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Clair de Lune pt I



Era uma época apreensiva em Paris. Havia um murmurinho sobre estranhos desaparecimentos entre os estudantes do intercâmbio da Universidade de Paris. Se soubessem que você era um estrangeiro, um estranho olhar de pesar te acompanhava entre os corredores e salas, como se a morte estivesse em sua sombra.

Eu era um pirralho na época, tinha a idade que você aparenta. Dezenove, vinte anos? Não? Bem, era mais velho que você então. Eu tinha vinte anos. Morava na cidade há pouco mais que cinco meses e já estava envolvido com os raríssimos magos parisienses. Sabia que os estrangeiros desaparecidos não eram simples universitários. Eram magos. Uns três conhecidos meus sumiram de um dia para o outro, deixando a grade universitária incompleta e o passaporte no quarto. Os magos franceses estavam alarmados (muito mais pelo escândalo revelar a fraqueza de sua organização do que pela gravidade da situação) e, inclusive, nos aconselharam a sair da cidade enquanto não descobriam o que estava acontecendo.

Não sei se alguém levou realmente a sério esse pedido, sei que eu não o fiz. Não apenas por não ter um lugar muito acolhedor para voltar (sem comentários), mas eu não estava disposto a largar a universidade assim no final do semestre. E, principalmente, fiquei curioso. Queria descobrir o que estava acontecendo, só que nem passou pela minha cabeça reunir um grupo e investigar os desaparecimentos. Eu estava atolado em livros e a cada dia adiava as horas que gostaria de reservar para elaborar teorias sobre essa suposta crise. Foi por puro acaso que encontrei a tal ameaça em meu caminho...

Estudava na biblioteca sempre no período da noite e assim o fiz naquela terça-feira. Enquanto procurava livros entre os corredores de estantes, reparei em um sujeito que mais observava os estudantes do que no impresso sobre sua mesa. Vestia roupas muito formais para um simples universitário; seu rosto quadrado era marcado por cicatrizes paralelas que pareciam o rasgado de um felino. Lembro até hoje como seu olhar pareceu faiscar quando observou um norte-americano que passou em sua frente. Eu sabia que o tal estudante era um mago, nunca conversamos, porém já o vira em uma das tais reuniões alarmantes. Não foi à toa que estranhei aquele olhar, desconfiei daquela expressão doentia justamente quando um universitário mago passou em sua frente.

Ele anotou algo em um caderno de bolso e se dirigiu para o balcão da biblioteca, foi nesse momento que me convenci a segui-lo. Larguei os livros por lá e até hoje sinto falta de uma das canetas que larguei na mesa, mas, enfim, levei pouco comigo enquanto o observava pegando seus objetos (uma maleta executiva impecavelmente limpa) e saindo da biblioteca. Rapidamente, mais rápido do que as minhas pernas aguentavam naquela época, ele caminhou para fora da universidade.

Segui-o como um idiota: aos tropeços entre os pedestres. Perdi-o de vista algumas vezes, mas volta e meia visualizava o topo de sua cabeça entre os pequenos parisienses a minha frente. Pensei seriamente em desistir da ideia impulsiva, afinal, ele não parecia seguir nenhum estudante mago, poderia ser só um homem que caçava pretendentes na biblioteca. Meu fôlego parecia que não se recuperaria nunca mais e parei. Apoiei-me em uma parede de uma pequena loja para evitar ser atropelado pelos apressados da calçada e então notei que ele também havia parado.

Estava a alguns metros à frente, próximo da esquina, observando o vidro límpido de um glamuroso restaurante. As luzes do lugar iluminavam as profundas cicatrizes de seu rosto moreno e eu pude ver sua expressão mudar novamente: da indiferença de um cidadão comum para o olhar impetuoso de quem achara sua presa. Olhei o restaurante, tentando adivinhar quem seria a vítima que ele observava. Duvidei que fosse um estudante, nenhum de meus conhecidos da universidade se interessaria em pagar tamanho luxo para comer um prato minúsculo ouvindo uma boa música.

Os mais jovens presentes estavam acompanhados da família e não consegui deslumbrar nenhuma linha de magia nos corpos daqueles humanos. Um casal jovial preparava-se para sair do lugar, ambos eram loiros e usavam trajes apropriados para o requinte do local, não pareciam ter nada especial. Entretanto, assim que saíram do restaurante, o sujeito esticou as barras do paletó e passou a segui-los. Novamente no ímpeto o acompanhei. O casal andava tranquilo pelas ruas iluminadas sem desconfiar que era seguido, em uma distância razoável, pelo indivíduo.

Acho que após duas ou três quadras eles pararam na frente de um suntuoso portão de ferro. Só havia nós quatro na rua e, temendo ser visto, me escondi rapidamente atrás de uma árvore. Pude ouvir o molho de chaves e acredito que o caçador fingiu seguir em frente, pois seus passos firmes continuaram a ecoar nas pedras da calçada por um bom tempo.

