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Marolas do Aqueronte - Parte I



Já fazia algum tempo que os dois estavam naquela posição, e a única coisa que se podia ouvir no apartamento era o som da televisão. Os dois garotos piscavam e moviam-se letargicamente, como se aquilo demandasse muito esforço de seus corpos juvenis. O loiro, deitado de barriga para cima na cama, deixava a cabeça pender para o vazio, os cabelos roçando de leve o piso encerado que dava abrigo ao outro, que permanecia sentado abraçando os joelhos. Os olhos cravados na tela, os rostos entediados iluminados pelas cores que pulavam da superfície vítrea e incidiam sobre eles.

- Quer mudar de canal? – Perguntou o loiro, enquanto observava um vampiro para lá de caricaturesco envolvendo sua vítima. Tudo parecia artificial demais, viajado demais, a começar pela criatura que caminhava à luz do dia e possuía princípios morais tão fortes, mesmo sendo tão antiga. A garota também não ajudava, uma vez que parecia querer violentar o outro, jogando-se para cima dele e pedindo para ser mordida, transformada, etc. Remmy pensava que ela provavelmente morreria, se o cara cedesse – o que ele não faria, era óbvio – e se perguntou se ela pediria aquilo a um vampiro de verdade. Não, ela não pediria. É difícil ver alguém que realmente queira morrer e que não mude de opinião na hora H. É da natureza humana lutar pela sobrevivência, ele sabia, por que desde que se entendia por gente lutava pela sua. – Se quiser, pode pegar o controle e mudar.

A morte não é bonita, disso todo mundo sabe; embora seja muito mais fácil sonhar com ela, pintá-la como um filme adolescente, e iludir-se até que ela realmente te encare e clame pela sua vida. Ai sim, todos vêem que ela não é bonita. Ele pensava em como ela reagiria quando um vampiro de verdade cravasse os dentes nela, em quando ela sentisse a vida rapidamente se esvair de suas veias, e naquele segundo... naquele fatídico e desesperador segundo em que você tem certeza do que acontecerá no próximo. Ele se perguntava se ela não lutaria, e um sorriso sádico se desenhou em seus lábios. Era óbvio que lutaria.

- Pergunto-me se ela realmente pediria isso a um vampiro como o seu tio. – Brincou o moreno, apanhando o controle sem desviar os olhos da tela. Remmy soltou um risinho de deboche, e balançou a cabeça. O outro também sorriu e olhou para ele.

- Eu me perguntava a mesma coisa. Provavelmente o Ash não deixaria a garota pedir duas vezes... – Suspirou o garoto, mudando de posição e apoiando-se no cotovelo, para encarar o amigo melhor. – Mas eu duvido que ele realmente a transformasse. Sabe, é meio difícil parar de beber de uma vítima, quando se começa. E mesmo que ele tenha um auto-controle invejável, não acredito que ele realmente quisesse parar.

- Haha, entendo. – Riu o outro, começando a zapear pelos canais à procura de algo minimamente interessante para assistir. Em algum lugar, um relógio de pêndulo badalou três vezes. Três da manhã. – Não tem nada de bom para ver. Quer ver um dos filmes? – Perguntou, apontando para uma pequena pilha de DVDs eróticos ao lado do televisor.

- Hah! Você não tem estômago para ver aquilo, Hector. Já viu os encartes? Os filmes com o selo da Fornicaraz são pouco... convencionais. – O moreno engatinhou lentamente até os objetos e pegou-os, voltando ao lugar de origem em seguida. Remmy já estava sentado no chão, ao lado de Hector, com um sorriso maldoso desenhado nos lábios pálidos. O dedo indicador apontou para o primeiro disco da pilha, onde um emaranhado de pessoas retratadas em trajes de couro se beijava, tocava, mordia, etc.

- A capa em si já é bastante explícita. – Riu o moreno, obviamente surpreso. As sobrancelhas arqueadas, e os pequenos olhos perscrutando cada detalhe. O dedo indicador de Remmy deslizou para uma figura da capa, cuja perna esquerda faltava; depois para outra, que embora possuísse corpo feminino, brindava a todos com um grande aparelho sexual masculino. – Seu tio é ousado! Esse tipo de coisa realmente vende? – Perguntou, com um quê de nojo na voz.
- Você não faz idéia! – Riu o loiro, aproximando-se um pouco mais do amigo e debruçando o corpo sobre o dele, para pegar o próximo DVD que jazia na pilha do outro lado. Voltou com um onde três mulheres apareciam lambuzadas com uma substancia que lembrava barro, ou chocolate, ou... – Escatologia também é um prato cheio pra esse povo. Tem fetiche de todos os tipos, por ai. Tem gente que tem tara por balões, por pés, mulheres grávidas, gente mutilada, anões, bosta, mijadas, vômitos...

