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Marolas do Aqueronte - Parte II



- Este é o carro do James Bond, né? – Perguntou Sasha, com um sorriso divertido no rosto, evidenciando o teor jocoso da pergunta. Remmy, com os longos cabelos loiros amarrados em um rabo-de-cavalo, abriu a porta do carona para ela com uma firula cavalheiresca e respondeu, com igual sarcasmo:

- Não, querida, este é o carro do Senhor meu pai, Siegfried Von Vogelrauch, creio que já tenha ouvido falar nele. – Sasha riu, enquanto se acomodava no banco e passava o cinto de segurança sobre o torso. Os cabelos da mercenária, naquela tarde, estavam arrumados em um coque apertado na nuca, e a mulher trazia uma bolsa de mão que emitiu um perigoso ruído metálico ao ser depositada entre as suas pernas, no piso emborrachado do Aston Martin Rapide do mago milionário. Poucos segundos depois a porta do motorista se abriu e Remmy pulou para dentro com uma elegância e fluidez de movimentos quase felinos. – E então, pronta?

- Pé na tábua, Sr. Bond! – Brincou, piscando para ele. Remmy sorriu e girou a chave na ignição; logo depois, o carro deslizava suavemente pelo asfalto das ruas de Praga. – E então, para onde vamos, mesmo?

- Primeiro, precisamos nos encontrar com Dorian e Hector. Depois, para o interior, arredores de Cieszyn. – Replicou Remmy, girando a direção com uma mão e, com a outra, sintonizando uma estação de rádio qualquer. Tamborilando os dedos no volante, no ritmo da música, perguntou: - E nas suas pesquisas, o que descobriu sobre o Aurel?

Sasha arqueou as sobrancelhas, encarando Remmy com surpresa. Abriu a boca lentamente, antes de disparar com uma rispidez tão pouco característica: - Como é que é? Você que me vem com a idéia de invadir a casa do cara, e quer que eu faça o dever de casa? Você só pode estar brincando, garoto! – Protestou, enfiando a mão no bolso da gabardine caramelo e pescando de lá uma cigarreira dourada contendo uma dezena de cilindros de papel negro. Cheiro de Artemísia, cravo e sálvia encheu o ambiente. Ela sorriu e acendeu um. O loiro, instintivamente, baixou o vidro da janela do carona, deixando uma brisa gélida varrer o interior do Aston Martin. – No mundo de hoje, Remmy, onde em qualquer esquina, em qualquer canto escuro, pode se esconder um demônio sedento de sangue, ou coisa pior, prevenção é tudo. E só se consegue isso com informações, certo? Então o que você deveria me perguntar não é o que eu sei, mas quanto eu sei, e quanto eu quero por isso... Entende?

- Pensei que você tivesse acabado de dizer que odeia seres mágicos. Estamos indo ferrar com um, não é satisfação o suficiente?

- Odeio. – Um vislumbre dos dentes de uma Sasha zombeteira. O som do cigarro queimando, e a mulher graciosamente deslizando os dedos para fora do carro para se livrar das cinzas, antes de replicar: - Odeio, mesmo. Mas odeio ainda mais a minha conta bancária vazia. Amo dinheiro, por isso tenho tanto a oferecer, você sabe...

Remmy riu alto, e outra música começou a sair dos auto-falantes. Mordeu os lábios por um segundo, antes de perguntar: - Você não tem marido, Sasha? Namorado? Você é tão g... bonita, não precisava se arriscar tanto para viver uma vida de rainha.

- Isto foi uma cantada? – Perguntou ela, franzindo o cenho em uma expressão de velada confusão. – Eu não vou dar as informações para você só porque me elogiou, hein?

- Não, não foi. Podemos conversar do preço depois que você me responder por que eu sempre vejo você sozinha...

- Por que eu não tenho interesse em homens. Nem em mulheres. Nem em vampiros. Nem em nada que se mexa, meu único amante é o meu cartão de crédito, lindinho. Por isso eu me empenho tanto em ser boa no que faço: para me sentir amada! – Gracejou, piscando para ele e tragando mais uma vez. – Respondi a sua pergunta? Podemos falar de negócios agora? – Em sua outra mão, um blackberry preto descansava, e em um rápido vislumbre Remmy conseguiu ler “Alioth” estampado no display luminoso.

