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Clair de Lune - Final


Continuação de: Clair de Lune - pt 4
Inicio em Clair de Lune pt 1




- Eu estou enxergando, vem!! - sussurrei para Kath puxando-a para me acompanhar pelo apartamento. Estávamos na metade do corredor quando ouvi um gemido de dor. Ekaterina parou e levou as mãos ao nariz com uma estranha expressão no rosto. Permaneceu assim por alguns segundos e então, subitamente, correu em direção ao quarto.

Apressei os passos para acompanhá-la e só quando cheguei no cômodo entendi o olhar selvagem que vira no corredor: Henry havia esfaqueado o mago. Seu corpo estava caído sobre a cama, o sangue encharcava seu tórax. Tecido, pele e órgãos se misturavam a cor avermelhada e o lençol começava a ganhar aquele mesmo tom. Ekaterina agarrara o mercenário no momento em que ele se preparava para abrir a garganta do estudante, mas já era tarde. Ela conseguira achar o quarto e localizar o caçador graças ao enfraquecimento da trama negra. Os fios de magia escorriam pelo lugar. O garoto estava morrendo e, com ele, sua magia.

Foi horrível, fiquei ali parado por um tempo observando o corpo inerte, não havia mais o que fazer. O estardalhaço da luta entre a vampira e o maldito inquisidor me despertaram do horror daquela cena. As lâminas das adagas de Henry brilhavam na fraca iluminação do quarto, ele tentava incessantemente acertá-la em vão. Ekaterina era muito mais rápida apenas empurrava-o de leve contra a parede e deixava-o voltar às tentativas fúteis. Parecia que brincava com ele, talvez estudava seus movimentos. O olhar feroz do mercenário rapidamente se transformou em desespero, ele estava encurralado como em uma ratoeira e queria fugir, era óbvio.

Você sabe que muitos mercenários praticam magia, especialmente os que matam criaturas como vocês, não adianta só saber os pontos fracos, ser um bom estrategista ou ser um exímio lutador. Quando se é pego de surpresa por um imortal ou por um mago poderoso, habilidades humanas não são o suficiente. Acreditava que Henry tinha algum tipo de poder, afinal, ele vira os fios no instrumento de Egor, tentara desmanchar o feitiço de proteção do apartamento … O guia da cidade estava cheios de rastros mágicos, fortes demais para uma pessoa com um talento superficial para a coisa. Contudo, em nenhum momento ele tentou conjurar uma magia naquela situação e era exatamente isso que a Ingenium verificava ao provocá-lo com leves empurrões.

Ela segurou seus dois pulsos, obrigando-o a encará-la. A expressão raivosa que eu vira anteriormente no rosto de Ekaterina não era nada comparada com a que vi naquele momento:

- E eu preocupada por haver esquecido meu sabre... Como você é fraco! – desdenhou exibindo os dentes e pude ouvir os ossos de Henry estralarem. As adagas caíram no chão e ele começou a se ajoelhar sobre a força da vampira, era nítido o esforço dele para não gritar. – Você veio até minha morada tão ansioso para matar um vampiro e nem conseguiu me atingir agora, mesmo eu não usando metade da minha velocidade. Covarde. Pretendia nos atacar de dia, não é? Ou com vários inquisidores ou quem sabe...

Ela o obrigou a ficar de pé novamente e reparei como a respiração ofegante de Henry começara a ficar audível. Ele deixou escapar um gemido, mas não pela dor, era desespero por não conseguir inspirar direito:

- Quem te deu esse guia? Foi um mago, não foi? - a vampira questionou ferozmente e então reparei no movimento de seu tórax. Ela parecia respirar. A cada inspiração tortuosa dele eu tinha mais certeza que Ekaterina sugava seu ar, alimentando-se daquela respiração como uma humana. Até seu tom de pele parecia ganhar uma coloração mais... viva.

Não sei se Henry percebia exatamente o que acontecia, mas estava apavorado. Balançou a cabeça em negação algumas vezes até que desistiu e gaguejou:

- Or.. or.. dem. - Kath o largou e me encarou enquanto ele completava - Ordem Francesa.

A face soturna da vampira não esboçava surpresa alguma com aquela resposta. Algo em sua expressão me fez crer que ela desconfiava disso desde que conversara com Eugéne e só o forçara a falar a resposta para que eu ouvisse, para que eu soubesse. A ordem de magos parisiense que sempre acolheu tão bem os estrangeiros decidiu desencorajar a imigração. Covardes filhos da puta.