Hector contorcia mais e mais o rosto, evidenciando o asco que sentia a cada palavra que o amigo falava. Remmy sorriu, desta vez complacentemente, e perguntou em tom um pouco mais ameno: - Ainda quer assistir a um dos filmes dele? Se você procurar ai, deve ter algum que te interesse... Tem gosto para tudo nesse mundo, hehe.

- Por que o seu tio faz isso? – Questionou o outro, afastando a pilha e olhando para Remmy ainda com um semblante consternado.

- Por que dá dinheiro, óbvio. E por que vampiros donos de puteiros é o que mais tem por ai. Mas uma casa noturna não era o suficiente para as perversões do Ash, então ele decidiu dirigir filmes. Ele diz que isso sim é arte, não aquelas porcarias que os Ingenium fazem. Eu só não entendi como nenhum desses vampiros ainda não veio encher o saco...

- Não tem filmes com vampiros? Hehe...

- Tem filmes de gente que finge ser, e bebe suco de groselha como se fosse sangue. – Disse o rapaz, simplesmente, passando o indicador rapidamente pelos encartes dos filmes, procurando por um título específico. Estalando a língua, fez questão de ignorar o celular que neste momento começou a tocar os primeiros acordes de Fresh Blood, do Eels. Hector ergueu os olhos interrogativos para Remmy, que se limitou a sorrir. – O que posso dizer? Sou um amante de lobos... – E estendeu para ele o estojo do DVD que acabara de arrebatar da pilha.
O moreno, imediatamente, corou. Corou e desviou os olhos e gaguejou ao falar, sem graça: - Vo-você não deveria brincar com essas coisas, Remmy. Não vai atender? Deve ser...

- Quem disse que eu estava brincando? – Respondeu o filho de Siegfried, aproximando-se alguns centímetros e olhando-o nos olhos. Sorriu, malicioso. Hector podia ver o próprio reflexo consternado no fundo dos olhos do garoto, mas não conseguia desviar o olhar. Remmy, ele sabia mas não queria admitir, exercia um enorme fascínio sobre ele. Engoliu em seco, ao mesmo tempo em que o amigo começava a cantarolar junto com a música: - I know you're prob'ly gettin' ready for bed. Beautiful woman, get out of my head… I'm so tired of the same old crud. Sweet baby, I need fresh blood…

E aproximou-se mais. Hector, sem reação aparente, limitou-se a prender a respiração e esperar, mas o beijo não veio. Pelo menos não da forma como esperava, pois no momento em que pôde sentir o hálito quente (e alcoólico) de Remmy, uma batida na janela chamou a sua atenção. Ali, parado do lado de fora, num parapeito do 37º andar, estava um Dorian bastante contrariado.

- Ah, vão tomar no cu vocês dois! Foi para isso que você, terminou com a minha irmã, seu viado de merda? Pra pegar a porra do lobisomem? – Esbravejou, assim que se viu do lado de dentro do apartamento. Flutuava a alguns centímetros do chão, evidenciando como tinha chegado até ali, a mão esquerda segurava uma mochila enorme e tinha na mão direita um pequeno celular rosa (o celular de Mariabelle, ex de Remmy), aberto. – E foi por isso que não atendeu a minha ligação, é? Pau no cu do caralho... – A despeito do pretenso tom de irritação, Dorian sorria. Era difícil que tivesse a oportunidade de se desfazer da usual faceta de cavalheiro que fora tão magistralmente condicionado a adotar, por isso, sempre que podia, acabava cruzando todos os limites. Os garotos sabiam disso, o que não impediu Hector de corar como um pimentão.

- Tá com inveja, é? – Foi a única coisa que o loiro respondeu, aproximando-se e pegando a mochila da mão de Dorian. Hector, absolutamente embaraçado, de repente pareceu achar os encartes bizarros dos DVDs muito interessantes e instrutivos. – Tá tudo aqui? Trouxe a planta?
Dorian sorriu, zombeteiro, balançou a cabeça e disse simplesmente: - Sim, minha rainha. Digo... princesa... digo... err... está tudo aí, Remígio! – proferiu, por fim, quando percebeu o olhar gélido com que o loiro lhe brindara. Claramente já estava indo longe demais, até para os seus padrões.

