-->

Orgulho Real - pt. III


Pessoal, peço imensas desculpas pelo atraso na postagem! Acontece que eu estava sem internet, por isso não estava acessando com freqüência e... uma coisa levou à outra! Sem mais delongas, segue a próxima parte, e o desfecho do capítulo. Boa leitura a todos!


-----

Continuação de: Orgulho Real - pt. II
Este arco do Uriel continua em: Dragões de Gelo - Pt. I
O Malleus Maleficarum continua em: Malleus Maleficarum - Cap. VI [Custo e Benefício]

Não demorou muito, assim que o vampiro tinha transposto os limites de Estocolmo em um potente Alfa Romeo alugado – igualzinho ao que possuía em Berlim-, cruzando uma cidade adjacente, seu caminho fora bloqueado por novos peões do General ensandecido. Eram seis cães realmente grandes, quase do tamanho de ursos pardos, presos por correntes que um homem alto e moreno segurava com a mão esquerda. Na direita, uma escopeta de cano reluzente que refletia a luminosidade âmbar e doentia provinda dos postes laterais.

- Ótimo. – Bufou, revirando os olhos e estacionando o carro como faria se fosse abordado por um policial. Retirando a chave da ignição, calmamente saiu do veículo. Teria deixado os faróis altos, se não fosse tão óbvio que o homem era um vampiro e não se ofuscaria com tão pouco. – Boa noite. – Cumprimentou-o, fechando a porta com suavidade. Seus movimentos não produziam sequer um ruído, como supõe-se que um fantasma também não produziria. – Eu já saí de Estocolmo, você pode voltar e dizer à sua mestra.

O homem sorriu apenas, segurando os cães que agora rosnavam e pateavam o chão inquietamente. Uriel viu os músculos do braço da criatura se retesarem, contendo a algum custo o avanço das seis bestas negras. – Com certeza ela não ficará satisfeita com esta justificativa. Você expirou o prazo que ela te deu em mais de duas horas. – Disse o negro com simplicidade, puxando as correntes e arrastando os animais alguns centímetros para trás. Uriel, erguendo as sobrancelhas em uma expressão de surpresa genuína, consultou o relógio de pulso e atestou que o outro vampiro estava certo. Ele nem tinha visto o tempo passar.

- Bom, eu precisava comer. – Respondeu ele, voltando-se para o ser que impedia a sua passagem. – Os outros, os anjos, me fizeram usar todo o estoque de sangue... – Ao contrário do que se pode imaginar, as palavras de Uriel eram completamente verdadeiras e simplórias. O interlocutor, expressando alguma estranheza com a situação, franziu o cenho. O loiro então, olhando-o nos olhos, perguntou: - Alguma chance de você me deixar passar sem luta?

O negro se adiantou, rindo com escárnio e dardejando: - Está com medo, senhor pacificador? – E, com o pequeno vacilar, os animais o puxaram por alguns metros, obrigando-o a cravar os pés no chão e puxá-los com violência. Rosnavam e babavam loucamente, as prezas metálicas –Uriel finalmente reparara- pareciam ser de prata. Charlotte não era assim tão previsível, afinal.

- De forma alguma. Mas, como você mesmo disse, eu sou um pacificador. Repudio qualquer tipo de violência, especialmente contra um igual.

- Repudia violência? Você matou as quimeras de minha senhora!

- Bom, você há de concordar que, tirando as minhas mãos que ela usou em uma daquelas coisas, nós não somos o que se pode chamar de iguais, não é? Não éramos sequer semelhantes. – E, educadamente, fez um gesto indicando o próprio vampiro moreno. – Mas eu e você somos da mesma espécie.

- Em breve você perceberá que nós temos menos semelhanças do que imagina. – Cuspiu o outro, estreitando os olhos sem parar de sorrir. Uriel alteou as sobrancelhas, enfiando uma das mãos nos bolsos e tirando de lá uma discreta lâmina acobreada, tão pequena quanto um bisturi cirúrgico, arrancando uma pergunta ácida e desdenhosa do negro: – Hah! Você espera lutar apenas com isso?!

- Eu já disse que não espero lutar, meu caro. A priori, minha intenção é passar sem precisar rendê-lo. – Então deslizou o gume do bisturi na palma da mão, produzindo um corte profundo, até o osso. Sangue gotejou, acumulando-se aos seus pés na forma de uma poça escura. As bestas uivaram sedentas, e o vampiro precisou de muito mais do que um mero puxão para contê-las desta vez. – Você ainda não se apresentou. Tendo em vista que sabe o meu nome, minha fraqueza, e sabe-se lá o que mais, sinto que estou em desvantagem.

- Minha senhora me chama de Barbariccia. – Sibilou ele entre dentes, arrancando uma discreta exclamação de surpresa dos lábios de Uriel.

