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Dragões de Gelo - pt. II


Continução de Dragões de Gelo: pt I
- Boa noite, Egor.
Os olhos extremamente azuis ergueram-se do instrumento de cordas de origem desconhecida, fixando-se nos dois visitantes. Os cabelos desgrenhados do vampiro eram muito longos e de um loiro sujo. Seu maxilar barbado, a priori inflexível, logo se mostrou maleável o suficiente para acomodar um sorriso singelo, que tão logo brotara se espalhou por todo o rosto. Os dedos pararam de dedilhar o instrumento, e então o homem de óbvia ascendência nórdica finalmente respondeu:
- Boa noite, Svar, filho de Forseti.
Involuntariamente as sobrancelhas do mago ergueram-se, arqueadas e evidenciando uma expressão de surpresa. Os olhos de Logan cravaram-se no perfil de Uriel, que também sorrindo, virou-se para ele e murmurou em tom explicativo:
- Forseti é...
- Eu sei quem Forseti é! – Respondeu o mago, subitamente ríspido por ter a sua inteligência colocada a prova. A indagação no seu rosto não significa o quê, e sim por quê. O vampiro, ao perceber isto, pôs-se imediatamente a remediar a situação:
- Ah, sim, desculpe, Logan. Meu nome de batismo é Svar, e... bem, a minha família mortal sempre prestou culto a Forseti. – O semblante de Uriel era calmo, tal qual o timbre de sua voz. Logan descolou os lábios para falar, todavia, a palavra lhe fora roubada do terceiro elemento na sala, que murmurou exatamente o que o mago falaria:
- Bem apropriado para um pacificador, hein? – O vampiro tinha se recostado na poltrona, pousando os pés sobre a mesma superfície que agora amparava o instrumento de cordas e um empilhado de folhas de papel e partituras rabiscadas. Sorria. – Aliás, este cargo ainda existe?
- Existe, Egor.
- E os outros dois ainda são a Marion e o Basil? – Perguntou, evidenciando o quão alienado estava da atual situação dos vampiros no mundo. Logan virou-se para ele, encarando-o com certo azedume; talvez pelo fato de ter sido ignorado até então.
- Sim.
- Me admira que eles não tenham arrancado a cabeça um do outro, em uma daquelas brigas... Riu, e com um gesto de descaso deu de ombros, dizendo: - Mas isso não me interessa muito. O que me interessa é saber, por exemplo, por que você trouxe um mago a tiracolo para a minha casa; os tempos mudaram tanto assim, Svar?
- Não, mas eu e ele temos um contrato de sangue, e... – Uriel olhou rapidamente para Logan, que não devolveu o olhar, antes de finalizar: - ...ele é um amigo. Veio para me auxiliar no que pretendo fazer.
- E o que você pretende fazer? – Perguntou Egor, zombeteiro, embora pelo seu olhar misterioso as intenções de Uriel naquele lugar fossem demasiado óbvias. Ele só voltaria à Islândia por um motivo, e este não era um reencontro familiar.
- Este é Logan. – Continuou Uriel, ciente de que o mago merecia uma introdução apropriada, visto que Egor não parecia fazer muita questão de saber quem era ele, apenas o motivo de seu filho tê-lo trazido consigo. O outro vampiro pela primeira vez pareceu realmente notar a presença do moreno, encarando-o com uma súbita curiosidade juvenil. Inclinando levemente a cabeça para o lado, como que para analisar as feições de Logan sob a luz da lareira, Egor finalmente alargou o sorriso e estendeu a mão.
- Se é amigo, é bem-vindo! – Murmurou, os olhos azuis faiscando zombeteiramente, esperando que Logan apertasse a sua mão. O mago hesitou por alguns segundos, antes de retribuir o gesto com o cenho franzido. – Sendo um mago, é mais bem-vindo ainda! Não é sempre que eu tenho a oportunidade de conversar com um... você é de que Ordem?
- Eu sirvo à Inquisição. – Fora a resposta do moreno.
- Oh! - O vampiro migrou a atenção momentaneamente de Logan para Uriel, encarando-o com olhos risonhos. – É mesmo? – Egor então indicou uma das poltronas para que o mago sentasse. Uriel -assumindo uma postura polidamente subserviente que até então Logan desconhecia- retirou rapidamente um amontoado de objetos do assento, oferecendo-a finalmente ao visitante. Permaneceu de pé, ao lado de um Logan confortavelmente acomodado, e não pareceu se importar.
- Um mago Inquisidor? – Egor tinha apoiado os cotovelos sobre as pernas, cruzando os dedos de ambas as mãos e encarando Logan com ávida curiosidade. –Isso não é meio paradoxal? A Inquisição não queima feiticeiros?
