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Dragões de Gelo - pt. IV [ Final ]


Continuação de: Dragões de Gelo - pt. III

Os olhos de Logan fitaram a mulher demoradamente. Tinha longos cabelos negros amarrados em uma trança que chegava à altura de sua cintura, os olhos eram de um castanho escuro, os lábios eram pálidos e contorciam-se em um sorriso desdenhoso. Tinha óbvia ascendência latina, talvez Hispânica, característica evidenciada principalmente pela cor bronzeada de sua pele. Mahalat, assumindo uma postura de pretensa displicência, retirou a espada do ombro e apoiou a ponta no chão, cravando-a no solo gélido do cemitério. Curvou, então, o corpo para frente, apoiando um dos cotovelos sobre o protetor da empunhadura da claymore. O sorriso se alargou.

- Você parece surpreso. Você está surpreso? – Perguntou. Falava rápido e sua voz era firme e alta, como o ressoar de um trovão. – Está surpreso, adorador de satanás, por eu ter descoberto o seu disfarce? A Inquisição jamais o aceitará, depois de descobrir o que você realmente é, e com quem você compactua... – Os olhos da mulher deslizaram rapidamente por Uriel e pelos Draugrs, e a repulsa que sentia ao vislumbrar tais criaturas era evidente. – O meu Deus me disse que vocês estariam aqui. Ele me disse também para arrancar a sua cabeça, por ousar se passar por um seguidor de Sua Palavra...

- O seu Deus fala demais. – Pontuou Logan, rapidamente. – O meu não costuma ser tão tagarela, nem comigo, nem com os milhões de fiéis que o cultuam. – O Inquisidor readquirira uma parcela de sua coragem e agora dava alguns passos na direção da mulher. Conservava uma das mãos dentro do bolso das vestes, remexendo alguma coisa entre os dedos. – E como ele te diz as coisas? Através de espelhos de água?

- De sonhos. – Cuspiu ela, retirando rapidamente a espada do chão e apontando-a para o pescoço de Logan, alertando-o a não se aproximar mais. – Fique onde está, criatura execrável.

- Sonhos? E você ainda não se considera uma bruxa? Eu poderia citar pelo menos cem nomes, ao longo da história, de mulheres que possuíam tal dom. – O humano retirou um rosário de contas negras do bolso, enrolando-o no pulso enquanto continuava a falar: - Dezenas delas, eu conheci pessoalmente. Todas elas executadas pela Igreja, acusadas de feitiçaria e pacto com o demônio. O que faz de você superior àquelas pobres mulheres? Quem me garante que não é o diabo sussurrando um monte de asneiras nos seus ouvidos, hm?

- ORA, SEU... – A mulher bradou, alterada, brandindo a espada com agilidade ímpar, pronta para saltar sobre Logan e arrancar-lhe a cabeça com um só golpe. Ou parti-lo ao meio, pensou o Inquisidor, dando um passo hesitante para trás, porém conservando a face rígida e inexpressiva.

- Mahalat, já chega. – A voz do outro homem finalmente se fez ouvir. Seu semblante estava tão, ou mais compenetrado do que o do mago, que voltou os olhos para ele mais uma vez. Uriel, que até então permanecera calado, o examinou com desconfiança, aproximando-se rapidamente de Logan e dos Draugrs. O Templário havia esticado o braço na altura do peito da mulher, impedindo-a de continuar. Os dedos pareciam congelados em torno da bainha da espada. – Acalme-se, querida irmã. Não há necessidade para tamanha intransigência, apenas a Deus cabe o direito de julgar: temos que aceitar que tal criatura encare o seu dom desta maneira, e lamentar por sua alma apodrecida. Todavia, ainda não é chegada a hora de cumprir os desígnios de Nosso Senhor, por isso, abaixe a sua espada e deixe-me falar com eles.

A mulher, a contragosto, abaixou o braço que empunhava a arma no mesmo instante que os três dragões rugiam o mais alto que podiam, encarando a espada que o Templário carregava consigo. Analisando a empunhadura, Uriel alteou as sobrancelhas – o que amenizou levemente a sua expressão consternada - e exclamou surpreso: - Ora, você empunha uma espada pagã! Não é à toa que meus irmãos estão tão ouriçados. Você reconhece esta arma, Logan?

O mago, que não desviara os olhos dos de Mahalat, limitou-se a responder com a costumeira aspereza: - Não.

- De fato, o meu presente nem de longe faz justiça à sua espada, Cavaleiro. – A sombra de um sorriso perpassou seus lábios, e ele propositalmente expôs os caninos pontiagudos ao falar: - É por isso que você trouxe esta mulher? Por que você não pretende tirar uma vida esta noite?

O Templário franziu o cenho, dando dois passos para frente a fim de observar melhor a criatura que se dirigia a ele daquela maneira. Tinha cerca de quarenta anos e a pele era levemente corada, marcada por algumas rugas entre as sobrancelhas e perto dos olhos azuis. Os cabelos castanhos e curtos estavam penteados para trás, e a barba da mesma cor era densa e muito bem aparada.

- Não sei do que você está falando, criatura da escuridão. Esta lâmina foi forjada há muitos anos e, desde então, segue aos propósitos de Deus, ceifando a vida de criaturas que ousam se levantar contra a Sua Palavra. – Os Draugrs rugiram mais alto, arqueando o corpo para frente, prontos para saltarem sobre o homem, que limitou-se a continuar fitando o vampiro. – Porém, de fato, não tenciono derramar sangue desnecessariamente, por isso acho prudente que você ordene a essas bestas que se contenham, caso contrário não refrearei o meu punho... A justiça divina é célere e certeira para existências imundas como as suas.

- Eu não tenho domínio algum sobre eles. Teria, se você não tivesse aparecido feito o valor do meu objeto de barganha despencar. Agora eles querem o seu, e eu nada posso fazer para contê-los.

- Caso eles deem um passo adiante, suas cabeças rolarão aos nossos pés. A de vocês cinco. – Sentenciou o Cavaleiro Templário, os olhos faiscando perigosamente.

- Esteja à vontade para tentar. – Respondeu Uriel, com um gesto displicente com a mão. – Mas enquanto a nossa conversa ainda mantém-se minimamente civilizada, devo esclarecer que esta espada que você carrega é, sim, de origem pagã. Nórdica, na verdade. Eu o sei, por que já a vi antes, e existem lendas acerca dela. Sei que os anões a forjaram, a mando do rei Svafrlami, e que ela é incapaz de errar um alvo, que jamais enferruja, e que corta praticamente qualquer coisa com grande facilidade. E sei também o seu nome. – Declarou por fim, antes dos Draugrs explodirem mais uma vez em rosnados selvagens. Os três precipitaram-se para o Templário, cegos pela ganância: as palavras de Uriel pareceram reavivar suas memórias, e insuflar em seus músculos vigor e força inimagináveis.

As três criaturas saltaram sobre o Templário, que imediatamente desembainhou a lâmina – esta fulgurou em vermelho-sangue, antes de ser deitada sobre um dos monstros, que fora jogado longe, porém sem laceração alguma no corpo.

- Praticamente qualquer coisa. – Observou novamente o vampiro. – O problema de vocês, fanáticos de um Deus só, é que não se dão o trabalho de sequer estudar a cultura alheia. Você não vai conseguir feri-los com essa arma, humano.

- CALE-SE! – Explodiu novamente a mulher, pondo-se na frente do Cavaleiro Templário, a claymore apontada para Uriel. O vampiro revirou os olhos, bufou, e virou o rosto para Logan, protestando alto o suficiente para que ela o ouvisse: - Você não está se cansando dessa situação? Uma bruxa e um hipócrita, ambos a serviço do seu Deus. Podemos ir embora? Já temos o que viemos buscar...

- Eu preciso de tempo para fazer a... – O mago olhou para Mahalat, que em uma última explosão de fúria por ter sido chamada de bruxa, saltou sobre Uriel, pronta para parti-lo ao meio com a gigantesca espada de prata. O vampiro, agilmente, sacou a própria lâmina que carregava consigo e bloqueou o ataque com facilidade – ela, ainda no ar e às costas dele, arregalou os olhos. O vampiro girou o corpo rapidamente, e o pé atingiu em cheio o baixo ventre da guerreira, atirando-a alguns metros para trás. A mulher colidiu com uma lápide, o barulho de metal atritando com o mármore ecoou.

- Então faça logo. – Disse o loiro, saltando sobre a mulher com a espada em riste. O clangor das lâminas explodiu em seus ouvidos ao mesmo tempo em que as três criaturas irracionais saltavam sobre o Cavaleiro Templário para roubar-lhe a preciosa Tirfing. Uriel sorriu diante da expressão consternada da morena, os olhos azuis cravados em seu rosto que, aos poucos, retraía-se com a força que ela fazia para aparar o golpe do vampiro. A cada átimo de segundo o fio de Mistilteinn se aproximava mais e mais de seu pescoço, e a respiração de Mahalat tornava-se mais ofegante. – Veja pelo lado bom, pelo menos você morrerá como um mártir, e não executada pela Inquisição. Acredite, eles são bem mais cruéis do que eu.

A mulher engoliu em seco quando a espada estava prestes a tocá-la. Fechou os olhos, e os lábios trêmulos murmuraram desesperadamente: - Dios mío, ayúdame! – Um fio de sangue escorreu do pescoço de Mahalat quando a espada o tocou, todavia, antes que Uriel pudesse afundar a lâmina em sua carne, a arma da mulher fulgurou em branco e explodiu em uma rajada de luz ofuscante, fazendo o vampiro recuar. Ela, aproveitando a deixa, pôs-se rapidamente de pé e avançou sobre o imortal, que utilizou-se de sua agilidade vampírica para subir sobre um jazigo de pedra fora do campo de visão da mulher.

- Gracias a Dios... – Disse ela, tossindo e limpando o sangue com os dedos indicador e médio da mão livre. Logan, de olhos arregalados, observava a Guerreira, perguntando-se como ela podia ser tão ingênua de achar que o que ela fizera fora obra de Deus, e não dela própria. O mago lia rapidamente os escritos de seu pequeno livro, e na outra mão conservava dois pequenos frascos: um de água benta, e o outro com a névoa que condensara minutos atrás.