- Oh! Suponho que você tenha mais alguns irmãos, então? Alichino, Cagnazzo, Farfarel, entre outros... – A pergunta soou retórica, pois obviamente ele não precisava de uma resposta ao continuar, roubando a palavra da boca de Barbaríccia: - Agora entendo a fascinação de Charlotte pela minha cria. Parece que sua senhora precisa, desesperadamente, se auto-afirmar, não acha? Aqueles anjos...

O negro apertou a mandíbula com uma expressão de intenso desagrado, como se mastigasse algo extremamente amargo, e quando falou novamente, sua voz soou consideravelmente menos mordazes do que até então. Ele tinha tomado para si o que Uriel tinha falado, ofendendo-se pela aparente falta de respeito do pacificador para com sua criadora.

- Aquelas estátuas eram um pres... – Todavia, não terminou de completar a sua sentença, parte por se dar conta do quão tola seria aquela afirmação, parte por observar o loiro se abaixar na frente da poça que ele mesmo havia formado e sussurrar algumas palavras em latim.

- Adeo, Logan. – Pontuou Uriel, após uma sucessão de frases entoadas rapidamente. Imediatamente, a poça de sangue pareceu adquirir vida, movendo-se pelo chão indefinidamente, com uma chama queimando em sua superfície. O ancião voltou a ficar de pé, e após bater as palmas das mãos para se livrar da poeira, dirigiu-se novamente para o enviado do General de Estocolmo: - Então, tratavam-se de um presente. Para o Alexis, suponho. – Charlotte podia ter a idade que fosse, nunca perderia aquela empolgação adolescente que acometia as jovens ao julgarem encontrar o homem que entregariam sua mão e seu coração para toda a eternidade. Ela, mesmo tendo sido desprezada múltiplas vezes por Ashtaroth, jamais desistia de tentar agradá-lo, e pelo visto Uriel fora o responsável por frustrar os planos da vampira do que seria a próxima tentativa de conquistar o príncipe de Praga. – Creio que eu lhe fiz um favor. Em todo caso, gostaria de apresentá-lo a um amigo.

A poça tinha se alargado sob o chão, e as chamas subitamente ficaram da altura do próprio Uriel. O vampiro, sorrindo, deu um passo para o lado quando o corpo de um outro homem começava a se materializar ao seu lado, alimentado pelo fogo que migrava paulatinamente de alaranjado para azul.

- Eu não sou seu amigo. – Murmurou o homem de cabelos negros, recém convocado pelo ancião. Por baixo do blazer negro, Logan trajava uma camisa de algodão branca, e calças do mesmo material.

- Desculpe tê-lo acordado.

- Não tem problema. – Tranquilizou o humano, embora seus olhos expressasse extremo desagrado pela situação, evidenciando que suas palavras foram ditas em vão, apenas por educação. – O que você quer?

Uriel inclinou a cabeça para frente, em um aceno rápido, indicando o outro vampiro que continha o avanço das bestas de presas de prata. Logan suprimiu um bocejo, perguntando: - Quem é ele?

- Barbaríccia.

- De A Divina Comédia?

- Uma réplica dele, eu suponho. É uma das crias de Charlotte.

- Isso explica muito. – Respondeu ele, inclinando a cabeça para o lado e analisando atentamente os dentes babados dos cachorros gigantes. – Aquilo é prata?

- Foi por isso que eu te chamei.

- Não por que você não gosta de lutar, creio. – Pronunciou-se finalmente Barbaríccia, acometido por uma súbita irritação por ter sido excluído da conversa. Portava-se como um amigo magoado, não como um inimigo enviado para acabar com a raça do ancião. Aliás, perguntava-se por que diabos ainda não tinha soltado aquelas quimeras, nem partido para cima de Uriel e arrancado a sua cabeça. - Você pode criar e manipular fogo, o que geralmente é letal para a nossa espécie, tem uma fraqueza extremamente clichê e aparentemente possui um contrato de sangue com um mago. Você é realmente muito interessante, pacificador.

- Obrigado. Bom, eu não vou mais interrompê-los, senhores. Preciso estar em Berlim antes que o sol nasça, o que não vai demorar muito para acontecer. Tenham uma boa noite. – Despediu-se, caminhando de volta para o Alfa Romeo e abrindo a porta do motorista. Neste instante, Barbaríccia finalmente soltou as correias dos animais, que partiram rapidamente na direção de Logan e do carro. O mago, puxando um pequeno livro do bolso interno do blazer, murmurou algumas palavras e paralisou-os todos de uma vez. – Muito bem, Logan! Não se esqueça de ir me visitar amanhã.

- Vá para o inferno! – Disse Logan, inexpressivo.