Logan permaneceu em silêncio por um ou dois segundos, antes de responder: - O Tribunal da Inquisição, da Idade Média, o fazia. Porém, atualmente, ela é um Órgão à parte da Igreja que tenta controlar a influencia de criaturas...
- Eu pensei que qualquer tipo de magia fosse condenável diante dos olhos do seu Deus. – Interrompeu o vampiro, arqueando as sobrancelhas. A expressão atordoada de Logan durou apenas um átimo de segundo, e logo seu rosto já demonstrava a mesma carranca de costume. – O seu dever não é para com Ele?
- O meu dever é para com a humanidade. – Retrucou, seco. – Como eu poderia condenar algo que é inerente da minha natureza e da minha crença, embora seja tratada sob outro viés? É a mesma coisa.
- Entendo. Mas... – Egor gesticulou, o sorriso ainda presente em seus lábios. Uriel, momentaneamente excluído da conversa, caminhava pela sala, lendo algumas folhas de papel que encontrava jogadas pelo chão. - ...a tolerância humana já atingiu este ponto entre todos os membros da Inquisição? Eles sabem que você é mago?
- Este tipo de coisa não é importante. Temos os mesmos objetivos, a forma que eu encaro determinadas coisas é irrelevante. – Neste momento, Egor ergueu os olhos para Uriel, que retribuiu o olhar e deu de ombros, segurando um punhado de folhas amassadas.
- Cuidado com estas ai! – Advertiu, apotando o indicador para as partituras que Uriel apanhava no chão, antes de voltar novamente a atenção para o Inquisidor: - Mas que humano interessante você me trouxe, hein, Svar? E o que você faz na Inquisição, Logan? Você é juiz ou algo assim?
- Eu purgo os demônios, ou entidades que influenciam negativamente um indivíduo ou um grupo. - Disse, e sob o olhar surpreso de Egor, apressou-se em explicar, utilizando-se da alcunha vulgar do ofício: - Eu sou um exorcista.
- Eu tinha entendido! - A expressão de Egor tornou-se subitamente gentil demais, um sorriso quase piedoso surgiu em seus lábios, e o tom de sua voz fora o mesmo que utilizaria para tratar de um assunto qualquer com uma pessoa de intelecto inferior. Logan, arqueando uma das sobrancelhas, olhou demoradamente para o vampiro ancião, sem dizer palavra, esperando pela próxima pergunta. Pergunta esta que nunca veio. - Mas, me diga, em que posso ser útil, caro Svar? – Chamou Egor, mudando repentinamente o foco da conversa a fim de desviar a atenção do seu pupilo do grande armário para o qual ele se direcionava. Uriel, percebendo a investida de Egor, continuou caminhando ao responder:
- Eu preciso de um pouco do seu sangue para quebrar o selo que prende os meus irmãos. – Sem cerimônias, o loiro abriu as portas do móvel. Uma enxurrada de papeis desabou aos seus pés, cascateando por alguns segundos até que a última folha pairasse, suavemente, até o chão. Uriel voltou-se para o outro, momentaneamente, encarando-o. Sorrindo divertido, garantiu: - Eu arrumo depois.
- Você não vai arrumar nada! – Sibilou, apertando os olhos. – Deixe como está, e venha se sentar aqui, antes que você quebre alguma coisa de valor.
O loiro, ignorando a recomendação de seu mestre, abaixou-se e apanhou uma velha fotografia do meio do amontoado de papéis velhos. A mulher de cabelos negros e olhar incisivo o encarava com a mesma expressão indomável que ele conhecia e amava tanto. Sorriu. Virando-se para o seu mestre, Uriel abanou a mão na altura do rosto, conservando o retrato preso entre os dedos indicador e médio, dizendo: - Ficarei com esta; ela está criando mofo aqui, mesmo. - Com o consentimento silencioso de Egor, Uriel enfiou a fotografia em um dos bolsos da calça, antes de soltar a pequena quantidade de papeis que trazia nas mãos sobre a pilha do chão.
Caminhou lentamente até o divã mais próximo à lareira, sentando-se de forma à luminosidade das chamas incidirem sobre apenas um lado de seu rosto. Os olhos de Uriel exibiam um brilho melancólico, nunca antes observado por Logan, quando ele falou: - Creio que chegou a hora, Egor, de eu libertá-los. Ambos sabíamos que este momento ia chegar, e... - Um fino sorriso desenhou-se em seus lábios, transformando completamente a expressão do loiro. Talvez não fosse melancolia o que o mago notara. - ...acredito também que o seu irmão não se importará por eu ter vindo reclamar o que é meu, certo?
Egor nada disse, apenas continuou encarando o seu pupilo com um meio-sorriso nos lábios. Tinha recostado-se novamente na poltrona, de forma a ficar também parcialmente envolto em sombras. Logan, de cenho franzido e completamente banhado pela luz âmbar do fogo, era o elemento estranho na cena, e à medida que os vampiros enveredavam por um tortuoso caminho que lhe era desconhecido, sentia-se mais e mais exposto. A ignorância incomodava-o, e isto era evidente diante da careta de desagrado que vincava sua face.
