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Abstinência


[Einsenstadt - Áustria]


As três figuras embrenhavam-se sorrateiramente na mata que dava acesso às estufas da fortificação. Estavam em uma parte praticamente esquecida da Áustria, nas terras de um dos mais poderosos magos da contemporaneidade, e tencionavam roubar algumas ervas alucinógenas que ele e seus subordinados cultivavam para... bem, acreditem ou não, havia lá a sua parcela de nobreza nas suas intenções.


- Ai, meu pé! – Esbravejou o primeiro, que carregava uma lanterna, virando-se e disparando o facho de luz diretamente no rosto do adolescente imediatamente atrás de si. Logo os olhos extremamente azuis de Dorian apertaram-se, e ele levou a mão à altura do rosto em uma vã tentativa de se proteger da luminosidade hostil. – Olha por onde anda, caramba!

- Desculpa, Remmy... – Sibilou o garoto entre dentes, quando o primeiro abaixou a lanterna novamente para o chão. Levou uma das mãos aos cabelos castanhos, jogando-os para trás em um gesto pomposo e olhando ao redor. As sobrancelhas arqueadas denunciavam todo o desprezo que sentia naquele momento, por aquela situação. Torcendo os lábios de maneira esnobe, voltou a palma da mão para cima, na altura do rosto, e desdenhou: - Por que diabos estamos invadindo as estufas do seu pai, hein? Pedir não seria suficiente? Aliás, se você quer ficar doidão, não é mais fácil arrumar um bagulho bom, ao invés dessa porcaria de Artemísia?

Remmy revirou os olhos e não respondeu, continuando a andar lentamente, pé ante pé, na direção do coração da mata. A réplica viera da terceira figura, a mais baixa de todas, e de aparência mais silenciosa também. O garoto pousou a mão no ombro de Dorian e falou pausadamente, como um adulto explicando algo demasiadamente óbvio para uma criança com necessidades especiais: - Não funciona desse jeito e você sabe disso, Dorian. Para ele conseguir fazer mágica...

- É, eu sei, eu sei... – Bufou o primeiro, desvencilhando-se do outro e batendo com a palma da mão no local onde ele havia lhe tocado, como que para limpar a sujeira ali acumulada. O terceiro apenas sorriu, exibindo uma fileira de dentes perfeitamente alinhados, à exceção dos caninos superiores e inferiores – estes eram levemente maiores do que os demais. – Mas não precisa me tocar para falar, você sabe que eu não gosto disso, ‘cãozinho’.

Foi a vez do moreno balançar a cabeça negativamente, como Remmy fizera antes, e deixar Dorian para trás. Logo Hector já estava nos calcanhares de seu companheiro, aproveitando-se da luminosidade da lanterna para caminhar. Não que precisasse, na verdade, conseguia enxergar muito bem no escuro graças à sua condição especial.

- Eu não sei como você o agüenta. – Bufou Hector, enfiando as mãos nos bolsos à procura de um gorro de lã e acomodando-o na cabeça de maneira a cobrir até a ponta das orelhas. Os cabelos negros, penteados para o lado de maneira displicente foram rapidamente ocultados pelo agasalho, deixando apenas as pontas escuras à mostra. – A gente arranja um guitarrista mais humilde em dois tempos, Remmy. Ele se acha o dono do mundo!

- Relaxa, Hec. Logo ele baixa a bola. – Foi o que o outro respondeu, parando em uma bifurcação e erguendo a lanterna acima da cabeça loira, fazendo o facho de luz incidir sobre uma área maior da mata. Dorian, que novamente acompanhara os dois, fez um muxoxo desdenhoso e disparou:

- Perdido, Remígio? Quer a minha bússola? – E, de fato, estendeu uma bússola para o menino.

- Velho, você é muito estranho! – Foi o que o loiro respondeu, olhando para Dorian com certa incredulidade. Que tipo de adolescente andaria com uma bússola dentro do bolso, nos dias de hoje? Dorian andaria, é claro. – Muito, muito estranho. Hector, pára de rir e me ajuda aqui. Você conhece o cheiro de Artemísia, não é?