- Claro. Claro.

***



O firmamento estava tingido de vermelho e dourado quando os quatro finalmente desembarcaram do Aston Martin Rapide, em uma rua pavimentada de cascalho e completamente deserta. Sasha olhou ao redor, pouco interessada, enquanto curvava o corpo para frente para pegar a bolsa de mão e colocá-la sobre o banco que ocupou nas últimas duas horas. Com um movimento rápido, abriu o zíper principal, revelando todo o aparato que trouxera para aquela situação.

Dorian assobiou baixinho, parte para as ancas erguidas de Sasha, parte para a coleção de facas, armas de fogo, punhais e um enorme chicote negro que pulavam para o exterior da bolsa da assassina. – Que faca grande você tem aí, vovozinha! – Brincou, aproximando-se lentamente. – Diz que você vai levar esse chicote, chérrie! Couro sempre me excita!

- Algo me diz que você tem um ou dez DVDs da Fornicaraz, hein? – Brincou Hector, deslizando para fora do carro vestindo apenas uma camiseta regata preta, calça e gorro de lã cinza escuro. Remmy, que observava tudo de pé ao lado da porta do motorista, simplesmente sorriu. Na mão, um cantil translúcido cheio até o gargalo com um líquido verde-esmeralda.

- E então, Sasha, você ainda não nos disse o que descobriu sobre o tal mago... – Perguntou ele, atraindo o foco da conversa para si. Tragou longamente da garrafa, enquanto a mercenária enfiava duas adagas de obsidiana nos coldres atados na altura das coxas.

A mulher suspirou longamente e, de bom grado, ignorou o pedido de Dorian e começou a falar em voz monocórdia. – Bom, segundo meu informante, o nome dele na verdade é Grzegorz Väduwa...

- Não me admira que tenha mudado. – Murmurou Remmy. Hector sorriu, Dorian revirou os olhos e Sasha também o ignorou, prosseguindo:

- Ele é Polonês dessa região, porém passou a maior parte da vida viajando e reunindo artefatos lúgubres. Dizem que ele tem o maior acervo do mundo, mas isto não é confirmado. A dracma que vocês querem é um dos itens de menor valor que ele possui, creiam-me. – Passou os dedos pelos cabelos, ajeitando uma mecha atrás da orelha, e continuou: - Dizem que ele sabe como criar e controlar vários tipos de mortos-vivos, acho que é por isso que pouca gente se aventura para estas bandas, especialmente vampiros.

- Ok, então em poucas palavras, ele é um necromante virado em dinheiro e artefatos mágicos. – Dorian concluiu.

- Não: ele é um necromante virado em dinheiro e artefatos mágicos que nem mesmo a Ain Soph teve cacife para recrutar.

- A Ain Soph recruta apenas pesquisadores e os melhores em suas áreas de atuação. Meu pai já tem um necromante a seu serviço, e teve muitos outros anteriormente. Ser colecionador não faz dele mais competente, só o faz menos insignificante. - Respondeu Remmy, rispido. O sorriso de Sasha se manteve inabalável, quando a mulher deu de ombros e continuou seu relato:

- Ele passou duas décadas na Ásia, durante os anos de 40 e 50, então podemos esperar algumas surpresinhas bem desagradáveis: os mortos-vivos e demônios asiáticos são bem... incomuns e podem ser bastante chocantes.

- 40 e 50? - Dorian assobiou baixinho. - Quantos anos esse cara tem?

- Segundo meu informante, quase 100. Mas eu não esperaria um velho incapacitado, se fosse vocês. Lembrem-se do tipo de objetos que ele costuma colecionar. - Sasha calou-se por algum tempo, para deixar os garotos digerirem as informações. Curvou-se para frente, apanhando o chicote que alvoroçara tanto Dorian, enrolando-o metodicamente: a arma tinha a grossura de um dedo e contava com três lâminas de prata amarradas às pontas. Atou também um coldre de pistolas à cintura - muito embora não gostasse de armas de fogo, sem o sangue de Alioth teria que contar com toda ajuda que pudesse arranjar - que, além dos encaixes para as armas, dispunha de alguns compartimentos os quais Sasha preencheu com três pequenos cilindros vítreos, cujo conteúdo líquido mudava de cor de acordo com a posição da assassina; prendeu também o chicote ao cinto do coldre. Finalmente, remexeu no fundo da bolsa, arrebatando de lá uma pequena garrafa térmica, e se serviu de uma generosa quantidade de café, enquanto acendia outro cigarro. Bebericou o líquido, tragou o cigarro, e quando ergueu os olhos novamente para os garotos, os três a olhavam com o que lhe pareceu assombro e admiração. - Quê? Não divido meu café nem meus cigarros com ninguém, aviso logo! - Objetou.