- E Barbaríccia, foi um prazer conhecê-lo, apesar das circunstâncias. - Disse por fim, adentrando o veículo e batendo a porta tranquilamente. Barbaríccia carregou ligeiro a escopeta, mirando os canos para a janela de Uriel, que manobrava o Alfa Romeo com destreza ímpar, porém antes de disparar, um clarão ofuscante se deu, partindo da palma da mão do mago, desconcentrando o negro por uma fração de segundo, possibilitando que o ancião passasse com o carro a menos de dez centímetros dele, que já lutava para se desvencilhar da próxima investida de Logan, que bocejava mais uma vez.

O Malleus Maleficarum continua em: Malleus Maleficarum - Cap. VI [Custo e Benefício]
Este arco do Uriel continua em: Dragões de Gelo - Pt. I

Orgulho Real - pt. II


Continuação de: Orgulho Real - pt. I
Continua em: Orgulho Real - pt. III

- Hmm... – Ela sorriu, um sorriso provocador e cheio de malícia, e curvando-se para frente, tocou os lábios finos e pintados de rosa nos de Uriel, colando-os demoradamente. Ele não protestara nem por um segundo, embora não tivesse fechado os olhos e nem simulado uma expressão de prazer como ela fizera, e quando Charlotte finalizou o beijo, aparentemente cândido, lascivamente correu a língua do lábio inferior ao superior de Uriel, dando uma risadinha e declarando por fim, olhando-o nos olhos bem de perto: - Será que você consegue? Você sabe o que dizem por aí de homens mais velhos, querido...

Novamente algumas pessoas ao redor captaram a cena com seus olhares indiscretos, fazendo o vampiro apertar as arcadas e soltar um longo e pesaroso suspiro de resignação, enquanto ela... bem, ela olhou ao redor e simplesmente sorriu. Não era tão raro assim ver uma garota de dezesseis namorando um homem de trinta, e embora aquele não fosse exatamente o caso, era como lhes parecia. Uriel, educadamente, caminhou ao seu lado até a saída do estabelecimento. Charlotte ia atrelada romanticamente ao seu braço, como uma jovem apaixonada.

- Estamos conversados então... – Disse ela, sibilante, com aquele enorme e plástico sorriso nos lábios que sequer se moveram.

- Boa noite, Charlotte. – Fora a única coisa que ele disse, ao se desvencilhar dela e virar as costas, enfiando as mãos nos bolsos e se afastando pela calçada, deixando-a sem resposta. A mulher, apertando as mãos em punho, deixou a máscara derreter e se fundir em uma careta contrariada e irritada.

Uma hora depois, o vampiro ainda estava na cidade, como era de se esperar. Sentado no topo de um arranha-céu, olhando para o mar de luz abaixo, alimentava-se de uma bela donzela de cabelos loiros e anelados, iguais aos de Charlotte. Podia parecer um desafio ou algo assim, mas fora por puro acaso que encontrara aquela mulher cujo sangue lhe parecera tão apetitoso, e cravar os dentes nela fora só uma questão de tempo. Ela estava morta, e aquilo sim podia ser encarado como um desafio ao General local, que certamente naquele exato momento convocava sua confraria para varrer as ruas da cidade em busca de um dos ancilaes mais poderosos do mundo por puro capricho. A loucura de Charlotte não tinha limites, e tudo aquilo só por que recebera um não como resposta.

O celular tocou, dragando o vampiro de volta à realidade. Retirando-o do bolso, afastando um pouco o cadáver em seu colo, olhou para o display luminoso e, revirando os olhos impacientemente, atendeu.

- Eu já estou de saída!

- VOCÊ MATOU UMA HUMANA NA MINHA CIDADE! – Berrou ela, fazendo o vampiro afastar o telefone da orelha com uma expressão de desagrado no rosto e desligar, fechando o flip prateado do aparelho, que tocou de novo quase imediatamente.

- Eu já estou de saída! – Disse ele na mesma entonação de antes, com as mesmas pausas, como se o episódio de segundos atrás não tivesse acontecido. Charlotte, já mais comedida, repetiu:

- Você matou uma humana na minha cidade!

- Hum.

- E ela se parece comigo! – Guinchou a vampira do outro lado, fazendo ele afastar de novo o telefone e olhar para o display que agora indicava os segundos de ligação corrente. Depois esquadrinhou ao redor, a procura de alguma câmera de vigilância, mas não encontrou nenhuma. Dando de ombros, encostou de novo o telefone na orelha. – Comigo! – Ela repetiu enfaticamente.

- Eu não tinha percebido. – Mentiu.

- Eu já convoquei... – começou a anunciar inutilmente, ele emitiu um som de concordância com a garganta.

- Então é melhor eu correr. – Respondeu, finalmente limpando os resquícios de sangue de seus lábios e pondo-se de pé, acomodando o cadáver da mulher sob a amurada que circundava o heliporto da edificação. Mais uma vez, dando mostras de que sabia exatamente onde ele estava, e o que estava fazendo, Charlotte deu uma risadinha desdenhosa e perguntou, cheia de veneno:

- Hihihi... Me diz, Uriel... Você sabe voar?