- Você deveria ter vindo há quinze anos, Svar. - Disse Egor, e o sorriso de Uriel se alargou ainda mais.
- Até então eles não tinham muita utilidade para mim. Agora, entretanto... - O vampiro ergueu as mãos, deixando a luz da lareira banhá-las. Não eram as suas, embora Logan tivesse feito um bom trabalho, e Egor já tinha percebido isto. O gesto fora desnecessário, talvez um pouco teatral, mas excluíra quase que completamente a necessidade de justificativas. - Os tempos mudaram, meu amigo. Um pacificador às vezes precisa assumir uma postura agressiva para defender a sua dignidade, pois existem vampiros degenerados que não mais respeitam a ordem das coisas. - Apesar das palavras ressentidas, a expressão de Uriel não conversava com tal sentimento: ele sorria, os caninos pontiagudos bem à mostra, e os olhos cintilando em malícia. Aquela era uma coisa que não se via com frequencia também, Logan pensou. - Alguém na minha posição não poderia declarar guerra contra um general, eu ainda tenho coisas a fazer enquanto pacificador, mas o mesmo não se aplicam a eles... afinal, eles não são iguais a nós, não se inserem nas estruturas da nossa sociedade. - Parou por um segundo, antes de continuar em tom misterioso: - Eu não poderia ser responsabilizado, caso um deles viesse a arrancar a cabeça de um desses vampiros que não sabem o seu lugar. Mas não se preocupe, meu amigo, eu os quero apenas para garantir a minha segurança, você sabe que eu não sou de sujar as mãos com esse tipo de trabalho.
- Eu não estou preocupado. - Disse o outro, em meio a um suspiro entediado. Agitando a mão de maneira quase letargica, estendeu-a para Uriel com a palma virada para cima, perguntando: - Quanto de sangue você precisa? Você trouxe o recipiente, certo?
A expressão perniciosa já tinha deixado o rosto de Uriel quando ele aprumou-se novamente no divã e olhou para Logan. O mago, ainda de cenho franzido e expressão desgostosa, virou o rosto lentamente na direção do seu companheiro, perguntando-se o que ele faria a seguir - porém com um estranho mal-pressentimento. E então, as próximas palavras do vampiro pacificador o fizeram estremecer por dentro, trazendo à tona a afirmação que fizera minutos antes:
- Eu não vim de mãos abanando, Egor. Sua gentileza será recompensada. - Sorrindo, placidamente desta vez, o vampiro inclinou-se para o mago, apoiando o braço sobre a parte mais elevada do movel ao qual se acomodara. As linhas do rosto de Uriel pareciam, mesmo à penumbra fantasmagorica gerada pelas chamas da lareira, mais suaves e etéreas. Vestia, novamente, a faceta do vampiro de calma e polidez inabaláveis que costumava exibir para o mundo. - Logan, se bem me recordo você disse que faria qualquer coisa para sairmos daqui esta noite, e eu tenho certeza que você conhece bem os hábitos alimentares de um vampiro da família dos Scelero Ingenium...
Nada mais precisava ser dito. Um arrepio percorreu a espinha do mago enquanto seus lábios se crispavam fortemente. A partir daquela noite -depois de conhecer a criança obediente ao pai e o jovem maquiavélico e vingativo - seria bem difícil ver Uriel com os mesmos olhos de outrora. A vontade que o inquisidor tinha era de pular daquela poltrona e incendiar todo o lugar, tamanho desconforto e revolta que sentia. Porém, lembrou-se com pesar, Uriel era praticamente imune ao fogo.
- Certo. - Suspirou, resignado. - Você tem um cálice por aqui? - E lançando um olhar para Uriel, completou, antes de puxar uma pequena adaga de prata de um dos bolsos: - Espero que não se importe, Egor, mas eu não permitirei que beba diretamente de mim.
- Ele não se importa. - Uriel sorria, estendendo uma pequena taça dourada para ele. - Encha até a borda, não seja mesquinho.
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- Não, você está fazendo errado, Logan! - Protestou o vampiro, que segurava uma espécie de tubo de ensaio cheio de sangue. Logan, de pé na frente do portão do cemitério abandonado, encarava as grades de ferro e mastigava a própria língua, obviamente reunindo forças para não matar Uriel ali mesmo. - Você tem que por a língua nos dentes para falar o Opna. E não é Ópna, perceba... Opna í nafni Viasheslav!¹