- Na verdade, nos perguntávamos para que guerra você está indo... - Respondeu Hector, com um ar consternado. - Digo...

- Vocês são magos. Você é lobisomem - ela apontou com a mão do cigarro para Hector - você é filho de um dos homens mais poderosos do mundo - e para Remmy - e você é... bem, tenho certeza que você vai me surpreender de alguma forma - disse, olhando para um Dorian levemente irritado - e eu sou uma simples garota que sabe um ou dois encantamentos, que também gosta de se precaver e... principalmente, que conhece o tipo de monstro que vamos enfrentar. - Finalizou, batendo a porta do carro com certa violência e tragando mais uma vez.

- Humanos também são monstros? Vamos enfrentar humanos também... - Observou Remmy, com um quê de “te peguei” na voz. Sasha olhou-o por apenas um segundo, antes de responder:

- O pior tipo de todos.

Nenhum dos três respondeu nada, apenas ponderaram por um segundo. Tudo acontecia por causa dos humanos, não era? Ninguém nascia vampiro, virava mago, lobisomem ou invocava demônios ou espíritos por acaso. Não era a ideia de se alimentar sangue e esturricar no sol que os seduzia, que os impelia a isso. A ganância humana era a raiz de tudo. A pior fome não era de sangue, mas de poder. Era esta que os consumia por dentro. A todos eles, inclusive aos quatro ali reunidos.

- Quanto tempo até ele perceber que estamos aqui, Sasha? - Murmurou Dorian, olhando ao redor, ignorando a pertinência do que a mulher acabara de falar, como se para afastar aqueles pensamentos.

- Tenho a impressão de que ele já sabe. - Disse Hector, observando por entre as árvores laterais. Ouvia-se o farfalhar de folhas secas e galhos, porém não se sentia o soprar da brisa. Alguém, ou alguma coisa, espreitava.

- Ou talvez não saiba ainda, mas saberá muito em breve. Não tem como entrar ali sem o conhecimento dele, especialmente porque o terreno inteiro parece ter sido enfeitiçado... - Disse Remmy, puxando do bolso um pequeno tubo de ensaio cheio do que parecia ser ouro em pó, o qual despejou no interior do cantil. A poeira dourada espiralou lentamente, nadando no mar verde-esmeralda, e a bebida efervesceu por alguns segundos, ínfimos segundos. Quando o líquido aquietou-se, continuava com a mesma tonalidade de verde e a substancia amarelada continuava dançando em seu interior, embalada por uma melodia a qual os dedos de Remmy não eram responsáveis. O rapaz aproximou o gargalo lentamente do rosto, cheirou o interior e, com uma expressão temerosa, bebeu um gole. Imediatamente a expressão do mago pareceu relaxar, e ele soltou uma risadinha afetada. - Vocês não percebem? Parece que tem algum bicho morto por aqui, tamanho o cheiro de carniça...

- Ou talvez seja só um dos zumbis do tal Ariel! - Disse Dorian, fingindo não ouvir Hector corrigi-lo quanto ao nome do necromante. - Já pensou nisso?

- Não, é magia. Você vai ver, quanto mais nos aproximarmos, mais o cheiro vai aumentar. Talvez te dê vontade de sair correndo, talvez você seja acometido por um pânico absurdo, ou dor de barriga, ou... você se lembre que deixou o feijão no fogo. Qualquer coisa que te faça sair daqui o mais rápido possível. - A cada sílaba, a voz de Remmy ficava mais e mais pastosa e enrolada. - Escutem, se a coisa ficar preta lá dentro e precisarmos nos separar, utilizem aquele feitiço que Alícia nos ensinou, o de criar portais de espelho, ok? Sasha, você consegue se virar sozinha, se algo acontecer, não é? - A garota olhou-o de cima a baixo com uma expressão de profundo desdém, o que, para Remmy, servia como uma afirmação.
- Mas e o carro? - Hector perguntou.

