude ouvir os ossos de Henry estralarem. As adagas caíram no chão e ele começou a se ajoelhar sobre a força da vampira, era nítido o esforço dele para não gritar. – Você veio até minha morada tão ansioso para matar um vampiro e nem conseguiu me atingir agora, mesmo eu não usando metade da minha velocidade. Covarde. Pretendia nos atacar de dia, não é? Ou com vários inquisidores ou quem sabe...

Ela o obrigou a ficar de pé novamente e reparei como a respiração ofegante de Henry começara a ficar audível. Ele deixou escapar um gemido, mas não pela dor, era desespero por não conseguir inspirar direito:

- Quem te deu esse guia? Foi um mago, não foi? - a vampira questionou ferozmente e então reparei no movimento de seu tórax. Ela parecia respirar. A cada inspiração tortuosa dele eu tinha mais certeza que Ekaterina sugava seu ar, alimentando-se daquela respiração como uma humana. Até seu tom de pele parecia ganhar uma coloração mais... viva.

Não sei se Henry percebia exatamente o que acontecia, mas estava apavorado. Balançou a cabeça em negação algumas vezes até que desistiu e gaguejou:

- Or.. or.. dem. - Kath o largou e me encarou enquanto ele completava - Ordem Francesa.

A face soturna da vampira não esboçava surpresa alguma com aquela resposta. Algo em sua expressão me fez crer que ela desconfiava disso desde que conversara com Eugéne e só o forçara a falar a resposta para que eu ouvisse, para que eu soubesse. A ordem de magos parisiense que sempre acolheu tão bem os estrangeiros decidiu desencorajar a imigração. Covardes filhos da puta.

Henry estava de joelhos, inclinado sobre o chão e recuperando o ar inspirando desesperado pela boca. Eu queria lhe perguntar dos motivo dessa mudança de comportamento da Ordem, se estavam confabulando com a Inquisição, ou se ele agira como um agente duplo. Enfim, tinha muitas perguntas, mas antes que eu pudesse me aproximar dos dois, o mercenário chutou os joelhos de Ekaterina e tentou fugir aproveitando-se do pulo que a vampira dera para se esquivar do golpe. Mesmo com a falta de fôlego, Henry era rápido e em um segundo já pulara sobre a cama e estava prestes a sair pela porta quando a vampira o alcançou.

Jogou-o no chão sem dificuldade e calou sua boca quando ele começou a gritar. Sem pestanejar, cravou os dentes em seu pescoço. Henry me olhava suplicante implorando ajuda. O corpo do mago assassinado covardemente estava ali bem ao seu lado, como o desgraçado ousava me olhar daquele jeito? Lembrei de todos os nomes marcados no mapa, de todos os conhecidos que desapareceram em Paris e o odiei. Contudo não foi a ausência de empatia que me manteve atônito, foi a ferocidade com que Ekaterina o atacava. Espera-se que um vampiro beba o sangue do pequeno corte provocado pelos caninos, era isso que eu esperava, mas Ekaterina rasgara a jugular com furor. Arranhava, mordida, bebia...

- E, então, você vomitou. - Adrian riu. Havia sentado casualmente no chão ao longo da narrativa e permanecido em silêncio até agora:

- Sim... - Hans murmurou, a resposta foi quase inaudível em meio aos sons da tempestade que caía fora do calabouço. Olhou taciturno para as algemas entediado por voltar ao seu presente:

- Ela era uma Ingenium... toda essa fome provavelmente era destinada ao sangue do mago que estava na cama. Ela não o abocanhou por respeito a você, hum? Poderia ser pior. - Aguardou alguma reação do prisioneiro, mas Hans só deu de ombros. Adrian insistiu – Você continuou em Paris, já que foi assim que conheceu Ashtaroth, mas e ela? Você a viu novamente?

O mago alemão encarou o rosto cheio de escárnio do vampiro e permaneceu em silêncio por alguns segundos. Sentia uma estranha dormência nas têmporas e um cansaço anormal mesmo para o seu corpo atrofiado dos dias de aprisionamento. Fechou os olhos irritado com o significado desses sintomas:

- Adrian, estávamos conversando sobre o meu primeiro contato com vampiros e é isso. Uma noite de sangue e vômito. Chega desse assunto...- apesar de sua seriedade, o tom de voz e olhar eram brandos. Fora um pedido amigável e o vampiro o atendeu. Sorriu olhando a hora em seu celular e foi até a saída do minúsculo cômodo. Porém antes de abrir a porta, começou a falar:

“Ele vomitou uma vez. Duas. Na terceira vez, conseguiu alcançar o banheiro. Ficou ali por um bom tempo, o estômago doendo de fome e ânsia. Lavou o rosto querendo esquecer o que havia fora no quarto. Era sangue demais. Enxugava o rosto quando ouviu a voz da vampira:

