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Clair de Lune pt 3



Continuação de: Clair de Lune pt 2


- Venha - ela ordenou friamente... E eu a segui.

O narrador entrelaçou os dedos tensionando-os contínuas vezes. Os olhos cor de mel estavam bem abertos, perdidos na parede a sua frente. Ficou um certo tempo assim, olhando as rachaduras que perturbavam o branco da pintura até que, ao levar as mãos unidas ao joelho, piscou. O tilintar metálico que o movimento provocou pareceu roubar sua concentração nas antigas lembranças e olhou a algema que prendia seus pulsos:

- Então, foi isso. - murmurou, respirando fundo, ainda encarando os grilhões - Foi assim meu primeiro encontro com vampiros.

- Foi isso? - o rapaz, bem mais jovem que o narrador, descruzou os braços e se afastou da parede que se apoiara tranquilamente por todo o tempo que ouvira o relato, se aproximou do outro que estava sentado no chão de pedras - Como assim “foi isso”? O que aconteceu? O cara era um inquisidor mesmo? Vocês o caçaram? Não, nem responde, você passou a última meia hora contando detalhadamente tudo e justamente na captura do cara perde o sorriso e resolve resumir?! - não deixou-o responder novamente, sua face que ficara irritada por algum tempo agora adquiria uma expressão cínica, pronta para atordoar o prisioneiro - Por que não quer me falar os detalhes do que aconteceu, Senhor Ackart? Você fugiu das regras da sua Ordem, deu sangue para eles, não foi?

- Ah, por favor... - o outro resmungou, debochando da acusação e apertando as têmporas, claramente cansado da conversa que já durava boa parte da madrugada.

- Tsc, para te receber tão bem assim, e até cogitarem em te levar junto é porque são da família Ingenium. - Sorriu, maldoso, exibindo os próprios caninos alongados - Os Ingenium adoram um sangue mago para passarem horas, dias, inspirados em suas atividades. Eles eram Ingenium, não eram?

- Olha, eles só beberam meu sangue se chuparam o que restou nos cacos de vidro. - fingiu um sorriso, os olhos impacientes fulminavam o vampiro que o interrogava, estava estampado em seu rosto como a insistência no assunto o irritava. O pior era saber que Adrian não desistiria enquanto não descobrisse o porquê disso, as horas de interrogatório dos últimos dias foram suficientes para saber o quão insistente era aquele vampiro. Suspirou e, antes que o imortal começasse mais uma suposição, disse - Tá, eu vou te contar o resto.

- Très bien, monsieur magicien - debochou sorrindo, triunfal. Retirou a franja dos olhos e voltou a se acomodar na parede.

Hans franziu a testa deixando aparente as linhas da pele que denunciavam sua idade. 27 anos se passaram, porém seus olhos continuavam tão curiosos quanto do garoto que acompanhara a vampira naquela noite. Mesmo com o susto de ser jogado em uma clarabóia, mesmo com o cansaço dos dias maldormidos nesta cela, o mago ainda mantinha os dois globos cor de avelã ávidos por capturar algum conhecimento novo. Observava novamente as algemas quando molhou os lábios rachados e continuou sua estória.

Não falou que a vampira alegou que seu sangue a desconcentrava e, assim, deu-lhe um tempo para que ele se limpasse. Também não falou que se atrapalhou por um bom tempo com a marcha do carro antigo e que durante o trajeto tentou começar infinitos assuntos, entretanto tudo lhe pareceu ridículo a se comentar com uma criatura que provavelmente vivera mais de um século. Decidiu resumir:

- Bem, ficamos um pouco mais naquela casa e, assim que ela trocou de roupa, pediu que eu dirigisse. Disse mais ou menos aonde desejava ir e me guiou pelas ruas caóticas de Paris, Mais rápido do que eu esperava, chegamos no tal quarteirão cheio de lojas. Eu a acompanhei, meio receioso... não, não por não saber aonde iríamos. O problema é que, agora que eu sabia que ela era uma vampira, tudo que ela fazia me parecia um lembrete de sua condição de, ahm, múmia atemporal, até a escolha de roupas me pareceu “anos 30” demais. Confesso que me sentia ridículo por estar saindo de um citroen antigo tão requintado ao lado daquela mulher esquisita.