- Claro que sim. E eu já senti o aroma desde que chegamos no castelo. É para lá. – Respondeu o moreno, apontando para o caminho que levava a oeste. Dorian, consultando a bússola, murmurou algo como “é claro, eu sabia que seria nessa direção” antes de segui-los, quase sendo deixado novamente para trás.

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- É logo ali. – Murmurou o primeiro, prendendo a lanterna entre os dentes para tatear os bolsos livremente à procura do molho de chaves afanado dos aposentos de seu pai. A cacofonia gerada pelos objetos sendo revolvidos pelos dedos do adolescente evidenciou que teria sorte se achasse as chaves rapidamente. Seu maxilar já começava a incomodar, quando ouviu o característico som de várias plaquinhas de metal colidindo entre si. – Ah!

Remmy completaria 18 anos muito em breve e era filho do influente mago já citado anteriormente, Siegfried Von Vogelrauch, e embora aparentasse ser o entojo em forma de gente, era extremamente carismático e possuía um dom inato para manipular as pessoas ao seu redor de maneira tão sutil e refinada que, quando estes percebiam, já era tarde demais. Fumava como uma chaminé e freqüentemente era visto munido de um cantil de prata contendo algum tipo de beberagem. O que começou com uma necessidade –o garoto canalizava energia apenas em estado alterado de consciência-, logo tornou-se um vício, e se não fosse pelo “tio” Ashtaroth e seu milagroso sangue regenerador, talvez ele estivesse em maus bocados àquela altura. Remmy tinha longos cabelos loiros e extremamente lisos, sempre amarrados em um rabo de cavalo que chegava ao meio das costas. Os olhos eram de um verde-musgo profundo, sempre brilhantes em conjunto com o sorriso que quase nunca se apagava.

- Está procurando isto aqui? – Perguntou Dorian, abaixando-se e pegando as chaves que tinham caído no chão desde o primeiro momento que Remmy enfiara a mão nos bolsos. Ao voltar a tona, Dorian tinha um enorme sorriso sarcástico nos lábios e, depois de umedecê-los com a ponta da língua, disparou: - Tem certeza que você precisa desse negócio para ficar doidão? Já parece bem aéreo para mim.

Dorian sim era impossível! Amigo de infância, cunhado de Remmy e filho de um importantíssimo embaixador britânico, o garoto era a epítome da pompa e do esnobismo. Talvez, não fosse por Belle (sua irmã e namorada de Remmy), o filho de Siegfried não o aturasse, mas... o custo/benefício compensava, no fim. Dorian era uma criatura extremamente confusa e contraditória: aparentava ser a imagem da moral e dos bons costumes, mas mantinha uma relação quase-incestuosa com Justine, sua irmã de criação, filha do segundo marido de sua mãe. Sempre impecavelmente vestido, o garoto parecia ter um bolso sem fundo, de onde conseguia tirar toda uma sorte de objetos e encandear diversas situações inusitadas em decorrência disto.

O molho de chaves logo fora arrebatado com impaciência da mão de Dorian. Hector, segurando a única chave que caberia naquela fechadura rústica e enferrujada, lançou um olhar de reprovação para o companheiro de banda antes de enfiá-la no orifício e girar até ouvir o clique característico. Espalmou a mão sobre o pranchão transparente, empurrando-o sem empregar muita força, apenas o suficiente para que a porta se abrisse. O miasma de aromas das mais variadas plantas os atingiu com violência, fazendo Dorian tapar o nariz com o cachecol, e Remmy abrir um sorriso estranho e afetado.

- Você é o cara, Hec.

Hector, o mais jovem e definitivamente o mais atraente do grupo, era português e descendia da mais antiga e nobre linhagem de Peeiras que se tem notícia. Sua mãe possuía certa ligação com Siegfried, e foi por isso que Hector se tornou o melhor amigo de Remmy. Dos três é, de longe, o mais pacífico e discreto, preferindo se manifestar apenas quando é requisitado, o que não condiz muito com a sua posição social, uma vez que a família de Hector, entre as Peeiras e os lupinos, é tida como a mais alta e nobre de todas; o equivalente a uma família real, caso esta espécie se organizasse desta maneira.