- Porque diabos você está com o celular da Mariabelle? Acabaram os seus créditos, pé-rapado?

- Não. – Deu de ombros, jogando-se no sofá ao lado de Hector e colocando os pés sobre a mesinha de centro. – Achei que seria divertido te passar uns trotes. Sabe como é, imitar a voz da Belle chorando, pedindo para reatar e...

- Que tal parar, hein? Hec, senta aqui e vamos ver o que ele trouxe. – Acomodou-se então entre os dois garotos, e com um soco na lateral da coxa do ex-cunhado, fez com que ele deixasse a mesa disponível. Por fim, debruçou-se sobre ela e estendeu a planta, prendendo as pontas com os pequenos bibelôs de vidro, em forma de mulheres nuas em posições ousadas, que se encontravam por ali. – Então é aqui que está?

- É. Quer dizer, acho que é...

- A Dracma perdida de Caronte... – Murmurou Remmy, passando os dedos sobre a planta do prédio, a mansão de um mago de renome razoável, que residia em um dos vilarejos no interior do país. Um sorriso maníaco perpassou seus lábios. Os olhos faiscaram, cobiçosos. – Quanto vocês acham que vale?

- Alguns milhões, diria eu. Quem sabe bilhões? – Replicou a voz de Ashtaroth, aparentemente vinda do nada. Levaram alguns segundos para perceber que o vampiro estava do outro lado do apartamento, no corredor, girando a fechadura dourada da porta da sala de estar. Graças à sua audição privilegiada, conseguira pescar os últimos fragmentos da conversa, obviamente. O noturno de cabelos ruivos e ondulados, e grandes olhos de um azul profundo e malicioso estava ali, à entrada de sua própria morada, absorvendo rapidamente todos os elementos da cena que observava com aparente desinteresse. Sorria ao afastar-se com uma reverência teatral e convidar uma jovem a cruzar a soleira da porta. – Está congelando aí, querida, e você não vai querer perder isso: esses garotinhos, aparentemente, estão querendo ir atrás da Dracma de Caronte. Conhece a lenda, não é? Pensei que sim, gananciosa e malévola como só uma mulher pode ser...

- Sasha! – Exclamou Remmy, pondo-se de pé de imediato. Dorian e Hector continuavam ficando, embasbacados, a visitante que caminhava desinteressadamente pela sala. A mulher usava um enorme e apertado rabo de cavalo, os olhos eram de um castanho quase verde. Vestia uma calça apertada, botas de couro cru e saltos altos, e uma gabardine bege amarrada na cintura inacreditavelmente fina. – Porque está aqui? Você não deveria estar...

- Matando, roubando e destruindo? Precisamente... – Respondeu Ashtaroth, ainda na porta. Aparentemente ele não iria demorar, pensou Remmy. Sasha, por outro lado, carregava uma mala de viagem. – Nicole, louca de pedra como só ela consegue ser, a fez explodir todo o kremlin vampírico, acredita? Agora a coitadinha não tem para onde ir, porque está todo mundo querendo o c... couro dela, por isso ela ficará por aqui por algum tempo, entendeu?
- Só por alguns dias. – Complementou, dando uma piscadela marota para Remmy. Não era a primeira vez que a mercenária procurava abrigo ali, mas definitivamente era a primeira vez que o fazia em posse de uma mala tão grande. Pelo que entendeu, ela tinha feito uma caca gigantesca e seria preciso algum tempo para que a poeira abaixasse, se é que algum dia isso iria acontecer. – Enquanto isso, podemos dar uma olhada nessa planta. Pelo que ouvi, essa dracma é capaz de...

- ...trazer de volta à vida as almas que não cruzaram o Aqueronte? É, você ouviu certo. – Interrompeu Dorian, com um sorriso galanteador desenhando-se nos lábios. Pôs-se de pé também, estendendo a mão para a mulher e aproximando-se pomposamente. – Acredito que ainda não fomos apresentados, caríssima. Eu me chamo Dorian. Dorian Lancaster Hagreaves.
Por uma ínfima fração de segundo, Sasha pareceu verdadeiramente surpresa, todavia, um átimo depois havia apenas um terno sorriso adornando seus lábios. Piscou, adoravelmente, e estendeu também a mão para ele. – O filho do conde Hargreaves? Caro Remmy, você nunca tinha mencionado o quão bem relacionado é! – O que, obviamente, tratava-se de uma mentira descarada, uma vez que era de conhecimento geral que ele costumava namorar a filha de Cain Lancaster Hargreaves; Remmy limitou-se a piscar para ela, enquanto Dorian inclinava a cabeça para depositar um beijo no dorso de sua mão. – Encantada, milorde! – Murmurou ela, dissimuladamente. Remmy, enlaçando Hector pelo ombro, aproximou-se também e disse:

- Ok, se o que você quer é expandir a sua rede de contatos, eis aqui mais uma personalidade para a sua agendinha de telefones, Sasha: este é Hector Oleastro Terrazas, filho da senhora Adelaide Terrazas, a peeira matriarca do povo da lua.

