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Clair de Lune pt II


Continuação de: Clair de Lune pt1

Os longos fios de seu cabelo bateram em meu rosto quando ele se curvou até meu braço. Senti sua mão gélida envolvendo meu pulso esquerdo apertando-o delicadamente e com uma tensão mínima nos dedos ele me arrastou vagarosamente pelo salão. Os cacos de vidro grudados em meu paletó provocaram um som irritante ao atritarem contra o piso de madeira. Podia ver o brilho vítreo sobre a mobília escura e em alguns instrumentos de corda: aparentemente os fragmentos espalharam-se por todo o recinto sombrio. Ouvi uma porta abrir subitamente e os reflexos cor de prata sumiram em meio a uma iluminação amarelada:

- Foi daqui o barulho?! O que aconteceu? – uma voz masculina indagou o que havia ocorrido, mas a criatura que me puxava o dispensou com poucas palavras:

- Quando eu precisar de você, te chamo.

- Mas Egor...

- Eu te chamarei.

Enquanto ouvia o sujeito se retirando, minha visão ficou turva. Sabe aquela sensação que você tem consciência que vai desfalecer? Eu não sei se eu realmente desmaiei só me lembro do som da porta se fechando como um barulho distante, quase um sonho. Quando abri os olhos, percebi que não me movia mais, minhas costas descansavam sobre uma superfície macia, mas que não aliviava as dores latejando pelo meu corpo. Um abajur iluminava o lugar, provocando sombras enormes graças as colunas ao seu redor. Ao fundo, atrás das colunas, podia ver o reflexo da lua sobre um piano, repleto de incontáveis cacos de vidro e tive certeza que ainda estava no salão que continha a clarabóia, porém, o teto era bem mais baixo ali do que no resto do cômodo. Movi cuidadosamente a cabeça, ainda deitado. Eu procurava a criatura que me trouxera ali, até que ouvi sua voz:

- Então, senhor Ackart, – assustei-me quando o percebi sentado ao meu lado e, em alemão, continuou a falar em um tom brando - vai me dizer o porquê dessa entrada triunfal?

Ele olhava minha carteira, o cabelo longo, e mais claro que o meu, cobria seu rosto. Não apenas o cumprimento das mechas me fez ter a certeza que ele não era o jovem do casal que vi anteriormente, seus braços eram robustos e usava uma camiseta de manga curta e escura, muito simples, um visual bem diferente do rapaz que fora seguido. Tentei sentar para respondê-lo, porém senti a nuca doer e achei que desmaiaria novamente. Ele arqueou a cabeça colocando os fios atrás da orelha e revelando seu rosto jovial. Roçou os dedos na barba cerrada, fitando-me. Engraçado que, apesar da intensidade do olhar, fiquei com a impressão que seus pequenos olhos azuis não me viam. Ele transparecia pensar em milhões de coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas o alarmava:

- Um mago alemão em Paris... – indagava sempre com uma voz suave, quase um murmúrio – Você foi jogado por quem?

- Eu não sei – ignorei a expressão debochada que ele fez e continuei a confessar minha ignorância - Eu o segui até aqui para descobrir.

- Seguiu um desconhecido? – os lábios esboçaram um sorriso animado o qual se desmanchou quando ouviu o som farfalhante do vento movimentando os fragmentos vítreos. Virou o rosto e indagou - O que ele é?

Antes que eu pudesse responder, uma voz feminina o fez. Só então entendi que a pergunta não era para mim. O ser que me resgatara anteriormente retornara, estava próxima a uma das colunas, conseguia ver a luz da lua iluminando seu cabelo escuro e criando penumbras sobre o rosto. A resposta foi praticamente um sussurro rouco, audível, mas indecifrável, já que não entendi o idioma. Ainda tentava decifrá-lo quando o outro, mostrando minha carteira, contestou em alemão:

- O rapaz é de Worms, não o exclua da conversa.

Ouvi um suspiro longo em resposta e ela se aproximou. Confesso que senti um calafrio quando a luz amarelada do abajur revelou seus traços. Até aquele momento eu estava lutando para não xingar pelas constantes dores dos cortes do vidro, nem me incomodava tanto o corpo retesado pelo baque, porém a ardência dos ferimentos roçando na roupa era perturbadora. Esqueci todo esse incômodo quando a vi. "Piegas", não?

Não senti isso por ela ser linda. Não era o tipo de beleza que eu apreciava. Seu rosto arredondado destacava bochechas, nariz e queixo angulosos, a pele era extremamente branca e o pouco que eu conseguia ver de seu corpo demonstrava que era mais alto e com mais curvas do que as meninas franzinas que eu admirava na época. Ela foi a mulher mais... esquisita que eu já vira. A angulosidade mesclada com os olhos grandes e lábios bem delineados davam-lhe um aspecto selvagem, porém muito, muito, sensual.