Ele sorriu, despreocupado, desligou deixando-a sem resposta pela segunda vez naquela noite. Enfiando o celular no bolso do terno, olhou para o céu sem estrelas da megalópole e quase que imediatamente três quimeras aladas pousaram com estrondo ao seu redor, fazendo o solo tremer. Eram humanas em tudo, exceto pelo fato de possuírem um par de asas brancas como a neve. Trajavam placas de metal, como armaduras, e os cabelos negros das três criaturas (que ele não conseguia distinguir se eram machos ou fêmeas) estavam presos em longas tranças. Uma delas portava uma espada, e foi a primeira a se aproximar. O homem, com as mãos nos bolsos, limitou-se a encará-la sem disfarçar o interesse e a curiosidade. Ele já tinha visto algumas das obras de arte de Charlotte antes, e aquelas eram, de longe, as menos grotescas que ele conhecia. Eram anjos.

- Boa noite. – Cumprimentou, encarando os olhos totalmente negros da criatura, como os de um Cruentus Umbra faminto. Não possuía íris, era apenas um par de orbes escuros e sem brilho. Observou também que a mão que empunhava a lâmina era a que ele tinha ido buscar: a dele. Sentindo um arroubo de lisonja, sorriu. Ela estava lhe devolvendo as suas mãos, então. Talvez fosse medo, talvez um desafio, ou –o mais provável- puro descaso de sua parte, que não devia dar tanto valor assim a algo tão trivial e insignificante quanto aquilo. O fato é que, de certa forma, o gesto funcionou como o hastear de uma bandeira branca, e o vampiro limitou-se a caminhar até a criatura, que o encarava com o rosto definitivamente livre de expressões: - Diga a ela que eu agradeço.

- O quê? – Perguntou o anjo, os outros dois dando um passo em sua direção, fechando ainda mais o cerco.

- Apenas diga isto a ela, certo?

A temperatura aumentou caoticamente, fazendo as três criaturas vacilarem por um instante antes de bater as asas de forma a afastar o mormaço dos seus corpos brancos como a mais pura cera. As feições suaves e andróginas não se abalaram, como se fossem desprovidos de qualquer emoção; estátuas animadas. As lufadas de ventos frios agitaram os cabelos do vampiro, que olhava para elas com um sorriso ameaçador. Foi então que as três criaturas precipitaram-se para ele, brandindo os punhos e a espada. Uriel tratou de aparar o golpe da lamina, segurando o pulso da quimera e apertando-o até sentir os ossos estilhaçarem sob os dedos, e com um movimento violento, atirou-o para o lado, como se o anjo fosse um mero objeto, varrendo o que estava imediatamente ao seu lado e atirando-o contra a grade que os separavam do vazio para além do prédio. Com um movimento simples, jogou a perna direita para o lado, fazendo o calcanhar colidir com o nariz da terceira marionete de Charlotte, quebrando-o. Nenhum sangue escapou das narinas, como era de se esperar.

As três quimeras se restabeleceram quase que de imediato. A terceira, agarrando o tornozelo do vampiro, puxou seu corpo com nenhuma cerimônia, fazendo-o rodopiar em torno do próprio eixo algumas vezes, antes de solta-lo da mesma forma que ele fizera com suas irmãs segundos atrás. O vampiro voou rápido em direção à grade, onde o anjo com a espada o aguardava pronto para, ele pensou, decepar a sua cabeça. O ser ainda tinha uma mão em perfeito estado, e força suficiente para fazê-lo. – Tsc. – Como se nada daquilo realmente apresentasse algum desafio para o ancião, ele espalmou a mão abaixo do corpo e, mesmo naquela velocidade, conseguiu desviar o curso de seu corpo, fazendo-o ganhar os céus por alguns segundos e fugindo do fio da espada de Charlotte. Lá, uns bons dez metros acima do heliporto, a outra quimera o aguardava, batendo as asas tranquilamente. O corpo do vampiro loiro esquentou como um ferro em brasa, e tão logo a criatura o agarrou, o odor acre e desagradável de pele e carne calcinando se fez presente, porém a mesma mais uma vez não expressou dor alguma, muito embora pudesse se notar um brilho perolado em seus olhos. Mas nenhuma lágrima rolou.

O ser iniciou então uma descida vertiginosa, segurando Uriel de ponta cabeça, obviamente tencionando colidi-lo contra o solo de concreto. E assim o fez. A dor se apoderou do vampiro, que por um momento não conseguiu nem pensar, e quando deu por si já estava coberto pelos outros dois anjos. Sentiu o gume frio da lâmina deitar e deslizar sobre o seu pescoço, cortando-o até um ponto que seria letal para qualquer humano; mas ele não era humano, era?