Desta vez a mulher não conseguiu esconder o entusiasmo, por mais que tentasse. Afinal, de que valia tinha um mero conde, em comparação com uma Rainha? Os olhos castanho-esverdeados de Sasha faiscaram quando ela, ligeira, fez uma pequena reverência diante de um Hector ainda mais encabulado. A reação de Sasha era comum entre as pessoas, muito embora os lobisomens não encarassem Adelaide como, no sentido literal da palavra, uma rainha. Ela era simplesmente uma bruxa que calhou de ter poderes suficientes para subjugar os alfas das matilhas. Era uma Peeira.

- Encantada em conhecê-lo, alteza! – Disse, ignorando o muxoxo contrariado de Dorian e a risadinha debochada de Ashtaroth. Remmy permaneceu empático, e Hector limitou-se a balançar a cabeça rapidamente, engolindo as palavras e corando.

- Bom, eu fico mortalmente entediado com essas idiotic... digo, formalidades, principalmente quando estamos falando de um monte de pirralhos, você sabe, caríssima. Por isso os deixo com apenas dois conselhos: preservem-se e não subestimem Aurel, ele tem um ou dois truques na manga que podem mandar vocês rapidinho para a cova, ou pior. Dito isso, retirar-me-ei. Espero que tenha uma encantadora estadia em meu nada humilde apartamento, querida Sasha. – Complementou, imitando caricaturescamente a mesma reverência que a própria assassina havia acabado de fazer para o príncipe lobisomem, e por fim fechou a porta atrás de si.

Imediatamente, Remmy apanhou a mala de viagem de Sasha e se dirigiu até o quarto de hospedes no final do corredor, deixando-a com os outros dois. A mulher, apertando o rabo-de-cavalo, dirigiu-se para o mini bar na lateral da sala e bufou, irritada.

- Tem algo aqui que não seja vermelho? Estando onde estou, só a idéia de beber algo dessa cor me deixa nauseada.

- Bom, você está na morada de alguém que, além de vampiro, é dono de um selo de filmes pornográficos, ma chérrie. O que você esperava, rum? Tequila?

- Estamos em Praga, não estamos? No mínimo, eu esperava Fernet. – Disse, servindo-se da primeira garrafa que encontrou pela frente, envolvendo o copo com um guardanapo, provavelmente para não ter que lidar com a cor da bebida. – Vocês ainda não têm idade para beber, certo? – Não esperou resposta, o que evidenciou que ela apenas não queria preparar drinques para mais ninguém. Voltou para o sofá, gingando sobre as botas de salto alto, e sentou-se no local outrora ocupado por Remmy. – Então este é o lugar? Ouvi dizer que esse cara tem uma coleção de objetos mágicos que deixaria até o seu pai louco para comprar, Rem... – Murmurou antes de tomar um longo gole da bebida. - ...vocês só querem o dracma? O resto que conseguirmos roubar é meu, então?

- Você vai mesmo conosco então? – Perguntou Hector, inclinando-se para frente, aproximando-se um pouco mais de Sasha e olhando-a diretamente nos olhos. Ainda estava rosado, mas nada comparado a antes. Ela sorriu, arqueando uma das sobrancelhas e respondeu, por fim, com a voz carregada de malícia:

- Querido, você realmente não sabe quem eu sou, sabe?

3 comentários:

Jota Marques disse...

Oba, série nova \o/

Helu disse...

Ultra Saudades da Sasha! Bom demais vê-la em cena de novo! *_*. Bom demais seguir a Cronologia da série tb!

EU gosto muito dos 3 moleques, mas confesso que eu tenho uma quedinha pelo Hector, gosto de personagens tímidos, quem sabe ele não tira meu pré-conceito contra lobisomens '-'...

E nem preciso falar nada sobre esse título, hein? kkk adorei!

Anna disse...

Opâ fique curiosa e quero continuar lendo ;D
Vamos ver se consigo me destrair de tanta matematica na faculdade com uma boa série.

Parabéns ;D