As mechas escuras estavam enroladas em um coque cheio e abaixo da orelha, aparentando que de desmancharia a qualquer momento. E eu lembro que torci para isso, para ver os fios cascateando sobre o vestido azul enquanto ela se aproximava. Parou um pouco atrás do outro e algo em sua postura me lembrou uma musa de Art Noveau, representação tão comum em ilustrações espalhadas pelas cafeterias parisienses. Ela me fitava desconfiada:

- Os magos alemães resolveram acertar as contas com os inquisidores? – perguntou ainda em um timbre fraco. Ao notar o meu rosto de dúvida, que sim, eu certamente fiz, continuou – Você não sabia que ele era um inquisidor?

- Hahaha e o seguiu sem motivo algum. – o outro riu, não sei se por escárnio pela minha idiotice ou por não acreditar.

Confuso com as perguntas, fiz questão de sentar. Olhei minhas mãos cheias de arranhões e o relógio dourado, intacto, sobre o pulso. Os ponteiros indicavam que eram quase oito horas:

- Inquisidor? Ele era um inquisidor? – perguntei com a voz falhando.

A mulher se aproximou mais me observando indiferente. Deu a volta no divã e senti suas mãos frias tocando minhas costas e em seguida meu pescoço:

- Sente algo quebrado, garoto? – perguntou e me forçou a tirar o casaco – A cabeça dói? Esquece, tudo deve doer – murmurou.

- Eu sei que ele não está nas melhores condições para falar, Kath. Indiretas são desnecessárias. – o loiro sorriu encarando-a, dessa vez exibiu os dentes e percebi seus caninos estranhamente pontiagudos. Ele deixou o divã continuando a falar andando vagarosamente até uma poltrona próxima - Mas você não conseguiu capturá-lo, precisamos ter certeza. Eu quero mais informações agora para não precisarmos fazer nada drástico. Ah e nem venha me falar que temos que nos mudar.

- Seria muito mais prático do que acordar com a casa em chamas amanhã. – sussurrou cínica passando pela poltrona que agora ele se acomodava, ia dizer mais alguma coisa, mas dessa vez ousei interrompê-la. Queria entender o que estava acontecendo:

- Espera, você o perseguiu, mas não o alcançou? - questionei reparando nas manchas de sangue sobre o vestido de seda.

- Se houvesse, ele estaria aqui. – voltou-se para mim e na pouca luminosidade que se encontrava fiz questão de observar sua fileira de dentes aparecendo no movimento dos lábios – Morto. – completou e sorriu, como se entendera o que eu observava entre o sussurrar de sua boca. Consegui ver claramente que seus caninos eram maiores que de um humano normal:

- Inquisidor - gaguejei, parecendo um retardado - isso faz sentido. – Eu raciocinava o que poderia ou não falar para eles e... o que eles eram. Sim, óbvio, você já sabe, afinal estou te contando isso porque queria falar sobre meu primeiro contato com vampiros, mas estava tão atordoado com o baque e a tensão anterior ao diálogo que demorei a notar as características típicas. A pele muito branca e os caninos são o de menos, o simples fato de reconhecerem meu sangue mago pelo cheiro deveria ter me alertado.

Não lembro o que eles continuaram a conversar entre si, ative-me a ordenar minha mente. Primeiro vi o quanto eu estava cortado e se havia algum ferimento aberto que ainda estava com sangue muito fresco, sabe como é, queria ver se eu estava incentivando muito o apetite dos dois. Depois pensei no que eu sabia sobre a situação dos vampiros em Paris, se havia alguma guerra declarada com os magos como em Berlim e concluí que não sabia muito sobre o assunto.

É, eu já conhecia muito sobre magia, mas quase nada da politicagem envolvendo os vampiros, magos e inquisição. Eu era um pirralho mais interessado nos livros e objetos mágicos do que nessa guerra fria. Bem, meu interesse não mudou só que, infelizmente, não consigo mais ignorar esses dramas sociais.

Aquele período foi um tanto complicado para a Alemanha. Você sabe, afinal, até hoje poucos magos voltaram a residir no país com receio que os inquisidores recomecem as encheções. Sim, esse era um dos motivos que eu estava em Paris, porém eu estava acostumado com as atitudes declaradas da instituição, seus membros sempre davam um jeito de assumir a responsabilidade por alguma morte grotesca. Eles não caçavam e matavam em silêncio, sem deixar a autoria exposta, totalmente o oposto do que esse sujeito fizera com os estrangeiros de Paris. Eu não via sentido naquela punição sem doutrina:

- Não sei se é inquisidor, mas acho que está capturando magos estrangeiros aqui do intercâmbio da Universidade de Paris. – interrompi a conversa do casal e estiquei as pernas – Eu não tinha certeza, só o segui porque achei suspeito o jeito como ele observava um mago na biblioteca. O acompanhei até que ele seguiu um casal loiro até aqui.