- Só vamos pegar a Artemísia e ir embora daqui. – Foi o que o lobisomem murmurou, entrando primeiro na estufa escura. Remmy entrou em seguida, empunhando novamente a lanterna acesa, jogando luz sobre as mais variadas espécies de plantas que eram cultivadas ali. Dorian tomou o cuidado de deixar a porta atrás de si aberta, na esperança de que aquele cheiro esvaísse e não impregnasse sua roupa. Para sua infelicidade, aquilo era irremediável.

- Será que tem Peiote aqui? – Perguntou com um risinho zombeteiro.

- Peiote é só na America do Norte, imbecil. – Fora a resposta que recebeu de um Remmy impaciente, fissurado, que procurava loucamente a prateleira onde Lewis, o responsável pelas estufas, colocava as Artemísias. – Elas deveriam estar aqui! – Esbravejou o jovem, impaciente.

- O Lewis as mudou de lugar por causa da fase da lua, querido. – A voz feminina sobressaltou os três, fazendo com que eles se virassem assustados para a porta escancarada e vissem, mal e mal, a silhueta de uma mulher alta escorada no batente, de braços cruzados. Remmy reconheceu aquela pessoa imediatamente, e logo abriu um sorrisinho divertido. – Se você queria vir até aqui, era só me pedir, Remmy! Seu pai me mandou vir atrás de você e pegar a chave de volta.

- Ah, Alícia! – Protestou ele, erguendo o facho de luz para iluminar o rosto negro da maga. – Me diz onde estão as plantas primeiro! Você sabe que sem elas eu não consigo canalizar energia! Inclusive, ainda não consegui fazer a última atividade que você requisitou por que o meu estoque de ervas está zerado desde...

- ...ontem?

- Semana passada! – Dardejou. – Não seja injusta!

- Não estou sendo, meu anjo, mas você sabe que eu não posso desobedecer as ordens do seu pai, não sabe? Se eu o fizer, ele me expulsa. – Dando de ombros, a mulher adentrou a estufa, fechando a porta atrás de si, e caminhou até os três garotos. Ela, juntamente com Teresa, era a tutora de Remmy e vez ou outra ensinava também os outros dois a executar determinados tipos de encantamentos. Porém, naquela noite, Alícia estava ali não como professora, mas como o carrasco que daria o golpe final nas esperanças do adolescente. – Me entregue a chave, Remmy. – Disse em tom de ordem, estendendo a mão para o loiro, que a contragosto depositou o molho de metal em sua palma aberta. – Muito bem. Agora, se você quer realmente ajuda para conseguir fazer magia, vá até o burg e fale com Siegfried. Todavia, sugiro que sigam pelo norte, vocês vieram por um caminho extremamente perigoso, sabiam? O Lewis pôs veneno naquelas plantas há umas duas noites.

Alícia conduziu os três garotos para fora da estufa, trancando a porta em seguida. Colando a palma da mão na fechadura, a negra murmurou algumas palavras em tom baixo, e embora nada visível tivesse acontecido, o resultado daquele gesto era óbvio para a tríade. Por fim, olhou por cima do ombro e, após uma piscadela para lá de maliciosa e um sorriso do mesmo teor, adentrou a superfície vítrea como se fosse feita de água, deixando-os a sós. Todos ali sabiam que aquela era a especialidade de Alicia: portais de espelhos.

- Mas que merda, tanto esforço para nada! – Esbravejou Dorian, chutando uma pedra com impaciência. Remmy, por outro lado, sorria. Sorria por que sabia o que tinha feito, e não demorou muito para que os outros dois também se dessem conta de que lá, viradas para o norte, na parte exterior da estufa, estava o que eles tinham ido buscar.

Além das Sombras




Olá, leitores! Gostaria primeiramente de dar boas-vindas aos novos seguidores e agradecer a participação em nosso twitter. Bem, esse é mais um conto com personagens conhecidos da Crônica Resgate e cronologicamente acontece após o conto Rachaduras.