- Por que diabos você mesmo não fala isso? - Explodiu Logan, por fim, segurando as barras do portão e sacudindo-o com impaciência. - Não dá simplesmente para arrombar? In nome della santa luce! In nome del potere di Dio! In nome di tutti gli angeli ei santi...².
- Eu não falo por que tem que ser um mago, entende? - Interrompeu Uriel, sentando-se em uma das enormes pedras congeladas próximas ao muro. - Se não, por que eu teria te trazido?
- Para acabar com a minha paciência! - Esbravejou Logan. O vampiro limitou-se a encará-lo com complacência, por algum tempo, enquanto o mago repetia, em vão, o mesmo feitiço para desintegrar as barras de ferro.
- Hahaha... É realmente bem estranho que você, dentre todos os magos que eu conheço, invoque divindades para ajudar em uma tarefa mágica, Logan. Além do mais, ele só vai abrir se você mandar, na língua nativa, e em nome do vampiro que o selou. Vamos lá, não temos a noite toda. Preste atenção: Opna í...

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¹ - Tradução feita por um tradutor online, já que eu não conheço ninguém que fale Islandês hehe sintam-se a vontade para me corrigir, caso saibam a maneira correta. Significa simplesmente: "Abra em nome de Viasheslav".
² - Mesmo esquema da observação anterior. Esta significa, a partir do Italiano: "Em nome da luz divina! Em nome do poder de Deus! Em nome de todos os anjos e santos..."



Continua em: Dragões de Gelo - pt.III

Tempo


Cronologicamente os acontecimentos desse conto ocorrem durante a Crônica Resgate. Você não precisa ler os posts da Crônica para conseguir entender o conto, mas caso se interesse pela estória ela começa aqui. Boa leitura!

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"Doze minutos"

Pensou, sem parar de raspar o pedaço metálico na algema. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto. Agoniado por não poder limpá-la, respirou fundo e abriu os olhos. Privaram-no de muitas coisas nesse calabouço, mas a visão era a que mais lhe fazia falta. Três semanas, quatro dias e um pouco mais de oito horas observando basicamente esse maldito tecido roxo. Ele movimentou os pulsos presos e sorriu, ignorando dos cortes se abrindo. Faltava pouco para se livrar das amarras.

O barulho da chuva se intensificou, inspirando-o a continuar a cravar as insígnias na algema. Queria sair e sentir as gotas despertando seu corpo atrofiado pelo confinamento.

"Talvez em dez minutos..."

Disse para si mesmo, concentrando-se em raspar o traço final da última letra no invólucro de ferro. Fazia às cegas, apenas seguindo os arranhões da palavra que escrevera inicialmente na superfície escura. Confiava em sua percepção espacial, e principalmente em sua noção de tempo.

Oito minutos era o que faltava para um de seus carrascos entrar no recinto para lhe alimentar e reforçar suas amarras. Trinta minutos foi o que ele demorou para finalizar cada símbolo necessário para sua soltura. E em menos de um minuto finalizaria a base do "E". Como esse reles humano de aparência abatida e cheiro duvidoso tinha tanta certeza desses dados temporais? Bem, pode-se afirmar que ele tem uma preciosa "habilidade", facilmente diagnosticada como um transtorno obssessivo pela contagem dos segundos. Porém, ao contrário dos mundanos que enlouqueceriam com essa capacidade, o prisioneiro convive e tira proveito dela como se fosse o pulsar de seu coração. Hans Ackart está longe de ser um humano qualquer.

Sentia seus dedos enfraquecidos pelas últimas duas horas totalmente dedicadas a esculpir na algema, mas as pontadas de cãimbra não o intimidavam. Mordeu o tecido que lhe tampava a boca, excitado pelo desafio de escapar a tempo.