Enfim, mesmo envergonhado, caminhei ao seu lado pelo quarteirão, havia estabelecimentos de todos os tipos, mas a grande maioria já estava fechada. Óbvio, era quase dez horas. Passamos por uma ou outra casa de pães aberta e, então, a vampira parou à frente de uma pequena loja de instrumentos musicais. Observou por alguns segundos a chamativa placa de Fechado pendurada na porta e se afastou da vitrine, colocando-se sobre o paralelepípedo da calçada. Olhou para o segundo andar da loja e gritou, ou melhor, tentou gritar:

- Monsieur Éugene, - levou a mão à garganta demonstrando como era desconfortável aquele tom alto para sua voz rouca e insistiu - Monsieur Éugene, ma commande, si vous plait! Je suis ici!!

Fiquei encostado no vidro, embasbacado por os pedestres que passavam não estranharem a atitude e nem ao menos olharem-na de relance, justamente ela que era tão diferente das francesas miúdas que passavam na calçada. Ela voltou, sorrindo misteriosa, parecendo uma criatura inofensivamente doce. Apontou a loja atrás de mim e me virei, notando a luz acesa mais ao fundo do estabelecimento. Um pequeno idoso saiu daquela área mais iluminada, andava desengonçado, carregando algo felpudo nos braços. Deu uma boa olhada em nós dois, os olhos grandes e deformados pelas grandes lentes de óculos, e destrancou a porta com seu molho de chaves barulhentos. Reparei que a forma peluda era um pequeno cachorro, sou péssimo com cachorros, nem me pergunte qual raça era, mas seu pêlo era liso e tinha orelhas pontiagudas e espertas. Ah, e sim, era um desses barulhentos, mal o dono abriu a porta e o cão passou a rosnar e latir encarando a vampira:

- Ora, a peça não está pronta! - o senhor disse, ríspido. Abrira uma fresta apenas o suficiente para colocar sua cabeça para fora e exibia uma expressão enfezada, suas sobrancelhas eram tão arqueadas e com rugas tão profundas que me lembrei de um desenho caricaturesco. Continuou a falar, ignorando o latido estridente do cachorro (e o silêncio da visitante) - Não tive tempo! Ela ainda não está pronta!

- Boa noite, Éugene. - a imortal sussurrou delicada, ignorando completamente a rispidez do outro - Não vim por causa da palheta. Não exatamente. Estou aqui para conversar.

- Conversar? - ele questionou, não sei se esperava uma resposta, mas ela não lhe respondeu, simplesmente empurrou a porta, forçando a entrada de leve e o obrigando a lhe ceder passagem. Já estava a dois passos dentro da loja quando o velho perguntou novamente, confuso - Conversar? Mas... não temos o que conversar!

A vampira se virou, observando-o por cima do ombro e então direcionou os olhos cinza ao cão que insistia em latir:

- Foi o que você me prometeu da última vez que nos encontramos - ainda olhava o cachorro e levou o dedo indicador a origem do latido, como se pedisse silêncio ao animal, que, claro, a ignorou e tentou mordê-la, inutilmente. Esquiva, ela envolveu rapidamente seu focinho e maxilar, calando-o com a ponta dos dedos - Você falou demais, Éugene, só pode ter sido você. Não interessa o que Egor ache sobre seu talento, você sempre será um inquisidor imundo, independente de sair para a matança ou não. Você abriu a boca, não foi?

O velho balbuciou uma série de “nãos”, olhando apavorado o cão que gania incomodado com a pressão dos dedos da visitante. Ela manteve o olhar no animal até que o idoso conseguiu formar uma sentença coerente:

- Eu realmente não sei do que você está falando! - apertou os lábios enrugados por um tempo e murmurou - Por favor, não o machuque.

- Vamos conversar lá em cima. - fez um sinal para que eu entrasse e só largou o cachorro quando ouviu a resposta afirmativa do dono da loja - Sinceramente, você deveria estar mais preocupado com a sua boca agora, não? - debochou friamente, esperando que ele passasse por ela para, então, segui-lo pelo lugar.

