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Clair de Lune pt I



Era uma época apreensiva em Paris. Havia um murmurinho sobre estranhos desaparecimentos entre os estudantes do intercâmbio da Universidade de Paris. Se soubessem que você era um estrangeiro, um estranho olhar de pesar te acompanhava entre os corredores e salas, como se a morte estivesse em sua sombra.

Eu era um pirralho na época, tinha a idade que você aparenta. Dezenove, vinte anos? Não? Bem, era mais velho que você então. Eu tinha vinte anos. Morava na cidade há pouco mais que cinco meses e já estava envolvido com os raríssimos magos parisienses. Sabia que os estrangeiros desaparecidos não eram simples universitários. Eram magos. Uns três conhecidos meus sumiram de um dia para o outro, deixando a grade universitária incompleta e o passaporte no quarto. Os magos franceses estavam alarmados (muito mais pelo escândalo revelar a fraqueza de sua organização do que pela gravidade da situação) e, inclusive, nos aconselharam a sair da cidade enquanto não descobriam o que estava acontecendo.

Não sei se alguém levou realmente a sério esse pedido, sei que eu não o fiz. Não apenas por não ter um lugar muito acolhedor para voltar (sem comentários), mas eu não estava disposto a largar a universidade assim no final do semestre. E, principalmente, fiquei curioso. Queria descobrir o que estava acontecendo, só que nem passou pela minha cabeça reunir um grupo e investigar os desaparecimentos. Eu estava atolado em livros e a cada dia adiava as horas que gostaria de reservar para elaborar teorias sobre essa suposta crise. Foi por puro acaso que encontrei a tal ameaça em meu caminho...

Estudava na biblioteca sempre no período da noite e assim o fiz naquela terça-feira. Enquanto procurava livros entre os corredores de estantes, reparei em um sujeito que mais observava os estudantes do que no impresso sobre sua mesa. Vestia roupas muito formais para um simples universitário; seu rosto quadrado era marcado por cicatrizes paralelas que pareciam o rasgado de um felino. Lembro até hoje como seu olhar pareceu faiscar quando observou um norte-americano que passou em sua frente. Eu sabia que o tal estudante era um mago, nunca conversamos, porém já o vira em uma das tais reuniões alarmantes. Não foi à toa que estranhei aquele olhar, desconfiei daquela expressão doentia justamente quando um universitário mago passou em sua frente.

Ele anotou algo em um caderno de bolso e se dirigiu para o balcão da biblioteca, foi nesse momento que me convenci a segui-lo. Larguei os livros por lá e até hoje sinto falta de uma das canetas que larguei na mesa, mas, enfim, levei pouco comigo enquanto o observava pegando seus objetos (uma maleta executiva impecavelmente limpa) e saindo da biblioteca. Rapidamente, mais rápido do que as minhas pernas aguentavam naquela época, ele caminhou para fora da universidade.

Segui-o como um idiota: aos tropeços entre os pedestres. Perdi-o de vista algumas vezes, mas volta e meia visualizava o topo de sua cabeça entre os pequenos parisienses a minha frente. Pensei seriamente em desistir da ideia impulsiva, afinal, ele não parecia seguir nenhum estudante mago, poderia ser só um homem que caçava pretendentes na biblioteca. Meu fôlego parecia que não se recuperaria nunca mais e parei. Apoiei-me em uma parede de uma pequena loja para evitar ser atropelado pelos apressados da calçada e então notei que ele também havia parado.

Estava a alguns metros à frente, próximo da esquina, observando o vidro límpido de um glamuroso restaurante. As luzes do lugar iluminavam as profundas cicatrizes de seu rosto moreno e eu pude ver sua expressão mudar novamente: da indiferença de um cidadão comum para o olhar impetuoso de quem achara sua presa. Olhei o restaurante, tentando adivinhar quem seria a vítima que ele observava. Duvidei que fosse um estudante, nenhum de meus conhecidos da universidade se interessaria em pagar tamanho luxo para comer um prato minúsculo ouvindo uma boa música.

Os mais jovens presentes estavam acompanhados da família e não consegui deslumbrar nenhuma linha de magia nos corpos daqueles humanos. Um casal jovial preparava-se para sair do lugar, ambos eram loiros e usavam trajes apropriados para o requinte do local, não pareciam ter nada especial. Entretanto, assim que saíram do restaurante, o sujeito esticou as barras do paletó e passou a segui-los. Novamente no ímpeto o acompanhei. O casal andava tranquilo pelas ruas iluminadas sem desconfiar que era seguido, em uma distância razoável, pelo indivíduo.