- Tenho certeza que a vida de qualquer um aqui vale mais do que um carro, Hec. - Disse o loiro. - Todos memorizaram a planta da mansão, certo?

Hector olhou para ele com uma expressão confusa. Seu desconforto era evidente, especialmente ao se aproximar um pouco do loiro e inquirir quase em um sussurro preocupado: - Porque nos pergunta sobre isso? Você não vai conosco? A ideia de invadir este local foi sua, lembre-se...

- Relaxa, Hec. – Remmy tranqüilizou-o, apoiando a mão direita espalmada sobre o seu corpo. Com a esquerda, virou mais um gole da bebida verde. Era sabido que o filho de Siegfried só conseguia performar magia em estado alterado de consciência, o que o obrigava a ingerir diversos tipos de substancias alucinógenas - às vezes, simultaneamente. - Todos nós vamos ficar juntos, só perguntei isso para o caso de alguma eventualidade. Como dizem por ai, o seguro morreu de velho, né? Hehe...

- Não precisa ficar preocupado, bonitinho, eu cuido bem de você! - Disse a assassina, piscando para Hector. O garoto, absolutamente embaraçado, corou até a raiz dos cabelos e baixou os olhos para o chão. Remmy riu, quase conseguindo ver o brilho maníaco nos olhos da garota, enquanto ela imaginava o prestígio que teria se por acaso salvasse o herdeiro dos Terrazas da morte. Um perigo que, ele não duvidava nem um pouco, a própria Sasha poderia se assegurar que Hector corresse, apenas para ter a oportunidade de colher os frutos posteriormente. O jovem mago se aproximou da assassina e murmurou, de forma que apenas ela conseguisse ouvir: - Assegure-se de que ele volte ileso e você será muito bem recompensada. Mas ele não pode sofrer nenhum arranhão!

A garota estudou-o por um ou dois segundos. Os enormes olhos castanho-esverdeados de Sasha esquadrinharam todos os traços de Remmy rapidamente, antes que ela abrisse um sorriso malicioso e concordasse com os termos. Inclinou-se para ele e afagou os seus cabelos, como se o loiro não passasse de um bebê e tivesse dito algo particularmente perspicaz para sua idade. - Agora sim estamos falando a mesma língua, bonitinho!

Antes que ele pudesse responder, entretanto, um alto estrondo ecoou e o ruído inconfundível de madeira se partindo encheu os ouvidos dos quatro. Sobressaltados, aproximaram-se das árvores que margeavam a estrada de cascalho, mas foi Hector que explicou o que estava acontecendo: - Eles estão acordando. Posso sentir o cheiro...

- Cheiro de quê? - Perguntou Dorian, enfiando a mão no bolso. Sua voz, por um segundo, pareceu um guincho assustado, mas no final da sentença já carregava o timbre normal. Ou quase. - Cheiro de quê, porra?

Hector não respondeu e aproximou-se um pouco mais. Hesitante, afastou os primeiros galhos de uma das árvores e espreitou a escuridão... apenas por um átimo de segundo antes da criatura saltar sobre ele. A princípio nenhum dos quatro percebeu do que se tratava; Hector e uma bola de pêlos negra e mal-cheirosa se embolaram na estrada. Um urro de dor, cheiro de carne podre e carbonizada queimou-lhes os olhos e no fundo da garganta. Dorian, alarmado, levou uma das mãos até a boca, como se fizesse força para não vomitar, puxou de dentro do bolso um bordão de madeira negra, de aproximadamente um metro e vinte, porém antes que tomasse coragem suficiente para atingir o animal, quatro disparos explodiram em suas orelhas. A criatura berrou e desabou sobre Hector, expelindo bile e sangue podre sobre seu corpo e rosto. Dorian então não aguentou, curvou-se para frente e vomitou. Sasha, com uma pistola na mão, aproximou-se do garoto e, com um pontapé, livrou-o do animal morto.