Mesmo que você não tenha lida alguma das duas referências, dá para ler o conto e aproveitar. Comentem erros ou elogios.
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Batatas dos mais variados tipos, salgadinhos de diversos sabores e biscoitos de chocolate. As guloseimas da bandeja atiçavam-lhe os olhos, mas seu estômago ainda não estava disposto a comer. Ela beliscara muito mal alguns dos salgados industrializados e já se sentia satisfeita. Suspirou frustrada com a falta de apetite. Quando em seu cotidiano teria a sorte de poder comer tanta besteira junta sem levar uma bronca da mãe? Despejou os farelos do biscoito sobre o pires passando os olhos castanhos pelas rachaduras da parede do quarto. Apesar do estado decadente da pintura envelhecida, achou o cômodo belíssimo, as casas antigas que morou na Irlanda eram muito diferentes, especialmente pelos motivos florais dos cantos das paredes. Curiosa, afastou a bandeja e ficou na beirada da cama robusta, olhando os detalhes da janela e dos móveis.

A criança colocou os chinelos felpudos (muito maiores do que seu pé) e se aproximou dos livros empoeirados da estante lotada, o silírico dourado nas lombadas formavam desenhos que a encantava, mas queria saber os significados dos títulos. Inclinou a cabeça, espiando o cômodo anexado ao seu por uma grande porta dupla, receiosa em tirar sua dúvida. O outro quarto era como uma extensão do que ela estava, porém com acesso a um pequeno parapeito. Lilian colocou o dedo na boca, quase roendo a unha, observando a figura silenciosa sentada na poltrona de couro. Estava de frente para a porta de acesso a uma sacada, abraçava as pernas encostando o queixo pontiagudo nos joelhos. As madeixas negras se perdiam nos pêlos do casaco cinza, criando uma tonalidade que, na fraca luminosidade do quarto, parecia natural da penugem da roupa. A criança não percebeu, mas mordeu a própria unha quando pensou como a criatura lhe lembrava um lobo:

- Precisa de alguma coisa? - a adulta lhe perguntou, sem mudar de posição.

Lilian voltou o rosto para a ocultabilidade da estante, envergonhada por ser pêga espionando. Precisar ela precisava de muita coisa, mas aquela mulher já a ajudara o suficiente ao salvá-la daquela catapulta e prometendo que a levaria ao seu pai, não queria lhe dar mais trabalho:

- Ahm, não, desculpe - escorou-se no batente do acesso ao outro cômodo – Eu não comi muito. Acho que é de tanto dormir – disse, esfregando os olhos inchados e entrando na escuridão do outro cômodo a passos desengonçados.

- É bom que durma – a outra atestou, ainda olhando o horizonte, sem demonstrar nenhum incômodo pela criança se aproximando - Não aconselho que você saia por aí enquanto eu estiver dormindo, entendeu?

A criança fez sinal afirmativo com a cabeça, ignorando que na verdade fora obrigada a ficar no quarto, dormindo ou não, já que mais cedo ela tentou abrir as portas do outro cômodo e não conseguiu. Notou que a vampira abriu um sorriso sutil antes de beber o chá novamente. Lilian não conseguia deixar de encará-la, a recuperação de seu corpo era incrível. Há dois dias quando passaram a noite em Moscou ela estava desfigurada, ontem uma pele extremamente vermelha e enrugada substituira as áreas carbonizadas. Agora podia ver, mesmo de perfil, que seu rosto atingira uma coloroção homogênea, traçando sua beleza angulosa. Estava frente a frente com uma vampira e, pelo visto, o que falavam sobre a rápida recuperação era verdade:

- Você está melhor - falou

- É... - a outra murmurou, os olhos perdidos na noite emoldurada pelo batente da sacada a sua frente.

Lilian notou como a fraca iluminação do quarto era suficiente para que visse a casa com outros olhos, especialmente com o silêncio que pairou entre elas, ouvia-se apenas o som do vento movimentando portas e cortinas. A casa secular parecia murmurar uma estória melancólica e a criança mordeu os lábios ansiosa para algum assunto surgir em sua mente. Poucas vezes nesses dois dias ficara junto da vampira e raras foram as palavras trocadas. Ao contrário de muitos adultos que conhecia, a imortal não fazia a mínima questão de agradá-la ou fingir que se interessava por algum de seus assuntos infantis. Não perguntara sobre seu ano na escola, se tinha muitos "coleguinhas", se seu adorável sotaque era do sul da Irlanda, se seus olhos avelã eram de Hans, e, o que mais desagradaria Lilian, se escovara os dentes a noite. Sem esforço, a amiga de seu pai a conquistara, pena que não era recíproco. Se fosse, a criança indagou em pensamentos, ela não teria se apresentado com um nome falso.