Acho que após duas ou três quadras eles pararam na frente de um suntuoso portão de ferro. Só havia nós quatro na rua e, temendo ser visto, me escondi rapidamente atrás de uma árvore. Pude ouvir o molho de chaves e acredito que o caçador fingiu seguir em frente, pois seus passos firmes continuaram a ecoar nas pedras da calçada por um bom tempo.

Cauteloso atrás do tronco, eu observei a casa de arquitetura antiga. Chamou-me atenção como ela era isolada das demais moradias da rua, seu grandioso jardim parecia carecer de cuidado há anos graças à quantidade de folhas espalhadas na base da tortuosa vegetação. As grades de ferro eram de altura mediana e serviam mais como um delimitador do terreno do que um real mecanismo de proteção, isso me fez pensar que talvez o aspecto de abandono era proposital para não incentivar roubos.

Quando não ouvi mais o som de chaves e passos, procurei o sujeito ao final da rua e não o vi. Olhei o mausoléu. As janelas alongadas da frente da casa estavam iluminadas mostrando os desenhos sinuosos dos vidros azulados. Dei alguns passos, para ver melhor tanto a casa quanto o sujeito suspeito, e pude ver as silhuetas do casal em outro jogo de janelas na lateral da casa. Pareciam ouvir música já que um suave som de piano saía do lugar. O segundo andar da casa, mais estreito que o primeiro, estava em completa escuridão, mas não deixei de notar o vulto alcançando o telhado logo acima do cômodo em que o casal estava.

Ele se moveu como um gato pela laje do primeiro andar. Vi sua maleta em um tronco de uma das árvores mais próximas da casa e concluí que o suspeito conseguira subir facilmente escalando-a. Pensei seriamente em correr para um orelhão e telefonar para a polícia informando sobre o suposto assalto que iria acontecer, mas... por que um assaltante não abordaria o casal logo no portão? Seria muito mais fácil de entrar na casa.

Se simplesmente quisesse invadi-la, poderia esperar um momento em que não estivesse ninguém presente.

Seria então um assassinato. Aquele olhar, a roupa impecável e as cicatrizes. Os seus aspectos lembravam um desses típicos assassinos doentios de filme. Não pensei mais, simplesmente pulei a pequena cerca e fui até aquela árvore que ele escalara. Conforme me agarrava nos galhos subindo o vegetal, agradecia a melodia do piano por abafar os sons da minha subida desajeitada.

As notas variavam rapidamente de tons agudos a graves, envolvendo o jardim em uma estranha lamúria, parecia combinar perfeitamente tanto com as árvores tortuosas quanto com aquela noite fria, cujo céu sem nuvens exibia uma imensa lua amarelada. Graças a sua iluminação, eu conseguia ver com certa nitidez os movimentos do sujeito a uns oito metros a minha frente no telhado. Aproximei-me cauteloso, sem desgrudar os olhos de sua posição.

Ele estava parado, de costas para mim, observando uma clarabóia retangular que cortava a laje. Havia uma fraca luminosidade saindo daquele local, e a música pareceu mais alta ali do que antes. Notei que o corpo do suposto assassino ganhava a tensão que vi anteriormente no restaurante. Apesar de apenas avistar o contorno de suas costas, eu conseguia imaginar aquela expressão doentia de caçador: ele olhava sua presa através do vidro.

O brilho da lua destacou a prata das minúsculas adagas que o sujeito segurava. A arma me fez concluir que não era um mero assaltante ou assassino. A rapidez absurda e o exímio silêncio com que ele chegara ao local demonstravam sua experiência em matar criaturas com sentidos aguçadíssimos. Olhei a lua cheia que aquecia mais a noite do que aquele piano triste e me perguntei se ele estava ali para matar um lobisomem.

Bem, naquele momento eu não sabia se era ou não um caçador, então não vou falar o que ele é agora. A questão é que nem ao menos tive tempo de raciocinar o que eu sabia sobre a lenda dos lupinos. Para o meu azar, as notas do piano cessaram exatamente no momento em que eu dava mais um passo para me aproximar da lucerna de vidro, não havia mais som algum para disfarçar o atrito do meu sapato com a laje áspera. O caçador se virou, em segundos seus olhos estavam a centímetros dos meus e eu só senti um forte puxão pela gola antes de ser jogado na superfície vítrea da clarabóia.