Sangue fresco jorrou da ferida, o alimento que tinha acabado de ingerir. Apenas um jato que tingiu o rosto do algoz de escarlate, antes de findar. O corpo do ancião ainda ardia quando ele agarrou o pulso da criatura e o arrancou sem o menor esforço, como se os ossos do anjo fossem meros gravetos. Ele tinha destruído ambas as mãos, quão irônico. Livrando-se da espada que já tinha atingido um ponto crítico, praticamente partindo a traquéia, o imortal socou e atirou para o lado a outra criatura, pondo-se de pé e agarrando a terceira pelos cabelos, fazendo-a se ajoelhar aos seus pés. – Ok, chega de brincadeira. – Disse sério, antes de afundar, literalmente, o punho no rosto de traços indistinguíveis da criatura à sua mercê. Os ossos cederam com facilidade, as falanges de Uriel fincadas na carne macia, porém sem sangue, do ser que agonizava. Três ou quatro espasmos, e seus movimentos cessaram. A cabeça era o ponto fraco então.

- A sua mestra é sempre assim tão óbvia? – Perguntou o loiro, aprumando a postura e fingindo um suspiro decepcionado. Embora o gesto tenha sido forjado, o sentimento era genuíno. A cabeça, tsc... Os dois monstros aproximaram-se então e, o que ainda tinha mãos tocou gentilmente as asas do outro, afundando os dedos na plumagem como se esta fosse feita de algum líquido facilmente transponível. Aos olhos do vampiro, eles estavam se fundindo, provavelmente para resultar em um outro ser –este, com toda certeza, não tão fácil de derrotar. – E ela, definitivamente, precisa parar de ver tanta porcaria na TV. O nível de insanidade já ultrapassou em muito o limite do aceitável.

- Calado! – Esbravejou as duas criaturas em uníssono, fazendo suas vozes retumbarem pesadamente e ecoarem, como se estivessem em um espaço fechado. Uriel olhou-os com censura, obviamente irritado com a falta de modos dos dois, e quando os anjos já estavam se unindo pelo tronco –numa posição que dava margem a outras interpretações, diga-se de passagem-, o vampiro avançou para eles e, com uma destreza abissal, decepou as duas cabeças com a espada que até então jazia no chão. O corpo disforme da criatura caiu de joelhos, e os rostos o encaravam com aquele mesmo olhar vazio e sem emoção. Mesmo quando ele ergueu a arma e cravou no meio dos olhos da primeira, partindo-a ao meio. À eminência da extinção definitiva, a última cabeça limitou-se a murmurar em tom elogioso, porém levemente sarcástico:

- Digno do pacificador que é.

- Obrigado. – Agradeceu o outro, sinceramente, antes de esmagar o crânio com o sapato social de couro lustroso. E então, silêncio. Passou os dedos da mão direita no corte do pescoço, que já estava praticamente cicatrizado, e se pôs a caminhar em direção as escadas do arranha-céu em um luto velado pelas vidas que acabara de tirar. Não que se arrependesse, longe disso, mas os anos o ensinaram que não são todos os que merecem morrer, e aquelas pobres quimeras definitivamente não mereciam. Meros fantoches nas mãos de uma criança mimada e doente. Preferia matar humanos, eles pelo menos lhe proveriam algum alimento.

O telefone celular tocou novamente, mas desta vez ele não atendeu.

Continuação de: Orgulho Real - pt. I
Continua em: Orgulho Real - pt. III

Orgulho Real - pt. I

Continua em: Orgulho Real - pt. II

Estocolmo - 19:57

Corria a ponta do indicador pela borda da taça, cujo líquido rubro repousado no bojo permanecia intocado, esperando, de alguma forma, produzir um daqueles sons que já presenciara tantas vezes os humanos extraírem do cristal. Inútil. Tentou outra vez e nada, de forma que logo se limitou apenas a contornar o buquê do cálice distraidamente, o rosto pensativo apoiado na outra mão espalmada, os dedos tamborilando nas bochechas pálidas. Não estivesse na presença de um General vampírico tão poderosa e influente naquelas bandas, com certeza permaneceria incógnito no meio do restaurante, tamanha a sua habilidade de se camuflar entre os medíocres e insignificantes - embora ele não compartilhasse destas características.

- Eu sinceramente não entendo por que você marcou um encontro aqui. Nem comer podemos. – Apontou a mulher loira, erguendo as sobrancelhas e encarando o outro com os olhos azuis penetrantes. – Você quer pedir alguma coisa para disfarçar, ou vai dizer ao garçom que somos vampiros?

- O dono daqui é meu amigo, ele sabe o que eu sou. – Respondeu ele simplesmente, após um longo suspiro que mesclava tédio e pesar.

- Amigo?