O cheiro de verniz e madeira polida, tão presente no estabelecimento, ficava mais e mais forte conforme subíamos para o segundo andar. Era um alívio olhar aquela quantidade de instrumentos tão bem trabalhados sem ouvir o latido estridente, o cachorro não ousara repetir o ato, nem quando chegamos no cômodo superior que era, pelo visto, a moradia do sujeito. A vampira caminhou pela sala observando os desenhos e objetos não acabados sobre as diversas bancadas espalhadas pelo cômodo simplório. Pegou uma daquelas pequenas peças que se coloca no bocal de um instrumento de sopro, exatamente para se colocar a boca, e me mostrou:

- O que você vê? - eu ainda estava próximo à porta, não conseguia invadir o lugar assim, com aquele senhor tremendo próximo de mim, era uma situação atípica e não sabia como proceder. Dei só alguns passos receosos até que notei os pequenos fios prateados no objeto, não que fizessem parte de seu material esbranquiçado, eram brilhos singelos que demostravam além de sua composição mundana, não eram visíveis a humanos comuns. Os fios são o traço sutil que caracteriza a presença de magia em algo. Havia magia naquela pequena peça. Acredito que minha expressão demonstrou o que eu pensava, pois antes que eu pudesse lhe responder, a criatura se virou para o dono da casa - Deixe-me adivinhar o que aconteceu, um inquisidor te visitou, veio te pedir conselhos, e, então, viu a palheta. Notou seja lá o que demonstra que ela não pertence a um humano comum e resolveu perguntar de quem era - molhou os lábios e se aproximou dele, o cachorro pulou de seu colo, abandonando-o e ganindo - Você ainda recebe inquisidores aqui, Éugene?

- Eu nunca disse que não tinha mais contato com a instituição. - o velho endireitou a coluna, confiante, e ajeitou os óculos quadrados - O que houve, afinal? Do que você está me acusando?

- Você é o único nessa cidade que sabe a nossa ligação com a Augustine, só ela veio a sua loja nos últimos três anos. Acho difícil que um inquisidor seguiu uma reles humana só por curiosidade. - sorriu, debochada, ao ver a expressão surpresa do outro - É, um inquisidor a seguiu hoje até nossa casa, Éugene.

Ele descruzou os braços, enfiando as mãos nos bolsos do colete de lã, apesar da postura estoica, o jeito como crispava os lábios murchos denunciavam que tinha algum culpado em mente. Perguntou:

- Como ele era?

- Bem alto e esguio. - respondi hesitante, ainda bem distante dos dois - Moreno, cabelo encaracolado penteado para atrás... Talvez tenha 40 anos. Tem uma cicatriz estranha no rosto, parece um rasgado de um felino.

Ele falou um palavrão, algo que acho sempre estranho vindo de um idoso. Passou os dedos pelos fios grisalhos e tirou o óculos, claramente nervoso:

- Foi um acidente, Ekaterina. - afirmou, sério, encarando a imortal; suas sobrancelhas arqueadas se desfizeram - Aquele idiota! Ele apareceu aqui quando eu estava trabalhando no oboé - apontou com a cabeça o objeto nas mãos da vampira - e me perguntou várias e várias vezes se eu não via como essa peça era diferente, que pela antiguidade pertenceu a algum mago no passado e...

- Você contou. - a criatura sussurrou, o rosto perdendo completamente a doçura complacente da visitante de poucos minutos antes.

- Não, não contei. Mas ele veio aqui mais de um vez e... ficou sozinho aqui, - o velho ignorou o som de protesto dela e continuou - então ele pode muito bem ter visto a comanda, anotado o endereço. - fiquei tenso por ver o nervosismo em que ele estava, parece que quando a pessoa é mais velha fazemos questão de esquecer do que ela realmente é, nos prendemos apenas a sua aparência frágil. A boca dele tremia ao tentar argumentar - Entenda. Não achava que ele teria tempo para isso, ele tem muito, muito, o que fazer na cidade. O sujeito não me parece regular muito bem, mas nunca imaginei que sairia xeretando as minhas coisas!

- Não parece regular bem?

- Ele não é exatamente um inquisidor. É um mercenário..

Lembro que, para evitar simpatizar com sua situação, passei a reparar nos quadros da parede atrás dele. A vampira debochava algo sobre a instituição comentando como estava decadente e nem sei o que ele retrucou pois o grande brasão talhado em uma madeira escura atraiu completamente minha atenção. O artefato estava cheio daquela hieráldica maldita da inquisição, cada detalhe parecia despertar mais minha repulsa pelos inquisidores:

- Ele está matando magos? - perguntei, ríspido, me intrometendo no diálogo e pela primeira vez o senhor pareceu realmente notar o que eu era, sua expressão subserviente foi substituída pela enfezada anterior. Apontou um dedo acusador para a vampira:

- Você trouxe a Ordem francesa aqui?