Claro, instantaneamente o vidro se rompeu, abrindo cortes por todo o corpo. Eu protegi meu rosto com os braços, não sabia naqueles segundos aonde eu cairia, mas lembro de temer a queda, não pela dor, mas pelo desmaio. Não queria desmaiar em um lugar que provavelmente abrigaria um lobisomem.

Entretanto, não desmaiei. Meu corpo nunca chegou a atingir o chão, fui apanhado por uma criatura tão forte que só percebi que estava me segurando quando ela apertou meus braços para me virar e colocar no chão suavemente. Abri os olhos, mas não conseguia vê-la, só ouvi sua voz feminina próxima a mim, resmungando algo em uma língua que eu não entendia. Vi seu vulto pulando em uma estante de livros e em seguida, rápida, muito mais rápida do que o caçador, saiu pela abertura no teto.

Ouvi passos sobre cacos e arqueei o corpo tentando me levantar. Não consegui. A dor do baque com o vidro ainda envolvia meu corpo e nem ao menos forças para ficar apoiado nos cotovelos eu tinha. Observei a lua amarelada enquanto ouvia ansioso e impotente aqueles passos vagarosos se aproximando. A figura masculina cobriu parte da lua, arqueando o corpo e me encarando:

- O cheiro do seu sangue é... diferente. Ha. – murmurou e vi o sorriso misterioso em seu rosto cheio de penumbras – Não te ensinaram a tocar a campainha, mago?


Continua em: Clair de Lune pt II

Esse é o primeiro conto que eu escrevo aqui em primeira pessoa, apreciaria demais se vocês comentassem se está muito informal ou chato de ler... E qualquer errinho por favor comentem também, pois o Lucas não pôde revisar o texto.

Ah, esse post é oferecido especialmente a Cátia que acompanha o site e vive me pedindo um post sobre os personagens que vão aparecer aí. Espero que curta, Cátia ;P.


Dragões de Gelo - pt. III


Continuação de: Dragões de Gelo - pt. II


Olá, leitores! Peço desculpas pelo atraso na postagem, estive um pouco enrolado com o final do semestre na faculdade. Mas finalmente consegui finalizar a penúltima parte deste mini-arco, e ai está o resultado! Espero que gostem ;) Boa leitura a todos!

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O estalido do portão se abrindo subitamente pareceu despertar o vampiro, que continuava sentado a uma curta distância, olhando para o horizonte. Há algum tempo tinha desistido de tentar ensinar ao mago como pronunciar as palavras corretas, tendo em vista que este parecia obter muito mais progresso quando não era tratado como alguém que necessitasse de fato de alguma ajuda.


- Oh, finalmente! – Murmurou Uriel, pondo-se de pé e espanando os flocos de neve da própria roupa. Pegou a espada, que até então jazia apoiada na parede do cemitério, e abriu um sorriso satisfeito enquanto olhava para o mago. – Poderia ter sido muito mais rápido se me deixasse ajudá-lo, mas eu tenho todo o tempo do mundo, e quem quer sair daqui ainda esta noite é você mesmo... Vamos?


O moreno olhou de esguelha para o companheiro, apertando as pálpebras em seguida e inspirando fundo. Uriel levou a mão livre ao portão, escancarando-o sem cerimônia, e além do ruído fantasmagórico de metal, uma densa e malcheirosa névoa precipitou-se para fora, transpassando os limites do cemitério. O vampiro não parecia surpreso quando o mago perguntou, desconfiado: - O que este portão selava, Uriel?


E, antes de responder, o loiro caminhou alguns passos adiante, embrenhando-se na cortina branca de ar condensado. – Meus irmãos. – Sua voz soou abafada, e os passos cessaram. A silhueta do vampiro ainda era visível para o outro, evidenciando que ele não fora muito longe. – Você poderia dar um jeito na névoa, Logan? Não que eu esteja reclamando, mas eu acho que você pode acabar caindo em uma cova aberta ou algo assim.


- Hm... Esta névoa não é comum? Ela não ultrapassava os limites dos portões nem dos muros, embora eles sejam vazados. E este cheiro... – O mago inspirou mais uma vez, o nariz franzido em uma careta de desagrado. - ...O que são os seus irmãos? – Perguntou, por fim, retirando um pequeno orbe de vidro de um dos bolsos e livrando-se da rolha de cortiça do fino gargalo.