Henry estava de joelhos, inclinado sobre o chão e recuperando o ar inspirando desesperado pela boca. Eu queria lhe perguntar dos motivo dessa mudança de comportamento da Ordem, se estavam confabulando com a Inquisição, ou se ele agira como um agente duplo. Enfim, tinha muitas perguntas, mas antes que eu pudesse me aproximar dos dois, o mercenário chutou os joelhos de Ekaterina e tentou fugir aproveitando-se do pulo que a vampira dera para se esquivar do golpe. Mesmo com a falta de fôlego, Henry era rápido e em um segundo já pulara sobre a cama e estava prestes a sair pela porta quando a vampira o alcançou.

Jogou-o no chão sem dificuldade e calou sua boca quando ele começou a gritar. Sem pestanejar, cravou os dentes em seu pescoço. Henry me olhava suplicante implorando ajuda. O corpo do mago assassinado covardemente estava ali bem ao seu lado, como o desgraçado ousava me olhar daquele jeito? Lembrei de todos os nomes marcados no mapa, de todos os conhecidos que desapareceram em Paris e o odiei. Contudo não foi a ausência de empatia que me manteve atônito, foi a ferocidade com que Ekaterina o atacava. Espera-se que um vampiro beba o sangue do pequeno corte provocado pelos caninos, era isso que eu esperava, mas Ekaterina rasgara a jugular com furor. Arranhava, mordida, bebia...

- E, então, você vomitou. - Adrian riu. Havia sentado casualmente no chão ao longo da narrativa e permanecido em silêncio até agora:

- Sim... - Hans murmurou, a resposta foi quase inaudível em meio aos sons da tempestade que caía fora do calabouço. Olhou taciturno para as algemas entediado por voltar ao seu presente:

- Ela era uma Ingenium... toda essa fome provavelmente era destinada ao sangue do mago que estava na cama. Ela não o abocanhou por respeito a você, hum? Poderia ser pior. - Aguardou alguma reação do prisioneiro, mas Hans só deu de ombros. Adrian insistiu – Você continuou em Paris, já que foi assim que conheceu Ashtaroth, mas e ela? Você a viu novamente?

O mago alemão encarou o rosto cheio de escárnio do vampiro e permaneceu em silêncio por alguns segundos. Sentia uma estranha dormência nas têmporas e um cansaço anormal mesmo para o seu corpo atrofiado dos dias de aprisionamento. Fechou os olhos irritado com o significado desses sintomas:

- Adrian, estávamos conversando sobre o meu primeiro contato com vampiros e é isso. Uma noite de sangue e vômito. Chega desse assunto...- apesar de sua seriedade, o tom de voz e olhar eram brandos. Fora um pedido amigável e o vampiro o atendeu. Sorriu olhando a hora em seu celular e foi até a saída do minúsculo cômodo. Porém antes de abrir a porta, começou a falar:

“Ele vomitou uma vez. Duas. Na terceira vez, conseguiu alcançar o banheiro. Ficou ali por um bom tempo, o estômago doendo de fome e ânsia. Lavou o rosto querendo esquecer o que havia fora no quarto. Era sangue demais. Enxugava o rosto quando ouviu a voz da vampira:

- É melhor você ir, garoto, eu cuido do resto – Hans a observou pelo reflexo do espelho, estava menos suja de sangue do que ele esperava, contudo era o suficiente para que sentir o estômago doer de novo. Respirou fundo lavando novamente sua boca e controlando a ânsia:

- Não. Eu vou te ajudar. Só.. preciso de um tempo. - Um tempo para digerir a chacina planejada pela Ordem que o acolhera. Um tempo para ignorar o que acabara de presenciar no quarto. Era demais para um mago inexperiente como ele. - Eu não entendo. A Ordem Francesa é conhecida por acolher os magos de toda a Europa. Se unir justamente com os inquisidores... Eu costumava ser até bem devoto antes de toda a merda que eu vi na Alemanha...

- Sua fé mudou pelo o que os fanáticos fizeram lá?

- Digamos que eu não sigo mais nenhuma religião... - Hans se afastou da pia, dando espaço para ela entrar e lavar as unhas imundas. O sangue escorria pelo ralo enquanto Ekaterina esfregava as mãos, mesmo após o assassinato seu rosto mantinha o ar raivoso anterior. Hans encostou-se no batente, incomodado com a naturalidade que ela tirava o vermelho dos dedos. Murmurou - E agora, a Ordem que eu confiava faz uma merda dessas. Puta que pariu.