- É melhor você ir, garoto, eu cuido do resto – Hans a observou pelo reflexo do espelho, estava menos suja de sangue do que ele esperava, contudo era o suficiente para que sentir o estômago doer de novo. Respirou fundo lavando novamente sua boca e controlando a ânsia:

- Não. Eu vou te ajudar. Só.. preciso de um tempo. - Um tempo para digerir a chacina planejada pela Ordem que o acolhera. Um tempo para ignorar o que acabara de presenciar no quarto. Era demais para um mago inexperiente como ele. - Eu não entendo. A Ordem Francesa é conhecida por acolher os magos de toda a Europa. Se unir justamente com os inquisidores... Eu costumava ser até bem devoto antes de toda a merda que eu vi na Alemanha...

- Sua fé mudou pelo o que os fanáticos fizeram lá?

- Digamos que eu não sigo mais nenhuma religião... - Hans se afastou da pia, dando espaço para ela entrar e lavar as unhas imundas. O sangue escorria pelo ralo enquanto Ekaterina esfregava as mãos, mesmo após o assassinato seu rosto mantinha o ar raivoso anterior. Hans encostou-se no batente, incomodado com a naturalidade que ela tirava o vermelho dos dedos. Murmurou - E agora, a Ordem que eu confiava faz uma merda dessas. Puta que pariu.

- Não tem nada a ver com religião, garoto. Não perca seu tempo tentando entender os inquisidores ou a posição política da sua Ordem. É só simples e puro ódio. - encarou-o pelo reflexo e exibiu os caninos em um sorriso cínico - Vampiros, humanos, magos, inquisidores, nós todos escolhemos um alvo de nosso ódio e desenvolvemos infinitas desculpas para racionalizar isso. Não tem nada a ver com fé ou política, é só ódio e ilusão.

- E qual é a desculpa para o seu ódio? - Hans ousou perguntar. O tom de voz soou mais rancoroso do que ele gostaria, mas manteve o olhar nos olhos cinza que, óbvio, o fulminaram. O mago temeu a reação da vampira, sentiu o peito pesar por todo o tempo que se encararam em silêncio até que ela se inclinou para lavar o rosto. Respondeu ignorando o reflexo do mago, sua voz mais rouca do que nunca:

- Eu não sei mais.

Antes disso, antes desse encontro, o mago realmente acreditava que todos os vampiros eram um bando de aberrações que não tinham função alguma no equilíbrio terreno, julgava todos como se fossem um tipo de parasita que se deve exterminar sem exceção. Mas com essa conversa ele percebeu que poderia … se identificar com um deles. “

Adrian se virou:

- Ah, Hans. Desculpe-me, mas tanto rancor, tanta nostalgia em seu cheiro, era impossível não invadir sua lembranças! Sua mente ficou totalmente exposta! - debochou, nem um pouco envergonhado - E essa sua memória é incrível, hein? Você lembra de todos os detalhes que quer!

O mago alemão não esboçava raiva alguma pelos comentários, o cansaço era evidente em seus olhos semicerrados. Há dias recebia a visita do Vox, já imagina quando fraquejaria em sua presença. Mordeu os lábios tentando se manter acordado:

- Não se preocupe, humano, não vou fofocar sobre... isso que te preocupa, mas infelizmente não posso ignorar suas habilidades. Eu sei do que você é capaz. E do que essa vampira é capaz de fazer por você. Não posso ignorar isso, certo? Volto mais tarde, vou te levar para um lugar novo.

Hans ouviu a porta bater deixando-se levar pelo sono que o consumia. “Isso que me preocupa...” murmurou em um sorriso triste, esperançoso que Adrian cumpriria o que falava. Não o incomodava que o vampiro soubesse da intimidade que ganhara posteriormente com Ekaterina. Isso não o afetaria em nada. O problema era o que fariam se descobrissem que a Voz dos Ingenium, a temerosa assassina do Indulto de Sangue, ainda estava viva.




A narração de Clair de Lune acontece antes dos eventos da Crônica Resgate. Para saber mais sobre Hans e Ekaterina é só ler a Crônica aqui

É isso, gente, desculpa a demora para finalizar, praticamente um ano, mas tive outras pioridades nos últimos meses que quebraram o ritmo da escrita...

Espero que tenham gostado. Não gostaram? Me xinguem aí embaixo!

Obrigada a todos que continuaram a nos divulgar e comentarem aqui e no twitter, especialmente o @JotaFF, o @SnakeTnTaylor e o @professorvaz!

Daqui a 15 dias postaremos outro conto.