- Conhecido, na verdade. É um tarado qualquer, freqüentador assíduo da boate do Alexis, você sabe... – Contraindo o rosto em uma careta de descaso, o imortal abanou a mão displicentemente como se aquele gesto tolo fosse fazê-la entender o que ele queria dizer. Surpreendentemente, a imortal balançara a cabeça e concordara, pegando o menu sobre a mesa, abrindo-o e começando a examiná-lo com um ar pretensamente interessado.

- Sei. Fornicaraz. – Disse ela.

- É! – E outro suspiro. Aprumou a coluna por fim, adotando finalmente uma postura mais séria e austera, fazendo-a erguer os olhos por cima do cardápio e fitá-lo com desinteresse. Charlotte sabia o motivo dele ter aparecido em Estocolmo, mas desconhecia o porquê de ter exigido encontrá-la em um local tão... mundano, exposto e definitivamente nada adequado para dois vampiros confabularem. Uriel sorriu, tomando gentilmente o menu das mãos de Charlotte antes mesmo que ela pudesse detê-lo, prendendo-o sob a mão espalmada sobre a mesa e cravando os olhos nela. – Eu marquei o encontro aqui por que, no meio de tanta gente, uma briga seria extremamente inconveniente...

- Para você? – Desdenhou ela astuciosamente.

- Definitivamente. Eu não gosto de perder a calma. – A voz de Uriel baixou até se tornar apenas um sussurro, e inclinando-se para frente, como um amante a se aproximar da cúmplice, sibilou: - Para mim, com certeza seria inconveniente. Para você, por outro lado, seria apenas vergonhoso. Agora, simplesmente me dê o que eu vim buscar, Charlotte.

A mulher empertigou-se, momentaneamente desconcertada com a franqueza do homem. Piscou uma ou duas vezes, antes de afixar novamente o olhar sobre a face de mármore esculpido de Uriel e perguntar com o ar mais dissimulado e sonso que conseguiu exprimir: - E o quê você veio buscar, meu querido?

- As minhas mãos. – Mais alguns centímetros vencidos, de forma que a mulher inconscientemente arqueou a coluna alguns graus para trás, distanciando-se um pouco. – Eu quero as minhas mãos, General, e se você não me entregá-las, eu mesmo hei de arrancar a sua cabeça e levá-la comigo de volta a Berlim.

- Você já tem mãos novas agora, Uriel, querido! – Um sorriso cáustico aos poucos tomava o lugar das linhas sem nitidez em sua face, preenchendo o seu rosto de adolescente com a expressão essencialmente malévola que lhe era tão característica; como se tivesse nascido com ela, tamanha a perfeição com que ela se encaixava sobre sua tez. – Mãos muito mais bonitas por sinal. De pianista. São meio femininas, não são? São da Sasha?

- Da marionete que ela usou. – Respondeu ele francamente, agora voltando à posição inicial na cadeira. O garçom se aproximava e perguntou se eles queriam fazer o pedido. Charlotte simplesmente negara com a cabeça, mas Uriel pediu alguma bebida quente, talvez uma caneca de café ou chá. O humano olhou para ele desconfiado, pois em um estabelecimento luxuoso como aquele não era lá muito comum que os clientes –em especial tão elegantes e aparentemente ricos- pedissem apenas café ou chá. Mas o homem loiro apenas fez um gesto com a mão, dispensando-o, e voltou a atenção novamente para a vampira à sua frente: - Ela é bastante talentosa, faz jus à fama.

- Ela é uma oficial da Inquisição, Uriel, você queria o quê?

- Alguém não tão atraente, com certeza. – Confessou, o fantasma de um sorriso se espalhando pelos seus lábios, exibindo os caninos afiados por um átimo de segundo. – Bonita, talentosa e destemida. Um achado, realmente. Ela entrou no meu ninho fazendo o maior barulho, quebrando coisas...

- Ela me disse. – Riu a fêmea.

A gargalhada não fora acompanhada por Uriel, embora ele ainda sorrisse. Encarou Charlotte fixamente por alguns segundos, não se detendo nem mesmo quando o garçom aparecera ao seu lado e depositara sobre a mesa uma caneca de chá fumegante. A nuvem de fumaça que se erguia, espiralando entre os dois vampiros, e era a única coisa que se movia na linha onde os seus olhos se cruzavam. Encaravam-se tão cálida e ao mesmo tempo tão intensamente como duas víboras prestes a dar o bote. A vontade de ambos naquele momento era, sem dúvida, agarrar e estraçalhar o pescoço do outro com os dedos, e refestelar-se em seu sangue. Eles se odiavam, e sempre fora assim, embora naquela ocasião o sentimento que geralmente se encontrava latente, estivesse à flor da pele.

- Você continua bonito. – Ela disse por fim, desviando os olhos dos dele em um sinal claro de inferioridade, correndo a ponta do dedo pela xícara de porcelana branca e quente. Um leve tremor, um novo sorriso de regozijo.