Cauteloso atrás do tronco, eu observei a casa de arquitetura antiga. Chamou-me atenção como ela era isolada das demais moradias da rua, seu grandioso jardim parecia carecer de cuidado há anos graças à quantidade de folhas espalhadas na base da tortuosa vegetação. As grades de ferro eram de altura mediana e serviam mais como um delimitador do terreno do que um real mecanismo de proteção, isso me fez pensar que talvez o aspecto de abandono era proposital para não incentivar roubos.

Quando não ouvi mais o som de chaves e passos, procurei o sujeito ao final da rua e não o vi. Olhei o mausoléu. As janelas alongadas da frente da casa estavam iluminadas mostrando os desenhos sinuosos dos vidros azulados. Dei alguns passos, para ver melhor tanto a casa quanto o sujeito suspeito, e pude ver as silhuetas do casal em outro jogo de janelas na lateral da casa. Pareciam ouvir música já que um suave som de piano saía do lugar. O segundo andar da casa, mais estreito que o primeiro, estava em completa escuridão, mas não deixei de notar o vulto alcançando o telhado logo acima do cômodo em que o casal estava.

Ele se moveu como um gato pela laje do primeiro andar. Vi sua maleta em um tronco de uma das árvores mais próximas da casa e concluí que o suspeito conseguira subir facilmente escalando-a. Pensei seriamente em correr para um orelhão e telefonar para a polícia informando sobre o suposto assalto que iria acontecer, mas... por que um assaltante não abordaria o casal logo no portão? Seria muito mais fácil de entrar na casa.

Se simplesmente quisesse invadi-la, poderia esperar um momento em que não estivesse ninguém presente.

Seria então um assassinato. Aquele olhar, a roupa impecável e as cicatrizes. Os seus aspectos lembravam um desses típicos assassinos doentios de filme. Não pensei mais, simplesmente pulei a pequena cerca e fui até aquela árvore que ele escalara. Conforme me agarrava nos galhos subindo o vegetal, agradecia a melodia do piano por abafar os sons da minha subida desajeitada.

As notas variavam rapidamente de tons agudos a graves, envolvendo o jardim em uma estranha lamúria, parecia combinar perfeitamente tanto com as árvores tortuosas quanto com aquela noite fria, cujo céu sem nuvens exibia uma imensa lua amarelada. Graças a sua iluminação, eu conseguia ver com certa nitidez os movimentos do sujeito a uns oito metros a minha frente no telhado. Aproximei-me cauteloso, sem desgrudar os olhos de sua posição.

Ele estava parado, de costas para mim, observando uma clarabóia retangular que cortava a laje. Havia uma fraca luminosidade saindo daquele local, e a música pareceu mais alta ali do que antes. Notei que o corpo do suposto assassino ganhava a tensão que vi anteriormente no restaurante. Apesar de apenas avistar o contorno de suas costas, eu conseguia imaginar aquela expressão doentia de caçador: ele olhava sua presa através do vidro.

O brilho da lua destacou a prata das minúsculas adagas que o sujeito segurava. A arma me fez concluir que não era um mero assaltante ou assassino. A rapidez absurda e o exímio silêncio com que ele chegara ao local demonstravam sua experiência em matar criaturas com sentidos aguçadíssimos. Olhei a lua cheia que aquecia mais a noite do que aquele piano triste e me perguntei se ele estava ali para matar um lobisomem.

Bem, naquele momento eu não sabia se era ou não um caçador, então não vou falar o que ele é agora. A questão é que nem ao menos tive tempo de raciocinar o que eu sabia sobre a lenda dos lupinos. Para o meu azar, as notas do piano cessaram exatamente no momento em que eu dava mais um passo para me aproximar da lucerna de vidro, não havia mais som algum para disfarçar o atrito do meu sapato com a laje áspera. O caçador se virou, em segundos seus olhos estavam a centímetros dos meus e eu só senti um forte puxão pela gola antes de ser jogado na superfície vítrea da clarabóia.

Claro, instantaneamente o vidro se rompeu, abrindo cortes por todo o corpo. Eu protegi meu rosto com os braços, não sabia naqueles segundos aonde eu cairia, mas lembro de temer a queda, não pela dor, mas pelo desmaio. Não queria desmaiar em um lugar que provavelmente abrigaria um lobisomem.

Entretanto, não desmaiei. Meu corpo nunca chegou a atingir o chão, fui apanhado por uma criatura tão forte que só percebi que estava me segurando quando ela apertou meus braços para me virar e colocar no chão suavemente. Abri os olhos, mas não conseguia vê-la, só ouvi sua voz feminina próxima a mim, resmungando algo em uma língua que eu não entendia. Vi seu vulto pulando em uma estante de livros e em seguida, rápida, muito mais rápida do que o caçador, saiu pela abertura no teto.