- Não. - ela sorriu, tão cínica quanto seu mentor - Eu trouxe o mago que nos mostrou que estávamos sendo vigiados. - guardou a pequena peça no bolso da calça escura se aproximando dele, não deixou que ele completasse o que tentava falar - Responda o rapaz... ou melhor... - provocou um respiro fundo e de repente, rápida, muito rápida, já estava frente a frente com o velho, empurrando-o pelos ombros até a parede - Chega dessa enrolação. - exigiu, pausadamente, sem esconder os caninos ameaçadores a milímetros do rosto enrugado - É óbvio que seu inquisidor não veio aqui para passear pelas igrejas parisienses. Não quero saber como você o ajuda. Quero só saber como vai consertar o que fez! - sussurrava com seu estranho sotaque; nervosa assim, era perceptível como seu francês não era nativo - Aonde ele está agora?

Continua em: Clair de Lune pt 4

Qualquer erro ou sentença que acharem estranha me avisem, por favor.

Desculpem pelo post grande. Espero conseguir finalizar na próxima parte.

Clair de Lune pt II


Continuação de: Clair de Lune pt1

Os longos fios de seu cabelo bateram em meu rosto quando ele se curvou até meu braço. Senti sua mão gélida envolvendo meu pulso esquerdo apertando-o delicadamente e com uma tensão mínima nos dedos ele me arrastou vagarosamente pelo salão. Os cacos de vidro grudados em meu paletó provocaram um som irritante ao atritarem contra o piso de madeira. Podia ver o brilho vítreo sobre a mobília escura e em alguns instrumentos de corda: aparentemente os fragmentos espalharam-se por todo o recinto sombrio. Ouvi uma porta abrir subitamente e os reflexos cor de prata sumiram em meio a uma iluminação amarelada:

- Foi daqui o barulho?! O que aconteceu? – uma voz masculina indagou o que havia ocorrido, mas a criatura que me puxava o dispensou com poucas palavras:

- Quando eu precisar de você, te chamo.

- Mas Egor...

- Eu te chamarei.

Enquanto ouvia o sujeito se retirando, minha visão ficou turva. Sabe aquela sensação que você tem consciência que vai desfalecer? Eu não sei se eu realmente desmaiei só me lembro do som da porta se fechando como um barulho distante, quase um sonho. Quando abri os olhos, percebi que não me movia mais, minhas costas descansavam sobre uma superfície macia, mas que não aliviava as dores latejando pelo meu corpo. Um abajur iluminava o lugar, provocando sombras enormes graças as colunas ao seu redor. Ao fundo, atrás das colunas, podia ver o reflexo da lua sobre um piano, repleto de incontáveis cacos de vidro e tive certeza que ainda estava no salão que continha a clarabóia, porém, o teto era bem mais baixo ali do que no resto do cômodo. Movi cuidadosamente a cabeça, ainda deitado. Eu procurava a criatura que me trouxera ali, até que ouvi sua voz:

- Então, senhor Ackart, – assustei-me quando o percebi sentado ao meu lado e, em alemão, continuou a falar em um tom brando - vai me dizer o porquê dessa entrada triunfal?

Ele olhava minha carteira, o cabelo longo, e mais claro que o meu, cobria seu rosto. Não apenas o cumprimento das mechas me fez ter a certeza que ele não era o jovem do casal que vi anteriormente, seus braços eram robustos e usava uma camiseta de manga curta e escura, muito simples, um visual bem diferente do rapaz que fora seguido. Tentei sentar para respondê-lo, porém senti a nuca doer e achei que desmaiaria novamente. Ele arqueou a cabeça colocando os fios atrás da orelha e revelando seu rosto jovial. Roçou os dedos na barba cerrada, fitando-me. Engraçado que, apesar da intensidade do olhar, fiquei com a impressão que seus pequenos olhos azuis não me viam. Ele transparecia pensar em milhões de coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas o alarmava:

- Um mago alemão em Paris... – indagava sempre com uma voz suave, quase um murmúrio – Você foi jogado por quem?