Largou a lasca metálica e tocou como conseguia na algema. Os dedos tremulavam sobre a superfície fria e ele murmurou pausadamente. As palavras alemãs foram abafadas pela mordaça, mas ele mordeu o tecido e falou entre dentes:

- Zeit, Zeit. Die 'neue' wird zur 'alten'. Zeit, Zeit. Eisen zu Rost *

O movimento dos dedos tornou-se vagaroso a medida que uma textura enrugada começava a preencher as lacunas das insígnias mágicas. Em alguns minutos, a ferrugem tomou conta do objeto e o mago ouviu um "click". A algema rachou, afrouxandos os pulsos.

Ele colocou o objeto no chão e rapidamente retirou as fitas que prendiam seus ombros ao peitoral. Levou a mão ao rosto, tateando a barba por fazer e puxou sua mordaça, molhando os lábios rachados. A fraca iluminação irritou sua vista quando tirou o véu, porém, sem hesitar e sem perder o sorriso, continuou a puxar as fitas roxas que o imobilizavam em pontos estratégicos.

Encontrando equilíbrio na parede enrugada, levantou-se vagaroso. Ignorando a dor nos músculos, forçou-se a caminhar até a porta, o ouvido atento a qualquer barulho diferente das gotas de chuva. A ansiedade poderia lhe fazer errar a contagem, talvez estivesse adiantado ou atrasado. Não importa, o que interessa é que conseguiu se livrar antes do carrasco chegar:

- Faltam no máximo dois minutos – afirmou em um sussurro.

O General fora esperto em lhe privar da fala e da visão, mas o jeito mais eficiente de lhe prender seria com algum encantamento. Ela, como uma Cruentus Umbra, uma devoradora de sangue mágico, deveria saber muito bem disso. Debilitar os movimentos de um novato seria o suficiente, mas de um experiente como Hans era no mínimo irresponsável.

Passou os olhos pelo minúsculo cômodo sem janela e se segurou para não rir. Mesmo sem enxergar os detalhes pela falta de seu óculos, concluiu que o constraste das fitas roxas com as paredes ásperas lembravam muito um quarto masoquista.

O barulho próximo a porta arrancou a expressão cínica do mago. A maçaneta girou e a porta do cômodo rangeu. Hans esperou os primeiros passos de seu carrasco para, então, colocar rapidamente todo seu próprio peso contra a madeira. O corpo do vassalo bateu com força no arco, derrubando a pequena bandeja que trazia. Ele quase tombou para fora da cela, mas o mago não deixou, puxou-o pela gola e o levou até uma das paredes do ambiente estreito:

- Shiuuu – seus lábios emitiram em um sopro. O pedido suave contrastava com a frieza violenta com que imobilizava o outro.

Pressionava a traquéia com o antebraço, aumentando a pressão com a outra mão, sua face animada encarava confiante a do humano assustado. Esse tentou se desvencilhar do prisioneiro, empurrando-o inutilmente; logo seus olhos fecharam e ele desmaiou. Hans o arrastou e retirou sapatos e meias, calçando-os em seguida. O acessório ficou largo em seu pé, entretanto era melhor que continuar descalço no chão gélido. Debochado, olhou-se arqueando as sobrancelhas. Pensou por alguns segundos como estava ridículo vestindo sua roupa social, imunda e surrada, e calçando sapatos de brilho impecável.

Há quanto tempo ele não tomava banho? Isso também pululava por trás da expressão jovial, mas segurou a contagem de tempo que iniciara em sua mente quando viu o copo caído no chão. Se pudesse ter algum luxo cotidiano agora, seria o de beber água, concluiu.

Molhou os lábios e espiou pela fresta da porta entreaberta: o suntuoso forro floral cobrindo as paredes disfarçava bem o que acontecia por trás daquelas portas. Somou-as, eram cinco no pequeno ângulo de visão que observava, seria pelo menos o dobro no restante do túnel. Impossível achar tempo hábil para entrar de cômodo e cômodo para procurar pelo menos seus documentos.

“E se a caixa da Ain Soph estiver aqui?” se perguntou, os olhos avelã estreitando de curiosidade. Respirou frustrado, se convencendo de vez a esquecer de procurar qualquer pertence, especialmente o objeto que o metera nessa enrascada. Abriu a porta de sopetão, e invadiu o corredor a passos acelerados.

O ar rarefeito confirmou que o General o prendera em um andar subterrâneo de alguma mansão colonial. Provavelmente, sua própria morada. As portas passaram de pequenas a grandes e duplas, e Hans forçou a visão no fim do corredor, desconfiado de que não houvesse uma escadaria naquele lugar. Surpreendeu-se ao reparar a mudança de luminosidade naquela parede inerte, parecia agora enxergar seus detalhes de pedra e ao centro uma grande rosácea. Piscou, reconhecendo a visão e, no segundo piscar, observou que toda a parede de forro roxo se transformara naquele túnel de pedras escuras.

Ao invés de diminuir os passos perante a estranha mudança de ambiente, ele aumentou a velocidade em direção ao vitral, queria verificar se sua visão não lhe pregava uma peça, se era exatamente o que ele estava pensando. Então ouviu passos próximos e uma voz grave sussurrou docemente:

- Dr. Ackart, aprontando de novo ...

Hans virou-se assustado para a figura feminina que se emparelhou ao seu lado. Reconhecendo-a, parou de repente e ela se dissolveu em sombras, assim como o túnel de pedras. Era uma ilusão. Sentiu alguém o puxando contra o chão e caiu com um estrondo, gemendo quando sua nuca bateu forte na maçaneta de uma porta. Desmaiou.

Uma tremenda dor latejava em sua cabeça. Encarou o teto de madeira fazendo um muchocho, não sabia quanto tempo perdera. Sentou com dificuldade, agora a adrenalina não o deixava ignorar as dores do corpo atrofiado. Formando rugas na testa, encarou o imortal parado em uma das paredes escuras:

– Seu filho da puta, você usou uma lembrança.

- Sou um filho da puta e você, Hans, é um tremendo idiota. – disse o jovem vampiro, cruzou os braços e balançou a cabeça em negação - Sabe o que Nicole fará com você se descobrir isso?

Indiferente, o mago observou os novos grilhões envolvendo seus pulsos e brincou com o som da corrente forçando-a repetidas vezes. Torceu para que fosse embora, ouvir uma ladainha vampírica agora seria indigesto. Reviver por alguns segundos aquela lembrança deixou-o mais frustrado do que não conseguir escapar, seu humor azedara completamente. Colocou os fios castanhos atrás das orelhas e focou nas rachaduras do chão, tentando em vão não pensar na criatura soturna que se materializou por alguns segundos.

– Se o General descobrir essa sua pequena rebeldia, sua cabeça vai rolar, independente do que foi combinado com a sua “amiga” – ameaçou, formando aspas no ar – Ela ainda tem duas semanas para cumprir o pedido, antes disso, se você tentar sair, ou sair... – balançou novamente a cabeça em negação, os fios negros caindo sobre os olhos - Você será caçado pelo resto da sua vida.

- Sorte que minha vida não é longa como a de vocês - o prisioneiro resmungou, sorrindo taciturno, cerrando as pálpebras e apoiando a cabeça dolorida na parede. Vampiros não se cansam de fazer essas ameaças, apenas uma imortal pareceu entender que ter a vida ameaçada é o que fazia Hans valorizá-la tanto. Não via graça em viver paralisado pelo medo de alguma coação e sinceramente achava um convite à rebeldia esse tipo de declaração - Quer que eu agradeça por você me impedir?

O vampiro riu, cínico:

- Impressionante como você fica estressadinnho quando lembra dessa Ingenium. Justamente a protagonista das suas memórias! A primeira que aparece na sua mente quando procuro algo para brincar com você. Não entendo esse mau-humor, Dr. Ackart - sussurrou, dando uma piscadela.

Quinze anos, oito meses, três semanas e dois dias de idade tinha aquela lembrança. Mais uma que ao longo dos anos, como todas envolvendo aquela vampira, se tornara uma nostalgia amarga. Forçou novamente a corrente da algema e abriu os olhos, disposto a mandar Adrian pro inferno. Porém, não o achou.

Hans observou as paredes do lugar, procurando por onde o vampiro saiu. O cômodo não tinha portas. O rosto do mago pareceu rejuvenescer quando seus traços cansados formaram uma expressão jovial e ele riu. Sentia o ânimo voltar ao corpo. Malicioso, apertou as pálpebras murmurando:

- Será bem divertido tentar sair daqui...

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*Tradução do alemão p/ português:
Tempo, tempo. Antes e depois. Tempo.Tempo. Metal em ferrugem.


Agradecimento especial ao alemão Mário Schenk e ao José Delfino do Carmo que me ajudaram na tradução do trecho do português para o alemão. Para conhecer o trabalho do Delfino com turismo receptivo clique aqui


Dragões de Gelo - pt. I


Olá, pessoal! A pedidos, inicio aqui um pequeno arco contando um pouco mais sobre o Uriel e o Logan. Não será tão extenso quanto o da Sasha, fiquem tranquilos :P e sintam-se a vontade para crificar ou opinar no que acharem necessário. Um grande abraços a todos, e apreciem a leitura!