- Você está machucado? - Perguntou a Hector, ajudando-o a se levantar. O rapaz olhou para si mesmo, com os olhos úmidos, e abanou a cabeça negativamente. - Nenhum arranhão? - Ele negou novamente, e a mulher olhou para Remmy com um sorrisinho vitorioso. O loiro, por outro lado, aproximou-se rapidamente do amigo, apanhando-o pelos ombros, preocupado. Murmurou “desculpe” algumas vezes, antes de passar a mão pelo seu rosto e pelas suas vestimentas, e por onde os dedos do jovem mago deslizavam, toda a sujeira e podridão simplesmente desapareciam.

Dorian ainda estava curvado sobre o seu próprio corpo, expelindo os salgadinhos que comera no caminho, e o bordão negro se esfarelou aos seus pés, tão subitamente como tinha aparecido em seu bolso. - O que era aquilo? O... q... argh!

- Ai, por favor, ele é um necromante. Se vocês estão assim por um animalzinho reanimado, acho melhor voltarem para Praga e aproveitar a noite jogando RPG ou algo assim. - Censurou Sasha, puxando a outra arma do coldre e sumindo na orla da mata. - Deixem que eu pego o Dracma, junto com todo o resto.
Remmy olhou para Hector e para Dorian por uma fração de segundo, antes de correr atrás da mulher. Hector o seguiu, e Dorian, com uma última cusparada sobre o cadáver apodrecido do enorme animal, também. Por um momento, entoou mentalmente o encantamento que Alícia tinha ensinado, mas não conseguiu pensar em outro lugar onde gostaria de estar naquele momento senão ali. Sua cobiça sobrepujava em muito o medo.

Antes que os três pudessem acompanhar Sasha, ouviram mais meia dúzia de disparos adiante. Caminhavam apressados, com Hector na dianteira seguindo o rastro da mulher. Quando desembocaram em uma enorme clareira, a assassina estava parada alguns metros adiante da mata, com as armas em riste. Três enormes cães (ou seriam lobos?) em decomposição se avolumavam pelo gramado, diante do palacete bem iluminado que se erguia diante deles. As paredes eram brancas, e todas as luzes do lugar pareciam estar acesas.

- Para um mago maligno, esse cara gosta muito de luz. - Observou Dorian, ainda com uma expressão desgostosa. Lentamente, mais adiante, algo mais começou a se mexer. - Ele não vai ficar só em cachorros, vai? - Havia um toque de esperança na pergunta que os outros três ignoraram sumariamente.

Poucos metros diante de Sasha, a terra começou a ser revolvida de dentro para fora. E em vários outros pontos do gramado também. Folhas farfalharam, vindo de algum ponto atrás dele e também de adiante. Por algum tempo, toda a clareira se movimentava, mas nenhuma criatura pôde ser vista - apenas a casa permanecia absolutamente imóvel, como que inabitada ou alheia à brisa que soprava por ali. Cortinas, lustres, janelas, nada se movia, como se o que estivesse ali fosse meramente uma impressão de uma mansão, e não uma propriamente dita.

E então tudo silenciou. A terra parou de se mover, as folhas aquietaram-se por um momento. E a porta da casa se abriu. Os pranchões duplos deslizaram suavemente, projetando um brilhante facho de luz dourada sobre o gramado revolvido, porém não se podia ver ninguém no interior do longo corredor além do portal de madeira branca.

Sasha olhou por cima do ombro para os três e estudou-os. Os braços caídos ao longo do corpo esguio, ainda segurando as duas pistolas. Sem dizer nada, deu um passo adiante, e mais outro. Os três apenas observavam, enquanto a mulher avançava na direção da porta.

Súbito, em alguns pontos o chão voltou a se mexer. Dos fundos do palacete, uma dúzia de animais mortos-vivos trotaram para o gramado, rosnando. Alguns estavam tão decompostos que era difícil identificar o que tinham sido em vida, mas a maioria era composta de enormes cães. Remmy identificou também dois lobos, um lince, e uma raposa. Até ai, nada demais.

Sasha, sem esperar por eles, continuou caminhando e descarregou as duas pistolas nos bichos. Metade tombou, e a outra metade avançou em sua direção. A assassina jogou as armas no chão e, de maneira quase teatral, levou a mão ao cabo do chicote.

- Não vai dar tempo! - Disse Hector, correndo em sua direção.

- Faz alguma coisa! - Disse Remmy a Dorian, enquanto ele mesmo acendia um cigarro e tragava violentamente. A fumaça descrevia circulos preguiçosos pelo ar. - Merda, merda!!! Eu devia ter acendido isso antes...