Clair de Lune pt 4


Continuação de: Clair de Lune - pt 3



- Aonde ele está agora? - sua expressão estava transformada, não parecia mais uma musa exótica de olhar indiferente. Era muito claro que se não fosse por seu mentor ela já teria cravado os dentes nele. Porém, mesmo com a vampira sufocando-o pela gola, o inquisidor manteve uma expressão calma e disse:

- O nome dele é Henry. Solte-me. Vou te contar o que sei.

Ela aceitou o pedido e o largou. Os olhos cinza o acompanharam pelo cômodo enquanto ele se afastava. Éugene não parecia estar nem um pouco abalado pela chacoalhada que levara, foi sem pressa a uma das diversas escrivaninhas do lugar e pegou um pequeno livro abrindo-o cuidadosamente. Sua encadernação era peculiar, cada dupla de página se desdobrava em um grande mapa mostrando alguma área da cidade de Paris. Ele desdobrou uma dessas páginas e estranhei os fios multicoloridos percorrendo a superfície do papel. Não, não era algum efeito de impressão, aqueles pontilhados não seriam visíveis a um humano comum. Eram rastros de magia, bem sutis, não eram densos e prontos para serem manipulados como o que preenchia a pequena peça que a vampira me mostrara anteriormente. Esses sobre as ruas desenhadas denunciavam que algum mago manipulara anteriormente aquela encadernação, eram praticamente uma digital mágica. A voz do inquisidor interrompeu o que eu pensava:

- Hoje é o 14a dia que Henry está na cidade. Então, hoje ele matará o 14a bruxo - disse batendo o dedo na anotação à caneta sobre o mapa, a escrita formava justamente o decimal que ele citou, adicionado de duas letras as quais eu, que já estava ao seu lado, li em voz alta:

- “L.D”? São as iniciais do nome dos magos?

Antes que o idoso me respondesse, concluí a resposta observando a outra anotação sobre aquela região, mais uma dupla de letras acompanhada de um número. A vampira fez o que eu estava prestes a fazer: sorrateira, puxou o guia e passou a folheá-lo. Ela murmurava ignorando os dedos nervosos do inquisidor requerendo o objeto de volta:

- Não tem tantos nomes marcados aqui, não para a quantidade de magos que eu imagino que habitam Paris. Somente os estrangeiros estão aqui? Ora... - fechou o livro observando a capa chamativa do guia – Quem deu isso para vocês? Isso aqui não pode ser da Inquisição.

Éugene colocou as mãos nos bolsos e se afastou respondendo:

- Eu apenas recebi isso de Henry, ele tem um similar... Não sei detalhes - pegou uma coleira atrás da porta e prontamente o cachorro reapareceu, correndo para os seus pés, ansioso pelo o que significava aquele ato.

Kath não repetiu a pergunta, manteve um longo silêncio enquanto fitava o idoso acariciando o animal. Percebendo a insatisfação com sua resposta, Eugéne colocou o acessório no cão e completou o que dissera:

– Eu realmente não sei. Apenas desconfio que não seja nosso – disse incisivo, colocou-se de pé e apontou para o vão da porta - Agora, por favor, eu preciso levar o cachorro para passear...

Ela não questionou a expulsão, me entregou o guia e foi até a porta olhando por alguns segundos a corda da coleira branca antes de sair. Disse:

- Tsc, pena que a sua enforcadora não é visível, Éugene.

Fiquei atônito com o sarcasmo e por ter certeza que ia dar merda se ele a respondesse. Eu queria sair dali o mais rápido possível, queria impedir um assassinato... Ficar discutindo e pensando em quem deu o guia e planejou tudo não passava pela minha cabeça naquele momento! Porém, ela não esperou a resposta (que certamente viria) e desceu a escadaria. Satisfeito por não precisar impedir uma briga eu a segui ignorando o início das ofensas do velho.

A ida até ao endereço foi um saco. Ekaterina não me deixou observar o mapa e também nem fez questão de me indicar o caminho. Folheava incessantemente o guia, forçando as dobras e xeretando a costura do miolo. Aquele interesse me fez pensar se ela conseguia ver os rastros de magia também, mas aquelas digitais seriam percebidas por raríssimos magos, seria impossível vampiros perceberem algo tão específico da minha espécie. Estaria daquele jeito só desconfiar da origem do livro?

E daí que o mapa não é dos inquisidores?!” tinha vontade de gritar, irritado por andar à vinte por hora esperando algum indicação da parte dela. Hoje, se isso fosse parar em minhas mãos naquela situação, eu estaria daquele jeito também. Raciocinar quem estava colaborando com a matança, o porque, é fundamental, porém, preciso lembrar que naquela noite eu era um garoto inexperiente? Eu reagia aos problemas conforme eles chegavam até mim, e, aliás, a preocupação de caçar um mercenário sem um plano, de novo, me desconcentravam o suficiente naquele momento.