Ps: A música utilizada no post chama-se Ring of Gold, da banda sueca Bathory. Para ouví-la, clique aqui.

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Silver, the moon high over pond of water calm and dark
Woe, mist, the breath of the dragon, sweeping down mountain side

O lugar estava exatamente como se lembrava dele: branco, imaculado e silencioso. Nem mesmo as correntes de ar glacial –que fustigavam exaustivamente as duas silentes figuras- pareciam produzir ruído naquela imensidão de gelo secular. A figura mais alta e esguia caminhava um pouco mais atrás, apertando contra si o espesso casaco de peles, quase convulsionando de frio, embora de suas mãos e do seu hálito fluísse uma tênue e quase imperceptível luminosidade âmbar. Era como se estivesse envolto por um véu etéreo que, parcamente, isolava seu corpo do ambiente externo, e apenas por esse motivo ele não tinha congelado.

- Eu reconheceria este cheiro mesmo em mil anos.

- ...Há quanto tempo você não vem a este lugar?

O outro homem, ao contrário do que trajava negro e se assemelhava a um enorme corvo, era alguns centímetros mais baixo e possuía uma musculatura visivelmente mais avantajada. Seus cabelos loiros, na altura dos ombros, dançavam ao sabor da tempestade e ele caminhava com tamanha austeridade que não parecia sentir os ossos, os músculos e as veias prestes a congelarem. Seus olhos azuis miravam sempre o horizonte alvo, suas pálpebras semicerradas e os lábios crispados indicavam o quão nostálgica aquela vista era. O quão bom era estar em casa.

All still, the day asleep, the sun rests in nest of the Gods
Afar high adventures await me, I hear my brothers calling

- Parece que foi há uma eternidade.

Subitamente, tão familiar como as carícias do vento sobre sua pele marmórea, uma voz se fez presente. Talvez o mago ao seu lado não conseguisse ouvir, não tinha a audição apurada como ele, tampouco compartilhava do elo fraternal do qual ele e o dono daquela voz podiam se valer. Era o seu mestre, seu irmão, seu amigo, muito embora não fosse o seu criador, aquele homem fora o responsável pelo que o imortal era hoje.

Spring is here and the ice breaks free
The endless sky and open sea
I will sail where the Raven will lead me
Fly on black wings, high and free

- Você está ouvindo? – Perguntou inutilmente, virando o rosto e encarando o humano por cima do ombro. Este, entre um espasmo e outro, apenas meneou a cabeça e o encarou com olhos ferozes; o nariz adunco e a vasta cabeleira negra esvoaçante apenas corroboraram para enraizar na memória do vampiro a imagem de um enorme corvo mal encarado.

- Falta muito? - Foi o que ele respondeu. E então o loiro sorriu, insuflando no mago uma nova onda de revolta –que não fora expressa, por medo de perder a concentração no encantamento protetor.

- Não, é logo ali. Não se preocupe, não deixarei você morrer congelado, se esta é a sua preocupação. Eu tinha esquecido como o inverno por aqui pode ser rigoroso.

- Não, você não tinha.

O loiro deu de ombros, continuando a caminhar.

De fato, não tinha, apenas gostaria de apreciar o percurso que fizera milhares de vezes, por milhares de noites passadas. A neve se encarregava de deixar tudo exatamente como era, cobrindo as evidências de que o tempo também imperava sobre sua terra natal, que muito se assemelhava a uma pequena parcela do Hel à deriva sobre o Atlântico. Nada mudara. Nunca mudaria, o que tornava a Islândia a perfeita morada para um vampiro, que também sempre continuaria o mesmo.

I shall return with the wind the day
From high adventures, swelling sail
Autumn red comes to Asa bay

E esse vampiro poderia viver na ilusão de que sua realidade nunca se alteraria, não teria que lidar com a estupidez humana, nem precisaria fingir que não notara que, embora sua face permanecesse a mesma, os olhos revelavam cada vez mais o brilho de uma erudição indesejavelmente cansativa. Não que a pessoa a qual ele desejava encontrar buscasse isso, era óbvio que ele estava ali simplesmente por que gostava da calmaria, e apenas por isto.