"Agatha" lembrou. O hesitar na voz quando se apresentou a fez ter certeza que este não era o seu nome. Talvez não confiasse em magos, como muitos de seus conhecidos não confiavam nos vampiros. Pouco Lilian sabia sobre eles, mas já ouvira mais de uma vez Cathir apelidando-os de cadáveres. Não entendia muito bem a referência, se eram cadáveres, os machucados não se recuperariam, sua pele apodreceria, federiam! Respirou fundo a fragância do chá de eucalipto e encarou a silhueta concentrada no horizonte:

- Aquelas marcas, queimaduras, não eram por causa do fogo, eram? - perguntou, colocando a mão no queixo.

- Não se lembra mesmo do que aconteceu antes do incêndio? - a vampira tocou uma cicatriz em sua palma - Não se lembra de Mikhail? - perguntou esticando as pernas e cruzando-as em seguida.

A menina engoliu em seco ao ouvir o nome do vampiro, a náusea que sentia na presença dele voltara como se estivesse ao seu lado. Esse enjôo ela se lembrava muito bem, mas não havia nenhuma lembrança viva dele que pudesse relacionar às queimaduras de Agatha. O pouco que conseguia lembrar de Mikhail envolviam seu detestável raptor e não a criatura misteriosa a sua frente. Ou talvez não quisesse lembrar. Por menos de um segundo, formou-se em sua mente a imagem de uma luz intensa envolvendo um salão lúgubre. Lilian tocou nos dedos da mão esquerda, notando a pele arranhada nas pontas, eram sutis cicatrizes. Sentiu um arrepio ao se lembrar de uma fome incontrolável invandindo-a:

- Ele me mordeu, não foi?

- Não - a outra sussurrou, encarando a criança pela primeira vez na noite - mas ele bebeu seu sangue - completou, observando a mão esquerda da menina, cujos olhos se arregalaram.

Lilian colocou os lábios para dentro como se tentasse apagar aquele desejo por sangue que sentira no vampiro. Olhava pro chão, determinada a não lembrar mais nada do seu sequestro:

- Ei, criança, olhe para mim - Agatha desencostara da poltrona e se inclinara para a menina - Quando ele bebeu seu sangue, algo o enfraqueceu e eu pude derrotá-lo, então não pense no quão desagradável foi - seus dentes pontiagudos se destacaram entre as falas - Pense que talvez não estaríamos aqui se não fosse pelas suas gotas de sangue - os olhos cinza da vampira demoraram a piscar, concentrados na face assustada a sua frente.

Lilian movimentou a cabeça afirmativamente, puxando a saia para conseguir se afastar de Agatha. Não queria mostrar as lágrimas prestes a molhar as bochechas. Foi até a sacada que emoldurava a vista noturna que a adulta adimirava, ficando de costas para ela. O problema não era o sangue e sim essa quantidade de estranhas emoções que mesclavam-se as suas, mas não queria explicar isso a vampira, como ela entenderia seu poder? Preferiu esconder a expressão chorosa, olhando os pinheiros escuros no horizonte. Estava farta dos novos sentimentos que experimentara essa semana, definitivamente, precisava voltar para casa antes que começasse a odiar sua habilidade. Apreciou o vento resfriando suas bochechas úmidas e fechou os olhos pensando no que seu pai falaria:

- Achava que vampiros gostassem de sangue mago - disse baixinho, enlaçando os dedos nas ferrugens da grade.

- Depende do vampiro - escutou a outra responder.

- E você? - Lilian se virou, aguardando a resposta timidamente apoiada nas barras de ferro

A criatura a encarava misteriosa. Sorriu, os caninos à mostra reforçavam a comparação selvagem que a criança fizera anteriormente:

- Essa sua face curiosa é idêntica a do seu pai - atestou se acomodando no estofado, cruzou os braços abrindo mais o sorriso - Sim, eu gosto.