- Vampiros não mudam, minha cara, você deveria saber disso melhor do que ninguém.

- Você é mais velho. É mais sábio e experiente.

- Você é mulher. – Disse em tom de fim de conversa, puxando a xícara para si e entrelaçando os dedos ao redor dela, a fim de sentir o calor sobre a pele, aquecendo a carne morta das mãos que não eram suas. – Eu não tenho toda a paciência do mundo, Charlotte. Eu quero as minhas mãos.

- Por que você insiste tanto nesta tolice, Uriel? Parece um menino mimado, chorando por um brinquedo que perdeu!

- Talvez eu seja isso mesmo. – Concordou ele, sorrindo genuinamente mais uma vez. Embora a tensão no ar fosse quase palpável, o vampiro simplesmente não conseguia evitar. Era o seu jeito, aquele jeito que geralmente irritava pessoas como Charlotte e a sua cria, Alexis, ou que apenas lhe garantia a indiferença deste seleto grupo de imortais que não apreciavam sua companhia.
– Mas elas são minhas, e por isso as estou reclamando de volta. Eu as teria dado de bom grado se me pedisse, mesmo não nutrindo nenhum sentimento virtuoso por você. Não me custaria nada.

- Me dê então.

- Não.

A mulher bateu com as duas palmas sobre a mesa, fazendo o arranjo floral do centro, bem como a porcelana e os pequeninos talheres de prata tilintarem ruidosamente. Os lábios crispados e os olhos azuis fumegando sobre a figura austera de Uriel, que ainda sorria. Fora a vez dela se inclinar para frente, os cabelos loiros cascateando pelos ombros e pendendo no vazio, enquanto o rosto de menina aproximava-se cada vez mais do dele. Ela, possessa, e Uriel, quase indiferente ao seu estado.

- Não foi um pedido, Uriel. Eu não vou devolvê-las, elas não pertencem mais a você. – Sibilou ela como uma serpente, o hálito inodoro e frio beijando a pele igualmente gélida do homem. – Elas são minhas!

- Ora, e você dizia que pareço um menino mimado. Somos duas crianças muito malcriadas então, minha cara, por que você agora aparenta ser tão odiosa quanto eu.

- URIEL! – Alteou a voz, atraindo olhares de censura dos humanos que os rodeavam. O burburinho cessou por uns bons segundos, de forma que nem ela e nem o vampiro se pronunciaram naquele meio tempo para não evidenciarem a todos o teor da conversa. Quando, paulatinamente, os outros clientes retomaram as rédeas de suas próprias vidinhas miseráveis, ela repetiu em um sussurro perigoso: - Uriel!

- Charlotte. – Chamou o vampiro, afastando displicentemente uma mecha dos cabelos da vampira que ameaçava cair dentro do chá e colocando-a para além da borda da xícara. E só então a encarou nos olhos uma vez mais, o rosto agora talhado em uma expressão absolutamente ilegível.

- Do que você me chamou?

– Deve ser muito difícil para você, não é, perceber que eu ligo para os seus caprichos? – Suspirou pesadamente, os dedos novamente tecendo uma teia em volta do recipiente quente. – Veja bem, eu não sei se você sabe, mas sou o criador de Alexis...

- Ashtaroth, eu sei. – Interrompeu.

- Alexis. O nome dele é Alexis, Charlotte. Embora ele, de fato, goste que vampiros inferiores e mortais o tratem por este nome desprezível. – Seu rosto fora marcado por uma expressão de desgosto que não durou nem uma fração de segundo para sumir, dando prosseguimento: - Então, eu realmente acho que você deveria engolir esse seu orgulho completamente infundado e ir aprender um pouco sobre como ser chantagista e manipulador com a minha cria. Por que perto dele, General... Tsc...

Charlotte sentou-se novamente, o rosto tremendo de ódio e vergonha. Podia-se até mesmo notar a formação de minúsculas lágrimas em seus olhos, que ela se apressou em limpar com o guardanapo, não ligando muito para as pessoas que a olhavam com desconfiança e censura. Pior seria se começasse a chorar sangue no meio de todo mundo, aí eles olhariam para ela com terror e veriam que por trás daquele rostinho angelical de adolescente se escondia um monstro tão horrendo quanto...

- Pois bem. Esta é a minha palavra final, e o encontro que você marcou foi inútil. Como você está na minha cidade, tem uma hora para sair daqui ou...

- Ou você joga os seus asseclas e suas quimeras em cima de mim. – Concluiu ele, olhando-a se erguer da cadeira e atirar o guardanapo de algodão manchado de sangue sobre a mesa. Uma das pontas eventualmente foi parar dentro da infusão de ervas do vampiro, e o tecido começara a aspirar rapidamente o máximo de líquido que conseguiu.