- São dragões. – Fora a resposta que recebera, entoada de maneira simples e direta. Logan fez um muxoxo, debochando:


- Um vampiro filho de uma divindade pagã e irmão de dragões. – Esticando a palma da mão adiante, Logan fez o sinal da cruz, porém, antes de começar a realizar a magia, destilou um pouco mais de veneno por entre dentes: - Tais maldições evidenciam quão degenerada e pecadora foi a sua linhagem. Que Deus tenha piedade das almas de seus familiares.


- Para um mago, às vezes você é bastante... católico. Egor captou isso muito bem. – Desdenhou o vampiro, ainda completamente oculto pela cortina de névoa. Logan não respondeu, limitando-se a cerrar os olhos e fazer novamente o sinal da cruz. Seus lábios se moveram muito rapidamente, mas nenhum som saiu deles, e tão logo pararam de se movimentar, uma brisa morna o envolveu, agitando seus cabelos e aquecendo a sua pele instantaneamente. O frasco em sua mão cintilou com uma cor perolada e um segundo depois o gargalo emitiu o inconfundível ruído de sucção; a névoa espiralou para o seu interior, e tão logo todo o interior do cemitério podia ser vislumbrado por seus olhos humanos. – Coube tudo ai? – Perguntou o vampiro, mas sem surpresa alguma, mirando o pequenino orbe agora completamente preenchido da névoa de odor putrefato. Logan percebeu que o semblante de Uriel estava mais sisudo, não lembrando em nada o ar divertido que adotara até então. Demasiadamente humana, pensou ele, aquela mudança repentina de humor.


- Tem certeza que quer fazer isto? – Perguntou o mago, depositando o pequeno frasco no interior de um dos bolsos e retirando de outro um novo recipiente cristalino repleto de água. – Se você quiser, eu posso selar o portão novamente.


- Eu tenho certeza.


Disto isto, o vampiro virou as costas e continuou a caminhar pelo interior do cemitério deserto. Os túmulos ostentavam símbolos cristãos – e alguns eram adornados por cruzes celtas -, evidenciando que os tais dragões não deveriam estar ali há muito tempo. Apressando um pouco o passo, Logan não demorou muito a acompanhar o vampiro, que conservava uma das mãos enfiadas no bolso da calça e os olhos semi-cerrados; a expressão de Uriel permanecia demasiadamente fechada. Ele estendeu a mão na altura do peito do mago, em um claro pedido para que ele parasse por um momento. – Por favor, permaneça alguns metros atr...


Porém, as palavras do loiro foram suplantadas pelo urro ensurdecedor que praticamente explodiu os tímpanos do mago. Logan levou as mãos às orelhas, os olhos arregalados miravam um dos mausoléus mais adiante, de onde parecia vir o barulho. Depois outro, alguns metros à esquerda, e por fim, o terceiro berro viera do jazigo imediatamente ao seu lado, ao mesmo tempo que a portinhola de metal fora atirada longe por uma força invisível, atingindo a cruz de pedra do túmulo que Logan estivera até o último segundo – Uriel o puxara com violência, os dedos apertados em torno de seu pulso como pinças de metal.


- Permaneça calmo. – Recomendou ele, próximo ao seu ouvido. O mago, irritado, rechaçou-o com a mão livre, obrigando-o a liberá-lo do aperto. O cenho franzido de Logan não relaxou sequer por um átimo de segundo, mesmo quando o barulho pesado de passos reverberou pelo ambiente. Por um momento, pensou que o chão tremia, mas a impressão passou tão logo. O cemitério fora mais uma vez envolvido pela mesma névoa podre de antes, e os urros se fizeram ouvir novamente, pontuados por resfôlegos guturais que eriçavam os pêlos da nuca do mago. – Logan, por favor...


Mais uma vez as palavras de Uriel foram silenciadas: desta vez pelas do próprio Logan que, em reflexo à criatura que saia do jazigo próximo, atirou o pequeno frasco de água e entoou uma oração em uma língua que Uriel desconhecia, fazendo o vidro estourar no momento em que tocou a criatura. A água entornada sobre seu corpo produziu labaredas azuis, frias, e o grito que escapou de sua garganta não fora de ameaça, mas de dor. O cheiro de podridão fora intensificado, misturado ao de carne carbonizada.


- O que era aquilo? – Perguntou Uriel, visivelmente admirado. A criatura tombava de joelhos na escuridão, ainda emitindo rosnados de agonia.


- Água benta. E o que é aquilo?