- Eu não sei – ignorei a expressão debochada que ele fez e continuei a confessar minha ignorância - Eu o segui até aqui para descobrir.

- Seguiu um desconhecido? – os lábios esboçaram um sorriso animado o qual se desmanchou quando ouviu o som farfalhante do vento movimentando os fragmentos vítreos. Virou o rosto e indagou - O que ele é?

Antes que eu pudesse responder, uma voz feminina o fez. Só então entendi que a pergunta não era para mim. O ser que me resgatara anteriormente retornara, estava próxima a uma das colunas, conseguia ver a luz da lua iluminando seu cabelo escuro e criando penumbras sobre o rosto. A resposta foi praticamente um sussurro rouco, audível, mas indecifrável, já que não entendi o idioma. Ainda tentava decifrá-lo quando o outro, mostrando minha carteira, contestou em alemão:

- O rapaz é de Worms, não o exclua da conversa.

Ouvi um suspiro longo em resposta e ela se aproximou. Confesso que senti um calafrio quando a luz amarelada do abajur revelou seus traços. Até aquele momento eu estava lutando para não xingar pelas constantes dores dos cortes do vidro, nem me incomodava tanto o corpo retesado pelo baque, porém a ardência dos ferimentos roçando na roupa era perturbadora. Esqueci todo esse incômodo quando a vi. "Piegas", não?

Não senti isso por ela ser linda. Não era o tipo de beleza que eu apreciava. Seu rosto arredondado destacava bochechas, nariz e queixo angulosos, a pele era extremamente branca e o pouco que eu conseguia ver de seu corpo demonstrava que era mais alto e com mais curvas do que as meninas franzinas que eu admirava na época. Ela foi a mulher mais... esquisita que eu já vira. A angulosidade mesclada com os olhos grandes e lábios bem delineados davam-lhe um aspecto selvagem, porém muito, muito, sensual.

As mechas escuras estavam enroladas em um coque cheio e abaixo da orelha, aparentando que de desmancharia a qualquer momento. E eu lembro que torci para isso, para ver os fios cascateando sobre o vestido azul enquanto ela se aproximava. Parou um pouco atrás do outro e algo em sua postura me lembrou uma musa de Art Noveau, representação tão comum em ilustrações espalhadas pelas cafeterias parisienses. Ela me fitava desconfiada:

- Os magos alemães resolveram acertar as contas com os inquisidores? – perguntou ainda em um timbre fraco. Ao notar o meu rosto de dúvida, que sim, eu certamente fiz, continuou – Você não sabia que ele era um inquisidor?

- Hahaha e o seguiu sem motivo algum. – o outro riu, não sei se por escárnio pela minha idiotice ou por não acreditar.

Confuso com as perguntas, fiz questão de sentar. Olhei minhas mãos cheias de arranhões e o relógio dourado, intacto, sobre o pulso. Os ponteiros indicavam que eram quase oito horas:

- Inquisidor? Ele era um inquisidor? – perguntei com a voz falhando.

A mulher se aproximou mais me observando indiferente. Deu a volta no divã e senti suas mãos frias tocando minhas costas e em seguida meu pescoço:

- Sente algo quebrado, garoto? – perguntou e me forçou a tirar o casaco – A cabeça dói? Esquece, tudo deve doer – murmurou.

- Eu sei que ele não está nas melhores condições para falar, Kath. Indiretas são desnecessárias. – o loiro sorriu encarando-a, dessa vez exibiu os dentes e percebi seus caninos estranhamente pontiagudos. Ele deixou o divã continuando a falar andando vagarosamente até uma poltrona próxima - Mas você não conseguiu capturá-lo, precisamos ter certeza. Eu quero mais informações agora para não precisarmos fazer nada drástico. Ah e nem venha me falar que temos que nos mudar.

- Seria muito mais prático do que acordar com a casa em chamas amanhã. – sussurrou cínica passando pela poltrona que agora ele se acomodava, ia dizer mais alguma coisa, mas dessa vez ousei interrompê-la. Queria entender o que estava acontecendo:

- Espera, você o perseguiu, mas não o alcançou? - questionei reparando nas manchas de sangue sobre o vestido de seda.

