-->

Cruz Sobre Berlim I


Continuação de: Cruz Sobre Berlim - Prólogo

A pequena chama provocou penumbras por toda a sala escura. A criatura que acendeu a vela colocou-a no chão de pedras, seus olhos misteriosos percorreram o cômodo vazio de vértice a vértice. Não havia móveis, não havia portas, somente ele e aquela vela habitavam o local. E sua sombra. Olhou o sangue  que a manchava, os pequenos furos que ele mesmo abrira nos braços com seu dedal foram o suficiente para produzir rapidamente um aglomerado de gotas sobre o piso sombreado. Estreitou os olhos absorto na textura etérea que começara a brotar e abriu um sorriso singelo. Duas figuras ganhavam formas, cada vez mais nítidas, naquilo que já não era mais sua sombra.
[---]

- Veja. Todas essas pessoas não fazem idéia do que pode estar à espreita no próximo beco escuro que adentrarem. Ladrões, assassinos, estupradores... isso elas esperam, se acostumaram a caminhar por aí estreitando os olhos a qualquer membro da sociedade que fuja de seus padrões de vida. Não, elas não esperam que alguém em plena multidão possa lhe puxar pelos cabelos, cheirar sua pele e cravar os dentes em seu pescoço pulsante. Subjugadas por uma força que jamais sentiram antes. Em segundos, seu líquido vital é roubado, provavelmente não o suficiente para matar seu corpo, mas, sem dúvida, o suficiente para ruir toda sua certeza de que monstros não existem.

- A pessoa não foi morta, mas sua dignidade foi abalada como se houvesse sido estuprada. A marca do corte, seja por caninos afiados, seja por um objeto cortante, permanecerá por alguns dias, lembrando-lhe que não fora alertada sobre lunáticos que afiam seus dentes e bebem sangue. Como você acha que ficará a fé desse cidadão? Deus nunca lhe mostrou provas de sua existência, mas o diabo...

Vinicius levou a boca o charuto que girara entre os dedos nos últimos segundos e o acendeu. A densa fumaça branca seguia o rumo do vento, levando o aroma de fumo pela praça iluminada. O adolescente coçou o nariz contendo um espirro, mas não reclamou da alergia, continuava atento a face do robusto homem ao seu lado que fumava observando os cidadãos de Berlim. Engoliu em seco tentando formar alguma palavra nos lábios, procurando em sua mente algo inteligente para se comentar. Queria realmente ouvir, só ouvir, mas aqueles olhos estreitos o encaravam agora indiferentes, como se esperassem alguma coisa que demonstrasse que ele era digno de estar ali acompanhando-o.  Vinícius tragou mais uma vez e falou gesticulando com o charuto:

- Não que eles sejam filhos do diabo, você entende isso já, não é? Eles não se declaram assim e não há provas de que eles realmente o são... mesmo que, como aquele Labyrs que nos atacou, consigam tomar formas bestiais, ainda assim, não podemos taxa-los disso... Mas o que as pessoas com pouca fé pensariam ao ver uma criatura com características tão diferentes de tudo o que conhece? Não apenas um que se transforme daquele jeito, mas um com forma humanóide, ele consegue incomodar com seus olhos selvagens e hipnóticos. Não importa o vampiro, quando você vê um olhando para você, desejando seu sangue, você sabe que ele não é humano. Você nota seu cheiro seco, a pele límpida como a de uma estátua, os cabelos sedosos como os das malditas propagandas de xampu... - fez uma careta debochada - Cada linha de seu corpo demonstra como eles ignoram os limites do tempo.
 
O adolescente cruzou os braços, voltando os olhos escuros para a multidão apressada que cruzava a praça. Agora ele fazia parte dos raros de seu batalhão que conhecera um vampiro antigo, um Labyrs. Justamente seu primeiro contato com um vampiro de linhagem pura fora um que assumia formas tão atípicas do resto da própria espécie, cujo sangue negro e oleoso poderia envenenar em uma breve aspiração. Seu estômago ainda não se recuperara daquele cheiro, passara os últimos três dias nauseado sem conseguir digerir algo sólido. O temor de perder um de seus próprios membros como acontecera com Eric também não colaborava para que o enjôo passasse. Ao invés de deixá-lo inspirado, a experiência só o lembrara o quanto ele ainda precisava treinar para conseguir combater um inimigo tão forte. A verdade, é que antes de encarar aquela fera, nunca levara vampiros a sério, afinal era comum em seu país derrotá-los. Nunca ouvira alguém comentando que teve um companheiro tão brutalmente ferido como fora Eric. Como se soubesse o que pensava, o homem, muito mais velho do que ele, coçou o cavanhaque dizendo:

- O que nós enfrentamos em Portugal não se compara em nada com os vampiros daqui, garoto. Aqueles são vagabundos com simplória fome de sangue e imortalidade fraca. Seu olhar é vago, perdido, sem noção da história de sua espécie, sem noção da história de seu sangue. Vi alguns vampiros assim sucumbirem com apenas uma espada no peito. Eles são o mais comum e realmente, se planejar bem como matá-los, não dão muito trabalho. Mas a pequena parcela dos imortais que originaram as lendas quase nos extinguiu na era renascentista.

Molhou os lábios, tragando novamente e se levantou, dando alguns passos para frente. O homem tinha quase 60 anos, mas por debaixo daquelas espessas roupas de frio havia um físico muito bem conservado, era mais ágil e forte do que a maioria dos novatos que o adolescente conhecia. Nem o vício parecia atrapalhar seu fôlego quando lhe ensinava a manejar a espada. Observou o velho andando de um lado para o outro deixando um rastro de fumaça ao seu redor. Admirava-o, não apenas por essas habilidades físicas louváveis, mas principalmente por expor constantemente suas próprias ideias sobre os Templários e os noturnos como Alban gostaria que seu pai o fizesse.

O jovem pousou os olhos tristes na grandiosa igreja que servia de cenário de fundo dos civis apressados voltando para a casa. As luzes dos postes geravam sombras nas esculturas dos anjos que enfeitavam seu telhado, dando-lhes um ar grotesco, temível. Pareciam julgar os mortais que os ignoravam na praça abaixo. Ele cruzou as mãos, estalando os dedos, preparando-se para perguntar:

- Quanto desses você já matou? – sua voz era esganiçada.

- Um vampiro “nobre”? – Vinicius, com uma expressão zombeteira fez aspas no ar - “De Família”? - o moreno fez que sim com a cabeça, empertigando o corpo para ouvir a resposta. – uns 15, mas não sozinho. Sozinho eu matei apenas 2, totalmente por sorte. É muito difícil achar um vampiro dessas antigas linhagens em países como o nosso. Sair para caçá-los exige muito planejamento...  o que viemos fazer aqui é uma situação atípica. Você sabe que o certo (e o ideal) é reunir vários de nós para dizimarmos todos os vampiros da cidade, mas não é o caso. Não podemos correr o risco de perder mais homens como ocorreu na Islândia.

- E com Eric...

- Você já sabe disso, estou sendo repetitivo... - o mais velho retrucou.

- Não, não está! – Alban cruzou os braços, a tristeza dos olhos castanhos foi substituída por sincera curiosidade – Eu sei que estamos aqui mais para espionar e precisamos ser discretos, mas é bom ouvir mais detalhes. Cada um que participou dessas invasões ou espionagens falam dela de um jeito diferente, é bom para aprender...

Vinicius forçou um sorriso e desviou do olhar complacente do garoto. Esfregou a ponta do charuto na aba metálica da lata de lixo apagando-o:

- O que é realmente "bom para aprender" é a prática. - virou-se e retirou um papel amassado do bolso, mostrando-o para Alban. Era uma página rasgada de jornal, os títulos gritantes da matéria exibiam palavras como “extirpado” e, a que mais chamou a atenção da leitura imediata do garoto, “padre” - Dessa vez você vai poder observar e tirar suas próprias conclusões, Alban. Hoje vamos matar um pouco dos vampiros dessa cidade.


Continua em: Cruz Sobre Berlim II

Um comentário:

Thiago disse...

"O que é bom para aprender é a prática." Nunca foram ditas palavras mais verdadeiras! Gostei muito do Vinícius, o cara é inteligente demais u.u O legal de tudo isso é que vamos "aprender" mais sobre esses vampiros ao mesmo tempo que o Alban. A narrativa está cada vez melhor, na minha opinião! Mas só falta uma coisa: JACK! Mate os templários malditos u.u