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Cruz Sobre Berlim - Prólogo



Continua em: Cruz Sobre Berlim I


O alarme do carro disparou ecoando pela rua vazia. O rapaz ignorou as luzes se acendendo dos prédios ao redor e continuou sua corrida, dessa vez concentrado no que estava a sua frente. Há algum tempo corria com a atenção desvirtuada pelos barulhos nos topos dos prédios, estava tão tenso com os ruídos que não calculara direito a distância de seu corpo para os carros estacionados. Alguns moradores abriram a janela e passaram a xingá-lo, mas ele não diminuiu o ritmo, muito pelo contrário. Precisava alcançar os outros dois de seu grupo, cujos passos já ecoavam no final do quarteirão.

Ninguém lhe falara nada, mas claramente ele não era o único a perceber o perseguidor, o líder do trio aumentara seu ritmo depois que os sons suspeitos começaram, até um humano comum perceberia que algo os seguia. Alban olhou de relance o topo dos telhados, temendo ver algum vulto, mas nada, agora com a balbúrdia sonora provocada pelo veículo não conseguia distinguir qualquer ruído que revelasse a proximidade do perseguidor.

Manteve a visão nas limitações da calçada imitando o caminho que os dois a sua frente tomavam e finalmente conseguiu alcançar um deles. Vinícius, um homem bem mais velho que Alban, não disse nada, o repreendeu com um olhar rápido e frio; o garoto sabia o que aquela expressão significava: se a vizinhança não dera muita importância pelo barulho o oposto ocorreu com a criatura que os perseguia. O adolescente entregara a localização exata do trio com o sopetão que dera com o carro. E daí que ele não estava habituado a correr com aquele vestuário metálico por debaixo da roupa? Seus companheiros não queriam ouvir desculpas, a expressão cizuda era uma ordem para que isso não se repetisse.

O escolhido a guiar o trio naquela madrugada, Eric, estava bem mais a frente, virando em uma esquina. Apesar da distância e do soar do alarme, sua respiração tornara-se audível aos companheiros, em nenhum momento na última meia hora ele diminuíra as passadas e agora seu fôlego parecia chegar ao limite. A rua que escolhera percorrer tinha menos postes funcionando que a anterior deixando Alban inseguro com a escuridão, ele segurou seus passos guiando-se unicamente pelo vulto do companheiro mais próximo até que um repentino ranger de telhas superou o barulho do alarme. Os três diminuíram as passadas, procurando a origem do ruído nas pequenas construções ao redor, Alban percebeu o movimento de um imenso animal alcançando o asfalto metros a frente. A criatura postou suas patas silenciosamente na rua e, vagarosa, foi de encontro ao grupo.

Imediatamente Eric e Vinícius pararam observando o animal com atenção. O adolescente os imitou, os olhos marrons cravados no andar felino do animal. Provavelmente um humano que observasse de relance o julgaria como uma pantera negra anormalmente grande, porém, independente do quão inexperiente ele era, Alban sabia que não era esse o caso. A névoa densa que saía da narina pontiaguda revelava traços reptilianos, o verde dos globos oculares brilhava tão intensamente que parecia criar um rastro de luz de seus movimentos. A visão monstruosa amedrontaram o garoto e ele pensou em todos os motivos (... idiotas, concluía) que o levaram até aquele país dominado por criaturas vis. Nada do que passava em sua cabeça era útil para o ataque imitente daquele demônio.

Quando a fera saltou sobre o que estava mais a frente, automaticamente o adolescente colocou a mão dentro do casaco segurando o cabo de sua pequena arma. Ele e Vinícius correram para socorrer a vítima, a qual tombara com o peso e rapidez do animal. O homem conseguira desviar o braço prestes a ser mordido e cravou seu stilleto no peito da criatura. Imediatamente um intenso odor se espalhou pela rua, obrigando o adolescente e o mais velho a pararem de correr tampando o nariz nauseados com o cheiro de putrefação. A falsa pantera não se abateu nem com o cheiro nem com a ferida que o provocara, simplesmente rugiu alto e expôs novamente os dentes enormes, dilacerando o braço do homem aos seus pés.

Os gritos de pânico do companheiro incentivaram Vinícius a ignorar o odor e voltar a correr em direção a fera, mas não rápido o suficiente. Em um puxão ela arrancou o braço e o largou rugindo, preparando-se para o mais velho do trio. Alban não conseguia ir ajudá-lo, a fraqueza o dominava e vomitou o pouco que tinha no estômago, assim, impossibilitado de acompanhar a empreitada de seu mentor, limitou-se a observar a luta. A criatura pisou no rosto da vítima aleijada e ganhou impulso para pular sobre o humano, porém, ele já a esperava com a arma prateada em punho, sibilando palavras em latim. Uma luz cintilante percorreu o fio da pequena espada no momento em que atingiu o ombro escamado do animal. Cambaleando, o perseguidor bestial se afastou deixando um rastro negro do líquido que escorria dessa nova ferida.

Alban conseguiu controlar a ânsia e correu para ajudar a carregar o companheiro aleijado. Sobre o olhar e rugidos do animal, os dois levaram Eric. Antes de virar no beco mais próximo, o adolescente observou por uma última vez o vulto da criatura. Ela retesava suas patas resistindo em deitar sobre o asfalto, até que o verde brilhante de seus olhos sumiu em meio a penumbra e ele ouviu um estralar, que julgou ser da pancada do monstro contra o chão.

Mas não era, o que ouvira antes de seguir pelos subúrbios de Berlim era o estalar de ossos. Pouco a pouco o corpo da fera perdeu volume, a penugem negra escorria criando uma grande poça sobre o asfalto. A falsa-pantera agora não passava de uma raquítica adolescente de cabelos alaranjados, manchas escuras e oleosas estavam espalhadas por todo seu corpo pálido, revelando sua relação com o rastro na rua. Jack colocou a mão na ferida, que ainda borbulhava com se houvesse sido queimada, e segurou a arma cravada. Mordeu os lábios para conter os gemidos enquanto retirava o stilleto de suas entranhas. Ele saiu imediatamente deixando um grande buraco na pele clara da vampira. A ruiva olhou o intenso brilho prateado da arma, não se surpreendendo por achar símbolos familiares no punho, afinal, conhecia apenas um inimigo que conseguia fazê-la voltar a forma humanóide contra sua vontade. Murmurou:

- Templários filhos da puta...

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3 comentários:

Lucas T. Costa disse...

JACK JACK JACK JAAAAACK *-* Amo essa personagem! Finalmente um conto que ela terá destaque *o*

Adorei! Achei curiosa a escolha dos nomes para os templarios ahuahau gostei mesmo desse prólogo, esse arco promete ser o mais legal do manuscritos até agora, na minha opinião. Múltiplos clímaxes (oi???)

Continueeee *-*

Anna Carolina Schermak Alves disse...

Olha, Vinícius *-*
Conto ganhou minha atenção pelo nome, E Jack ;D E sinceramente? Adorei o final, consegui imaginar ela certinho falando os Templários filhos da puta.
Agora eu quero mais Helu *-*

Ana Paula Lima disse...

Adoro!!!
Já li duas vezes, tanto o Prólogo quanto a continuação.
Também gosto de Jack, Lucas. Ele é marcante.
Helu, já ti disse: adoro o ódio dos vampiros contra os templários.

Tô no aguardo da continuação...