Lilian não queria demonstrar temor, mas sabia que suas sobrancelhas a traíram por átimos de segundo, e, talvez por isso, a adulta continuou:

- Mas, veja, eu não bebo sangue mago para me alimentar como Mikhail fez com você. Sangue mago tem um efeito peculiar nos vampiros da minha linhagem. Nós tomamos para conseguirmos ... - pausou, umidecendo os lábios - manter o foco em algum objetivo e faz tempo que não sinto essa necessidade, então, faz anos que não bebo - viu que a garota ia perguntar mais alguma coisa, mas ela não deixou - E não, seu pai não foi o último mago que eu mordi, nunca tomei o sangue de Hans - disse, o rosto assumindo uma expressão sombria - E não vou tomar o seu.

Novamente Lilian tentou falar algo, mas a vampira a interrompeu:

- Então, não precisa se preocupar, pense em mim como uma reles policial te levando para casa - desviou do olhar da criança e se inclinou para pegar a garrafa térmica no chão.

- Eu prefiro pensar em você como você é - Lilian deu de ombros, esperando que ela voltasse a encarar seus olhos.

- Um "cadáver?" - perguntou se servindo de mais chá.

- Uma amiga do meu pai - disse sorrindo tristemente.

Agatha fechou a garrafa, sem falar nada, concentrada na tampa. Confusa com a indifirença da vampira, Lilian sentiu um aperto no peito sem saber se a melancolia que lhe invadia era sua ou da criatura imortal. Pensou no pai e sentiu o coração acelerar como nunca antes, uma mistura de preocupação, saudade e carinho.

Era por isso que ele mudava de assunto rispidamente quando criticavam vampiros. Agatha não era apenas uma amiga.

Rachaduras


Olá, silenciosos leitores! Esse é o primeiro dos manuscritos avulsos que postaremos no blog. Eles não necessitam de nenhuma leitura prévia para compreenssão do texto, apesar de envolverem, algumas vezes, personagens das Crônicas. Serão postados, sem compromisso, às quartas-feiras. Comente mesmo se não gostou! Ajude-nos a melhorar!


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Os tons escuros se espalhavam pelo céu, contrastando com o fio alaranjado no horizonte. Aquela visão normalmente a acalentava, mas agora se sentia sufocar e não era apenas pelo diafragma dolorido de frio. Tentar voltar a sua casa anoitecendo não foi nada esperto, sabia que era uma longa caminhada, a qual não conseguiria completar em menos de meia hora.

Engoliu em seco, obrigando os pés calejados a continuarem enfrentando o terreno nevado. Reparou que estava andando mais hesitante graças ao aumento da penumbra, começara a ter dificuldade em distinguir as formas variadas sobre a neve. Fez questão de murmurar que poderia ser pior, podia ainda estar nevando. Começou a tatear os pinheiros no caminho, diminuindo drasticamente sua velocidade. Notou sua boca tremendo a cada respirar dolorido; os formigamentos sob seu grosso casaco de pele aumentaram e as pontas dos dedos enluvados perderam a sensibilidade. Estava cedendo ao frio e a vontade de chorar não colaborava em nada para evitar seu mal estar. Como pôde ser tão inconseqüente em arriscar ficar até essa hora caçando?

A jovem ouviu uivados distantes como se atestassem o que pensara e intuitivamente apertou o braço da pesada espingarda. Um uivar próximo fez seu corpo eriçar. Parou e segurou a arma em posição de tiro, virando-se para todos os lados. Não enxergava nada na penumbra, mas um grunhido ameaçador confirmou que havia um lobo a sua direita. Perguntou-se como acertaria se não conseguia ver um mero vulto. Hesitante nem ao menos tentou atirar quando sentiu sua perna ser mordida.