Quando Ekaterina se cansou do livro e passou a me guiar pelo subúrbio parisiense, rapidamente chegamos ao local. Andamos em silêncio até o edifício, ele era bem mais moderno e alto do que o que eu morava na época, contudo tinha o mesmo o inconveniente de ser sobre um pavimento comercial. Apontei a pizzaria para a vampira:

- Isso é bom, certo? Com a pizzaria funcionando ele não deve ter feito nada.

- Depende. Na verdade, isso só garante que ele tenha dificuldades em sair com o morto. – respondeu atravessando a rua, continuou a falar indiferente sem nem me deixar digerir a resposta pessimista – A dúvida é, como garantir que ele não saia do apartamento enquanto entramos e subimos no prédio? Ele pode muito bem fugir deixando o corpo.

- Ainda “não tem corpo... – contestei murmurando.

Observei o prédio para ignorar a expressão cínica dela e avistei algo bem peculiar. Duas grandes janelas do 3º andar exibiam uma estranha forma etérea, a única coisa que se via dentro do apartamento eram fios enegrecidos que se cruzavam densamente. O formato era típico de um feitiço de proteção, mas estranhei a cor, mesmo que seu criador seja um inexperiente metido a Harry Potter, ele é tremeluzente. Observei que haviam alguns buracos na trama e xinguei. Infelizmente a vampira estava certa, Henry já estava lá.

Corri até a porta do prédio e Kath me seguiu, antes que me questionasse eu já estava com a chave do citroen em mãos, envolvendo-a e convencendo-a com meus sussurros que agora ela não era uma chave de carro. Ela era uma chave-mestra e abriria qualquer porta. É. E funcionou.

Kath passou por mim enquanto subíamos a escada, me fitava com grandes olhos indagadores e só então eu expliquei sussurrando:

- O desgraçado já está lá. Acho que ele quebrou o feitiço de proteção do apartamento.

- Imaginei mesmo que você vira algum abracadabra assim... – ela disse com um sorriso astuto – Mas o que eu quero saber é como fez isso com a chave!

Não deixou eu responder, seguiu a escadaria rapidamente, deixando apenas tênues vultos de sua forma no caminho. Minutos depois, sem fôlego, eu cheguei ao terceiro andar. Ignorei minha ansiedade e andei vagarosamente até o apartamento 303. O silêncio do lugar me preocupou, esperava barulhos de luta, no mínimo vozes, e no entanto só conseguia ouvir minha própria respiração ofegante. A porta estava entreaberta e a empurrei cauteloso.

A pequena sala estava tomada pelos fios protetores, os móveis e paredes se mantinham intactos, nada estava alterado, mas podia sentir que as energias do lugar estavam estranhas. Avistei o caçador bem próximo ao batente que dava acesso ao outro cômodo, estava envolto pelos mesmos fios do resto do ambiente. Ele me encarava arregalando os olhos a cada ranger da porta, segurava as adagas pronto para atacar, mas ao invés de correr em minha direção, cortava o “nada” a sua frente. As nuvens negras ao seu redor espalhavam-se com o movimento, como se fossem poeira, e em meio a essa penumbra reparei na expressão de dúvida de seus olhos, ele não me via ali.

Olhei a vampira, ainda próxima da entrada do apartamento, sem saber se ela também percebera aquilo. O jeito cauteloso como fitava o local também era bem estranho, como o caçador, ela parecia que não me via, muito menos o inimigo no oposto da sala. Concluí que eles não estavam enxergando o cômodo como eu que distinguia perfeitamente os móveis daquela névoa escura. O matador não quebrara o feitiço corretamente e, ao invés de extingui-lo, mudou seu efeito sobre o lugar criando uma ilusão de escuridão para inimigos.

Observei Kath se movendo para a sua direita, provavelmente tentando voltar a entrada do apartamento. Segurei sua mão, disposto a planejar com ela o que fazer já que eu não conseguia lembrar de nada que pudesse conjurar para manipular aqueles fios ao meu favor. Ela aceitou a ajuda, envolvendo meus dedos e se aproximando da saída mais rapidamente, porém, antes que eu pudesse tirá-la da escuridão, passos arrastados soaram no outro cômodo. O estudante “D.L” acordara e agora seus ruídos alertaram o caçador, guiando-o sem hesitação até a entrada do quarto.



Continuação: Clair de Lune Final


* Erros de português como O fitando são propositais, pois não acho que o Hans falaria formalmente (fitando-o) a todo o momento.

** Esse post foi postado ano passado e "recolhido" posteriormente para revisão.

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