- É ali. Vê a casa de pedras? – Perguntou o imortal, apontando para o local indicado. Algumas árvores sem folhas balançavam ameaçadoramente ao redor da construção, como que prestes a serem arrancadas do gelo pela nevasca que piorava a cada instante. – Estamos prestes a adentrar a morada de um dos mais antigos e poderosos da minha raça, Logan... Ele não faz distinção entre vampiros, magos ou humanos, mas eu realmente apreciaria se você não fosse desrespeitoso. Ele é como... – Ponderou por um segundo, antes de completar: - Um pai para mim.

Meet me by the well where the water, crystal clear, flows free
From deep within the great mountain towering to the sky

- Pensei que o seu criador fosse Azrael. – Apontou o mago, com certa amargura escapando de seus lábios junto com o ar condensado. – E pode ficar tranquilo, a única coisa que eu quero agora é sair daqui. Uma discussão com seu... pai apenas retardaria o nosso regresso. – Crispando os lábios, Logan apertou os dedos em torno do objeto que trazia consigo e estendeu-o ao vampiro, encarando-o por trás das lentes dos óculos levemente embaçados pelo frio. – Vou apenas quebrar esta porcaria de encanto e ir embora deste lugar. Tome, o metal da bainha está incomodando os meus dedos.

- Hm. Obrigado, Logan. – Respondeu o outro, levemente distraído pela voz melodiosa de seu amigo, que ainda ecoava pela planície de gelo. Desta vez, ele percebeu pela sua expressão, o mago também conseguia ouvir os versos maravilhosamente entoados pela criatura sobrenatural encerrada entre aquelas paredes de pedra. Sorriu. – Agora, uma pergunta: o quê disposto você está a fazer para que saiamos daqui ainda esta noite?

I will be awaiting you coming down treading the trails of clues
Bare feet, let your hair down like the mist across the pond

O mago apertou os dedos incandescentes em torno do cachecol azul-escuro, e engolindo em seco, disse: - Desde que não comprometa a minha integridade física, nem crie um elo inquebrantável com este... ser, qualquer coisa.

Uriel sorriu novamente, um pouco mais largo, evidenciando desta vez os pequenos e pontiagudos caninos de vampiro. Os olhos azuis do imortal pareceram, subitamente, emitir um brilho mais caloroso do que o feitiço do mago, que agora começava a perder força.

– Que bom. Vamos entrar então, Egor tem uma lareira lá dentro que o ajudará a se aquecer.

Uriel adentrou a casa sem cerimônia alguma, apenas retirando um molho de chaves do bolso e enfiando uma delas na fechadura. Um segundo depois a porta fora escancarada por uma rajada de vento, jogando grande quantidade de flocos de neve e gelo sobre o carpete antigo. Uma onda bem-vinda de calor emanou do interior, e os olhos sempre tão inquiridores e críticos de Logan logo se converteram em dois orbes iluminados e esperançosos. Uriel, com um sinal cortês, convidou-o a entrar, o que o mago fizera antes mesmo que o vampiro pudesse completar o gesto.

In dawn of time, before gods and man
When earth and shy was first divided

- Fique à vontade, apenas não toque em nada. Ele não aceita que mexam em suas coisas, já tentei convencê-lo a contratar uma governanta, mas é inútil. – Informou o outro, adentrando também o recinto e fechando a porta atrás de si. Uriel despiu o cachecol vermelho e o casaco, ficando apenas com uma fina camisa social branca; ao contrário de Logan, que continuava tão agasalhado quanto antes. – Você não vai tirar o casaco? – Perguntou o imortal, erguendo as sobrancelhas.

- Tenho certeza que o seu amigo compreenderá que, se eu o fizer, congelarei tão logo. – Disse o mago entre dentes. O loiro sorriu, complacente. – Vamos logo, Uriel! O sol nascerá em menos de quatro horas, e se demorarmos demais eu não terei energia para me manter aquecido, quebrar o tal selo, e nos teleportar de volta.

A star did fall into river deep
A star of gold into silvery water

- Hm. Desculpe, caro amigo. – Desta vez, Logan não ousou questionar a alcunha. – Vamos, é por aqui.

While I sail, by this you shall remember me
Wear it, yours forever to deep

A cada passo dado, a voz da criatura que se embrenhava nas sombras tornava-se cada vez mais audível; Logan pensou que, se aquele homem ensinara ser Uriel a ser quem era hoje, e se possuía uma voz tão bela, não poderia ser tão mal assim. Embora não gostasse de vampiros, tinha que dar o braço a torcer: alguns possuíam características verdadeiramente louváveis.

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To bind us beyond end of time, to thee I give a ring of gold

- Boa noite, Egor.
- Boa noite, Svar, filho de Forseti.




Continua em: Dragões de Gelo: pt II