Eles se entreolharam com uma expressão insatisfeita. O imortal colocou-se de pé, ignorando-me e se aproximando da outra. Falavam no tal idioma que eu não reconhecia e notei como era claro que a vampira era submissa as suas vontades. Ela aparentava ter uns trinta anos e ele praticamente a minha idade na época, porém escutava-o atenta como uma pupila. Ela me encarou e fez um movimento de despedida com os dedos.
O loiro voltou a falar comigo, não me lembro sobre o que, pois meus olhos estavam cravados na imortal que se retirava tranquilamente, o salto fazendo barulho ao tocar na madeira. Foi quando ela abriu a porta, deixando a luz do corredor iluminar seu corpo esguio, que me manifestei:

- Espere, aonde você vai? – levantei-me do divã - O que decidiram fazer?

- Nós vamos confirmar sua suspeita, e resolvê-la – respondeu o de aparência mais jovem, desembaraçando tranquilamente as mechas de seu cabelo.

- Agora? Eu quero ir! – falei ríspido e, no mesmo instante, completei praticamente implorando – Posso ir?

- Ora, achava que ainda poderia conversar mais com você - ele disse sorridente. Fitou-a, praticamente rindo, como se demonstrasse que a decisão era dela.

A vampira franziu a testa, impaciente, perguntando:

- Você consegue dirigir nesse estado?

- Sim – afirmei com mais confiança do que realmente tinha.

Ela provocou um suspiro fundo e virou-se para a porta aberta:

- Venha

Continua em Clair de Lune pt 3

Desculpem a demora para postar essa segunda parte, a semana foi um pouco complicada para uma revisão mais detalhada. Obrigada a quem comentou da última vez, ótimo saber que alguém lê o blog, hehehe. Espero que continuem acompanhando (e curtindo) o conto.

Enfim, acabem comigo ;P

9 comentários:

Prof. Vaz disse...

Estou curioso pra saber mais sobre os Inquisidores. Já apareceram em outros textos?

Jota Marques disse...

Essa história esta ficando cada vez mais intrigante. Tomara que não demore a continuaçã. =[

Heluiza Bragança disse...

Vaz, no Justiça Carmim, aparece um mercenário que trabalha para a Inquisição. No arco Dragões de Gelo tem um inquisidor como co-protagonista, o Logan, e fala-se um tanto sobre os inquisidores na 2a parte :) do arco.

Obrigada pelos comentários, meninos, espero que continuem acompanhando as próximas duas partes, postarei mais rápido, prometo.

Prof. Vaz disse...

Me interessei pelos Inquisidores, nunca tinha lido nada sobre isso na literatura vampírica!

Vou conferir!

Lucas T. Costa disse...

Na verdade o Malleus inteiro conta a história de uma Inquisidora, embora não tenha foco na Organização em si.

AAAAH! "Kath", tão estranha, tão fofa, tão linda, tão, tão... *-* Só não é mais linda do que a MINHA Jack u.u mas tudo bem! <3

O Egor sempre tão... err... Helu. *esguelha*

Nhooowm, Hans tão burrico e pentelho quando era jovem, quem diria que se transformaria no "fucking" wizard que é hoje em dia haha

Gostei, gostei! Quero saber tudo, mas você não me spoileia :( me odeia, monstro!

Larissa disse...

Caramba, não dá vontade de parar de ler, acaba a parte e eu já quero a próxima.
E eu acho que já disse na primeira parte, mas vou dizer de novo, adorei sua narrativa em 1ª pessoa.

[јuṡτ] яuαṉ disse...

Gostei muito hehehe, na parte "Inquisidor - gaguejei, parecendo um retardado" eu ri muito hasiudhasuidsa, de verdade, ficou demais! E que vampira fascinante essa hehe. Parabéns Helu, ansioso para a continuação =)

Israel Hoffschneider Guedes disse...

Vampires and wizards. Essa é uma combinação fascinante quando explorada na medida certa. As características particulares de cada "espécie" se tornam ainda mais interessantes quando anexas aos conhecimentos externos a elas; quando uma reconhece a outra simplesmente pelo cheiro, por exemplo.
Depois de Uriel e Logan, que formam o casal gay mais fofo ever dos MdS*, pude me divertir e me envolver com a narrativa. Gostei. :)

P.S. só notei algumas virgulas a mais ou a menos, mas também não foram algo que comprometeram a diversão e o entendimento. Keep on that!

*talvez isso mude quando Remmy decidir agir u_u

Heluiza Bragança disse...

Mds virou uma sigla agora? AMEI hahahaha. Então, quando ver uma vírgula ERRADA, me avise. Às vezez a gente estranha pontuações, mesmo que não estejam erradas, travam a estória, né x.x. Que bom que não atrapalhou a diversão pelo menos.

Espero que tenha visto que o Egor não é um papai noel fofo (traumatizada com seu coment no post do Dragões, hahahaha).