- Nunca vi água benta produzir tal efeito. – Observou o vampiro, as sobrancelhas arqueadas. Momentaneamente a preocupação dera lugar à curiosidade, e Uriel não parecia mais tão misterioso, e embora o perigo fosse eminente, ele parecia muito mais interessado na extensão dos poderes de Logan. – O que foi que você fez?


- Para um mago, eu sou bastante católico, lembra? – Repetiu Logan, retirando outro pequeno frasco de água de suas vestes. – Você vai me responder o que era aquilo, ou não? Por acaso é um dos seus irmãos? – Desdenhou ele, obviamente esperando uma negativa que, para a sua surpresa, não viera. Uriel limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente, desta vez arrancando uma rápida exclamação de surpresa do moreno. – E existem quantas criaturas dessas?


- Três. Vê a runa sobre o arco da porta? – O loiro apontou para um pequeno entalhe no arco de pedra, murmurando a seguir: - Dæg.


- Draugrs? – Perguntou, incrédulo. Os olhos arregalados mirando os de Uriel. – Os seus irmãos são...


- Talvez a minha geração seja mesmo reflexo de uma linhagem degenerada. – Respondeu ele, com um sorriso triste. Em seguida, ergueu a espada no nível dos olhos, murmurando em tom tranquilizador: - Agora você entende por que eu precisava desta espada, certo? Não podia ser qualquer uma, precisava ser extremamente valiosa. Esta aqui figura as nossas lendas, vai ser um bom objeto de barganha.


Logan suspirou – o ar que escapou de seus lábios e narinas fora condensado imediatamente – e, chutando uma pequena pedra sob o seu pé, praguejou baixinho, para depois apontar o dedo indicador para o rosto de Uriel e esbravejar: - E quando é que você ia me dizer isto, hein? Quando eles arrancassem a minha cabeça? – Abriu a boca mais algumas vezes, apenas para fechá-la em seguida, sem emitir som algum. Estava, visivelmente, mortificado. - Draugrs!


- Desculpe.


- Desculpe um caral...!!! – Parou, respirou fundo e continuou, ainda trêmulo: - Apenas me prometa que, depois desta noite, vamos estipular uma data final para este maldito contrato, Uriel. Eu já estou farto de por a minha vida em perigo por alguém que eu detesto!


O loiro o encarou por alguns segundos antes de, finalmente, assentir com a cabeça, sem dizer palavra. Pelo franzir de sobrancelhas, era obvio que não tinha gostado do termo, mas não havia muito que fazer. A data que Logan clamava podia ser amanhã, mas também podia ser dali a dez anos. Os cantos dos lábios de Uriel se arquearam, quando ele virou as costas para o mago e ergueu os braços acima da cabeça, deixando a espada bem à mostra.


- Bræður! – Exclamou, a voz retumbando por todo o ambiente. Três urros uniram-se às suas palavras novamente, formando uma cacofonia ensurdecedora. - Það er ég, bróðir Svarr þinn! Sýna sjálfur!¹


O barulho e os resfôlegos de outrora deram lugar aos rugidos, e logo três silhuetas humanas puderam ser vislumbradas por entre a cortina de névoa, arrastando-se na direção deles. Logan apertou os dedos em torno do pequeno frasco de água benta novamente, e com a mão livre apanhou um pequeno livro de outro bolso.


- Irmãos! – Desta vez, o vampiro falou em uma língua que o mago pudesse entender, embora não estivesse certo de que os Draugrs o fariam. Na verdade, duvidava que eles pudessem entender qualquer coisa; as suspeitas de Logan eram de que eles eram movidos apenas por sentimentos primitivos, abandonando há muito a humanidade e, com ela, a racionalidade. Farejavam o ar, sentindo as intenções de Uriel, que continuava a lhes falar: - É chegada a hora de vocês se reunirem a mim, como antigamente, quando vagávamos por estas paragens sob a luz do sol...


Logan conhecia pouco sobre aquelas criaturas – nunca encontrara uma antes, e a literatura sobre o assunto era extremamente rara – mas sabia que, de alguma forma, se assemelhavam ao próprio Uriel: tratavam-se de mortos-vivos, que não receberam os ritos funerários adequadamente e, por isso, não conseguiram abandonar o plano terreno. Ao contrário dos vampiros, eram irracionais e animalescos, extremamente territorialistas e, principalmente, personificavam a ganância humana, pilhando e matando apenas para aumentar a fortuna que acumulavam indefinidamente em seu covil; agora ele entendia o motivo do companheiro ter levado a espada, e a origem da névoa pútrida que mais uma vez os envolvia, pois além de tudo, aquelas criaturas eram conhecidas por controlarem o tempo, invocando nevoeiros e tempestades.


