-->

Clair de Lune pt 4


Continuação de: Clair de Lune - pt 3



- Aonde ele está agora? - sua expressão estava transformada, não parecia mais uma musa exótica de olhar indiferente. Era muito claro que se não fosse por seu mentor ela já teria cravado os dentes nele. Porém, mesmo com a vampira sufocando-o pela gola, o inquisidor manteve uma expressão calma e disse:

- O nome dele é Henry. Solte-me. Vou te contar o que sei.

Ela aceitou o pedido e o largou. Os olhos cinza o acompanharam pelo cômodo enquanto ele se afastava. Éugene não parecia estar nem um pouco abalado pela chacoalhada que levara, foi sem pressa a uma das diversas escrivaninhas do lugar e pegou um pequeno livro abrindo-o cuidadosamente. Sua encadernação era peculiar, cada dupla de página se desdobrava em um grande mapa mostrando alguma área da cidade de Paris. Ele desdobrou uma dessas páginas e estranhei os fios multicoloridos percorrendo a superfície do papel. Não, não era algum efeito de impressão, aqueles pontilhados não seriam visíveis a um humano comum. Eram rastros de magia, bem sutis, não eram densos e prontos para serem manipulados como o que preenchia a pequena peça que a vampira me mostrara anteriormente. Esses sobre as ruas desenhadas denunciavam que algum mago manipulara anteriormente aquela encadernação, eram praticamente uma digital mágica. A voz do inquisidor interrompeu o que eu pensava:

- Hoje é o 14a dia que Henry está na cidade. Então, hoje ele matará o 14a bruxo - disse batendo o dedo na anotação à caneta sobre o mapa, a escrita formava justamente o decimal que ele citou, adicionado de duas letras as quais eu, que já estava ao seu lado, li em voz alta:

- “L.D”? São as iniciais do nome dos magos?

Antes que o idoso me respondesse, concluí a resposta observando a outra anotação sobre aquela região, mais uma dupla de letras acompanhada de um número. A vampira fez o que eu estava prestes a fazer: sorrateira, puxou o guia e passou a folheá-lo. Ela murmurava ignorando os dedos nervosos do inquisidor requerendo o objeto de volta:

- Não tem tantos nomes marcados aqui, não para a quantidade de magos que eu imagino que habitam Paris. Somente os estrangeiros estão aqui? Ora... - fechou o livro observando a capa chamativa do guia – Quem deu isso para vocês? Isso aqui não pode ser da Inquisição.

Éugene colocou as mãos nos bolsos e se afastou respondendo:

- Eu apenas recebi isso de Henry, ele tem um similar... Não sei detalhes - pegou uma coleira atrás da porta e prontamente o cachorro reapareceu, correndo para os seus pés, ansioso pelo o que significava aquele ato.

Kath não repetiu a pergunta, manteve um longo silêncio enquanto fitava o idoso acariciando o animal. Percebendo a insatisfação com sua resposta, Eugéne colocou o acessório no cão e completou o que dissera:

– Eu realmente não sei. Apenas desconfio que não seja nosso – disse incisivo, colocou-se de pé e apontou para o vão da porta - Agora, por favor, eu preciso levar o cachorro para passear...

Ela não questionou a expulsão, me entregou o guia e foi até a porta olhando por alguns segundos a corda da coleira branca antes de sair. Disse:

- Tsc, pena que a sua enforcadora não é visível, Éugene.

Fiquei atônito com o sarcasmo e por ter certeza que ia dar merda se ele a respondesse. Eu queria sair dali o mais rápido possível, queria impedir um assassinato... Ficar discutindo e pensando em quem deu o guia e planejou tudo não passava pela minha cabeça naquele momento! Porém, ela não esperou a resposta (que certamente viria) e desceu a escadaria. Satisfeito por não precisar impedir uma briga eu a segui ignorando o início das ofensas do velho.

A ida até ao endereço foi um saco. Ekaterina não me deixou observar o mapa e também nem fez questão de me indicar o caminho. Folheava incessantemente o guia, forçando as dobras e xeretando a costura do miolo. Aquele interesse me fez pensar se ela conseguia ver os rastros de magia também, mas aquelas digitais seriam percebidas por raríssimos magos, seria impossível vampiros perceberem algo tão específico da minha espécie. Estaria daquele jeito só desconfiar da origem do livro?

E daí que o mapa não é dos inquisidores?!” tinha vontade de gritar, irritado por andar à vinte por hora esperando algum indicação da parte dela. Hoje, se isso fosse parar em minhas mãos naquela situação, eu estaria daquele jeito também. Raciocinar quem estava colaborando com a matança, o porque, é fundamental, porém, preciso lembrar que naquela noite eu era um garoto inexperiente? Eu reagia aos problemas conforme eles chegavam até mim, e, aliás, a preocupação de caçar um mercenário sem um plano, de novo, me desconcentravam o suficiente naquele momento.

