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Orgulho Real - pt. III


Pessoal, peço imensas desculpas pelo atraso na postagem! Acontece que eu estava sem internet, por isso não estava acessando com freqüência e... uma coisa levou à outra! Sem mais delongas, segue a próxima parte, e o desfecho do capítulo. Boa leitura a todos!


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Continuação de: Orgulho Real - pt. II
Este arco do Uriel continua em: Dragões de Gelo - Pt. I
O Malleus Maleficarum continua em: Malleus Maleficarum - Cap. VI [Custo e Benefício]

Não demorou muito, assim que o vampiro tinha transposto os limites de Estocolmo em um potente Alfa Romeo alugado – igualzinho ao que possuía em Berlim-, cruzando uma cidade adjacente, seu caminho fora bloqueado por novos peões do General ensandecido. Eram seis cães realmente grandes, quase do tamanho de ursos pardos, presos por correntes que um homem alto e moreno segurava com a mão esquerda. Na direita, uma escopeta de cano reluzente que refletia a luminosidade âmbar e doentia provinda dos postes laterais.

- Ótimo. – Bufou, revirando os olhos e estacionando o carro como faria se fosse abordado por um policial. Retirando a chave da ignição, calmamente saiu do veículo. Teria deixado os faróis altos, se não fosse tão óbvio que o homem era um vampiro e não se ofuscaria com tão pouco. – Boa noite. – Cumprimentou-o, fechando a porta com suavidade. Seus movimentos não produziam sequer um ruído, como supõe-se que um fantasma também não produziria. – Eu já saí de Estocolmo, você pode voltar e dizer à sua mestra.

O homem sorriu apenas, segurando os cães que agora rosnavam e pateavam o chão inquietamente. Uriel viu os músculos do braço da criatura se retesarem, contendo a algum custo o avanço das seis bestas negras. – Com certeza ela não ficará satisfeita com esta justificativa. Você expirou o prazo que ela te deu em mais de duas horas. – Disse o negro com simplicidade, puxando as correntes e arrastando os animais alguns centímetros para trás. Uriel, erguendo as sobrancelhas em uma expressão de surpresa genuína, consultou o relógio de pulso e atestou que o outro vampiro estava certo. Ele nem tinha visto o tempo passar.

- Bom, eu precisava comer. – Respondeu ele, voltando-se para o ser que impedia a sua passagem. – Os outros, os anjos, me fizeram usar todo o estoque de sangue... – Ao contrário do que se pode imaginar, as palavras de Uriel eram completamente verdadeiras e simplórias. O interlocutor, expressando alguma estranheza com a situação, franziu o cenho. O loiro então, olhando-o nos olhos, perguntou: - Alguma chance de você me deixar passar sem luta?

O negro se adiantou, rindo com escárnio e dardejando: - Está com medo, senhor pacificador? – E, com o pequeno vacilar, os animais o puxaram por alguns metros, obrigando-o a cravar os pés no chão e puxá-los com violência. Rosnavam e babavam loucamente, as prezas metálicas –Uriel finalmente reparara- pareciam ser de prata. Charlotte não era assim tão previsível, afinal.

- De forma alguma. Mas, como você mesmo disse, eu sou um pacificador. Repudio qualquer tipo de violência, especialmente contra um igual.

- Repudia violência? Você matou as quimeras de minha senhora!

- Bom, você há de concordar que, tirando as minhas mãos que ela usou em uma daquelas coisas, nós não somos o que se pode chamar de iguais, não é? Não éramos sequer semelhantes. – E, educadamente, fez um gesto indicando o próprio vampiro moreno. – Mas eu e você somos da mesma espécie.

- Em breve você perceberá que nós temos menos semelhanças do que imagina. – Cuspiu o outro, estreitando os olhos sem parar de sorrir. Uriel alteou as sobrancelhas, enfiando uma das mãos nos bolsos e tirando de lá uma discreta lâmina acobreada, tão pequena quanto um bisturi cirúrgico, arrancando uma pergunta ácida e desdenhosa do negro: – Hah! Você espera lutar apenas com isso?!

- Eu já disse que não espero lutar, meu caro. A priori, minha intenção é passar sem precisar rendê-lo. – Então deslizou o gume do bisturi na palma da mão, produzindo um corte profundo, até o osso. Sangue gotejou, acumulando-se aos seus pés na forma de uma poça escura. As bestas uivaram sedentas, e o vampiro precisou de muito mais do que um mero puxão para contê-las desta vez. – Você ainda não se apresentou. Tendo em vista que sabe o meu nome, minha fraqueza, e sabe-se lá o que mais, sinto que estou em desvantagem.

- Minha senhora me chama de Barbariccia. – Sibilou ele entre dentes, arrancando uma discreta exclamação de surpresa dos lábios de Uriel.

- Oh! Suponho que você tenha mais alguns irmãos, então? Alichino, Cagnazzo, Farfarel, entre outros... – A pergunta soou retórica, pois obviamente ele não precisava de uma resposta ao continuar, roubando a palavra da boca de Barbaríccia: - Agora entendo a fascinação de Charlotte pela minha cria. Parece que sua senhora precisa, desesperadamente, se auto-afirmar, não acha? Aqueles anjos...

O negro apertou a mandíbula com uma expressão de intenso desagrado, como se mastigasse algo extremamente amargo, e quando falou novamente, sua voz soou consideravelmente menos mordazes do que até então. Ele tinha tomado para si o que Uriel tinha falado, ofendendo-se pela aparente falta de respeito do pacificador para com sua criadora.

- Aquelas estátuas eram um pres... – Todavia, não terminou de completar a sua sentença, parte por se dar conta do quão tola seria aquela afirmação, parte por observar o loiro se abaixar na frente da poça que ele mesmo havia formado e sussurrar algumas palavras em latim.

- Adeo, Logan. – Pontuou Uriel, após uma sucessão de frases entoadas rapidamente. Imediatamente, a poça de sangue pareceu adquirir vida, movendo-se pelo chão indefinidamente, com uma chama queimando em sua superfície. O ancião voltou a ficar de pé, e após bater as palmas das mãos para se livrar da poeira, dirigiu-se novamente para o enviado do General de Estocolmo: - Então, tratavam-se de um presente. Para o Alexis, suponho. – Charlotte podia ter a idade que fosse, nunca perderia aquela empolgação adolescente que acometia as jovens ao julgarem encontrar o homem que entregariam sua mão e seu coração para toda a eternidade. Ela, mesmo tendo sido desprezada múltiplas vezes por Ashtaroth, jamais desistia de tentar agradá-lo, e pelo visto Uriel fora o responsável por frustrar os planos da vampira do que seria a próxima tentativa de conquistar o príncipe de Praga. – Creio que eu lhe fiz um favor. Em todo caso, gostaria de apresentá-lo a um amigo.

A poça tinha se alargado sob o chão, e as chamas subitamente ficaram da altura do próprio Uriel. O vampiro, sorrindo, deu um passo para o lado quando o corpo de um outro homem começava a se materializar ao seu lado, alimentado pelo fogo que migrava paulatinamente de alaranjado para azul.

- Eu não sou seu amigo. – Murmurou o homem de cabelos negros, recém convocado pelo ancião. Por baixo do blazer negro, Logan trajava uma camisa de algodão branca, e calças do mesmo material.

- Desculpe tê-lo acordado.

- Não tem problema. – Tranquilizou o humano, embora seus olhos expressasse extremo desagrado pela situação, evidenciando que suas palavras foram ditas em vão, apenas por educação. – O que você quer?

Uriel inclinou a cabeça para frente, em um aceno rápido, indicando o outro vampiro que continha o avanço das bestas de presas de prata. Logan suprimiu um bocejo, perguntando: - Quem é ele?

- Barbaríccia.

- De A Divina Comédia?

- Uma réplica dele, eu suponho. É uma das crias de Charlotte.

- Isso explica muito. – Respondeu ele, inclinando a cabeça para o lado e analisando atentamente os dentes babados dos cachorros gigantes. – Aquilo é prata?

- Foi por isso que eu te chamei.

- Não por que você não gosta de lutar, creio. – Pronunciou-se finalmente Barbaríccia, acometido por uma súbita irritação por ter sido excluído da conversa. Portava-se como um amigo magoado, não como um inimigo enviado para acabar com a raça do ancião. Aliás, perguntava-se por que diabos ainda não tinha soltado aquelas quimeras, nem partido para cima de Uriel e arrancado a sua cabeça. - Você pode criar e manipular fogo, o que geralmente é letal para a nossa espécie, tem uma fraqueza extremamente clichê e aparentemente possui um contrato de sangue com um mago. Você é realmente muito interessante, pacificador.

- Obrigado. Bom, eu não vou mais interrompê-los, senhores. Preciso estar em Berlim antes que o sol nasça, o que não vai demorar muito para acontecer. Tenham uma boa noite. – Despediu-se, caminhando de volta para o Alfa Romeo e abrindo a porta do motorista. Neste instante, Barbaríccia finalmente soltou as correias dos animais, que partiram rapidamente na direção de Logan e do carro. O mago, puxando um pequeno livro do bolso interno do blazer, murmurou algumas palavras e paralisou-os todos de uma vez. – Muito bem, Logan! Não se esqueça de ir me visitar amanhã.

- Vá para o inferno! – Disse Logan, inexpressivo.

- E Barbaríccia, foi um prazer conhecê-lo, apesar das circunstâncias. - Disse por fim, adentrando o veículo e batendo a porta tranquilamente. Barbaríccia carregou ligeiro a escopeta, mirando os canos para a janela de Uriel, que manobrava o Alfa Romeo com destreza ímpar, porém antes de disparar, um clarão ofuscante se deu, partindo da palma da mão do mago, desconcentrando o negro por uma fração de segundo, possibilitando que o ancião passasse com o carro a menos de dez centímetros dele, que já lutava para se desvencilhar da próxima investida de Logan, que bocejava mais uma vez.

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