O animal lhe puxava, agarrando a perna esquerda com uma força que a surpreendeu e ela não resistiu às investidas tombando desengonçada sobre a bolsa que carregava nas costas. Seu longo cabelo se encharcou do sangue vazando da sacola graças a pressão de seu peso. Gemendo pela dor dos dentes afiados roçando na ferida, a morena conseguiu juntar forças e passou a acertá-lo com o cano da arma. Não tinha coragem de atirar a esmo, entretanto, as coronhadas na face irritaram-no o suficiente e ele se afastou grunhindo.

Estranhando a desistência, a ninfeta sentou, preparando-se para um novo ataque, mas não dele e sim do líder da alcatéia. Presumiu que estava cercada com tantos sons selvagens que ouvia agora. Provavelmente foram atraídos pelo cheiro de sangue do saco ensangüentado. Seu corpo tremia de medo e frio, sabia que a chance de sobreviver agora era mínima, ainda assim mantinha a arma em punhos para golpear qualquer animal que a atacasse. Mesmo esperando o ataque, surpreendeu-se com o puxão em suas mechas negras.

Automaticamente, largou a arma e levou as mãos ao pescoço, tentando evitar que a alça da bolsa o pressionasse. Um dos animais atacava com selvageria a sacola envolta pelos longos cabelos, puxando-a e grunhindo. Cortes finos faziam seu pescoço arder, a adolescente mantinha as mãos trêmulas na alça, não conseguia se desvencilhar do couro tamanha a força contrária do animal. Tentava não tossir com a pressão, segurando o tecido com uma mão enquanto a outra alcançara a arma de fogo e preparava um golpe. Antes que pudesse desferi-lo o animal afrouxou a mordida. Os lupinos uivavam ameaçadoramente e a jovem percebeu, desconfiada, que conseguia distinguir os galhos e folhagens secas dos pinheiros ao redor. O lugar se iluminara.

A fonte de luz amarelada era uma pequena lamparina. Seu dono envolto em sombras a colocou no chão tranquilamente, voltando-se em seguida para os lobos que o cercavam. Sem tirar os longos fios do rosto, ele sacou os dois sabres levados na cintura, se curvando como se desafiasse os lupinos, cujos grunhidos selvagens aumentaram. A silhueta que puxava a sacola da menina a largara de vez, correndo para atacar o sujeito. Ágil, a figura masculina provocou um som fino de sofrimento no lobo ao deferir-lhe certeiros cortes. Alguns da alcatéia tentaram atacar, mas falharam também caindo lamentosos na neve. O restante dos animais fugiu enquanto a criatura de cabelos desgrenhados guardava seu sabres:

- Egor? – a garota perguntou, porém ela já sabia quem era o ser tão selvagem quanto os lobos.

Tranquilamente ele pegou a lamparina e se aproximou, revelando o tórax cor de mármore mal coberto pela camisa desabotoada. Colocou as mechas claras para atrás da orelha e encarou de relance os ferimentos na perna da adolescente, desviando o olhar para sua face. Parecia perdido em seus próprios pensamentos, arqueando de leve as sobrancelhas:

- Foi só a perna? – sibilou sua voz rouca, os olhos examinavam seu pescoço; inclinou-se tirando a alça sobre os ombros dela.

- Sim... – ela respondeu passando os dedos trêmulos na região da traquéia - Isso não foi nada - adicionou vendo-o molhar os lábios grossos, tampando o nariz. Seu comentário fora um erro "Para ele é o suficiente..."

O jovem tirou a camisa, expondo o tórax magro, branco como a neve, e jogou sobre a garota:

- Cubra-o – pediu, cerrando os lábios enquanto ela cobria o pescoço como se usasse um chachecol. Ele lhe entregou a lamparina e enlaçou cuidadoso suas pernas e ombros

- Espere. – pediu quando Egor a ergueu como se fosse uma pluma, olhava suplicante para a bolsa de couro próxima a um tronco – Eu preciso levá-la.

- Temos comida suficiente, Kath, – ele bronqueou, ajeitando o corpo trêmulo ao seu tórax antes de começar a andar – você sabe que não precisava mais.

A ninfeta desviou dos olhos reprovadores e encarou as chamas flamejantes da lamparina sobre sua barriga, esperando que a visão quente pudesse lhe passar o calor que o corpo morno de Egor não transmitia.