O Templário havia recuado alguns metros e ainda lutava com os três Draugrs, todavia, por mais que os golpeassem, seus corpos não sofriam dano aparente algum. Uma das bestas agarrou seu braço, as unhas transpassando a fina cota de malha que vestia por baixo da roupa e cravando-se em sua carne. O sangue escorreu, empoçando no chão por alguns segundos antes que o Templário conseguisse se virar e bater com o cabo da espada no rosto do Draugr, atordoando-o por um momento – o suficiente para que ele se livrasse de sua influência, no exato instante em que o outro já se recuperava do golpe anterior e também pulava sobre ele.

Uriel, ainda sobre o jazigo, observava a cena com interesse. Um fino sorriso adornando seus lábios, sorriso este que perdurou mesmo quando Mahalat já estava sobre ele novamente, a espada segura por ambas as mãos, desferindo um golpe com toda a força que seus braços conseguiam empregar. Embora fosse uma simples humana, Mahalat possuía magia, e também tivera um treinamento bélico rigoroso: ao que parecia, era a tenente da confraria de cavaleiros do Templário que acompanhava, o que fazia dela uma mulher de constituição no mínimo exemplar. – Ora, o que você acabou de fazer ali embaixo foi o que? – Perguntou o vampiro, aparando o golpe dela e investindo com um novo, na altura de seu peito. Mahalat, com o rosto compenetrado, não respondeu – os dentes rangiam, ferozes, e os olhos ardiam fanaticamente. Parecia que estava em transe, todos os seus golpes eram desferidos com uma força descomunal, certamente incomum para uma mulher humana. Posteriormente ela diria que era Deus guiando suas mãos.

Mahalat investiu rapidamente, manejando a espada de quase dois metros com destreza ímpar. Uriel recuava lentamente, aparando alguns golpes e evitando outros. Os berros guturais da mulher se mesclavam com os dos Dragões, que ao longe batalhavam com o Templário que, Uriel observou, ainda não tinha se apresentado. Aproveitando uma distração de Mahalat, o vampiro cravou a lâmina no peito de seu pé direito, agarrou um de seus punhos, conservando-o acima da cabeça, e aproximou-se rapidamente. Ela, sem poder se mexer, tentou recuar antes que ele, em um claro gesto de provocação, cravasse os dentes em seu pescoço exposto. Ela gritou.

Bebeu por alguns segundos, apreciando o sangue mágico da mulher. Certamente tinha o seu valor, embora não conseguisse entender o porque dos Ingenium serem tão fissurados nele. Tinha certeza que se Egor estivesse ali, não conseguiria fazer o que ele próprio fizera a seguir: recuou, sem abrir as arcadas, arrancando dolorosamente um bom pedaço de carne do pescoço da mulher. Esta, ainda apavorada, sequer se deu conta da mácula em seu corpo até que ele cuspisse aos seus pés a parcela ensanguentada que havia tirado dela. Mahalat, com os olhos cheios de lágrimas de ódio, dor e amargura, esbravejou: - DEMÔNIO! COMO OUSA?

- Isto é o que eu sou. Esta é a minha natureza. – Disse Uriel, arrancando a espada do pé da mulher e preparando-se para desferir o golpe final e arrancar-lhe a cabeça. As últimas palavras que Mahalat ouviria seriam: - Você deveria aceitar quem é, também. Mas não cabe a mim julgá-la pela sua atitude covarde... todavia, está em minhas mãos decidir se você vive ou morre. Você morre! - E deitou a lâmina...

...que cortou o vazio: uma nova figura surgiu da escuridão ao redor e arrebatou o corpo da mulher com imensa facilidade. Ela gritou novamente quando os ossos de sua coluna começaram a estalar sob a força descomunal do outro vampiro que a torcia com as próprias mãos. Egor, alguns metros adiante, banhado em sangue e com a expressão enfurecida, estava prestes a rasgar Mahalat no meio.

- ALDRIC!!! – Berrou ela, em meio a engasgos. A claymore caiu de sua mão, tilintando no solo de pedra do jazigo. O Templário olhou para ela, bradando seu nome no exato instante que os ossos da costela da mulher cediam e se partiam. Uriel não sabia ao certo o motivo do envolvimento de Egor na contenda, mas supôs que Mahalat e Aldric não fossem os únicos Cavaleiros na Islândia: talvez todo o restante do batalhão do Templário tivesse ido perturbar a paz tão apreciada pelo seu mestre, e aquilo, Uriel sabia, era motivo suficiente para deixa-lo naquele estado de fúria completa.

- Eles quebraram os seus instrumentos, não foi? – Perguntou o vampiro, contrariando toda a tensão da cena. Egor não respondeu. Aldric, apontando a espada para Mahalat e para o outro, berrou algumas palavras incompreensíveis e eis que para surpresa geral uma nova rajada de luz branca irrompeu de sua lâmina. Esta, porém, destruía tudo ao seu redor, fendendo o chão do cemitério e destruindo lápides e jazigos. Partiria Mahalat ao meio também, Uriel pensou, fazendo-o se questionar se o Templário fazia aquilo pela vida da subordinada ou simplesmente pela presença de mais um vampiro no local. No afã de purgar a Terra das “criaturas da escuridão”, os humanos acabavam tornando-se ainda mais bestiais do que os próprios vampiros.

Mas o golpe de Aldric não ceifou nenhuma existência, humana ou não-humana, pois antes que ele colimasse o seu objetivo, um novo evento se deu: Logan atirou o pequeno frasco de névoa no chão, liberando-a rapidamente, e sua voz explodiu ao mesmo tempo em que terminava de proferir o encantamento que os tiraria dali. Um novo clarão de luz aconteceu, ofuscando a todos, especialmente ao frenético Cavaleiro Templário que, quando conseguiu enxergar novamente, viu-se parado sozinho no meio do cemitério. Todos haviam desaparecido, inclusive Mahalat – que ele não tinha ideia se estava viva ou não.

Sua espada brilhava como ferro em brasa, sedenta por sangue. Uma vida teria de ser ceifada aquela noite para acalmá-la, pensava, virando-se em direção à saída do local semi-destruído.

Clair de Lune pt 3



Continuação de: Clair de Lune pt 2


- Venha - ela ordenou friamente... E eu a segui.

O narrador entrelaçou os dedos tensionando-os contínuas vezes. Os olhos cor de mel estavam bem abertos, perdidos na parede a sua frente. Ficou um certo tempo assim, olhando as rachaduras que perturbavam o branco da pintura até que, ao levar as mãos unidas ao joelho, piscou. O tilintar metálico que o movimento provocou pareceu roubar sua concentração nas antigas lembranças e olhou a algema que prendia seus pulsos:

- Então, foi isso. - murmurou, respirando fundo, ainda encarando os grilhões - Foi assim meu primeiro encontro com vampiros.

- Foi isso? - o rapaz, bem mais jovem que o narrador, descruzou os braços e se afastou da parede que se apoiara tranquilamente por todo o tempo que ouvira o relato, se aproximou do outro que estava sentado no chão de pedras - Como assim “foi isso”? O que aconteceu? O cara era um inquisidor mesmo? Vocês o caçaram? Não, nem responde, você passou a última meia hora contando detalhadamente tudo e justamente na captura do cara perde o sorriso e resolve resumir?! - não deixou-o responder novamente, sua face que ficara irritada por algum tempo agora adquiria uma expressão cínica, pronta para atordoar o prisioneiro - Por que não quer me falar os detalhes do que aconteceu, Senhor Ackart? Você fugiu das regras da sua Ordem, deu sangue para eles, não foi?

- Ah, por favor... - o outro resmungou, debochando da acusação e apertando as têmporas, claramente cansado da conversa que já durava boa parte da madrugada.

- Tsc, para te receber tão bem assim, e até cogitarem em te levar junto é porque são da família Ingenium. - Sorriu, maldoso, exibindo os próprios caninos alongados - Os Ingenium adoram um sangue mago para passarem horas, dias, inspirados em suas atividades. Eles eram Ingenium, não eram?

- Olha, eles só beberam meu sangue se chuparam o que restou nos cacos de vidro. - fingiu um sorriso, os olhos impacientes fulminavam o vampiro que o interrogava, estava estampado em seu rosto como a insistência no assunto o irritava. O pior era saber que Adrian não desistiria enquanto não descobrisse o porquê disso, as horas de interrogatório dos últimos dias foram suficientes para saber o quão insistente era aquele vampiro. Suspirou e, antes que o imortal começasse mais uma suposição, disse - Tá, eu vou te contar o resto.

- Très bien, monsieur magicien - debochou sorrindo, triunfal. Retirou a franja dos olhos e voltou a se acomodar na parede.

Hans franziu a testa deixando aparente as linhas da pele que denunciavam sua idade. 27 anos se passaram, porém seus olhos continuavam tão curiosos quanto do garoto que acompanhara a vampira naquela noite. Mesmo com o susto de ser jogado em uma clarabóia, mesmo com o cansaço dos dias maldormidos nesta cela, o mago ainda mantinha os dois globos cor de avelã ávidos por capturar algum conhecimento novo. Observava novamente as algemas quando molhou os lábios rachados e continuou sua estória.

Não falou que a vampira alegou que seu sangue a desconcentrava e, assim, deu-lhe um tempo para que ele se limpasse. Também não falou que se atrapalhou por um bom tempo com a marcha do carro antigo e que durante o trajeto tentou começar infinitos assuntos, entretanto tudo lhe pareceu ridículo a se comentar com uma criatura que provavelmente vivera mais de um século. Decidiu resumir:

- Bem, ficamos um pouco mais naquela casa e, assim que ela trocou de roupa, pediu que eu dirigisse. Disse mais ou menos aonde desejava ir e me guiou pelas ruas caóticas de Paris, Mais rápido do que eu esperava, chegamos no tal quarteirão cheio de lojas. Eu a acompanhei, meio receioso... não, não por não saber aonde iríamos. O problema é que, agora que eu sabia que ela era uma vampira, tudo que ela fazia me parecia um lembrete de sua condição de, ahm, múmia atemporal, até a escolha de roupas me pareceu “anos 30” demais. Confesso que me sentia ridículo por estar saindo de um citroen antigo tão requintado ao lado daquela mulher esquisita.

Enfim, mesmo envergonhado, caminhei ao seu lado pelo quarteirão, havia estabelecimentos de todos os tipos, mas a grande maioria já estava fechada. Óbvio, era quase dez horas. Passamos por uma ou outra casa de pães aberta e, então, a vampira parou à frente de uma pequena loja de instrumentos musicais. Observou por alguns segundos a chamativa placa de Fechado pendurada na porta e se afastou da vitrine, colocando-se sobre o paralelepípedo da calçada. Olhou para o segundo andar da loja e gritou, ou melhor, tentou gritar:

- Monsieur Éugene, - levou a mão à garganta demonstrando como era desconfortável aquele tom alto para sua voz rouca e insistiu - Monsieur Éugene, ma commande, si vous plait! Je suis ici!!

Fiquei encostado no vidro, embasbacado por os pedestres que passavam não estranharem a atitude e nem ao menos olharem-na de relance, justamente ela que era tão diferente das francesas miúdas que passavam na calçada. Ela voltou, sorrindo misteriosa, parecendo uma criatura inofensivamente doce. Apontou a loja atrás de mim e me virei, notando a luz acesa mais ao fundo do estabelecimento. Um pequeno idoso saiu daquela área mais iluminada, andava desengonçado, carregando algo felpudo nos braços. Deu uma boa olhada em nós dois, os olhos grandes e deformados pelas grandes lentes de óculos, e destrancou a porta com seu molho de chaves barulhentos. Reparei que a forma peluda era um pequeno cachorro, sou péssimo com cachorros, nem me pergunte qual raça era, mas seu pêlo era liso e tinha orelhas pontiagudas e espertas. Ah, e sim, era um desses barulhentos, mal o dono abriu a porta e o cão passou a rosnar e latir encarando a vampira:

- Ora, a peça não está pronta! - o senhor disse, ríspido. Abrira uma fresta apenas o suficiente para colocar sua cabeça para fora e exibia uma expressão enfezada, suas sobrancelhas eram tão arqueadas e com rugas tão profundas que me lembrei de um desenho caricaturesco. Continuou a falar, ignorando o latido estridente do cachorro (e o silêncio da visitante) - Não tive tempo! Ela ainda não está pronta!

- Boa noite, Éugene. - a imortal sussurrou delicada, ignorando completamente a rispidez do outro - Não vim por causa da palheta. Não exatamente. Estou aqui para conversar.

- Conversar? - ele questionou, não sei se esperava uma resposta, mas ela não lhe respondeu, simplesmente empurrou a porta, forçando a entrada de leve e o obrigando a lhe ceder passagem. Já estava a dois passos dentro da loja quando o velho perguntou novamente, confuso - Conversar? Mas... não temos o que conversar!

A vampira se virou, observando-o por cima do ombro e então direcionou os olhos cinza ao cão que insistia em latir:

- Foi o que você me prometeu da última vez que nos encontramos - ainda olhava o cachorro e levou o dedo indicador a origem do latido, como se pedisse silêncio ao animal, que, claro, a ignorou e tentou mordê-la, inutilmente. Esquiva, ela envolveu rapidamente seu focinho e maxilar, calando-o com a ponta dos dedos - Você falou demais, Éugene, só pode ter sido você. Não interessa o que Egor ache sobre seu talento, você sempre será um inquisidor imundo, independente de sair para a matança ou não. Você abriu a boca, não foi?

O velho balbuciou uma série de “nãos”, olhando apavorado o cão que gania incomodado com a pressão dos dedos da visitante. Ela manteve o olhar no animal até que o idoso conseguiu formar uma sentença coerente:

- Eu realmente não sei do que você está falando! - apertou os lábios enrugados por um tempo e murmurou - Por favor, não o machuque.

- Vamos conversar lá em cima. - fez um sinal para que eu entrasse e só largou o cachorro quando ouviu a resposta afirmativa do dono da loja - Sinceramente, você deveria estar mais preocupado com a sua boca agora, não? - debochou friamente, esperando que ele passasse por ela para, então, segui-lo pelo lugar.

O cheiro de verniz e madeira polida, tão presente no estabelecimento, ficava mais e mais forte conforme subíamos para o segundo andar. Era um alívio olhar aquela quantidade de instrumentos tão bem trabalhados sem ouvir o latido estridente, o cachorro não ousara repetir o ato, nem quando chegamos no cômodo superior que era, pelo visto, a moradia do sujeito. A vampira caminhou pela sala observando os desenhos e objetos não acabados sobre as diversas bancadas espalhadas pelo cômodo simplório. Pegou uma daquelas pequenas peças que se coloca no bocal de um instrumento de sopro, exatamente para se colocar a boca, e me mostrou:

- O que você vê? - eu ainda estava próximo à porta, não conseguia invadir o lugar assim, com aquele senhor tremendo próximo de mim, era uma situação atípica e não sabia como proceder. Dei só alguns passos receosos até que notei os pequenos fios prateados no objeto, não que fizessem parte de seu material esbranquiçado, eram brilhos singelos que demostravam além de sua composição mundana, não eram visíveis a humanos comuns. Os fios são o traço sutil que caracteriza a presença de magia em algo. Havia magia naquela pequena peça. Acredito que minha expressão demonstrou o que eu pensava, pois antes que eu pudesse lhe responder, a criatura se virou para o dono da casa - Deixe-me adivinhar o que aconteceu, um inquisidor te visitou, veio te pedir conselhos, e, então, viu a palheta. Notou seja lá o que demonstra que ela não pertence a um humano comum e resolveu perguntar de quem era - molhou os lábios e se aproximou dele, o cachorro pulou de seu colo, abandonando-o e ganindo - Você ainda recebe inquisidores aqui, Éugene?

- Eu nunca disse que não tinha mais contato com a instituição. - o velho endireitou a coluna, confiante, e ajeitou os óculos quadrados - O que houve, afinal? Do que você está me acusando?

- Você é o único nessa cidade que sabe a nossa ligação com a Augustine, só ela veio a sua loja nos últimos três anos. Acho difícil que um inquisidor seguiu uma reles humana só por curiosidade. - sorriu, debochada, ao ver a expressão surpresa do outro - É, um inquisidor a seguiu hoje até nossa casa, Éugene.

Ele descruzou os braços, enfiando as mãos nos bolsos do colete de lã, apesar da postura estoica, o jeito como crispava os lábios murchos denunciavam que tinha algum culpado em mente. Perguntou:

- Como ele era?

- Bem alto e esguio. - respondi hesitante, ainda bem distante dos dois - Moreno, cabelo encaracolado penteado para atrás... Talvez tenha 40 anos. Tem uma cicatriz estranha no rosto, parece um rasgado de um felino.

Ele falou um palavrão, algo que acho sempre estranho vindo de um idoso. Passou os dedos pelos fios grisalhos e tirou o óculos, claramente nervoso:

- Foi um acidente, Ekaterina. - afirmou, sério, encarando a imortal; suas sobrancelhas arqueadas se desfizeram - Aquele idiota! Ele apareceu aqui quando eu estava trabalhando no oboé - apontou com a cabeça o objeto nas mãos da vampira - e me perguntou várias e várias vezes se eu não via como essa peça era diferente, que pela antiguidade pertenceu a algum mago no passado e...

- Você contou. - a criatura sussurrou, o rosto perdendo completamente a doçura complacente da visitante de poucos minutos antes.

- Não, não contei. Mas ele veio aqui mais de um vez e... ficou sozinho aqui, - o velho ignorou o som de protesto dela e continuou - então ele pode muito bem ter visto a comanda, anotado o endereço. - fiquei tenso por ver o nervosismo em que ele estava, parece que quando a pessoa é mais velha fazemos questão de esquecer do que ela realmente é, nos prendemos apenas a sua aparência frágil. A boca dele tremia ao tentar argumentar - Entenda. Não achava que ele teria tempo para isso, ele tem muito, muito, o que fazer na cidade. O sujeito não me parece regular muito bem, mas nunca imaginei que sairia xeretando as minhas coisas!

- Não parece regular bem?

- Ele não é exatamente um inquisidor. É um mercenário..

Lembro que, para evitar simpatizar com sua situação, passei a reparar nos quadros da parede atrás dele. A vampira debochava algo sobre a instituição comentando como estava decadente e nem sei o que ele retrucou pois o grande brasão talhado em uma madeira escura atraiu completamente minha atenção. O artefato estava cheio daquela hieráldica maldita da inquisição, cada detalhe parecia despertar mais minha repulsa pelos inquisidores:

- Ele está matando magos? - perguntei, ríspido, me intrometendo no diálogo e pela primeira vez o senhor pareceu realmente notar o que eu era, sua expressão subserviente foi substituída pela enfezada anterior. Apontou um dedo acusador para a vampira:

- Você trouxe a Ordem francesa aqui?

- Não. - ela sorriu, tão cínica quanto seu mentor - Eu trouxe o mago que nos mostrou que estávamos sendo vigiados. - guardou a pequena peça no bolso da calça escura se aproximando dele, não deixou que ele completasse o que tentava falar - Responda o rapaz... ou melhor... - provocou um respiro fundo e de repente, rápida, muito rápida, já estava frente a frente com o velho, empurrando-o pelos ombros até a parede - Chega dessa enrolação. - exigiu, pausadamente, sem esconder os caninos ameaçadores a milímetros do rosto enrugado - É óbvio que seu inquisidor não veio aqui para passear pelas igrejas parisienses. Não quero saber como você o ajuda. Quero só saber como vai consertar o que fez! - sussurrava com seu estranho sotaque; nervosa assim, era perceptível como seu francês não era nativo - Aonde ele está agora?

Continua em: Clair de Lune pt 4

Qualquer erro ou sentença que acharem estranha me avisem, por favor.

Desculpem pelo post grande. Espero conseguir finalizar na próxima parte.

Clair de Lune pt II


Continuação de: Clair de Lune pt1

Os longos fios de seu cabelo bateram em meu rosto quando ele se curvou até meu braço. Senti sua mão gélida envolvendo meu pulso esquerdo apertando-o delicadamente e com uma tensão mínima nos dedos ele me arrastou vagarosamente pelo salão. Os cacos de vidro grudados em meu paletó provocaram um som irritante ao atritarem contra o piso de madeira. Podia ver o brilho vítreo sobre a mobília escura e em alguns instrumentos de corda: aparentemente os fragmentos espalharam-se por todo o recinto sombrio. Ouvi uma porta abrir subitamente e os reflexos cor de prata sumiram em meio a uma iluminação amarelada:

- Foi daqui o barulho?! O que aconteceu? – uma voz masculina indagou o que havia ocorrido, mas a criatura que me puxava o dispensou com poucas palavras:

- Quando eu precisar de você, te chamo.

- Mas Egor...

- Eu te chamarei.

Enquanto ouvia o sujeito se retirando, minha visão ficou turva. Sabe aquela sensação que você tem consciência que vai desfalecer? Eu não sei se eu realmente desmaiei só me lembro do som da porta se fechando como um barulho distante, quase um sonho. Quando abri os olhos, percebi que não me movia mais, minhas costas descansavam sobre uma superfície macia, mas que não aliviava as dores latejando pelo meu corpo. Um abajur iluminava o lugar, provocando sombras enormes graças as colunas ao seu redor. Ao fundo, atrás das colunas, podia ver o reflexo da lua sobre um piano, repleto de incontáveis cacos de vidro e tive certeza que ainda estava no salão que continha a clarabóia, porém, o teto era bem mais baixo ali do que no resto do cômodo. Movi cuidadosamente a cabeça, ainda deitado. Eu procurava a criatura que me trouxera ali, até que ouvi sua voz:

- Então, senhor Ackart, – assustei-me quando o percebi sentado ao meu lado e, em alemão, continuou a falar em um tom brando - vai me dizer o porquê dessa entrada triunfal?

Ele olhava minha carteira, o cabelo longo, e mais claro que o meu, cobria seu rosto. Não apenas o cumprimento das mechas me fez ter a certeza que ele não era o jovem do casal que vi anteriormente, seus braços eram robustos e usava uma camiseta de manga curta e escura, muito simples, um visual bem diferente do rapaz que fora seguido. Tentei sentar para respondê-lo, porém senti a nuca doer e achei que desmaiaria novamente. Ele arqueou a cabeça colocando os fios atrás da orelha e revelando seu rosto jovial. Roçou os dedos na barba cerrada, fitando-me. Engraçado que, apesar da intensidade do olhar, fiquei com a impressão que seus pequenos olhos azuis não me viam. Ele transparecia pensar em milhões de coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas o alarmava:

- Um mago alemão em Paris... – indagava sempre com uma voz suave, quase um murmúrio – Você foi jogado por quem?

- Eu não sei – ignorei a expressão debochada que ele fez e continuei a confessar minha ignorância - Eu o segui até aqui para descobrir.

- Seguiu um desconhecido? – os lábios esboçaram um sorriso animado o qual se desmanchou quando ouviu o som farfalhante do vento movimentando os fragmentos vítreos. Virou o rosto e indagou - O que ele é?

Antes que eu pudesse responder, uma voz feminina o fez. Só então entendi que a pergunta não era para mim. O ser que me resgatara anteriormente retornara, estava próxima a uma das colunas, conseguia ver a luz da lua iluminando seu cabelo escuro e criando penumbras sobre o rosto. A resposta foi praticamente um sussurro rouco, audível, mas indecifrável, já que não entendi o idioma. Ainda tentava decifrá-lo quando o outro, mostrando minha carteira, contestou em alemão:

- O rapaz é de Worms, não o exclua da conversa.

Ouvi um suspiro longo em resposta e ela se aproximou. Confesso que senti um calafrio quando a luz amarelada do abajur revelou seus traços. Até aquele momento eu estava lutando para não xingar pelas constantes dores dos cortes do vidro, nem me incomodava tanto o corpo retesado pelo baque, porém a ardência dos ferimentos roçando na roupa era perturbadora. Esqueci todo esse incômodo quando a vi. "Piegas", não?

Não senti isso por ela ser linda. Não era o tipo de beleza que eu apreciava. Seu rosto arredondado destacava bochechas, nariz e queixo angulosos, a pele era extremamente branca e o pouco que eu conseguia ver de seu corpo demonstrava que era mais alto e com mais curvas do que as meninas franzinas que eu admirava na época. Ela foi a mulher mais... esquisita que eu já vira. A angulosidade mesclada com os olhos grandes e lábios bem delineados davam-lhe um aspecto selvagem, porém muito, muito, sensual.

As mechas escuras estavam enroladas em um coque cheio e abaixo da orelha, aparentando que de desmancharia a qualquer momento. E eu lembro que torci para isso, para ver os fios cascateando sobre o vestido azul enquanto ela se aproximava. Parou um pouco atrás do outro e algo em sua postura me lembrou uma musa de Art Noveau, representação tão comum em ilustrações espalhadas pelas cafeterias parisienses. Ela me fitava desconfiada:

- Os magos alemães resolveram acertar as contas com os inquisidores? – perguntou ainda em um timbre fraco. Ao notar o meu rosto de dúvida, que sim, eu certamente fiz, continuou – Você não sabia que ele era um inquisidor?

- Hahaha e o seguiu sem motivo algum. – o outro riu, não sei se por escárnio pela minha idiotice ou por não acreditar.

Confuso com as perguntas, fiz questão de sentar. Olhei minhas mãos cheias de arranhões e o relógio dourado, intacto, sobre o pulso. Os ponteiros indicavam que eram quase oito horas:

- Inquisidor? Ele era um inquisidor? – perguntei com a voz falhando.

A mulher se aproximou mais me observando indiferente. Deu a volta no divã e senti suas mãos frias tocando minhas costas e em seguida meu pescoço:

- Sente algo quebrado, garoto? – perguntou e me forçou a tirar o casaco – A cabeça dói? Esquece, tudo deve doer – murmurou.

- Eu sei que ele não está nas melhores condições para falar, Kath. Indiretas são desnecessárias. – o loiro sorriu encarando-a, dessa vez exibiu os dentes e percebi seus caninos estranhamente pontiagudos. Ele deixou o divã continuando a falar andando vagarosamente até uma poltrona próxima - Mas você não conseguiu capturá-lo, precisamos ter certeza. Eu quero mais informações agora para não precisarmos fazer nada drástico. Ah e nem venha me falar que temos que nos mudar.

- Seria muito mais prático do que acordar com a casa em chamas amanhã. – sussurrou cínica passando pela poltrona que agora ele se acomodava, ia dizer mais alguma coisa, mas dessa vez ousei interrompê-la. Queria entender o que estava acontecendo:

- Espera, você o perseguiu, mas não o alcançou? - questionei reparando nas manchas de sangue sobre o vestido de seda.

- Se houvesse, ele estaria aqui. – voltou-se para mim e na pouca luminosidade que se encontrava fiz questão de observar sua fileira de dentes aparecendo no movimento dos lábios – Morto. – completou e sorriu, como se entendera o que eu observava entre o sussurrar de sua boca. Consegui ver claramente que seus caninos eram maiores que de um humano normal:

- Inquisidor - gaguejei, parecendo um retardado - isso faz sentido. – Eu raciocinava o que poderia ou não falar para eles e... o que eles eram. Sim, óbvio, você já sabe, afinal estou te contando isso porque queria falar sobre meu primeiro contato com vampiros, mas estava tão atordoado com o baque e a tensão anterior ao diálogo que demorei a notar as características típicas. A pele muito branca e os caninos são o de menos, o simples fato de reconhecerem meu sangue mago pelo cheiro deveria ter me alertado.

Não lembro o que eles continuaram a conversar entre si, ative-me a ordenar minha mente. Primeiro vi o quanto eu estava cortado e se havia algum ferimento aberto que ainda estava com sangue muito fresco, sabe como é, queria ver se eu estava incentivando muito o apetite dos dois. Depois pensei no que eu sabia sobre a situação dos vampiros em Paris, se havia alguma guerra declarada com os magos como em Berlim e concluí que não sabia muito sobre o assunto.

É, eu já conhecia muito sobre magia, mas quase nada da politicagem envolvendo os vampiros, magos e inquisição. Eu era um pirralho mais interessado nos livros e objetos mágicos do que nessa guerra fria. Bem, meu interesse não mudou só que, infelizmente, não consigo mais ignorar esses dramas sociais.

Aquele período foi um tanto complicado para a Alemanha. Você sabe, afinal, até hoje poucos magos voltaram a residir no país com receio que os inquisidores recomecem as encheções. Sim, esse era um dos motivos que eu estava em Paris, porém eu estava acostumado com as atitudes declaradas da instituição, seus membros sempre davam um jeito de assumir a responsabilidade por alguma morte grotesca. Eles não caçavam e matavam em silêncio, sem deixar a autoria exposta, totalmente o oposto do que esse sujeito fizera com os estrangeiros de Paris. Eu não via sentido naquela punição sem doutrina:

- Não sei se é inquisidor, mas acho que está capturando magos estrangeiros aqui do intercâmbio da Universidade de Paris. – interrompi a conversa do casal e estiquei as pernas – Eu não tinha certeza, só o segui porque achei suspeito o jeito como ele observava um mago na biblioteca. O acompanhei até que ele seguiu um casal loiro até aqui.

Eles se entreolharam com uma expressão insatisfeita. O imortal colocou-se de pé, ignorando-me e se aproximando da outra. Falavam no tal idioma que eu não reconhecia e notei como era claro que a vampira era submissa as suas vontades. Ela aparentava ter uns trinta anos e ele praticamente a minha idade na época, porém escutava-o atenta como uma pupila. Ela me encarou e fez um movimento de despedida com os dedos.
O loiro voltou a falar comigo, não me lembro sobre o que, pois meus olhos estavam cravados na imortal que se retirava tranquilamente, o salto fazendo barulho ao tocar na madeira. Foi quando ela abriu a porta, deixando a luz do corredor iluminar seu corpo esguio, que me manifestei:

- Espere, aonde você vai? – levantei-me do divã - O que decidiram fazer?

- Nós vamos confirmar sua suspeita, e resolvê-la – respondeu o de aparência mais jovem, desembaraçando tranquilamente as mechas de seu cabelo.

- Agora? Eu quero ir! – falei ríspido e, no mesmo instante, completei praticamente implorando – Posso ir?

- Ora, achava que ainda poderia conversar mais com você - ele disse sorridente. Fitou-a, praticamente rindo, como se demonstrasse que a decisão era dela.

A vampira franziu a testa, impaciente, perguntando:

- Você consegue dirigir nesse estado?

- Sim – afirmei com mais confiança do que realmente tinha.

Ela provocou um suspiro fundo e virou-se para a porta aberta:

- Venha

Continua em Clair de Lune pt 3

Desculpem a demora para postar essa segunda parte, a semana foi um pouco complicada para uma revisão mais detalhada. Obrigada a quem comentou da última vez, ótimo saber que alguém lê o blog, hehehe. Espero que continuem acompanhando (e curtindo) o conto.

Enfim, acabem comigo ;P

Clair de Lune pt I



Era uma época apreensiva em Paris. Havia um murmurinho sobre estranhos desaparecimentos entre os estudantes do intercâmbio da Universidade de Paris. Se soubessem que você era um estrangeiro, um estranho olhar de pesar te acompanhava entre os corredores e salas, como se a morte estivesse em sua sombra.

Eu era um pirralho na época, tinha a idade que você aparenta. Dezenove, vinte anos? Não? Bem, era mais velho que você então. Eu tinha vinte anos. Morava na cidade há pouco mais que cinco meses e já estava envolvido com os raríssimos magos parisienses. Sabia que os estrangeiros desaparecidos não eram simples universitários. Eram magos. Uns três conhecidos meus sumiram de um dia para o outro, deixando a grade universitária incompleta e o passaporte no quarto. Os magos franceses estavam alarmados (muito mais pelo escândalo revelar a fraqueza de sua organização do que pela gravidade da situação) e, inclusive, nos aconselharam a sair da cidade enquanto não descobriam o que estava acontecendo.

Não sei se alguém levou realmente a sério esse pedido, sei que eu não o fiz. Não apenas por não ter um lugar muito acolhedor para voltar (sem comentários), mas eu não estava disposto a largar a universidade assim no final do semestre. E, principalmente, fiquei curioso. Queria descobrir o que estava acontecendo, só que nem passou pela minha cabeça reunir um grupo e investigar os desaparecimentos. Eu estava atolado em livros e a cada dia adiava as horas que gostaria de reservar para elaborar teorias sobre essa suposta crise. Foi por puro acaso que encontrei a tal ameaça em meu caminho...

Estudava na biblioteca sempre no período da noite e assim o fiz naquela terça-feira. Enquanto procurava livros entre os corredores de estantes, reparei em um sujeito que mais observava os estudantes do que no impresso sobre sua mesa. Vestia roupas muito formais para um simples universitário; seu rosto quadrado era marcado por cicatrizes paralelas que pareciam o rasgado de um felino. Lembro até hoje como seu olhar pareceu faiscar quando observou um norte-americano que passou em sua frente. Eu sabia que o tal estudante era um mago, nunca conversamos, porém já o vira em uma das tais reuniões alarmantes. Não foi à toa que estranhei aquele olhar, desconfiei daquela expressão doentia justamente quando um universitário mago passou em sua frente.

Ele anotou algo em um caderno de bolso e se dirigiu para o balcão da biblioteca, foi nesse momento que me convenci a segui-lo. Larguei os livros por lá e até hoje sinto falta de uma das canetas que larguei na mesa, mas, enfim, levei pouco comigo enquanto o observava pegando seus objetos (uma maleta executiva impecavelmente limpa) e saindo da biblioteca. Rapidamente, mais rápido do que as minhas pernas aguentavam naquela época, ele caminhou para fora da universidade.

Segui-o como um idiota: aos tropeços entre os pedestres. Perdi-o de vista algumas vezes, mas volta e meia visualizava o topo de sua cabeça entre os pequenos parisienses a minha frente. Pensei seriamente em desistir da ideia impulsiva, afinal, ele não parecia seguir nenhum estudante mago, poderia ser só um homem que caçava pretendentes na biblioteca. Meu fôlego parecia que não se recuperaria nunca mais e parei. Apoiei-me em uma parede de uma pequena loja para evitar ser atropelado pelos apressados da calçada e então notei que ele também havia parado.

Estava a alguns metros à frente, próximo da esquina, observando o vidro límpido de um glamuroso restaurante. As luzes do lugar iluminavam as profundas cicatrizes de seu rosto moreno e eu pude ver sua expressão mudar novamente: da indiferença de um cidadão comum para o olhar impetuoso de quem achara sua presa. Olhei o restaurante, tentando adivinhar quem seria a vítima que ele observava. Duvidei que fosse um estudante, nenhum de meus conhecidos da universidade se interessaria em pagar tamanho luxo para comer um prato minúsculo ouvindo uma boa música.

Os mais jovens presentes estavam acompanhados da família e não consegui deslumbrar nenhuma linha de magia nos corpos daqueles humanos. Um casal jovial preparava-se para sair do lugar, ambos eram loiros e usavam trajes apropriados para o requinte do local, não pareciam ter nada especial. Entretanto, assim que saíram do restaurante, o sujeito esticou as barras do paletó e passou a segui-los. Novamente no ímpeto o acompanhei. O casal andava tranquilo pelas ruas iluminadas sem desconfiar que era seguido, em uma distância razoável, pelo indivíduo.

Acho que após duas ou três quadras eles pararam na frente de um suntuoso portão de ferro. Só havia nós quatro na rua e, temendo ser visto, me escondi rapidamente atrás de uma árvore. Pude ouvir o molho de chaves e acredito que o caçador fingiu seguir em frente, pois seus passos firmes continuaram a ecoar nas pedras da calçada por um bom tempo.

Cauteloso atrás do tronco, eu observei a casa de arquitetura antiga. Chamou-me atenção como ela era isolada das demais moradias da rua, seu grandioso jardim parecia carecer de cuidado há anos graças à quantidade de folhas espalhadas na base da tortuosa vegetação. As grades de ferro eram de altura mediana e serviam mais como um delimitador do terreno do que um real mecanismo de proteção, isso me fez pensar que talvez o aspecto de abandono era proposital para não incentivar roubos.

Quando não ouvi mais o som de chaves e passos, procurei o sujeito ao final da rua e não o vi. Olhei o mausoléu. As janelas alongadas da frente da casa estavam iluminadas mostrando os desenhos sinuosos dos vidros azulados. Dei alguns passos, para ver melhor tanto a casa quanto o sujeito suspeito, e pude ver as silhuetas do casal em outro jogo de janelas na lateral da casa. Pareciam ouvir música já que um suave som de piano saía do lugar. O segundo andar da casa, mais estreito que o primeiro, estava em completa escuridão, mas não deixei de notar o vulto alcançando o telhado logo acima do cômodo em que o casal estava.

Ele se moveu como um gato pela laje do primeiro andar. Vi sua maleta em um tronco de uma das árvores mais próximas da casa e concluí que o suspeito conseguira subir facilmente escalando-a. Pensei seriamente em correr para um orelhão e telefonar para a polícia informando sobre o suposto assalto que iria acontecer, mas... por que um assaltante não abordaria o casal logo no portão? Seria muito mais fácil de entrar na casa.

Se simplesmente quisesse invadi-la, poderia esperar um momento em que não estivesse ninguém presente.

Seria então um assassinato. Aquele olhar, a roupa impecável e as cicatrizes. Os seus aspectos lembravam um desses típicos assassinos doentios de filme. Não pensei mais, simplesmente pulei a pequena cerca e fui até aquela árvore que ele escalara. Conforme me agarrava nos galhos subindo o vegetal, agradecia a melodia do piano por abafar os sons da minha subida desajeitada.

As notas variavam rapidamente de tons agudos a graves, envolvendo o jardim em uma estranha lamúria, parecia combinar perfeitamente tanto com as árvores tortuosas quanto com aquela noite fria, cujo céu sem nuvens exibia uma imensa lua amarelada. Graças a sua iluminação, eu conseguia ver com certa nitidez os movimentos do sujeito a uns oito metros a minha frente no telhado. Aproximei-me cauteloso, sem desgrudar os olhos de sua posição.

Ele estava parado, de costas para mim, observando uma clarabóia retangular que cortava a laje. Havia uma fraca luminosidade saindo daquele local, e a música pareceu mais alta ali do que antes. Notei que o corpo do suposto assassino ganhava a tensão que vi anteriormente no restaurante. Apesar de apenas avistar o contorno de suas costas, eu conseguia imaginar aquela expressão doentia de caçador: ele olhava sua presa através do vidro.

O brilho da lua destacou a prata das minúsculas adagas que o sujeito segurava. A arma me fez concluir que não era um mero assaltante ou assassino. A rapidez absurda e o exímio silêncio com que ele chegara ao local demonstravam sua experiência em matar criaturas com sentidos aguçadíssimos. Olhei a lua cheia que aquecia mais a noite do que aquele piano triste e me perguntei se ele estava ali para matar um lobisomem.

Bem, naquele momento eu não sabia se era ou não um caçador, então não vou falar o que ele é agora. A questão é que nem ao menos tive tempo de raciocinar o que eu sabia sobre a lenda dos lupinos. Para o meu azar, as notas do piano cessaram exatamente no momento em que eu dava mais um passo para me aproximar da lucerna de vidro, não havia mais som algum para disfarçar o atrito do meu sapato com a laje áspera. O caçador se virou, em segundos seus olhos estavam a centímetros dos meus e eu só senti um forte puxão pela gola antes de ser jogado na superfície vítrea da clarabóia.

Claro, instantaneamente o vidro se rompeu, abrindo cortes por todo o corpo. Eu protegi meu rosto com os braços, não sabia naqueles segundos aonde eu cairia, mas lembro de temer a queda, não pela dor, mas pelo desmaio. Não queria desmaiar em um lugar que provavelmente abrigaria um lobisomem.

Entretanto, não desmaiei. Meu corpo nunca chegou a atingir o chão, fui apanhado por uma criatura tão forte que só percebi que estava me segurando quando ela apertou meus braços para me virar e colocar no chão suavemente. Abri os olhos, mas não conseguia vê-la, só ouvi sua voz feminina próxima a mim, resmungando algo em uma língua que eu não entendia. Vi seu vulto pulando em uma estante de livros e em seguida, rápida, muito mais rápida do que o caçador, saiu pela abertura no teto.

Ouvi passos sobre cacos e arqueei o corpo tentando me levantar. Não consegui. A dor do baque com o vidro ainda envolvia meu corpo e nem ao menos forças para ficar apoiado nos cotovelos eu tinha. Observei a lua amarelada enquanto ouvia ansioso e impotente aqueles passos vagarosos se aproximando. A figura masculina cobriu parte da lua, arqueando o corpo e me encarando:

- O cheiro do seu sangue é... diferente. Ha. – murmurou e vi o sorriso misterioso em seu rosto cheio de penumbras – Não te ensinaram a tocar a campainha, mago?


Continua em: Clair de Lune pt II

Esse é o primeiro conto que eu escrevo aqui em primeira pessoa, apreciaria demais se vocês comentassem se está muito informal ou chato de ler... E qualquer errinho por favor comentem também, pois o Lucas não pôde revisar o texto.

Ah, esse post é oferecido especialmente a Cátia que acompanha o site e vive me pedindo um post sobre os personagens que vão aparecer aí. Espero que curta, Cátia ;P.


Dragões de Gelo - pt. III


Continuação de: Dragões de Gelo - pt. II


Olá, leitores! Peço desculpas pelo atraso na postagem, estive um pouco enrolado com o final do semestre na faculdade. Mas finalmente consegui finalizar a penúltima parte deste mini-arco, e ai está o resultado! Espero que gostem ;) Boa leitura a todos!

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O estalido do portão se abrindo subitamente pareceu despertar o vampiro, que continuava sentado a uma curta distância, olhando para o horizonte. Há algum tempo tinha desistido de tentar ensinar ao mago como pronunciar as palavras corretas, tendo em vista que este parecia obter muito mais progresso quando não era tratado como alguém que necessitasse de fato de alguma ajuda.


- Oh, finalmente! – Murmurou Uriel, pondo-se de pé e espanando os flocos de neve da própria roupa. Pegou a espada, que até então jazia apoiada na parede do cemitério, e abriu um sorriso satisfeito enquanto olhava para o mago. – Poderia ter sido muito mais rápido se me deixasse ajudá-lo, mas eu tenho todo o tempo do mundo, e quem quer sair daqui ainda esta noite é você mesmo... Vamos?


O moreno olhou de esguelha para o companheiro, apertando as pálpebras em seguida e inspirando fundo. Uriel levou a mão livre ao portão, escancarando-o sem cerimônia, e além do ruído fantasmagórico de metal, uma densa e malcheirosa névoa precipitou-se para fora, transpassando os limites do cemitério. O vampiro não parecia surpreso quando o mago perguntou, desconfiado: - O que este portão selava, Uriel?


E, antes de responder, o loiro caminhou alguns passos adiante, embrenhando-se na cortina branca de ar condensado. – Meus irmãos. – Sua voz soou abafada, e os passos cessaram. A silhueta do vampiro ainda era visível para o outro, evidenciando que ele não fora muito longe. – Você poderia dar um jeito na névoa, Logan? Não que eu esteja reclamando, mas eu acho que você pode acabar caindo em uma cova aberta ou algo assim.


- Hm... Esta névoa não é comum? Ela não ultrapassava os limites dos portões nem dos muros, embora eles sejam vazados. E este cheiro... – O mago inspirou mais uma vez, o nariz franzido em uma careta de desagrado. - ...O que são os seus irmãos? – Perguntou, por fim, retirando um pequeno orbe de vidro de um dos bolsos e livrando-se da rolha de cortiça do fino gargalo.


- São dragões. – Fora a resposta que recebera, entoada de maneira simples e direta. Logan fez um muxoxo, debochando:


- Um vampiro filho de uma divindade pagã e irmão de dragões. – Esticando a palma da mão adiante, Logan fez o sinal da cruz, porém, antes de começar a realizar a magia, destilou um pouco mais de veneno por entre dentes: - Tais maldições evidenciam quão degenerada e pecadora foi a sua linhagem. Que Deus tenha piedade das almas de seus familiares.


- Para um mago, às vezes você é bastante... católico. Egor captou isso muito bem. – Desdenhou o vampiro, ainda completamente oculto pela cortina de névoa. Logan não respondeu, limitando-se a cerrar os olhos e fazer novamente o sinal da cruz. Seus lábios se moveram muito rapidamente, mas nenhum som saiu deles, e tão logo pararam de se movimentar, uma brisa morna o envolveu, agitando seus cabelos e aquecendo a sua pele instantaneamente. O frasco em sua mão cintilou com uma cor perolada e um segundo depois o gargalo emitiu o inconfundível ruído de sucção; a névoa espiralou para o seu interior, e tão logo todo o interior do cemitério podia ser vislumbrado por seus olhos humanos. – Coube tudo ai? – Perguntou o vampiro, mas sem surpresa alguma, mirando o pequenino orbe agora completamente preenchido da névoa de odor putrefato. Logan percebeu que o semblante de Uriel estava mais sisudo, não lembrando em nada o ar divertido que adotara até então. Demasiadamente humana, pensou ele, aquela mudança repentina de humor.


- Tem certeza que quer fazer isto? – Perguntou o mago, depositando o pequeno frasco no interior de um dos bolsos e retirando de outro um novo recipiente cristalino repleto de água. – Se você quiser, eu posso selar o portão novamente.


- Eu tenho certeza.


Disto isto, o vampiro virou as costas e continuou a caminhar pelo interior do cemitério deserto. Os túmulos ostentavam símbolos cristãos – e alguns eram adornados por cruzes celtas -, evidenciando que os tais dragões não deveriam estar ali há muito tempo. Apressando um pouco o passo, Logan não demorou muito a acompanhar o vampiro, que conservava uma das mãos enfiadas no bolso da calça e os olhos semi-cerrados; a expressão de Uriel permanecia demasiadamente fechada. Ele estendeu a mão na altura do peito do mago, em um claro pedido para que ele parasse por um momento. – Por favor, permaneça alguns metros atr...


Porém, as palavras do loiro foram suplantadas pelo urro ensurdecedor que praticamente explodiu os tímpanos do mago. Logan levou as mãos às orelhas, os olhos arregalados miravam um dos mausoléus mais adiante, de onde parecia vir o barulho. Depois outro, alguns metros à esquerda, e por fim, o terceiro berro viera do jazigo imediatamente ao seu lado, ao mesmo tempo que a portinhola de metal fora atirada longe por uma força invisível, atingindo a cruz de pedra do túmulo que Logan estivera até o último segundo – Uriel o puxara com violência, os dedos apertados em torno de seu pulso como pinças de metal.


- Permaneça calmo. – Recomendou ele, próximo ao seu ouvido. O mago, irritado, rechaçou-o com a mão livre, obrigando-o a liberá-lo do aperto. O cenho franzido de Logan não relaxou sequer por um átimo de segundo, mesmo quando o barulho pesado de passos reverberou pelo ambiente. Por um momento, pensou que o chão tremia, mas a impressão passou tão logo. O cemitério fora mais uma vez envolvido pela mesma névoa podre de antes, e os urros se fizeram ouvir novamente, pontuados por resfôlegos guturais que eriçavam os pêlos da nuca do mago. – Logan, por favor...


Mais uma vez as palavras de Uriel foram silenciadas: desta vez pelas do próprio Logan que, em reflexo à criatura que saia do jazigo próximo, atirou o pequeno frasco de água e entoou uma oração em uma língua que Uriel desconhecia, fazendo o vidro estourar no momento em que tocou a criatura. A água entornada sobre seu corpo produziu labaredas azuis, frias, e o grito que escapou de sua garganta não fora de ameaça, mas de dor. O cheiro de podridão fora intensificado, misturado ao de carne carbonizada.


- O que era aquilo? – Perguntou Uriel, visivelmente admirado. A criatura tombava de joelhos na escuridão, ainda emitindo rosnados de agonia.


- Água benta. E o que é aquilo?


- Nunca vi água benta produzir tal efeito. – Observou o vampiro, as sobrancelhas arqueadas. Momentaneamente a preocupação dera lugar à curiosidade, e Uriel não parecia mais tão misterioso, e embora o perigo fosse eminente, ele parecia muito mais interessado na extensão dos poderes de Logan. – O que foi que você fez?


- Para um mago, eu sou bastante católico, lembra? – Repetiu Logan, retirando outro pequeno frasco de água de suas vestes. – Você vai me responder o que era aquilo, ou não? Por acaso é um dos seus irmãos? – Desdenhou ele, obviamente esperando uma negativa que, para a sua surpresa, não viera. Uriel limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente, desta vez arrancando uma rápida exclamação de surpresa do moreno. – E existem quantas criaturas dessas?


- Três. Vê a runa sobre o arco da porta? – O loiro apontou para um pequeno entalhe no arco de pedra, murmurando a seguir: - Dæg.


- Draugrs? – Perguntou, incrédulo. Os olhos arregalados mirando os de Uriel. – Os seus irmãos são...


- Talvez a minha geração seja mesmo reflexo de uma linhagem degenerada. – Respondeu ele, com um sorriso triste. Em seguida, ergueu a espada no nível dos olhos, murmurando em tom tranquilizador: - Agora você entende por que eu precisava desta espada, certo? Não podia ser qualquer uma, precisava ser extremamente valiosa. Esta aqui figura as nossas lendas, vai ser um bom objeto de barganha.


Logan suspirou – o ar que escapou de seus lábios e narinas fora condensado imediatamente – e, chutando uma pequena pedra sob o seu pé, praguejou baixinho, para depois apontar o dedo indicador para o rosto de Uriel e esbravejar: - E quando é que você ia me dizer isto, hein? Quando eles arrancassem a minha cabeça? – Abriu a boca mais algumas vezes, apenas para fechá-la em seguida, sem emitir som algum. Estava, visivelmente, mortificado. - Draugrs!


- Desculpe.


- Desculpe um caral...!!! – Parou, respirou fundo e continuou, ainda trêmulo: - Apenas me prometa que, depois desta noite, vamos estipular uma data final para este maldito contrato, Uriel. Eu já estou farto de por a minha vida em perigo por alguém que eu detesto!


O loiro o encarou por alguns segundos antes de, finalmente, assentir com a cabeça, sem dizer palavra. Pelo franzir de sobrancelhas, era obvio que não tinha gostado do termo, mas não havia muito que fazer. A data que Logan clamava podia ser amanhã, mas também podia ser dali a dez anos. Os cantos dos lábios de Uriel se arquearam, quando ele virou as costas para o mago e ergueu os braços acima da cabeça, deixando a espada bem à mostra.


- Bræður! – Exclamou, a voz retumbando por todo o ambiente. Três urros uniram-se às suas palavras novamente, formando uma cacofonia ensurdecedora. - Það er ég, bróðir Svarr þinn! Sýna sjálfur!¹


O barulho e os resfôlegos de outrora deram lugar aos rugidos, e logo três silhuetas humanas puderam ser vislumbradas por entre a cortina de névoa, arrastando-se na direção deles. Logan apertou os dedos em torno do pequeno frasco de água benta novamente, e com a mão livre apanhou um pequeno livro de outro bolso.


- Irmãos! – Desta vez, o vampiro falou em uma língua que o mago pudesse entender, embora não estivesse certo de que os Draugrs o fariam. Na verdade, duvidava que eles pudessem entender qualquer coisa; as suspeitas de Logan eram de que eles eram movidos apenas por sentimentos primitivos, abandonando há muito a humanidade e, com ela, a racionalidade. Farejavam o ar, sentindo as intenções de Uriel, que continuava a lhes falar: - É chegada a hora de vocês se reunirem a mim, como antigamente, quando vagávamos por estas paragens sob a luz do sol...


Logan conhecia pouco sobre aquelas criaturas – nunca encontrara uma antes, e a literatura sobre o assunto era extremamente rara – mas sabia que, de alguma forma, se assemelhavam ao próprio Uriel: tratavam-se de mortos-vivos, que não receberam os ritos funerários adequadamente e, por isso, não conseguiram abandonar o plano terreno. Ao contrário dos vampiros, eram irracionais e animalescos, extremamente territorialistas e, principalmente, personificavam a ganância humana, pilhando e matando apenas para aumentar a fortuna que acumulavam indefinidamente em seu covil; agora ele entendia o motivo do companheiro ter levado a espada, e a origem da névoa pútrida que mais uma vez os envolvia, pois além de tudo, aquelas criaturas eram conhecidas por controlarem o tempo, invocando nevoeiros e tempestades.


Os três continuavam a se aproximar, formando um semi-círculo em torno do vampiro e do mago. Quando estavam próximos o bastante, Logan pode perceber que conservavam os cadáveres frescos, porém os olhos eram de um branco leitoso. Os cabelos e barbas estavam desgrenhados e imundos, e não vestiam nenhuma peça de roupa. Suas expressões, embora em rostos de homens, não traziam nada de humanas: eram bestiais, demoníacas – como as que presenciava nas pessoas possuídas que ele costumava libertar. Um deles estava com grande parte do corpo carbonizado, fruto da primeira investida de Logan, minutos atrás.


- Sei que não me acompanharão de bom grado, por isto ofereço-lhes Mistilteinn, a arma de Gripsson... – Uriel empunhou a espada na frente do rosto, conservando-a na horizontal. – ...em troca de sua colaboração.


Por um momento, o ruído de som sendo aspirado pelas narinas franzidas dos três foi a única coisa que se podia ouvir no cemitério. Então, um rosnado baixo, e um dos Draugrs inclinou a cabeça obedientemente para frente, e depois os outros dois repetiram o gesto. Uriel deu alguns passos na direção do primeiro, a espada estendida, os olhos cravados nos dele. Para Logan, não parecia em nada com uma reunião de família, mas era visível que a única coisa que restara dos irmãos do vampiro naquelas criaturas eram os invólucros que abrigavam tais demônios antigos.


Todavia, antes que os dedos frios do Draugr tocasse o metal da espada lendária, um novo som se fez ouvir: passos metálicos ecoaram ao redor, reverberando por todo o cemitério, atraindo a atenção do vampiro e do mago – os dragões miravam apenas a espada nas mãos de Uriel.


- Quem está vindo?


- Droga! – Praguejou o loiro, puxando mais uma vez a espada para si, tirando-a do alcance de seu irmão. O Draugr grunhiu baixo e ameaçadoramente, mostrando os dentes pontiagudos por uma fração de segundo. – Logan, saia daí agora! – Advertiu, dando alguns passos adiante, os dedos da mão direita se fechando em torno do punho da espada. O mago, ao contrário de Uriel, não conseguia vislumbrar muitos metros adiante por causa do nevoeiro, mas por alguns segundos apertou os olhos, ignorando a recomendação do imortal, tentando ver quem se aproximava. Engoliu em seco, imaginando uma criatura que pudesse alarmar Uriel daquela maneira, e quando o vampiro repetiu o que havia dito antes, desta vez em tom imperativo, a única reação do humano fora a de encará-lo apreensivamente e inquirir:


- O que é que você está vendo? Quem está vindo?


- São Templários. – Murmurou o vampiro, encarando a cortina de névoa às costas de Logan. Os olhos arregalados de Uriel expressavam todo o espanto e o medo que o abatiam naquele momento. Uma geração inteira se passara sem se ouvir falar da atividade dos Cavaleiros, e tinha que ser justamente naquela noite, naquele lugar, o primeiro movimento deles em anos.


- Templários?! – Sibilou o mago, visivelmente alarmado.


- Muito bem, Mahalat, mais uma vez você foi abençoada com uma revelação do Nosso Senhor. – Disse uma voz fria às costas de Logan –que se virou imediatamente, encarando a névoa densa- no momento em que duas silhuetas se desenhavam adiante: uma era de um homem esguio, vestindo roupas formais e carregando uma espada embainhada na mão esquerda, e a outra era de uma mulher trajando uma armadura medieval enorme, completa à exceção do elmo, trazendo consigo uma gigantesca claymore² por cima do ombro. Cavaleiros Templários. - Saudações, filhos da escuridão...


Em resposta, os três dragões rugiram mais alto e mais ferozmente do que até então. Os olhos gananciosos cravados na arma do homem, que conservava a expressão absolutamente impassível diante daquelas criaturas. A mulher, por outro lado, parecia demasiadamente irada, e quando Logan deu um passo para trás, ela apertou ainda mais a empunhadura da própria espada, encarando-o fixamente.


- Saudações para você também, Inquisidor.


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¹ - Do Islandês: Irmãos! Sou eu, Svarr, seu irmão de sangue! Mostrem-se! (Caso esteja errado, podem me corrigir ;D)
² - Espada escocesa de gume duplo e tamanho avantajado, geralmente do tamanho do espadachim que a empunha.

O Sopro do Auroque pt II

Continuação de: O Sopro do Auroque pt I


- Sabem o que está escrito aqui? - sorriu, a expressão arrogante delineando sua face - Vocês sabem o que pode acontecer se eu ler isso aqui, não sabem? - sussurrou, sem tirar os olhos verdes do metal, esperando alguma resposta dos rapazes.

Eles se entreolharam, preocupados. O mais magro se afastou, indo até a entrada do estabelecimento, enquanto o outro se aproximou dos forasteiros. Voltou sua atenção para a mulher e em seguida para os desenhos de caveira da camisa do ruivo:

- Não vamos deixar necromantes levarem o auroque - apertava as pálpebras para conseguir ignorar o reflexo do objeto e encarar a face petulante do homem mais velho - Acham que não os reconheceríamos? - o rosto moreno tornou-se sombrio.

Fais descruzou os braços, ficando mais séria a medida que o volume da risada debochada de Cathir aumentava:

- Espera - enxugou os olhos lacrimejantes - vocês acham que somos necromantes? - falou entre risadas contidas - Por causa da minha camisa? - riu mais uma vez e apontou para os escritos góticos na barra da roupa - É de uma banda, pô!!

- Claro que não é por causa da camisa - disse o gordinho entre dentes, cravando os olhos na mulher logo atrás do ruivo.

O outro alemão trancara a porta e já retornara ao balcão. Também encarava desconfiado a maga. Cathir a olhou:

- Tsc, sabia que você me daria problemas - murmurou, cínico, e continuou fitando-a enquanto falava - A garota aqui, assim como eu, é da Ordem Bretã. - virou-se para os adolescentes com uma expressão soturna - Os Bretãos não aceitam necromantes.

O mais magro balançou a cabeça em negação, sussurrando algo em alemão. Cathir com um tom irritado questionou:

- Que você disse?

- O sussurro dos mortos... - a maga traduziu, indiferente.

O rosto do mago irlandês atingiu um coloração rubra:

- Qualquer porcaria pode causar um efeito desses em alguém! - esbravejou, e as janelas estranhamente bateram, o vidro de uma delas se estilhaçou, resultando em um olhar apavorado do alemão mais novo - Pode ser uma maldição, um objeto amaldiçoado... há tanta coisa que provocaria isso e vocês pensam na possibilidade mais remota? A que seja um necromante, pior um necromante que procura um artefato inútil para as magias dele! - os outros tentaram falar, mas ele não deixou, continuou esbravejando, cada vez mais vermelho.

- Cathir - o sussurro de Fais era um pedido de calma, mas ele a ignorou:

- Como vocês vigiam um objeto e não sabem para que ele serve? Sabe o que acontece quando essa porcaria chega perto de um vampiro? - levantou o chifre - Racha! Imaginem por conta própria o que acontece em um ritual necromante! Com um defunto de verdade!

- Cathir! - a maga puxou a mão do ruivo e apontou para o chão logo abaixo dele.

A madeira ganhara um aspecto esverdeado cujas ramificações subiam pelo seu tênis. Ele tentou mover os pés, mas, assim como os de Fais, estes pareciam fincados ao chão. Xingou, furioso. Estranhamente os raios solares que atravessavam as janelas pareciam mais amarelados destacando a poeira que pairava no ar como se fosse uma névoa difusa. A face dos anfitriões demonstrava insegurança, parecia que mil pensamentos pairavam em sua mente, mas Fais sabia que não estavam assustados pela transformação do lugar. A mudança era um mecanismo de segurança pronto a funcionar ao menor sinal de mágica e confirmava que a loja era fachada para guardar coisas especiais da Ordem Alemã. Provavelmente eles sabiam que isso aconteceria quando Cathir retirou o auroque da estante. A expressão em suas faces era o medo da reação do irlandês, receio sensato considerando que claramente ele era muito mais experiente do que eles. Talvez ela pudesse aproveitar isso para fazê-los desativar a resposta da casa, a qual agora exalava um odor muito mais forte de mofo:

- Ei! Nós somos da mesma Sociedade do Dr. Ackart! – contestou a jovem, agachando-se e passando os dedos pelos fungos que se espalhavam pelo seu coturno - Ele pode vir aqui e explicar tudo! Não precisamos bri.. – sua voz soou fraca, ela engoliu em seco, fazendo uma careta ao sentir um estranho gosto agridoce. Seu corpo enfraquecia e precisou se ajoelhar, apoiando os braços na madeira coberta pela textura esverdeada. Uma gota de sangue manchou o chão, fazendo-a ignorar a fraqueza para observar o companheiro – Ah, não, não faz isso!

O homem respondeu ao pedido emitindo um som debochado. Cortara os dedos com um de seus anéis e pincelava o vermelho na parte interna do chifre. Seus olhos eram pura fúria, motivando os dois jovens a começar a falar uma série de palavras desconhecidas. Demoraram um pouco para conseguir acertarem as palavras e, quando conseguiram, aumentaram o tom. Encaravam Cathir como se esperassem o momento em que cederia ao encanto do lugar ou a suas ladainhas:

Sério, ele balançou a cabeça em negação, como se lhes respondesse que isso não aconteceria com ele. Começou a ler os escritos no acabamento do auroque. Sua voz soou grave, como se não fosse sua e as pontas dos dedos ensangüentadas pareciam ganhar uma fluidez alaranjada ao encostarem no artefato. Quando ele terminou a leitura dos símbolos, os magos se calaram, dando passos para trás assustados.

Uma chama fluída preencheu o auroque, transformando-se em um líquido cor de mel. Os sujeitos enfraqueceram a ladainha, se afastando quando o irlandês levantou o artefato como uma taça no ato de brindar, levando-o a boca. Um deles pegou um dos besteiros à venda, mas não houve tempo de armá-lo. Cathir inspirou fundo e soltou pela boca todo o ar sobre o auroque. Volumosas bolhas se formaram no líquido âmbar, explodindo em vapor em direção aos dois magos. As gotículas amareladas atingiram o balcão provocando um característico som de queimado. A superfície da madeira, assim como o chão próximo a ela, corroera em cinzas como se brasas a atingissem.

Os alemães observaram paralisados a cena. O vapor quase os atingira, mas só o calor próximo que sentiram fora o suficiente para não conseguirem se mover. Ambos olhavam fixamente para a caixa eletrônica, cuja estrutura permanecera intacta, mas a pintura ganhara manchas enegrecidas. As mãos trêmulas do gordinho seguravam com uma mão a balestra e com a outra uma seta metálica. De repente, como se despertasse de um transe, tentou novamente encaixá-la:

- Larga essa merda! - ordenou o mago ruivo, as falas provocando vapores sutis na superfície do auroque - Vamos! - inclinou um pouco o artefato, assoprando sua borda, direcionando as leves nuvens alaranjadas para o pavimento.

A textura esverdeada carbonizou conforme a fumaça sedimentava. O mago movimentou suas pernas, rachando as formas orgânicas e desprendendo os pés do chão. Olhou de relance para a mulher caída, mas não se aproximou, deu um passo a frente, encarando curioso o gordinho. Apesar da tremedeira, ele encaixou a seta, entretanto, não teve força nos braços para levantá-la o suficiente para mirar no inimigo:

- A escolha foi sua - retrucou o irlandês, petulante, antes de encher os pulmões de ar e expirar no misterioso líquido que preenchia o auroque.

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- Então vocês disseram que a Ordem Bretã já conversara sobre isso com a organização Alemã e ainda assim eles insistiram em negar o Auroque? - o velho rechonchudo era o único em pé no salão, andava de um lado e para o outro na frente de Cathir e Fais, a qual sorriu, doce:

- Citamos os alemães envolvidos na Ordem Bretã também, pedimos educadamente uma reunião. Mas não adiantou. Simplesmente os dois nos atacaram. Cathir só pretendia retirar aqueles “fungos” que nos prendiam, só isso.

- Não precisa repetir o que você acabou de falar, Fais. - interrompeu grosseiramente uma senhora morena

- Acho que preciso - sua voz era tão branda que o sorriso confiante não parecia petulância - Vocês me enviaram para vigiar o rabugento aqui - apontou o sujeito carrancudo ao seu lado - E não acreditam quando digo que o que aconteceu foi um mero desentendido, um aciden..

- Acidente, ACIDENTE?! - gritou a outra - Queimar uma loja inteira em uma briga NÃO É UM ACIDENTE! É estupi..

- Não precisa repetir o que você acabou de dizer - ela lambeu os lábios, seu rosto ganhou uma tonalidade rósea e continuou a falar antes que a outra se levantasse para lhe bater - Cathir estava tentando nos libertar daquela magia, só isso. Não vimos que a loja era tão facilmente suscetível a efeitos mágicos, se não, nunca teríamos usado o auroque.

- Se a loja reagiu a vocês quando foram hostis com os magos é óbvio que é um lugar suscetível!

- Lugar reagiu? - questionou inclinando a cabeça com uma expressão curiosa

- Aqueles fungos! Aquilo foi uma reação do lugar a vocês! - a mulher esbravejou, ignorando o apelo do senhor em pé para que se acalmasse - Como não sentiram que a loja era diferente, como não sentiram nenhum encantamento?

Cathir olhou para o chão, irritado, apoiou-se no encosto cruzando os braços, obstinado a não falar nada. Continuou assim enquanto Fais continuava sua defesa:

- Humm - a jovem pálida levou o dedo ao queixo - é ... mas existem encantamentos que ofuscam esse tipo de coisa, certo?

- Chega - disse firme um dos homens próximos a morena irritadiça – chega dessa discussão. Estou convencido que Cathir já cumpriu o que deveria pelo acidente - levantou-se e ficou de frente para o resto do salão - quem mais está?

A grande maioria levantou o braço com uma expressão enfadonha, claramente cansados. Cathir franziu a testa, indiferente inclusive a próxima pergunta:

- Alguém é contra que ele volte para o grupo do Senhor Seymaur?

A morena e alguns poucos se manifestaram, cheios de justificativas. O homem em pé os ignorou, anunciando uma decisão favorável e desejando boa noite a todos. O pequeno grupo de contestadores o cercaram enquanto o resto se dispersava pelo salão.

- Nada como cansaço para apressar uma decisão – murmurou a criatura pálida olhando as horas em seu relógio.

- Não - ele descruzou os braços fitando-a muito sério - Nada como uma mentirosa eficiente...

- Oh. De nada. – sussurrou dando de ombros, levantou-se – Vamos, Maur está nos esperando no cemitério.

- Quê? Nos – frisou a palavra – Nos esperando?

- Quem você acha que te substituiu na sua ausência? – colocou os óculos no decote da blusa, ignorando o olhar furioso do mago, piscou marota – Você tem sorte de ele ainda querer você.

Virou-se, tirando um molho de chaves do bolso da jaqueta jeans. Mexeu no outro bolso e achou uma barra de cereal, oferecendo ao ruivo que a seguia duvidoso. A acompanhava silencioso, desconfortável não apenas pelo irritante barulho de chaves de um lado para o outro, mas principalmente por saber que estava em dívida pela mentira. Fais apontou o seu modesto carro estacionado próximo a entrada, seus olhos brilhavam sobrenaturalmente com a iluminação dos postes de luz e por um momento ele quis lhe perguntar exatamente o que lhe acontecera para ficar assim, mas conteve-se ao vê-la apressar os passos. Ao invés de ir direto abrir a porta, a maga parou próxima a parte traseira de seu automóvel e deu batidinhas no vidro:

- Jurava que você mentiu para o garoto quando disse que o Auroque era da sua família - esperou Cathir colocar os olhos na caixa que seus dedos pálidos indicavam - Até que fui pesquisar sobre ele e... - ela piscou, indo até a porta dianteira.

O mago irlandês entrou rapidamente no carro, sem desviar a atenção da caixa postada sobre o banco inferior, a madeira era repleta de símbolos:

- Isso.. é..

Sorridente, a maga ligou o carro:

- Insisti com o Maur para me ajudar a achar o invólucro apropriado - observou-o pegando a caixa - Claro, isso foi fácil comparado a convencê-lo que você deveria guardar o Auroque.

Ele abriu a caixa. Mesmo sob a fraca iluminação, o chifre encastoado em prata parecia mais suntuoso do que nunca sobre o forro de couro escuro. Raspou os dedos no acabamento, mais desconsertado do que outrora. O combinado nunca fora ele ficar com o artefato, a sociedade que Maur liderava tinha como principal objetivo evitar que artefatos encantados fossem usados por inconsequentes. E Cathir sabia que Maur o encaixava nessa característica. Franzindo a testa, fitou a figura pálida:

- Você mentiu para ele também?

- Não. Ele sabe como você é - dirigia tranquila, atenta as ruas vazias a sua frente. Sabia o que ele estava pensando - Esse auroque só tem aquele efeito com o seu sangue, certo? Maur sabe disso também, e sabe como pode ser útil em outras situações... Só fiz questão de lembrá-lo disso, irlandês.

Cathir fechou a caixa. Não conseguia confiar em ninguém rapidamente, especialmente alguém que fora encaminhada para controlá-lo. Entretanto, não podia negar que o que ela fizera lhe lembrava muito o modo como ele mesmo lidava com as normas da Ordem. Arriscara sua delicada posição sem pestanejar e ainda lhe presenteara com aquele velho artefato que desejava desde criança. Apertou a caixa, convencendo-se que deveria lhe dar uma chance:

- Obrigado – murmurou desviando do brilho espectral dos olhos da motorista e olhando as luzes mundanas da cidade.


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