- Não tem nada a ver com religião, garoto. Não perca seu tempo tentando entender os inquisidores ou a posição política da sua Ordem. É só simples e puro ódio. - encarou-o pelo reflexo e exibiu os caninos em um sorriso cínico - Vampiros, humanos, magos, inquisidores, nós todos escolhemos um alvo de nosso ódio e desenvolvemos infinitas desculpas para racionalizar isso. Não tem nada a ver com fé ou política, é só ódio e ilusão.

- E qual é a desculpa para o seu ódio? - Hans ousou perguntar. O tom de voz soou mais rancoroso do que ele gostaria, mas manteve o olhar nos olhos cinza que, óbvio, o fulminaram. O mago temeu a reação da vampira, sentiu o peito pesar por todo o tempo que se encararam em silêncio até que ela se inclinou para lavar o rosto. Respondeu ignorando o reflexo do mago, sua voz mais rouca do que nunca:

- Eu não sei mais.

Antes disso, antes desse encontro, o mago realmente acreditava que todos os vampiros eram um bando de aberrações que não tinham função alguma no equilíbrio terreno, julgava todos como se fossem um tipo de parasita que se deve exterminar sem exceção. Mas com essa conversa ele percebeu que poderia … se identificar com um deles. “

Adrian se virou:

- Ah, Hans. Desculpe-me, mas tanto rancor, tanta nostalgia em seu cheiro, era impossível não invadir sua lembranças! Sua mente ficou totalmente exposta! - debochou, nem um pouco envergonhado - E essa sua memória é incrível, hein? Você lembra de todos os detalhes que quer!

O mago alemão não esboçava raiva alguma pelos comentários, o cansaço era evidente em seus olhos semicerrados. Há dias recebia a visita do Vox, já imagina quando fraquejaria em sua presença. Mordeu os lábios tentando se manter acordado:

- Não se preocupe, humano, não vou fofocar sobre... isso que te preocupa, mas infelizmente não posso ignorar suas habilidades. Eu sei do que você é capaz. E do que essa vampira é capaz de fazer por você. Não posso ignorar isso, certo? Volto mais tarde, vou te levar para um lugar novo.

Hans ouviu a porta bater deixando-se levar pelo sono que o consumia. “Isso que me preocupa...” murmurou em um sorriso triste, esperançoso que Adrian cumpriria o que falava. Não o incomodava que o vampiro soubesse da intimidade que ganhara posteriormente com Ekaterina. Isso não o afetaria em nada. O problema era o que fariam se descobrissem que a Voz dos Ingenium, a temerosa assassina do Indulto de Sangue, ainda estava viva.




A narração de Clair de Lune acontece antes dos eventos da Crônica Resgate. Para saber mais sobre Hans e Ekaterina é só ler a Crônica aqui

É isso, gente, desculpa a demora para finalizar, praticamente um ano, mas tive outras pioridades nos últimos meses que quebraram o ritmo da escrita...

Espero que tenham gostado. Não gostaram? Me xinguem aí embaixo!

Obrigada a todos que continuaram a nos divulgar e comentarem aqui e no twitter, especialmente o @JotaFF, o @SnakeTnTaylor e o @professorvaz!

Daqui a 15 dias postaremos outro conto.

3 comentários:

Lucas T. Costa disse...

Confesso que o Hans e a Ekatherina subiram muito no meu conceito depois desse conto. Principalmente a Eka! u.u'

E o Adrian ficou perfeito, também. Pare de usar meus personagens melhor do que eu, mana maldita! ò.ó hahaha!!!

Amei esse dialogo final, como já te disse. Gosto de personagens melancólicos e perdidos, não sei porque, e a Eka me passou essa impressão ai no fim ehuehue

Agora falta eu tirar a ferrugem dos dedos e voltar a postar!

Thiago disse...

Mesmo depois de praticamente um ano parado você se superou. Não esperava um nível tão alto de redação e de narrativa depois de tanto tempo sem postar!

Adorei o conto! Confesso que tive que reler a parte 4, mas logo me lembrei e a parte final fechou com chave de ouro.

Como disse o Lucas, o diálogo final foi o ponto alto. Na minha opiniáo, tanto o diálogo da Kath com o Hans e o Adrian com ele... e no fim os pensamentos do Hans.. ficou mto bom!!!

Helu disse...

Acho meu Adrian TÃAAAOOO fraco comparado com o seu, Lu, dá até dó de usar...

Que bom que gostaram do diálogo!Esforço válido para vocês se entediarem menos lendo a Eka '-'