Tudo aconteceu muito rápido: O chicote de Sasha estalou e abriu um dos lobos no meio no exato instante que Hector pulava sobre o lince e, com as mãos nuas, agarrava as mandíbulas do animal com selvageria, partindo também a sua cabeça em dois pedaços. Pisou sobre a sua caixa torácica, esmigalhando-a sob o calcanhar. Um dardo flamejante passou raspando o braço de Sasha e cravou-se na testa de outro cão, e quando Hector ergueu os olhos, viu Dorian empunhando uma enorme besta e puxando outro dardo do bolso da calça.

O chicote de Sasha estalou mais uma vez, e a esta altura Hector já estava completamente tomado. Seus olhos eram agora de um amarelo luminoso, os dentes levemente mais pontiagudos do que os de um humano, e os dedos eram mais longos e mais pontudos. Mas de resto, ainda era completamente humano. Movia-se rápido e letal por entre os animais, rasgando-os com selvageria ímpar. Sasha abateu mais um, e Dorian acertou outro no flanco. Este, o lobisomem agarrou com ambas as mãos e atirou contra a porta de entrada.

Com um baque seco, o animal colidiu com algo que os quatro não conseguiam ver. Filetes de sangue escorreram lentamente pelo ar, como se ali houvesse uma parede de vidro. O chão moveu-se mais uma vez. Estremeceu, e uma miríade de vozes se levantou juntamente com os cadáveres que saíam da terra, preguiçosamente. Primeiro as mãos, depois a cabeça e o torso. Todos aqueles eram humanos, ou tinham sido em algum momento; agora eram apenas monstros perniciosos e famintos.

- Mais zumbis? - Perguntou Hector, entre dentes. Sua voz soou levemente sibilada.

- Olhe bem. - Aconselhou Sasha.

Subitamente, uma delicada renda de fumaça encobria o solo, dançando preguiçosamente entre os mortos-vivos e os quatro invasores. Hector aproximou-se de Sasha, que ainda empunhava o chicote. Dorian já estava ao lado da mercenária, porém Remmy continuava no mesmo ponto de antes, como que congelado de medo. Seus olhos estavam vidrados, e seus lábios tremulavam rapidamente.

- São vampiros? - Perguntou Dorian, abismado, observando os monstros avançarem silvando e de caninos estendidos.

- Recém-criados. - Murmurou Sasha, erguendo o cabo do chicote e estalando-o com um movimento vigoroso. Um dos monstros tombou com o toque das lâminas da ponta. - Estão famintos. - E outro, e outro. A mulher movia-se com agilidade quase sobre-humana, e todas as chicotadas vinham com graça e destreza igualmente extraordinárias. Dorian mais uma vez levou a mão ao bolso, puxando de lá mais um dardo. - Ataquem eles com fogo. Hector, eu sugiro que você use magia, e não as suas garras, contra estes... - Disse Sasha. Porém, no momento em que os jovens se preparavam para desferir o primeiro golpe, a voz de Remmy se ergueu acima dos silvos e as marolas de fumaça tornaram-se levemente incandescentes. Curiosamente, observaram eles, a fumaça passava diretamente pelas pernas dos três, sem tocá-las.

O fogo ergueu-se em menos de um segundo, e logo todos eles berraram em agonia. Tecido, cabelo e pele consumiram-se rapidamente; a carne pareceu derreter e desprender dos ossos como cera de uma vela, e os monstros chiavam alto enquanto caiam de joelhos e, em seguida, estatelavam-se no chão.


O chão permaneceu ardendo mesmo depois dos vampiros serem carbonizados. Remmy ainda parecia entregue a uma espécie de transe, embora ele caminhasse pelo terreno com os ombros retesados e as feições duras. Todo aquele fogo, perceberam, brotava da ponta do cigarro do rapaz, rodopiava por um momento e derramava-se aos seus pés e adiante, estendendo-se até a porta do lugar. A barreira, os três perceberam, também começava a se consumir com o fogo, incandescendo suavemente, tremulando e, por fim, explodindo como uma parede de vidro atingida por uma bala de canhão.