- Exatamente.

- Tudo bem então. Se eu não estiver longe daqui uma hora, você pode fazer isto. – E sorriu, levantando também e deixando sobre a mesa uma nota que valia pelo menos cem vezes mais o valor do chá.

- Ótimo.

- Apenas esteja avisada, minha cara... – Fez uma reverencia para ela, inclinando rapidamente a cabeça loura em sua direção, como um servo que se prostra obedientemente diante de sua Senhora. Porém, as palavras que saíram de sua boca não condiziam em nada com aquela atitude passiva e nem com a educação esmerada que se empenhava tanto em exibir para todos os convivas, vampíricos ou não: - ...de que mais cedo ou mais tarde eu voltarei para reclamar algo de igual valor, afinal, você me deve... E eu hei de cobrar, nem que para isto eu precise dizimar toda a sua corte e fazer o seu reinado ruir.

Continua em: Orgulho Real - pt. II

Justiça Carmim


Quando o assassino ergueu a adaga na altura dos olhos, seu reflexo estava manchado do sangue da vítima que acabara de abater. O líquido escarlate ainda quente gotejava devagar, indo encontrar abrigo no tapete caro de pele branca que, aos poucos, tingia-se de rubro. O local todo estava silencioso, nem mesmo os passos daquela criatura produziam sequer um ruído. Nada.

Caminhou até a janela e afastou as cortinas com os dedos enluvados, deixando a luminosidade doentia da cidade adentrar o recinto. O facho de luz fria de um helicóptero que sobrevoava a metrópole resvalou sobre ele, mas não se deteve por mais de um instante. Respirou fundo, deixando o odor do sangue adentrar suas narinas e inebriar os seus sentidos. Era um assassino, sim, mas não encontrava prazer algum em tirar a vida de alguém. O prazer vinha depois, quando era recompensado pelos serviços. Mas na hora... na hora ele não sentia nada. Nem mesmo culpa. Apenas um imenso e intangível vazio.

Mas, não havia como negar, gostava do cheiro do sangue. Não só do cheiro, como da cor, do gosto, da textura... O que, nem de longe, era o que fazia dele o que ele era. Não. O que o tornava um algoz era o simples fato de que, nos dias de hoje, assassinato é um ramo bastante lucrativo.

- Sim? – Sussurrou ele ao telefone, que nem bem havia vibrado e já estava aberto em sua mão. Era a ligação que ele estava esperando desde que concluíra o serviço. – Sim! Ele está morto. Não, sem dor. Definitivamente.

Respondia de maneira fria, enquanto caminhava pelo apartamento luxuoso. Com um passo mais largo, passou por cima do cadáver recém-abatido, que agora já parecia completamente sem sangue, ao contrário do tapete, outrora branco, agora carmesim.

- Hmm... Isto não estava no acordo. Não, não irei fazer. – Com a mão livre, o homem retirou os óculos escuros que usava, revelando olhos estreitos, verdes, com pupilas levemente verticais. Os lábios então se arquearam em um sorriso frio, e ele se abaixou ao lado da vítima. Com o dedo indicador da mão que ainda segurava os óculos, afastou uma mecha dos cabelos empapados de sangue, deixando o rosto pálido do corpo completamente à mostra. Era praticamente idêntico ao dele. – Não preciso usar habilidade alguma para descobrir esse tipo de coisa, ou você esqueceu quem ele era? – Silêncio. – Não, é muito pouco. Eu quero pelo menos o quíntuplo.

Silêncio. Sorriso. Desdém.

- Então está certo. Azar o seu. Da próxima vez, faça o favor de se certificar que me informou tudo o que devo fazer antes. Odeio barganhas, você sabe. Passar bem.

O clique do telefone se fechando ecoou pelo aposento. O rapaz recolocou os óculos na face branca e inclinou levemente a cabeça para o lado, deixando os cabelos avermelhados escorrerem pelos ombros e costas, revelando orelhas sensivelmente pontiagudas.

- E não é que fui eu que acabei matando você? Quem diria, hein? Tsc... Demasiado patético. Fraco! Apesar disso, saiba que nunca desejei o seu mal. Mas é isso o que acontece quando se irrita gente poderosa, entende? Eu recusei a princípio, quando soube que era você. Mas...

O telefone recomeçou a vibrar na sua mão. Não precisou olhar o display luminoso para saber quem era. Ao invés disso, apenas levou o aparelho até o ouvido e, parecendo desconhecer que havia outra pessoa do outro lado da linha, continuou o seu monólogo: - ..ela dobrou a proposta e eu acabei ficando sem argumentos. Alô? Sim. Certo, você a terá em alguns minutos. – Clique. Sorriso. Tapinha amistoso no ombro do cadáver. – Viu? Eu até tento resistir, mas você sabe como é difícil...