- Se houvesse, ele estaria aqui. – voltou-se para mim e na pouca luminosidade que se encontrava fiz questão de observar sua fileira de dentes aparecendo no movimento dos lábios – Morto. – completou e sorriu, como se entendera o que eu observava entre o sussurrar de sua boca. Consegui ver claramente que seus caninos eram maiores que de um humano normal:

- Inquisidor - gaguejei, parecendo um retardado - isso faz sentido. – Eu raciocinava o que poderia ou não falar para eles e... o que eles eram. Sim, óbvio, você já sabe, afinal estou te contando isso porque queria falar sobre meu primeiro contato com vampiros, mas estava tão atordoado com o baque e a tensão anterior ao diálogo que demorei a notar as características típicas. A pele muito branca e os caninos são o de menos, o simples fato de reconhecerem meu sangue mago pelo cheiro deveria ter me alertado.

Não lembro o que eles continuaram a conversar entre si, ative-me a ordenar minha mente. Primeiro vi o quanto eu estava cortado e se havia algum ferimento aberto que ainda estava com sangue muito fresco, sabe como é, queria ver se eu estava incentivando muito o apetite dos dois. Depois pensei no que eu sabia sobre a situação dos vampiros em Paris, se havia alguma guerra declarada com os magos como em Berlim e concluí que não sabia muito sobre o assunto.

É, eu já conhecia muito sobre magia, mas quase nada da politicagem envolvendo os vampiros, magos e inquisição. Eu era um pirralho mais interessado nos livros e objetos mágicos do que nessa guerra fria. Bem, meu interesse não mudou só que, infelizmente, não consigo mais ignorar esses dramas sociais.

Aquele período foi um tanto complicado para a Alemanha. Você sabe, afinal, até hoje poucos magos voltaram a residir no país com receio que os inquisidores recomecem as encheções. Sim, esse era um dos motivos que eu estava em Paris, porém eu estava acostumado com as atitudes declaradas da instituição, seus membros sempre davam um jeito de assumir a responsabilidade por alguma morte grotesca. Eles não caçavam e matavam em silêncio, sem deixar a autoria exposta, totalmente o oposto do que esse sujeito fizera com os estrangeiros de Paris. Eu não via sentido naquela punição sem doutrina:

- Não sei se é inquisidor, mas acho que está capturando magos estrangeiros aqui do intercâmbio da Universidade de Paris. – interrompi a conversa do casal e estiquei as pernas – Eu não tinha certeza, só o segui porque achei suspeito o jeito como ele observava um mago na biblioteca. O acompanhei até que ele seguiu um casal loiro até aqui.

Eles se entreolharam com uma expressão insatisfeita. O imortal colocou-se de pé, ignorando-me e se aproximando da outra. Falavam no tal idioma que eu não reconhecia e notei como era claro que a vampira era submissa as suas vontades. Ela aparentava ter uns trinta anos e ele praticamente a minha idade na época, porém escutava-o atenta como uma pupila. Ela me encarou e fez um movimento de despedida com os dedos.
O loiro voltou a falar comigo, não me lembro sobre o que, pois meus olhos estavam cravados na imortal que se retirava tranquilamente, o salto fazendo barulho ao tocar na madeira. Foi quando ela abriu a porta, deixando a luz do corredor iluminar seu corpo esguio, que me manifestei:

- Espere, aonde você vai? – levantei-me do divã - O que decidiram fazer?

- Nós vamos confirmar sua suspeita, e resolvê-la – respondeu o de aparência mais jovem, desembaraçando tranquilamente as mechas de seu cabelo.

- Agora? Eu quero ir! – falei ríspido e, no mesmo instante, completei praticamente implorando – Posso ir?

- Ora, achava que ainda poderia conversar mais com você - ele disse sorridente. Fitou-a, praticamente rindo, como se demonstrasse que a decisão era dela.

A vampira franziu a testa, impaciente, perguntando:

- Você consegue dirigir nesse estado?

- Sim – afirmei com mais confiança do que realmente tinha.

Ela provocou um suspiro fundo e virou-se para a porta aberta:

- Venha

Continua em Clair de Lune pt 3

Desculpem a demora para postar essa segunda parte, a semana foi um pouco complicada para uma revisão mais detalhada. Obrigada a quem comentou da última vez, ótimo saber que alguém lê o blog, hehehe. Espero que continuem acompanhando (e curtindo) o conto.

Enfim, acabem comigo ;P