Os três continuavam a se aproximar, formando um semi-círculo em torno do vampiro e do mago. Quando estavam próximos o bastante, Logan pode perceber que conservavam os cadáveres frescos, porém os olhos eram de um branco leitoso. Os cabelos e barbas estavam desgrenhados e imundos, e não vestiam nenhuma peça de roupa. Suas expressões, embora em rostos de homens, não traziam nada de humanas: eram bestiais, demoníacas – como as que presenciava nas pessoas possuídas que ele costumava libertar. Um deles estava com grande parte do corpo carbonizado, fruto da primeira investida de Logan, minutos atrás.


- Sei que não me acompanharão de bom grado, por isto ofereço-lhes Mistilteinn, a arma de Gripsson... – Uriel empunhou a espada na frente do rosto, conservando-a na horizontal. – ...em troca de sua colaboração.


Por um momento, o ruído de som sendo aspirado pelas narinas franzidas dos três foi a única coisa que se podia ouvir no cemitério. Então, um rosnado baixo, e um dos Draugrs inclinou a cabeça obedientemente para frente, e depois os outros dois repetiram o gesto. Uriel deu alguns passos na direção do primeiro, a espada estendida, os olhos cravados nos dele. Para Logan, não parecia em nada com uma reunião de família, mas era visível que a única coisa que restara dos irmãos do vampiro naquelas criaturas eram os invólucros que abrigavam tais demônios antigos.


Todavia, antes que os dedos frios do Draugr tocasse o metal da espada lendária, um novo som se fez ouvir: passos metálicos ecoaram ao redor, reverberando por todo o cemitério, atraindo a atenção do vampiro e do mago – os dragões miravam apenas a espada nas mãos de Uriel.


- Quem está vindo?


- Droga! – Praguejou o loiro, puxando mais uma vez a espada para si, tirando-a do alcance de seu irmão. O Draugr grunhiu baixo e ameaçadoramente, mostrando os dentes pontiagudos por uma fração de segundo. – Logan, saia daí agora! – Advertiu, dando alguns passos adiante, os dedos da mão direita se fechando em torno do punho da espada. O mago, ao contrário de Uriel, não conseguia vislumbrar muitos metros adiante por causa do nevoeiro, mas por alguns segundos apertou os olhos, ignorando a recomendação do imortal, tentando ver quem se aproximava. Engoliu em seco, imaginando uma criatura que pudesse alarmar Uriel daquela maneira, e quando o vampiro repetiu o que havia dito antes, desta vez em tom imperativo, a única reação do humano fora a de encará-lo apreensivamente e inquirir:


- O que é que você está vendo? Quem está vindo?


- São Templários. – Murmurou o vampiro, encarando a cortina de névoa às costas de Logan. Os olhos arregalados de Uriel expressavam todo o espanto e o medo que o abatiam naquele momento. Uma geração inteira se passara sem se ouvir falar da atividade dos Cavaleiros, e tinha que ser justamente naquela noite, naquele lugar, o primeiro movimento deles em anos.


- Templários?! – Sibilou o mago, visivelmente alarmado.


- Muito bem, Mahalat, mais uma vez você foi abençoada com uma revelação do Nosso Senhor. – Disse uma voz fria às costas de Logan –que se virou imediatamente, encarando a névoa densa- no momento em que duas silhuetas se desenhavam adiante: uma era de um homem esguio, vestindo roupas formais e carregando uma espada embainhada na mão esquerda, e a outra era de uma mulher trajando uma armadura medieval enorme, completa à exceção do elmo, trazendo consigo uma gigantesca claymore² por cima do ombro. Cavaleiros Templários. - Saudações, filhos da escuridão...


Em resposta, os três dragões rugiram mais alto e mais ferozmente do que até então. Os olhos gananciosos cravados na arma do homem, que conservava a expressão absolutamente impassível diante daquelas criaturas. A mulher, por outro lado, parecia demasiadamente irada, e quando Logan deu um passo para trás, ela apertou ainda mais a empunhadura da própria espada, encarando-o fixamente.


- Saudações para você também, Inquisidor.


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¹ - Do Islandês: Irmãos! Sou eu, Svarr, seu irmão de sangue! Mostrem-se! (Caso esteja errado, podem me corrigir ;D)
² - Espada escocesa de gume duplo e tamanho avantajado, geralmente do tamanho do espadachim que a empunha.