E foi ai que viram quem aparentemente estava controlando aquelas criaturas: uma mulher nua levitava fantasmagoricamente no interior da casa, os cabelos negros ondulando como se ela estivesse dentro d’água, a boca escancarada em um grito silencioso e os olhos revirados, brancos e cegos. Girava ao redor do próprio eixo, lentamente, e os braços pendiam pesadamente ao lado do corpo. O peito subia e descia, e este era o único indicativo de que estava viva, e no momento que Sasha deu o primeiro passo na direção do palacete, a mulher gritou. Gritou alto, cheia de terror e de dor, sobressaltando os três. A magia de Remmy lentamente retraía-se, o fogo evanescia e os olhos do jovem paulatinamente voltavam ao normal.

Os ombros daquela criatura afastaram-se, de fato, o barulho de carne sendo rasgada e ossos sendo partidos estampou no rosto dos invasores uma expressão genuína de asco e horror. Sangue escorreu pelo corpo nu e violado da mulher quando a cabeça precipitou-se lentamente para cima.

- Q... O q... - Hector gaguejava, aterrorizado, enquanto a cabeça se desprendia e erguia-se, trazendo consigo a coluna vertebral e as vísceras da mulher: pulmões abriam-se como pequenas asas sanguinolentas, o coração -do tamanho de um punho fechado- pulsava por entre eles e os intestinos levitavam ao redor, por vezes arrastando-se pelo chão. Lágrimas de sangue escorreram pelos olhos brancos e cegos, e a boca emitiu mais um grito fantasmagórico e ululante.

- É uma penanggalan... - Disse Sasha, a expressão de choque esmaecendo rapidamente de seu rosto. De nada adiantaria ficar com medo agora, especialmente quando se estava cercada de crianças que, embora talentosas, tinham pais podres de ricos. - É uma espécie de vampiro asiático. Eu avisei para esperar coisas grotescas...

- Remmy, acho que você estava certo: acho que eu esqueci o meu feijão no fogo... - Disse Dorian, por fim. Remmy e Hector limitaram-se a engolir em seco.

5 comentários:

Lucas T. Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Helu disse...

Essa criatura do final chega me embrulhou o estômago, pelo amor..

Coitada da Sasha, até tenho pena dela com esses 3 moleques inexperientes - Mentira, bem feito =X.

Amei as chicotadas, Remmy "alto" e Hector está cada vez mais querido! Quero logo ler a continuação, nem vou postar o Cruz enquanto você não postar a 3a parte! FAÇO CHANTAGEM MESMO!

Pensando disse...

Ah, a juventude e seus ímpetos. A procura por prazeres proibidos e secretos, quase sem limites, e a prepotência do tudo esta ao meu alcance, é só buscar.
Uma história bem escrita, que consegue prender a leitura, e que mostra os jovens e seus devaneios, sejam eles simples humanos descendentes de pais abastados, ou semi humanos (ou semi-deuses) com poderes próprios. Ou talvez jovens pobres, de bairros de periferia, que insatisfeitos da sua condição de penúria, pegam à força tudo aquilo que inspire prazer. Dizem que tudo faz parte do aprendizado, para que ao tornarem-se adultos, saibam o quanto foram insensatos, egoístas ou aventureiros. Alguns descobrirão - tardiamente - que a cada decisão tomada resultará em caminhos sem volta, e então amarguras ou arrependimentos tardios serão seus legados para o resto de suas atormentadas vidas. Já outros, com mais sorte, descobrirão que aquilo tudo não passou de " fases de afirmação", que a vida tem regras imutáveis para a maioria, e que poucos, muito poucos, sairão incólumes de uma juventude sem limites.
Que venha a parte III.

Ana Paula Lima disse...

Simplesmente sem palavras...
Ainda estou tensa aqui. Que situação!
Prendi a respiração a cada linha...que maravilha!!!! AMEI!!!!!!!!!!!!!!!
Onde essa turminha foi se meter?! Não acredito que vou dormir sem saber como eles sairam dessa enrascada.
POR FAVOR PARTE III URGENTE!!!!!

Ana Paula Lima disse...

Não resisti e li novamente o capítulo.
Fui me deitar na madrugada de hoje com a cena gravada na mente. Muito boa, digna de cinema.
Sasha é divina e os diálogos estão perfeitos.
O quarteto tem uma química maravilhosa.
E chantagens a parte, os dois coloquem logo as continuações!
Não nos deixem nessa agônia...PLEASE!!!!