- É a segunda vez que você se fere em menos de uma semana – o sussurrar provocava um leve movimento no peito nu – Aquilo é uma raposa – afirmou apontando com a cabeça para a bolsa de couro – Ele te desafiou, não foi?

O silêncio provocou um estalar de língua dele. Formou um sorriso astuto:

- Você já não é mais uma criança – ele censurou olhando-a de relance, andando a passadas largas pelos arbúrios e pinheiros.

A adolescente respirou fundo e encostou, tímida, a cabeça no peito gélido. A falta de som do tórax não a assustava mais, porém, arregalou os olhos cinza. Relembrou alguns dos infortúnios que sofrera nas últimas semanas e quem os provocara. Como poderia ter ignorado por tanto tempo que os comentários ferinos não eram por uma simples implicância? Molhou os lábios:

- Egor... – sussurrou com a voz embargada - Ele quer me matar, não é?

- Faça um favor a nós dois, Ekaterina. – seus olhos azuis cravaram nos seus - Não confie em seu pai.

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O vento noturno invadiu o quarto, balançando quadros e levantando poeira quando a vampira abriu a janela ruidosa. Acendeu o abajur próximo a cama e sentou, notando as profundas rachaduras na velha pintura da parede. Diversas noites ela passara naquele recinto lendo as poesias e composições musicais dadas por Egor. Nunca tivera uma acústica perfeita, mas suas paredes foram as primeiras ouvintes de diversas canções que fluíam após um dia exaustivo. Enquanto não finalizasse um verso, não conseguia relaxar, temerosa que a inspiração se esvaisse. Sentiu-se vazia ao lembrar de sua euforia juvenil, era algo tão distante de sua atual realidade que a jovem pupila de Egor lhe parecia outra pessoa agora. Há quantos anos ele a salvara na floresta?

- Séculos... - murmurou, raspando os dedos na poeira do criado mudo.

O cômodo secular era um representante mais fiel de sua verdadeira idade do que o próprio corpo, conservado desde que o vampiro a transformara. Virou o rosto para a menina adormecida no colchão, sentindo uma estranha tranquilidade ao notar o tórax se movimentando. Agora era Ekaterina a criatura cujo peito não precisava mais de ar; e não, ela não se importava nem um pouco com isso. Segurou o cabelo revolto pelo vento, evitando que as longas mechas batessem no rosto da garota:

- Aqui, o jornal – disse um homem raquítico entrando cauteloso no recinto.

- Pode deixar em qualquer lugar, Ivar – pediu, ocupando-se em retirar os sapatos elameadas da menina.

- Desde quando você pega crianças para se inspirar? - questionou o loiro, parando próximo a cama - Conto infantil?

Ekaterina cobriu a garota como se a protegesse do olhar lascivo do humano:

- Ah, claro! - murmurou, impaciente - Ele se chamará Alice no pais das sombras - levantou-se despindo o casaco de pele, esperando que ele se retirasse – Você poder ir agora – sussurrou, claramente irritada pela sua observação insistente no rosto de Lilian – Ivar – aumentou o tom de voz - Você não ficará perto dela, entendeu?

Finalmente o humano a encarou, um pouco surpreso pela expressão furiosa da vampira, cuja mão coberta de bolhas apontava para a porta. Os olhos cinza seguiram-no até sua saída do cômodo. Desfazendo as sobrancelhas arqueadas, Ekaterina colocou as mechas negras atrás das orelhas e se aproximou da penteadeira empoeirada. Não precisava de mais luz para conseguir ler o sílirico de uma das chamadas da capa de jornal "Incêndio no museu moscovita pode ser criminoso".

Passou os dedos pelos escritos, pensando nas consequências de seus atos na noite passada. E se a descobrissem? O alívio por libertar Hans começara a ser substituído por uma excitação formigando em seu peito. Evitou por tanto tempo se meter em uma nova confusão que não percebera como sua inspiração dependia de um desafio.

Abriu um sorriso sombrio, sentia vontade de cantar.




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Interessou-se pelos personagens? Dê uma olhada na Crônica Resgate que começa em: Capítulo 1: O pedido


Cronologicamente, o próximo conto relacionado a Ekaterina e Lilian é o Além das Sombras