Ouvi passos sobre cacos e arqueei o corpo tentando me levantar. Não consegui. A dor do baque com o vidro ainda envolvia meu corpo e nem ao menos forças para ficar apoiado nos cotovelos eu tinha. Observei a lua amarelada enquanto ouvia ansioso e impotente aqueles passos vagarosos se aproximando. A figura masculina cobriu parte da lua, arqueando o corpo e me encarando:

- O cheiro do seu sangue é... diferente. Ha. – murmurou e vi o sorriso misterioso em seu rosto cheio de penumbras – Não te ensinaram a tocar a campainha, mago?


Continua em: Clair de Lune pt II

Esse é o primeiro conto que eu escrevo aqui em primeira pessoa, apreciaria demais se vocês comentassem se está muito informal ou chato de ler... E qualquer errinho por favor comentem também, pois o Lucas não pôde revisar o texto.

Ah, esse post é oferecido especialmente a Cátia que acompanha o site e vive me pedindo um post sobre os personagens que vão aparecer aí. Espero que curta, Cátia ;P.


10 comentários:

professorvaz disse...

Ótimo! Como não tenho nenhuma experiência em analisar contos, não quero me arriscar a dar "pitacos" rsrsrrs sinto muito por não poder te ajudar nessa parte...

Mas, uma coisa eu sei, quero ler a continuação!

Mandag Súlimo disse...

Muito bom Helu, adorei o texto, e não esta muito informal não, pelo menos na minha opinião hehe, gostei bastante mesmo e aguardo continuação. Estou curioso para descobrir quem realmente encontrou o mago.

Como você 'pediu revisão', vou apenas dar um palpite. O "Entretanto" no antepenúltimo parágrafo, eu acho que ele não se encaixou bem para dar sequência ao parágrafo anterior, como ele não queria desmaiar e ele não desmaiou acho que essa conjunção ficou confusa.

Espero ansiosamente a continuação =)

Thiago disse...

Muito bom o conto! O texto fluiu muito bem e realmente dá vontade de ler mais. Pena que o conto tem que ser divido... Acredito que não tem nenhum errinho nem nada do tipo! Dá pra entender muito bem.

Seus textos/contos são sempre muito bons. Ler a história em primeira pessoa foi bem diferente e, acredito que deu um tom diferente, com ainda mais suspense! Ficou muito interessante.

Gostei dos dois personagens que foram mais ou menos apresentados. Digo, pelo pouco que vimos até agora. Estamos conhecendo um pouco mais do “mundo” dos manuscritos nesse conto. Só quero saber pra quem ele tá contando essa história e a reação dela.

Agora só nos resta esperar a conclusão...

Larissa disse...

Eu adorei.
Adorei o local em que se passa, sou fã de Paris, uma das cidades que sou louca pra conhecer.
E adorei esse texto em primeira pessoa, de maneira alguma está chato para ler.

Cátia Ana disse...

Depois desse singelo oferecimento a mim (lágrimas escorrem dos meus olhos neste momento) não tenho nem o que dizer. Gostei da narrativa em primeira pessoa, nas cenas da perseguição dá pra sentir a mesma emoção do personagem, ficou show! Vou aguardar ansiosa o próximo capítulo.

Lily Quel disse...

Não acho que tenha ficado chato em primeira pessoa...eu particularmente gostei.
É bom voltar a acompanhar o blog!

Heluiza Bragança disse...

Muito, muito obrigada pelos comentários! Aline, é ótimo ter você de volta por aqui, tem vários posts novos do Uriel p vc se deliciar ;P.

Já já posto a continuação! Que bom que não está chato.

Lucas T. Costa disse...

Não notei nenhum erro também, só um começo de frase colado no ponto da anterior, mas nada de mais. Enfim, ficou excelente, mana! *-* pena não ter podido ler antes...

Quero spoilers ç.ç' mimimi... ou posta a continuação logo, pra eu não ficar na fissura! hahaha

Israel Hoffschneider Guedes disse...

Muito bem, muito bem.. Eu gostei!! Devo dizer que, pra mim, houveram determinados lugares onde a pontuação estava deslocada, e que o uso informal da linguagem em primeira pessoa acabou por ocasionar o uso frequente de palavras iguais. Mas, ainda assim, foi uma narrativa extremamente agradável, e limpa. Lerei a Parte II assim que puder! Keep on that!

Heluiza Bragança disse...

Seu comentário agora foi tão formal quanto do Thiago, dá muito medo isso, hahaha.

Obrigada pelo coment, tô traumatizada com as repetições desse conto, mas não teve jeito. Ah, quando pontuações confusas tenta anotar linha e paragráfo e me dizer, plx. Se não, eu não acho os erros com meu olhar de escritora viciada.