Quando Ekaterina se cansou do livro e passou a me guiar pelo subúrbio parisiense, rapidamente chegamos ao local. Andamos em silêncio até o edifício, ele era bem mais moderno e alto do que o que eu morava na época, contudo tinha o mesmo o inconveniente de ser sobre um pavimento comercial. Apontei a pizzaria para a vampira:

- Isso é bom, certo? Com a pizzaria funcionando ele não deve ter feito nada.

- Depende. Na verdade, isso só garante que ele tenha dificuldades em sair com o morto. – respondeu atravessando a rua, continuou a falar indiferente sem nem me deixar digerir a resposta pessimista – A dúvida é, como garantir que ele não saia do apartamento enquanto entramos e subimos no prédio? Ele pode muito bem fugir deixando o corpo.

- Ainda “não tem corpo... – contestei murmurando.

Observei o prédio para ignorar a expressão cínica dela e avistei algo bem peculiar. Duas grandes janelas do 3º andar exibiam uma estranha forma etérea, a única coisa que se via dentro do apartamento eram fios enegrecidos que se cruzavam densamente. O formato era típico de um feitiço de proteção, mas estranhei a cor, mesmo que seu criador seja um inexperiente metido a Harry Potter, ele é tremeluzente. Observei que haviam alguns buracos na trama e xinguei. Infelizmente a vampira estava certa, Henry já estava lá.

Corri até a porta do prédio e Kath me seguiu, antes que me questionasse eu já estava com a chave do citroen em mãos, envolvendo-a e convencendo-a com meus sussurros que agora ela não era uma chave de carro. Ela era uma chave-mestra e abriria qualquer porta. É. E funcionou.

Kath passou por mim enquanto subíamos a escada, me fitava com grandes olhos indagadores e só então eu expliquei sussurrando:

- O desgraçado já está lá. Acho que ele quebrou o feitiço de proteção do apartamento.

- Imaginei mesmo que você vira algum abracadabra assim... – ela disse com um sorriso astuto – Mas o que eu quero saber é como fez isso com a chave!

Não deixou eu responder, seguiu a escadaria rapidamente, deixando apenas tênues vultos de sua forma no caminho. Minutos depois, sem fôlego, eu cheguei ao terceiro andar. Ignorei minha ansiedade e andei vagarosamente até o apartamento 303. O silêncio do lugar me preocupou, esperava barulhos de luta, no mínimo vozes, e no entanto só conseguia ouvir minha própria respiração ofegante. A porta estava entreaberta e a empurrei cauteloso.

A pequena sala estava tomada pelos fios protetores, os móveis e paredes se mantinham intactos, nada estava alterado, mas podia sentir que as energias do lugar estavam estranhas. Avistei o caçador bem próximo ao batente que dava acesso ao outro cômodo, estava envolto pelos mesmos fios do resto do ambiente. Ele me encarava arregalando os olhos a cada ranger da porta, segurava as adagas pronto para atacar, mas ao invés de correr em minha direção, cortava o “nada” a sua frente. As nuvens negras ao seu redor espalhavam-se com o movimento, como se fossem poeira, e em meio a essa penumbra reparei na expressão de dúvida de seus olhos, ele não me via ali.

Olhei a vampira, ainda próxima da entrada do apartamento, sem saber se ela também percebera aquilo. O jeito cauteloso como fitava o local também era bem estranho, como o caçador, ela parecia que não me via, muito menos o inimigo no oposto da sala. Concluí que eles não estavam enxergando o cômodo como eu que distinguia perfeitamente os móveis daquela névoa escura. O matador não quebrara o feitiço corretamente e, ao invés de extingui-lo, mudou seu efeito sobre o lugar criando uma ilusão de escuridão para inimigos.

Observei Kath se movendo para a sua direita, provavelmente tentando voltar a entrada do apartamento. Segurei sua mão, disposto a planejar com ela o que fazer já que eu não conseguia lembrar de nada que pudesse conjurar para manipular aqueles fios ao meu favor. Ela aceitou a ajuda, envolvendo meus dedos e se aproximando da saída mais rapidamente, porém, antes que eu pudesse tirá-la da escuridão, passos arrastados soaram no outro cômodo. O estudante “D.L” acordara e agora seus ruídos alertaram o caçador, guiando-o sem hesitação até a entrada do quarto.



Continuação: Clair de Lune Final


* Erros de português como O fitando são propositais, pois não acho que o Hans falaria formalmente (fitando-o) a todo o momento.

** Esse post foi postado ano passado e "recolhido" posteriormente para revisão.

*** Obrigada aos que continuaram nos seguindo e fazem comentários aqui e no twitter :)

Nenhum comentário: